Você deve se lembrar de Hakan Sükür principalmente pela participação do artilheiro na Copa do Mundo de 2002 pela Turquia, quando foi adversário do Brasil em duas oportunidades e anotou o gol mais rápido da história dos Mundiais. O ex-atacante, ídolo do Galatasaray e aposentado há mais de 11 anos, vive há quase dois anos nos Estados Unidos, exilado por sua oposição ao governo do presidente Recep Tayyip Erdogan depois de ser acusado de insultar o líder político no Twitter em 2015.

Em meio ao conflito no norte da Síria e a uma criticada manifestação dos jogadores da seleção turca em apoio ao regime de Erdogan, Sükür voltou a usar o Twitter para se posicionar politicamente.

Uma publicação de uma conta ligada a torcedores da Internazionale, um dos ex-clubes de Hakan Sükür, demonstrou seu apoio ao ex-jogador, ressaltando que, enquanto a seleção turca “se curva a Erdogan”, Sükür vive com um mandado de prisão em suas costas, teve todos seus bens confiscados e foi forçado a deixar seu país. O ex-atacante então respondeu à publicação:

“Luto pela justiça, pela democracia, pela liberdade e pela dignidade humana. Não me interessa o que posso perder se a humanidade ganhar.”

A relação entre futebol e política na Turquia tem se estreitado cada vez mais nos últimos anos. Antes da Copa do Mundo de 2018, Mesut Özil e Ilkay Gündogan causaram polêmica ao posar ao lado de Erdogan para fotos, o que gerou grande mal estar com a Federação Alemã, que disse defender “valores não suficientemente respeitados por Erdogan”. Özil então anunciou sua aposentadoria da seleção após o Mundial, alegando discriminação da federação por sua origem.

Um ano depois, em junho de 2019, Özil foi um passo além, convidando Erdogan para ser o padrinho de seu casamento.

É diante desse histórico recente que a polêmica atual envolvendo a seleção turca se coloca. O gol de Cenk Tosun no fim da partida contra a Albânia, que garantiu a vitória por 1 a 0 à Turquia, na última sexta-feira, aproximou a seleção da classificação à Eurocopa 2020. Ainda assim, o momento especial ficou marcado por outra cena: na comemoração de seu tento, o jogador do Everton fez uma saudação militar, acompanhado por Cengiz Ünder, da Roma, Hakan Çalhanoglu, do Milan, e outros companheiros.

Mais tarde, o gesto foi repetido por toda a seleção turca, já no vestiário depois do triunfo sobre os albaneses. O sinal de apoio ao exército, polêmico em qualquer momento, tem o agravante de vir logo depois de as forças armadas turcas iniciarem suas investidas contra os curdos no norte da Síria.

Nos últimos cinco anos, a população curda do local combateu o Estado Islâmico na Síria ao lado do exército dos EUA, próximo à fronteira com a Turquia. Desde que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a retirada das forças americanas da região, a Turquia passou a lançar um ataque contra os curdos da área, a quem o governo turco acusa de terroristas.

A ação turca nos últimos dias tem sido altamente criticada pela comunidade internacional e já causou o deslocamento de mais de 130 mil pessoas de áreas rurais em torno de Tel Abyad e Ras al-Ayn, cidades sírias que fazem fronteira com a Turquia.

Os curdos possuem uma população estimada de 30 milhões de pessoas e ocupam uma região que abrange parte dos territórios de Turquia, Síria, Irã e Iraque. A repressão aos curdos por parte do governo turco se intensificou a partir da década de 1920, reprimindo a criação de um Curdistão independente, em meio à formação da Turquia. Além disso, as relações se tornaram mais tensas desde os anos 1980, com o nacionalismo curdo motivando a luta contra o estado turco.

Diante dos acontecimentos recentes, o jogo entre França e Turquia, nesta segunda-feira, que definirá o classificado do Grupo H à Euro 2020, tem sido cercado por manifestações contrárias à realização da partida, com políticos franceses de todo o espectro condenando a seleção turca.

Jean-Luc Melenchon, do partido de esquerda France Insoumise, publicou no Twitter que, “se os jogadores turcos fazem a saudação militar, devem esperar ser tratados como soldados de um exército inimigo”, pedindo o cancelamento do jogo. Jean Christophe Lagarde, de centro-direita, afirmou que “não podemos receber com decência no Stade de France aqueles que saúdam a matança dos nossos aliados curdos”. Marine Le Pen, da extrema-direita francesa, disse que a seleção turca “desprezou os valores do esporte” ao se posicionar ao lado de Erdogan.

Porta-voz da Uefa, Philip Townsend afirmou que a comemoração dos jogadores turcos poderia configurar uma provocação. Townsend informou que a Uefa abriu uma investigação sobre o episódio, que poderia levar a punições de pelo menos dez partidas aos jogadores envolvidos.