A Conmebol é uma confederação com apenas 10 seleções, sendo a menor de todas as seis filiadas à Fifa. Menor em número até que a Confederação de Futebol da Oceania (OFC), que tem 11 países. Mesmo assim, a América do Sul tem asseguradas quatro vagas das 32 vagas para a Copa do Mundo, e com a possibilidade de um quinto país se classificar via repescagem. A tradição dos sul-americanos no futebol é inversamente proporcional ao número de países. E essa história de sucesso em nível mundial começou há 81 anos, em um 9 de junho, em Paris. Foi quando a seleção do Uruguai conquistou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos.

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Não foi uma vitória qualquer. Naquela época, as Olimpíadas eram a grande competição de futebol do mundo. Antes dela, só existiam jogos locais, como o torneio sul-americano, precursora da Copa América. O Uruguai já era uma potência local com quatro títulos sul-americanos, mas aquela seria a primeira vez, em nível mundial, que toda habilidade e o jeito de jogar sul-americano estaria em campo.

Em 2012, contamos a história do torneio de futebol das Olimpíadas de Paris, em 1924, quando os uruguaios conquistaram o mundo pela primeira vez.

Paris 1924

Os Jogos de 1924 foram os primeiros a verem uma seleção que realmente marcaria a história do futebol. Com um jogo baseado em uma habilidade incomum e muita técnica, os Uruguai surpreendeu os europeus, que, naquele momento, conheciam uma escola completamente diferente de futebol, a sul-americana. Aquele torneio, com 22 participantes, contou com equipes de quatro continentes, algo notável para a época.

Na fase preliminar, o Uruguai mostrava força ao golear a Iugoslávia por 7 a 0. Dois dos favoritos se enfrentaram nessa etapa, com vitória da Itália por 1 a 0 sobre a Espanha. Também passaram Tchecoslováquia, Suíça, Hungria e Estados Unidos. Nas oitavas definal, os uruguaios bateram os Estados Unidos no confronto de americanos. O Egito também assustou com a vitória de 3 a 0 sobre a Hungria. A Itália seguia com dificuldades, com um magro 2 a 0 sobre Luxemburgo, a Suíça precisou de um jogo extra para desclassificar a Tchecoslováquia,a Irlanda (recém-independente do Reino Unido) passou pela Bulgária, a França arrasou a Letônia e a Holanda não teve problemas contra a Romênia. O resultado mais inesperado das quartasa de final foi a vitória dos suíços sobre os italianos por 2 a 1. Enquanto isso, os uruguaios mostravam que o ouro era uma possibilidade realista ao golearem os donos da casa por 5 a 1. Holanda (2 a 1 na Irlanda) e Suécia (5 a 0 sobre o Egito) também estavam nas semifinais.

Com uma vitória por 2 a 1, o Uruguai mandava a Holanda decidir pela quarta vez consecutiva o bronze olímpico. Na final, pegariam outra surpresa: a retrancada Suíça, que venceu a Suécia por 2 a 1. Ainda vistos com desconfiança, os uruguaios conquistaram o título com autoridade: 3 a 0. Surgia a Celeste Olímpica.

FICHA TÉCNICA
Uruguai 3×0 Suíça
Local: estádio Colombes (Paris-FRA)
Público: 41 mil
Árbitro: Marcel Slawick (França)
Uruguai: Mazali; Nasazzi, Arispe, Andrade, Vidal, Ghierra, Urdinarán, Scarone, Petrone, Cea e Romano
Suíça: Pulver; Reymond, Ramseyer, Oberhauser, Schmiedlin, Pollitz, Ehrenbolger, Pache, Dietrich, Abegglen e Fassler
Gols: Petrone (27/1º), Cea (18/2º) e Romano (36/2º)

Classificação final: 1º Uruguai, 2º Suíça, 3º Suécia, 4º Holanda, 5º França, 6º Itália, 7º Irlanda, 8º Egito, 9º Tchecoslováquia, 10º Hungria, 11º Estados Unidos, 12º Bulgária, 13º Luxemburgo, 14º Romênia, 15º Bélgica, 16º Letônia, 17º Espanha, 18º Estônia, 19º Turquia, 20º Polônia, 21º Iugoslávia, 22º Lituânia

A vitória seria marcante por vários motivos. Primeiro, porque era um esporte que os sul-americanos mostrariam aos europeus que ali não seria fácil. Que ganhar de seleções sul-americanas não seria uma tarefa fácil. O Uruguai fez com que o mundo percebesse que o cone sul tinha uma potência. Era só a primeira. Viriam outras, com Brasil e Argentina também encantando o mundo, sem falar em outras seleções que causariam alvoroço.

Para começar, o uruguai ganharia para sempre o apelido de Celeste Olímpica justamente por essa vitória marcante em Paris. Também criaria duas das grandes expressões do futebol, usadas até hoje. Também cunhou um dos lances mais difíceis do futebol mundial: o gol olímpico. A expressão aconteceu porque o Uruguai marcou um gol desta forma e, claro, foi em uma Olimpíada. Depois da vitória, os jogadores uruguaios desfilaram ao redor do campo. Criaram o que se tornaria famoso como “volta olímpica”, que vemos até hoje em qualquer conquista pelos campos de todo o mundo.

A Conmebol é a menor confederação de futebol da Fifa. Mas em termos de tradição, é gigantesca. Há quem ache que há um excesso de vagas na Copa para países da América do Sul. Mas para isso, é preciso lembrar que hoje há ao menos quatro sul-americanos entre os melhores jogadores do mundo. Messi, Suárez, Neymar e Tevez fizeram uma temporada fantástica e só Cristiano Ronaldo e, talvez, Hazard, possam figurar entre eles. São raros os times grandes da Europa, o continente mais rico em termos de futebol, que não têm ao menos um grande jogador sul-americano no seu elenco. Em termos de títulos de Copa do Mundo, a Europa até tem mais depois das últimas Copas, mas a diferença é pequena. Os europeus têm 11 títulos (quatro da Alemanha, quatro da Itália, um da França, um da Inglaterra e um da Espanha). Os sul-americanos têm 9 (cinco do Brasil, dois da Argentina e dois do Uruguai).

Isso para não falar na Copa Libertadores, um dos grandes torneios de clubes do mundo, um dos que mais carrega mística e tradição. Se a Champions League é carregada de craques e organização, a Libertadores traz o talento e o ambiente únicos da América do Sul. Em parte, a Copa do Mundo sentiu isso em 2014, quando foi disputada no Brasil depois de um enorme intervalo sem visitar o continente. A América do Sul é gigante. E tudo começou em um 9 de junho de 1924, quando o Uruguai mostrou isso ao mundo.


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