Explosivo, habilidoso, matador. Ao longo das três últimas décadas, poucos atacantes conseguiram ser tão completos quanto Hristo Stoichkov. O camisa 8 possuía enorme qualidade técnica, executada sempre na aceleração máxima. Não à toa, anotou tantos gols. O veterano é considerado o maior jogador búlgaro da história, e deve se manter intocável neste posto ainda por muito tempo. Enquanto isso, se eternizou entre os maiores ídolos do CSKA Sofia e do Barcelona. E jogando muita bola, já que o comportamento não costumava cativar tantos amigos. O artilheiro se manteve no topo durante bons anos entre as décadas de 1980 e 1990, chegando ao ápice com a Copa do Mundo de 1994. Craque que completa 50 anos nesta segunda.

VEJA TAMBÉM: O reinado menos lembrado de Romário: os anos de ouro com a camisa do PSV

Filho de um funcionário do Ministério da Defesa, Stoichkov chegou a um dos maiores clubes da Bulgária em 1984, o CSKA Sofia. No entanto, o jovem atacante demorou a despontar na equipe, e por culpa de seu gênio difícil. Logo em sua primeira temporada, o camisa 8 disputou a decisão da Copa da Bulgária. E protagonizou uma das maiores selvagerias já vistas no país, no clássico contra o Levski Sofia. Em final marcada pelas brigas, o novato chegou a trocar socos com o goleiro adversário, Borislav Mihaylov – seu futuro companheiro na seleção. As cenas lamentáveis provocaram uma reunião extraordinária do Comitê Central do Partido Comunista Búlgaro no dia seguinte. Junto com outros quatro jogadores, Stoichkov foi banido do futebol, enquanto os dois clubes acabaram extintos, mudando os seus nomes e suas sedes.

Para sorte da promessa, o governo revogou a punição em 1986. Para sorte também do futebol búlgaro. A partir de então, Stoichkov começou a destoar com a camisa do CSKA – então chamado de Sredets. Em quatro temporadas, conquistou quatro títulos do Campeonato Búlgaro e anotou 102 gols. E melhorando os feitos a cada ano. Em 1988/89, terminou como artilheiro da Recopa Europeia, levando os alvirrubros às semifinais. Acabaram eliminados pelo Barcelona, quando ainda assim o camisa 8 anotou três gols, um deles por cobertura. Já na temporada seguinte, o artilheiro faturou a Chuteira de Ouro, balançando as redes 38 vezes em 30 rodadas do Campeonato Búlgaro. Credencial para levá-lo ao Camp Nou.

“Não o contratei pelos gols que marcava, mas por sua personalidade e por sua atitude. Ele tem um caráter forte e difícil, todo mundo sabe disso. Era exatamente esse tipo de personalidade que eu procurava. Era rápido, marcava, criava e tinha instinto predador em frente ao gol”, analisou Johan Cruyff, seu técnico, tempos depois. E, de fato, Stoichkov ajudou a mudar a trajetória do Barcelona naqueles anos. Os blaugranas trouxeram o búlgaro em 1990/91, ganhando uma gana a mais em campo. A partir daquela temporada, encerraram o pentacampeonato do Real Madrid de Butragueño e Hugo Sánchez para iniciar a melhor sequência da história do clube no Espanhol, tetracampeão.

VEJA TAMBÉM: Van Basten faz 50 anos, mas ele só quer que o deixem em paz

Em suas três primeiras campanhas, Stoichkov se manteve como artilheiro do time na Liga. Além disso, em 1992 também ajudou os blaugranas a chegarem ao topo da Europa, finalmente conquistando o almejado título da Copa dos Campeões. O camisa 8 anotou quatro gols naquele torneio, todos eles na fase de grupos que valeu como classificatório à final. O Barça terminou em primeiro na chave que também contava com Sparta Praga, Benfica e Dynamo Kiev. O atacante tratou de decidir em três das quatro vitórias nesta etapa. Já na decisão, contra a Sampdoria, o belo gol de Ronald Koeman garantiu a taça.

Já em 1993/94, Stoichkov pela primeira vez não terminou como goleador do Barcelona. Ainda assim, viveu a sua temporada mais marcante no clube. Ao lado de Romário, o búlgaro formou uma parceria infernal no ataque. A dupla parecia se entender por telepatia, municiados também pela categoria de Michael Laudrup. Faturaram mais um espanhol, embora tenham se frustrado na Champions. A campanha recheada de goleadas a favor terminou com um massacre do Milan na final em Atenas. Mas aquele ano prometia mais para Hristo.

VEJA TAMBÉM: Do ponta explosivo ao rei da grande área: as reinvenções de Romário explicadas em gols

Assim como Romário, Stoichkov viveu o campeonato de sua vida na Copa do Mundo. Inelegível pela suspensão em 1986, não conseguiu a classificação em 1990. Entretanto, chegava bem cotado aos Estados Unidos, especialmente depois que os búlgaros derrubaram a França nas Eliminatórias. O camisa 8 era a estrela da companhia, mas vinha bem acompanhado por outros tantos talentos, como Balakov, Kostadinov e Lechkov. O craque liderou o time em vitórias fundamentais, contra Argentina e Alemanha, levando os búlgaros a uma inédita semifinal. Terminou o Mundial como artilheiro, além de ser eleito o terceiro melhor da competição. Já ao fim do ano, na última edição em que apenas os europeus concorreram ao troféu, levou a Bola de Ouro – após ter batido na trave dois anos antes, atrás apenas de Marco van Basten.

O auge de Stoichkov aos 28 anos, porém, também marcou o seu declínio. As polêmicas e as suspensões começaram a se acumular no Barcelona. Não que os catalães estivessem desacostumados: logo em seus primeiros meses, em 1990, foi expulso no clássico da Supercopa da Espanha por dar um pisão no árbitro Urízar Azpitarte. Só que em 1994/95, entrou em rota de colisão com Cruyff. A partir de então, se transformou em andarilho: passou por Parma, teve breves retornos a Barcelona e CSKA Sofia, para no fim rodar por Al Nasser, Kashiwa Reysol, Chicago Fire e DC United. Pela seleção, jogou até 1999. Marcou todos os gols búlgaros na Euro de 1996, apesar da eliminação na primeira fase. Já na Copa de 1998, passou em branco e não evitou o vexame de seu país.

VEJA TAMBÉM: Baggio: “Sonhava em ser jogador para divertir as pessoas”

Desde que se aposentou, Stoichkov tentou seguir como técnico, mas não obteve tanto sucesso na empreitada. Quando aparece nas manchetes, é mais por suas declarações, sem perder o tom polêmico de sempre. Sua importância no futebol, todavia, vai muito além disso. Prova disso acontecerá em 20 de maio, em amistoso marcado para celebrar os 50 anos de Hristo. A partida em Sofia já tem presenças confirmadas de Romário, Roberto Baggio, Hagi, Maradona, Papin, Zola, Mijatovic e Savicevic. Lendas que irão prestigiar o craque e relembrar o quão grande o camisa 8 foi em seus melhores momentos.

A frase que abre o post é atribuída ao próprio Stoichkov, em seus tempos de Barcelona. A referência vem a seu nome, Hristo – Cristo, em búlgaro.