Roberto Carlos podia ter alguns poréns como lateral. No entanto, é difícil encontrar outro em sua posição que fosse tão espantoso quanto o brasileiro. Impressionava o número de vezes em que ele deixava os torcedores boquiabertos. A potência, as arrancadas, os chutes de efeito. E, claro, os golaços. Para tantos compatriotas, aquela cobrança de falta no Brasil x França de 1997 está entre as melhores lembranças. Um gol cultuado em todo o planeta pela curva inacreditável que a bola fez rumo à gaveta de Fabien Barthez. Os madridistas, entretanto, têm outra obra-prima favorita. Ela aconteceu há exatos 20 anos, em duelo contra o Tenerife pelo Campeonato Espanhol.

A chegada de Roberto Carlos ao Real Madrid aconteceu em 1996/97, e já naquela temporada ele apresentou suas credenciais, acumulando cinco gols na conquista de La Liga. O desempenho era tão estrondoso que, ao final do ano, acabou atrás apenas de Ronaldo no Prêmio de Melhor do Mundo da Fifa e em quinto na Bola de Ouro. A idolatria do craque no Santiago Bernabéu, entretanto, dependeu ainda mais do desempenho em 1997/98. O camisa 3 foi parte fundamental na conquista da Liga dos Campeões, encerrando o jejum merengue de 32 anos. E no meio deste caminho, veio a pintura contra o Tenerife.

Que fosse um jogo sem tanto destaque no calendário, não se diminui o que Roberto Carlos fez. Juanele abriu o placar ao time das Ilhas Canárias aos 24 minutos. Já no início do segundo tempo, o brasileiro surpreendeu os visitantes para empatar. Em uma bola esticada rumo à linha de fundo, o lateral disparou e pareceu engatilhar o cruzamento. O goleiro Marcelo Ojeda, contudo, mal pôde adivinhar. A chicotada veio feroz. E o mero passo do camisa 1 à esquerda foi suficiente para puni-lo. O chute tinha força, tinha altura, tinha direção. Sobretudo, tinha uma curva irresistível, para sair teleguiado em direção ao ângulo. Dos gols espíritas, este é Allan Kardec.

O mais curioso é que o tento sequer valeu a vitória ao Real Madrid. Predrag Mijatovic virou o placar, mas o Tenerife reagiria. Meho Kodro empatou novamente, até que Sávio marcasse o terceiro merengue. Já depois dos 39, Roy Makaay e o próprio Kodro foram os heróis nas Ilhas Canárias. O que ficaria, entretanto, não seria o triunfo dos anfitriões por 4 a 3. O gol antológico de Roberto Carlos valeu pela noite. Não à toa, ele classificaria como o mais difícil de sua carreira. De fato, irreplicável.