Quando o árbitro argentino Nestor Pitana encerrou a final da Copa do Mundo 2018, a França consolidou o favoritismo com a vitória por 4 a 2 sobre a Croácia e sagrou-se campeã do mundo pela segunda vez. Uma Copa do Mundo em que sempre se mostrou forte, mas ao mesmo tempo, sempre deixou a impressão de jogar menos do que podia. A segunda estrela na camisa chegou com um time mais pragmático do que encantador, em uma Copa que times defensivos conseguiram sucesso – basta lembrarmos da própria Croácia e da anfitriã, Rússia. Além disso, deixou a dúvida: até onde pode ir a França?

Quando o Mundial começou, a França estava entre as favoritas. Não faltavam jogadores de qualidade para os Bleus, que se deram ao luxo de deixar até jogadores badalados fora do elenco, como Anthony Martial, Alexandre Lacazette, Adrien Rabiot e Aymeric Laporte . Eles não estavam nos 23 jogadores que foi à Rússia. A desconfiança que pairava no time tinha a ver com um nome específico: Didier Deschamps, o técnico. O questionamento já existia desde pelo menos a Eurocopa 2016, quando a França perdeu o título, jogando em casa, na final para Portugal. Ali, já se discutia se o time não jogava menos do que podia.

No dia daquela conquista na Rússia, há um ano, o que muito se falou sobre a baixa média de idade do time, com alguns dos seus principais ainda com muita estrada. Não era o auge da geração francesa. Mbappé, um dos destaques, chegou à Copa com 19 anos; os zagueiros Raphaël Varane, com 25, e Samuel Umtiti com 24; Griezmann com 27; os laterais Benjamin Pavard, 22, e Lucas Hernández, 22; Paul Pogba, com 25, já experiente por ter jogado a Copa anterior, assim como Griezmann; N’Golo Kanté, volante fundamental com 27; além de reservas como Thomas Lemar, 22; Nabil Fekir, 24; Ousmane Dembélé, 21; Benjamin Mendy, 23; Presnel Kimpembe, 22; Corentin Tolisso, 23.

Com um time tão jovem, se esperava que sentisse em algum momento. Que diante de um time mais experiente, talvez não conseguisse se impor. O que se viu na Copa acabou sendo uma França que, mesmo com seus problemas em transformar o talento em domínio sobre o adversário, foi forte o tempo todo e soube se defender bem e ser seguro para vencer os jogos do modo mais simples, quando assim foi necessário.

Nos jogos maiores, conseguiu derrubar os adversários, como foi contra a Bélgica, um time que vinha em ascensão na Copa e que tinha também muita qualidade técnica. Foi preciso ir no detalhe para vencer – como, aliás, o time tinha sido derrotado quatro anos antes pela Alemanha, nas quartas de final, perdendo por 1 a 0 em um gol de zagueiro.

A campanha

Paul Pogba, da França, com a taça (Getty Images)

Em nenhum jogo a França sobrou. Na estreia, contra a Austrália, venceu por 2 a 1 com muito sofrimento. Diante do Peru, uma vitória magra por 1 a 0, novamente com muita dificuldade. No terceiro jogo, diante da Dinamarca, mais uma vez um jogo amarrado e 0 a 0 no placar final. Apesar disso, todo mundo sabia que a França era forte. Assim como se sabia do problema do time se impor diante de adversários mais fracos, se sabia também que um jogo bom do time seria capaz de derrotar qualquer adversário.

Diante da Argentina, nas oitavas de final, a França aproveitou o caos da seleção albiceleste de Messi e venceu por 4 a 3, em um jogo de muitos gols e muitas falhas também. A Argentina cometeu muitos erros defensivos que possibilitaram a França marcar quatro vezes, e, mesmo assim, os argentinos ainda chegaram a três gols. Manteve a impressão que a França era muito forte, mas ao mesmo tempo com muitos problemas que poderiam ser explorados por times um pouco melhores.

Nas quartas de final, outro sul-americano pelo caminho: o Uruguai, já sem Edinson Cavani. Ele fez muita falta e os franceses, sem novamente brilhar muito e contando com uma falha grave do goleiro Fernando Muslera no segundo gol, venceu por 2 a 0. A França ganhou mais pela defesa, com direito a uma defesa fantástica de Hugo Lloris, do que pela criatividade do seu ataque.

Na semifinal, o desafio inevitavelmente seria o maior até ali. A Bélgica tinha eliminado o Brasil nas quartas de final, com uma vitória em um dos melhores jogos da Copa, e chegou badalada. Por isso, foi preciso mostrar mais qualidades. E a França jogou de forma cautelosa, impedindo que os bons jogadores belgas tivessem tranquilidade.

Como dissemos ao relatar aquele jogo no dia 10 de julho, a França foi sólida, segura e pragmática para chegar à decisão. Ainda mais porque conseguiu o gol aos seis minutos do segundo tempo, garantindo uma vantagem e uma postura que o time se sentia confortável para atuar. Levou a vaga, apesar de reclamações dos belgas pela postura defensiva dos franceses. A final seria logo ali.

Na final, quem olha o placar pode se enganar e achar que a França sobrou inteiramente. Passou longe disso. Quando marcou o quarto gol contra a Croácia, aos 20 minutos do segundo tempo, a França tinha chutado sete vezes a gol e acertado cinco deles no alvo. E sendo que o primeiro dos quatro gols foi contra. A eficácia dos franceses foi absolutamente impressionante ao longo da Copa e, claro, na final também. Os croatas acreditaram que poderiam vencer e elaboraram estratégias para isso. Chegaram perto. Não conseguiram vencer o bom time francês, que jogou menos do que podia, porém mais do que todos os seus adversários. O resultado, então, acabou sendo a taça.

Potencial imenso ainda não realizado

Griezmann aponta a segunda estrela na camisa da França, ao lado de Mbappé e Pogba (Getty Images)
Griezmann aponta a segunda estrela na camisa da França, ao lado de Mbappé e Pogba (Getty Images)

Se o time não brilhou tanto quanto se imaginava, a expectativa sobre o potencial do time se tornou muito grande. Se o time sequer jogou o seu melhor e foi campeão do mundo, o que esse time poderia fazer se jogasse mais? Como escrevemos há um ano, a conquista da Copa parece apenas parte do caminho à França, ainda não o final. Esta, porém, segue sendo uma pergunta sem resposta mesmo após um ano da conquista do Mundial.

Depois da Copa do Mundo, a França jogou a Liga das Nações, com quatro jogos, duas vitórias, uma derrota e um empate. Ficou em segundo lugar, atrás da Holanda, que foi à fase final. Jogou também amistosos e iniciou as Eliminatórias da Eurocopa, com bastante tranquilidade, vencendo Moldávia, Islândia e Andorra, mas perdendo da Turquia fora de casa. O time segue sem encantar muito, jogando menos do que parece capaz, mas segue também vencendo. Se o time irá dar um passo adiante, talvez vejamos apenas quando chegar a Eurocopa em 2020.

Passado um ano desde a conquista da taça de campeão do mundo, a França parece no mesmo estágio. Seus principais jogadores vivem momentos de mudanças. Paul Pogba, por exemplo, vive uma novela no Manchester United sobre a sua permanência ou não; Antoine Griezmann trocou o Atlético de Madrid para ir para o Barcelona, o que pode parecer sempre positivo, mas é uma incógnita sobre o seu rendimento ao lado das outras estrelas; Thomas Lemar não brilhou como se esperava no Atlético de Madrid; Olivier Giroud seguiu sendo um reserva no Chelsea; Ousmane Dembélé é um reserva no Barcelona. Apenas Mbappé teve uma temporada ainda melhor que a que chegou até a Copa e se firmou como o principal jogador do PSG.

A França segue sendo uma das melhores seleções do mundo, mas é uma incógnita sobre o seu desempenho em campo. Potencialmente, a melhor. Na prática, imprevisível. Por isso, as Eliminatórias da Eurocopa podem até dar um indicativo, mas só saberemos mesmo tudo isso na Eurocopa de 2020. Até porque as condições na Copa de 2018 acabaram sendo favoráveis aos franceses, que viram os demais favoritos derreterem antes e foram sem dúvidas o melhor time. Será possível manter o nível de competitividade contra outras potências recuperadas, como Espanha, Alemanha, Inglaterra e Itália? É de se supor que sim. Dá para esperar mais dos franceses. O futebol é algo que permite sair do óbvio e, por isso, será interessante ver como essa seleção francesa chegará ao meio do ciclo da próxima Copa.