Ao conquistar a Premier League, o Manchester City de Guardiola tornou-se o primeiro time a defender o título inglês em dez anos. O último havia sido justamente o seu grande rival. Em 2008/09, o Manchester United completou sua segunda sequência de três títulos, feito inédito para o futebol do país. Além disso, foi nesse período que igualou o recorde de troféus da primeira divisão do Liverpool, ao mesmo tempo em que assistia a um time que misturava bandeiras como Gary Neville, Paul Scholes e Ryan Giggs e com novos candidatos a ídolo, como Rooney e Cristiano Ronaldo. Tudo sob o comando dele: Alex Ferguson.

O time

Park, Saha, Ferguson e Ronaldo (Foto: Getty Images)

Ao longo de três temporadas, com 114 rodadas, a rotatividade de um time como o Manchester United, com outras competições para disputar e dinheiro para gastar no mercado, tende a ser alta. Todo mundo que integra o elenco tem oportunidades. Mas Alex Ferguson teve uma espinha dorsal no tricampeonato.

O escocês, aliás, parece ter se esforçado para não modificar demais a sua equipe base porque foi relativamente modesto nas janelas de transferência daquele período. Na primeira, trouxe apenas Michael Carrick. A segunda foi a que mais gastou, para dar um bem-sucedido assalto ao título da Champions League, com os reforços de Anderson, Nani, Hargreaves e Carlos Tevez. O único nome de destaque da terceira saída às compras foi Berbatov.

As escalações de Ferguson na Premier League quase sempre começaram com Edwin Van der Sar no gol. Na lateral direita, Gary Neville ainda tinha lenha para queimar, jogando bastante no primeiro título e um pouco no terceiro. Quando não estava disponível, Wes Brown foi deslocado para a posição. Na última campanha, o brasileiro Rafael começou a aparecer. Patrice Evra foi praticamente soberano na lateral esquerda.

No meio-campo, Michael Carrick chegou para dominar a posição de volante, com o veterano Paul Scholes ou Darren Fletcher ao seu lado. A partir da segunda temporada, ganharam a concorrência de Owen Hargreaves e Anderson. Cristiano Ronaldo ainda era um ponta veloz e driblador. Tinha o apoio de Ryan Giggs e Park Ji-Sung. Posteriormente, também do compatriota Nani.

No ataque, Wayne Rooney era o principal nome. No primeiro título, atuou bastante ao lado de Louis Saha. O elenco ainda tinha os veteranos Ole Gunnar Solskjaer e Henrik Larsson. Eventualmente, chegaram Carlos Tevez para dominar a posição e, na sequência, Dimitar Berbatov.

A reconquista da coroa 

O Manchester United reconquistou a Inglaterra em 2006/07, após três temporadas de seca (Foto: Getty Images)

Com Alex Ferguson no comando, o Manchester United nunca passou mais de uma temporada sem conquistar a Premier League, com exceção daquele período entre 2003 e 2006, quando os Invencíveis do Arsenal encantaram a Inglaterra, e o Chelsea de Roman Abramovich e José Mourinho foram bicampeões. A missão dos Red Devils, no começo da edição de 2006/07, era, portanto, recuperar a coroa.

Na temporada anterior, o Manchester United havia ficado a oito pontos do campeão Chelsea. Mas, confiando no seu taco, Ferguson trouxe apenas Carrick como reforço relevante, além de Larsson, do Helsingborg, para suprir emergencialmente a saída de Van Nistelrooy para o Real Madrid, em contraste com seu principal adversário do momento: Abramovich abriu os cofres para contratar Shevchenko e Ballack e ainda atraiu Ashley Cole do rival Arsenal, mandando Gallas em troca. O time do United era uma mistura entre a experiência dos anos noventa, de Scholes e Giggs, e a juventude de Cristiano Ronaldo e Rooney.

A temporada que teve a inauguração do Emirates, o Portsmouth chegando à liderança na quinta rodada e o Bolton de Nicolas Anelka brigando por competições europeias começou com tudo para o Manchester United. Aos 19 minutos da primeira rodada, contra o Fulham, em Old Trafford, o placar já estava 4 a 0 para os donos da casa, cortesia de Saha, um gol contra de Ian Pearce, Rooney e Cristiano Ronaldo. Final: 5 a 1.

Foi o começo de uma campanha quase irretocável do Manchester United. Com exceção de uma derrota para o Arsenal, no quinto fim de semana, seguido por um empate contra o Reading, os Red Devils venceram todos os jogos (11) até meados de novembro, quando empataram com o Chelsea. Os meses cruciais, porém, foram fevereiro e março, quando o time de Ferguson conseguiu ganhar todos os seus compromissos pela Premier League, abrindo seis pontos de vantagem para o segundo colocado Chelsea.

Um jogo especial nesse período foi no final de fevereiro, contra o Fulham, em Croven Cottage. Uma saída estabanada de Van der Sar permitiu que os donos da casa abrissem o placar, mas Ryan Giggs empatou, mostrando toda sua categoria. O cruzamento veio da esquerda para o galês completar com um lindo chute de canhota, praticamente um slice do tênis que tirou o goleiro da jogada. Aos 43 minutos do segundo tempo, Ronaldo arrancou da ponta esquerda, entrou na área e marcou o gol da vitória, consolidando o salto que deu naquela temporada, com 17 tentos pela Premier League, artilheiro do Manchester United.


O Chelsea chegou à reta final com nove vitórias seguidas e, a quatro rodadas do fim, estava a apenas três pontos do United, que vinha de empate com o Middlesbrough. A torcida deve ter suado frio no Goodison Park quando Alan Stubbs e Manuel Fernandes abriram 2 a 0 para o Everton, no começo do segundo tempo. Mas gols de O’Shea, Phil Neville, contra, Rooney e Chris Eagles selaram a vitória por 4 a 2 dos visitantes.

Ao mesmo tempo, o Chelsea apenas empatou com o Bolton. O Manchester United havia aberto cinco pontos, a três rodadas do fim. Um gol de pênalti, convertido por Cristiano Ronaldo, garantiu a vitória por 1 a 0 sobre o rival local Manchester City. Enquanto isso, em Londres, o Arsenal segurou o empate por 1 a 1 contra o Chelsea, o que deu o título aos Red Devils com duas partidas de antecedência.

E frustrou toda a Inglaterra que queria ver uma final de campeonato entre Manchester United e Chelsea na penúltima rodada, mas, como o título já estava decidido, o confronto direto em Stamford Bridge não saiu do 0 a 0.

A explosão de Cristiano Ronaldo 

Cristiano Ronaldo fez 31 gols no título de 2007/08 (Foto: Getty Images)

Quem entra no vórtex de vídeos de YouTube de futebol com certeza já trombou com compilações de Cristiano Ronaldo em seus primeiros anos no Manchester United. Comparando com o atual jogador da Juventus, deve pensar que são pessoas diferentes. Aquele era um ponta com pernas velozes e dribles desconcertantes. O de hoje é um artilheiro letal. Essa transformação foi consolidada no Real Madrid. Mas começou durante a temporada 2007/08 do United.

O português vinha aumentando seu número de gols, mas explodiu naquela campanha, com 31 na Premier League, 42 no total, ainda atuando prioritariamente pelas pontas, como relata Alex Ferguson em sua autobiografia. “Em alguns jogos, ele atuou como centroavante, mas era essencialmente um homem que jogava aberto em nosso sistema. Em todo jogo, ele criava três chances para ele próprio”, escreveu.

O Manchester United havia parado nas semifinais da Champions League na temporada anterior, destruído por Kaká, depois de três participações modestas, e reforçou o seu elenco para continuar lutando por todos os títulos. Foram gastos € 100 milhões em quatro jogadores importantes: Anderson, Hargreaves, Nani e Tevez. E chegou perto da Tríplice Coroa. Os dois principais títulos foram conquistados. Faltou apenas a Copa da Inglaterra, na qual os Red Devils foram derrotados pelo Portsmouth, na sexta rodada.

As contratações deram um novo poder de fogo ao United. Além da evolução de Ronaldo, havia um atacante de primeira linha para fazer parceria com Rooney e outro jovem ponta talentoso para participar da rotação. Enquanto isso, o Liverpool se reforçou com Fernando Torres, o Chelsea demitiu Mourinho durante a campanha, e o Arsenal trouxe Eduardo da Silva para substituir Thierry Henry.

Apesar disso, foi quem dominou o começo da temporada, com oito vitórias nas primeiras nove rodadas e a liderança até o começo de janeiro. Ao contrário do título anterior, quando ficou na ponta praticamente o campeonato inteiro, o Manchester United teve que correr atrás do Arsenal, depois de um começo de temporada ruim, sem vencer nas primeiras três rodadas.

A liderança mudou de mãos na 22ª rodada, quando o Arsenal apenas empatou com o Birmingham, no jogo que ficou marcado pela terrível lesão de Eduardo, e o United goleou o Newcastle por 6 a 0. Todo os gols foram marcados no segundo tempo, e Ronaldo anotou a primeira tripleta da carreira. Os Gunners ainda haviam perdido apenas uma vez, mas estavam em segundo lugar pelo saldo de gols. Mas voltariam a abrir vantagem no começo de fevereiro, ao emendar vitórias contra City e Blackburn, enquanto o United empatou com o Tottenham e perdeu do City, em Old Trafford.

A 12 rodadas do fim, o Manchester United tinha um problemão. Estava na briga pela Champions League, ao mesmo tempo em que precisava tirar cinco pontos do Arsenal. O time de Wenger, porém, decidiu colaborar: assim que abriu vantagem, empatou quatro vezes seguidas e completou o calvário com uma derrota para o Chelsea. A vantagem foi dizimada. O Arsenal caiu para terceiro lugar, a seis pontos do United, que ganhou todos seus jogos nesse período, e o novo vice-líder era o Chelsea, invicto desde a derrota para os Gunners, em 16 de dezembro, até a última rodada.

A arrancada com o interino Avram Grant foi tão boa que levou os Blues também à decisão da Champions League. Mas não foi suficiente para conquistar a Premier League, apesar de ter conseguido igualar a pontuação do United, vencendo o confronto direto da antepenúltima rodada, por 2 a 1, gols de Ballack.

Faltavam dois jogos. A pontuação era a mesma. O United levava muita vantagem no saldo de gols: 53 a 37. Na prática, o Chelsea precisava de um tropeço do adversário. Na penúltima rodada, ambos venceram: os Red Devils fizeram 4 a 1 no West Ham, e os Blues derrotaram o Newcastle por 2 a 0. A decisão do título foi para o último fim de semana.

Cristiano Ronaldo, de pênalti, e Ryan Giggs construíram a vitória por 2 a 0 do Manchester United sobre o Wigan, enquanto, em Stamford Bridge, Matthew Taylor colocava ainda mais água no chope do Chelsea empatando em 1 a 1 para o Bolton, aos 47 minutos do segundo tempo. Giggs levantou a taça, a 17ª do United no Campeonato Inglês. O recorde do Liverpool estava, finalmente, a apenas um título de distância.

Maior campeão da Inglaterra – empatado

Berbatov foi a peça que Ferguson julgou que faltava ao United (Foto: Getty Images)

Quando a Premier League começou, em 1992, o maior campeão da Inglaterra era o Liverpool, com 18 títulos. O Manchester United tinha apenas sete. “O grande rival do Manchester United, embora tenha mudado com o tempo, era o Liverpool – historicamente, industrialmente, futebolisticamente. Os jogos sempre foram eventos de intensa emoção”, escreveu Ferguson, em sua autobiografia.

“Nosso título em 1993 (o primeiro da era moderna) abriu a porta, e na virada do século nós havíamos vencido outros cinco. Em 2000, eu olhei para o Liverpool e sabia que não seria fácil para eles retornarem ao topo. O desenvolvimento de jovens deles era espasmódico. Você não sentia que o Liverpool era uma ameaça novamente. O ímpeto era todo nosso. No dia que chegamos a 18 títulos e igualamos seu recorde, eu sabia muito bem que nós passaríamos à frente, pela maneira como nosso clube operava”, acrescentou.

A temporada 2008/09 poderia significar um segundo tricampeonato para o Manchester United, o que nenhum clube havia conseguido em mais de um século de Campeonato Inglês, e a equiparação de títulos com o Liverpool. Seria a consolidação, em números, do que já era óbvio: Ferguson havia transformado o United no maior clube da Inglaterra – pelo menos até aquele momento.

O mercado trouxe apenas um nome relevante: Dimitar Berbatov. “Vendo Dimitar no Tottenham, eu sentia que ele faria a diferença porque tinha uma certa compostura e consciência que estava faltando para nosso grupo de atacantes. Ele desfilava a habilidade de Cantona e Teddy Sheringham: não era rápido como um raio, mas conseguia levantar a cabeça e fazer um passe criativo. Eu achei que ele poderia nos levar um nível acima e ampliar nossa gama de talentos”, contou Ferguson, em seu livro.

O escocês também explicou que a chegada de Berbatov acabou relegando Tevez a um papel de coadjuvante e que, por volta da metade da campanha, o argentino questionou qual seria seu futuro no clube. Ao fim daquela temporada, concretizaria uma polêmica transferência para o Manchester City.

A concorrência naquele campeonato incluía o novo-rico Manchester City, que começava o projeto de Abu Dhabi, e o Chelsea de Luiz Felipe Scolari, que começou a Premier League voando, com sete partidas de invencibilidade e apenas uma derrota nos 13 primeiros jogos.  Ainda tinha o Liverpool, com seu melhor elenco na passagem de Rafa Benítez, que terminou o primeiro turno na liderança, com apenas uma derrota.

O Manchester United começou mal o campeonato. Apenas uma vitória nas quatro primeiras rodadas, mas conseguiu acompanhar os líderes e chegou a dezembro em terceiro lugar, a três pontos do Liverpool. E, então, arrancou: 11 vitórias seguidas até ser goleado pelo Liverpool, em 14 de março. Mas, na véspera do clássico, os Reds estavam a dez pontos do United, depois de terem tropeçado sete vezes em 11 rodadas.

O United perdeu a rodada seguinte também, para o Fulham, e a vitória em Old Trafford deu impulso para o Liverpool, que começou uma arrancada. Ganhou do Aston Villa e diminuiu a distância para quatro pontos. Poderia ter caído até mais na rodada seguinte, quando ganhou do Fulham, e o United empatava com o Aston Villa, no dia seguinte, até os 48 minutos do segundo tempo quando o jovem Federico Macheda, de 17 anos, marcou um golaço para garantir os três pontos.

O Liverpool tropeçaria apenas mais uma vez até o fim daquela Premier League, no eletrizante empate por 4 a 4 contra o Arsenal, quando Arshavin marcou todos os gols dos londrinos, mas o United não daria bobeira. Aproveitou o tropeço para abrir seis de vantagem e perderia apenas mais dois pontos, em um empate contra o Arsenal, na penúltima rodada, justamente o jogo do título, o jogo do tricampeonato, o jogo que colocou o Manchester United na primeira prateleira de títulos ingleses da história, empatado com o Liverpool. Mas não demoraria muito para se isolar nela.