O nome de Gerhard Hanappi pode passar batido a quem não conhece um pouco mais da história do futebol austríaco. No entanto, em seu país, ele é uma completa lenda. O meio-campista versátil se manteve por três décadas como aquele que mais vestiu a camisa da seleção, em tempos nos quais era raro se aproximar dos 100 jogos. Foram 93 aparições ao longo de 14 anos, que incluem metade deste período como capitão e presença em duas Copas do Mundo – liderando o time à terceira colocação em 1954 e também marcando presença em 1958. Além do mais, o veterano costuma ser venerado no Rapid Viena – e, por isso, ganha este texto na semana em que, se estivesse vivo, completaria 90 anos. Um dos maiores ídolos dos vienenses, eleito para a seleção do século do clube, ele também projetou o estádio batizado posteriormente em sua própria homenagem.

Nascido na própria Viena, Hanappi cresceu durante os anos duros da Segunda Guerra Mundial. Em 1946, aos 17 anos, disputou o seu primeiro jogo como profissional do Wacker Viena. Ainda assim, não abandonou os estudos. No ano seguinte, entrou para a Technische Universität Wien e conciliava as atividades como atleta à graduação para se tornar engenheiro. Mesmo depois de disputar sua primeira Copa do Mundo e ser instrumental na campanha da Áustria até as semifinais, continuou frequentando as aulas. Pode ter demorado um pouco mais para concluir o curso, mas em 1957 conseguiu pegar o seu diploma em engenharia civil e arquitetura.

Nesta época, muito já havia mudado a Hanappi. Além de se tornar uma das grandes figuras da seleção, ele trocou o Wacker pelo Rapid Viena. A transferência foi cercada de polêmicas e os alviverdes chegaram a “sequestrar” o garoto, diante da falta de acordo com os vizinhos vienenses. Após seis meses sem atuar, o meio-campista concretizou a mudança em 1949, apesar da clara perseguição nos dérbis contra o Wacker. Mas não pode dizer que errou na decisão. Pelo Rapid, conquistou sete títulos do Campeonato Austríaco a partir de 1951. Ganhou também a Copa Mitropa, ironicamente em cima do Wacker. Só pela liga nacional, seriam 333 partidas e 114 gols pela agremiação.

Em 1999, seria eleito para o “Time do Século” do Rapid Viena. Envergou a camisa com orgulho e também portou a braçadeira de capitão. Era um meio-campista de muita qualidade técnica e capacidade física, embora não se limitasse a isso. Também tinha um faro especial aos gols e às assistências, algo que não o impedia também de atuar em funções mais defensivas, graças à sua inteligência na antecipação e no posicionamento. Um exemplo de sua versatilidade aconteceu em 1954, quando jogou como lateral na Copa, mesmo depois de terminar como terceiro na artilharia da Bundesliga. E sua multiplicidade não se reduzia ao futebol. Quando se aposentou, em 1965, Hanappi assumiu de vez sua carreira na construção civil.

Hanappi trabalhou com diferentes projetos na área de engenharia e arquitetura. O mais famoso deles, justamente dedicado ao Rapid Viena. Ele se tornou o responsável por projetar o Westernstadion, nova casa dos alviverdes, inaugurada em 1977. Mais do que isso, em tempos de dificuldades financeiras à agremiação, também buscou patrocinadores. O local substituía o antigo Pfarrwiese e possuía capacidade para até 25 mil espectadores na época. Seria este o legado material do velho ídolo. Em agosto de 1980, ele faleceria com apenas 51 anos, vítima de um linfoma. E, nada mais justo, no ano seguinte o Westernstadion foi oficialmente renomeado como Gerhard Hanappi Stadion.

A denominação permaneceu até 2014, quando a praça esportiva foi demolida e em seu lugar se ergueu o Allianz Stadion. Se os ‘naming rights’ impediram que o tributo fosse mantido, a praça diante da nova arena recebeu o nome de Gerhard Hanappi. E o “arquiteto” continua exaltado nas arquibancadas. A torcida do adora dizer que o Rapid é a sua “própria religião”. Assim, homenageiam o “Sankt Hanappi” constantemente em seus cânticos.