A Espanha vivia semanas intensas naquele início de 1929. Ao final de janeiro, um golpe de estado tentou encerrar a ditadura de Primo de Rivera, mas fracassou. Paralelamente, ocorreria logo nos primeiros dias de fevereiro a morte de María Cristina de Habsburgo-Lorena, rainha do país. Os episódios acabariam moldando a história espanhola. E um marco também ocorreu no futebol exatamente durante aquele período convulsivo. Em 10 de fevereiro de 1929, aconteceu o pontapé inicial da primeira edição de La Liga. Um dos campeonatos mais importantes do mundo, que seguiu escrevendo seus capítulos memoráveis e comemorou seus 90 anos neste domingo.

A Espanha já possuía o seu torneio nacional desde 1903. No ano anterior, para celebrar a chegada de Alfonso XIII ao trono, foi criada a Copa da Coroação e a ideia pegou. Assim, seu herdeiro direto foi o chamado “Campeonato da Espanha – Copa de sua majestade, o Rei” (a atual Copa do Rei), que surgia na esteira do sucesso e referendava a popularização do futebol no país. A competição era disputada anualmente e reunia os campeões dos torneios regionais. De qualquer maneira, o fortalecimento da modalidade dependia de um modelo mais robusto. A partir da década de 1920, os clubes espanhóis passaram a acenar rumo à criação da liga e um passo decisivo aconteceu em 30 de junho de 1926, quando as agremiações aprovaram o primeiro regulamento de futebol profissional. Todavia, eles ainda precisavam de um calendário sustentável ao profissionalismo. Foi quando se intensificaram as discussões por La Liga.

Assim como ocorreu na Inglaterra, o Campeonato Espanhol serviria para manter os clubes em atividade durante parte do ano. De qualquer maneira, o principal objetivo era alavancar a rentabilidade, atraindo maiores públicos e promovendo embates mais frequentes entre os principais clubes do país – em tempos nos quais a rivalidade regional já havia se aflorado, sobretudo entre Madri, Catalunha e País Basco. O problema era decidir como esta competição seria composta, motivo de meses de confusão entre os dirigentes. Existiam duas correntes de pensamento. Os times mais importantes foram chamados de “minimalistas”, por desejarem um torneio mais enxuto, que não atrapalhasse o prestígio da Copa do Rei ou dos campeonatos regionais. Enquanto isso, as agremiações ascendentes e os representantes de regiões onde o futebol demorou um pouco mais para crescer eram os “maximalistas”, pleiteando uma disputa ampla e espalhada pelo território espanhol. Resultado: não se chegou a um consenso e duas ligas se formaram na temporada 1927/28.

Os minimalistas levaram em frente o Torneio de Campeões, também chamado de Liga Nacionalista. O campeonato reuniu os seis times que já haviam conquistado a Copa do Rei e formavam a União de Clubes de Futebol. Estavam nesta Barcelona, Real Madrid, Athletic Bilbao, Arenas, Real Unión e Real Sociedad. Enquanto isso, os maximalistas organizaram a Liga Espanhola de Futebol, a Liga Máxima, com a participação de dez equipes – entre elas o Atlético de Madrid e o Espanyol, líderes dos dissidentes, além de Sevilla, Valencia, Celta e outras forças regionais. As duas ligas disputavam o selo oficial e até mesmo o troféu doado pelo rei, que seria entregue ao campeão. Contudo, nenhuma delas se mostrou tão viável assim e a falta de patrocinadores significou o fracasso. Nenhuma das competições chegou ao seu desfecho e ficava clara a necessidade de uma conciliação. O racha era tamanho que os bascos ameaçavam criar sua própria copa, concorrente da Copa do Rei, enquanto os galegos bradavam a possibilidade de se juntar aos clubes portugueses.

Depois de toda a queda de braço, minimalistas e maximalistas chegaram a um acordo em novembro de 1928. Organizariam um torneio que respeitava a história construída pelos principais clubes, mas que também se abriria aos demais. A edição inaugural de La Liga contou com dez participantes, dois turnos, sistema de pontos corridos e dois pontos atribuídos por vitória. Os seis campeões anteriores da Copa do Rei mantiveram seus privilégios – a saber, Barcelona, Real Madrid, Athletic Bilbao, Arenas, Real Unión e Real Sociedad. A eles se juntariam mais três times, todos com finais da Copa do Rei no currículo: Atlético de Madrid, Espanyol e Europa. Já outras três agremiações que também haviam sido vice-campeãs do certame nacional acabaram descartadas, ou por problemas financeiros, ou por já terem desaparecido. A concentração, de qualquer forma, se dava nas regiões mais desenvolvidas do país. Eram quatro bascos, três catalães e dois madrilenos.

A décima e última vaga seria determinada por um torneio eliminatório, com a participação de oito clubes das diferentes comunidades autônomas da Espanha. O mata-mata aconteceu entre dezembro e fevereiro, até que o Racing de Santander derrotasse o Sevilla nas finais e se confirmasse na elite. Os sete times eliminados durante esta seletiva comporiam a segunda divisão, que a partir de então começaria a determinar os acessos e os descensos. Além disso, uma semana antes que a primeira divisão começasse, o Espanyol conquistou a Copa do Rei em 3 de fevereiro. A equipe estrelada pelo mítico goleiro Ricardo Zamora faturou o título inédito, batendo o Real Madrid na final, apenas três dias antes da morte da Rainha María Cristina.

Apesar do luto na Espanha, o pontapé inicial de La Liga aconteceu em 10 de fevereiro, com os jogadores utilizando braçadeiras negras. Quatro partidas ocorreram naquele dia. O primeiro gol veio no mítico Estádio de Sarriá, diante de sete mil espectadores, onde o Espanyol derrotou a Real Unión de Irún por 3 a 2. Curiosamente, o técnico Jack Greenwell preferiu dar um descanso aos seus jogadores após a conquista da Copa do Rei e escalou um time reserva na estreia. Desta maneira, a honra de iniciar a contagem histórica ficou com José “Pitus” Prat, atacante de 17 anos. Aos cinco minutos, o garoto acertou um chute violento e balançou as redes. Nas temporadas seguintes, o autor do primeiro gol do campeonato logo viraria ídolo dos blanquiazules e conquistaria importantes títulos com o clube, além de somar quatro aparições com a seleção espanhola. Já do outro lado, o goleiro da Real Unión era Antonio “Pajarito” Emery, lenda da equipe basca – e como o sobrenome indica, avô de Unai Emery.

A rodada inaugural ainda guardou o primeiro clássico ligueiro entre Real Sociedad e Athletic Bilbao, com o empate por 1 a 1 em Atotxa. O Atlético de Madrid visitou Getxo e derrotou o Arenas por 3 a 2. Já o Real Madrid não teve piedade do Europa em Chamartín e goleou por 5 a 0 – com direito à primeira tripleta, registrada pelo atacante Jaime Lazcano, de 20 anos. Dois dias depois, em 12 de fevereiro, aconteceu a partida complementar. Como a definição da seletiva havia acontecido na véspera da primeira rodada, o Racing de Santander ganhou um descanso um pouco maior antes de receber o Barcelona. Acabou superado em El Sardinero, com os blaugranas celebrando o triunfo por 2 a 0.

O Real Madrid era o favorito para conquistar o título. Os merengues começaram a campanha em ritmo forte e mantiveram a liderança em 12 das primeiras 13 rodadas. A queda de desempenho da equipe, entretanto, se combinou com a ascensão do Barcelona. Os blaugranas ocupavam a vice-lanterna na sétima rodada, mas emendaram uma enorme série invicta a partir de então, impulsionada pela chegada do técnico Jim Bellamy. Os catalães tomaram a primeira colocação após 13 rodadas, embora tenham devolvido a ponta aos madrilenos na penúltima jornada, ao só empatarem o clássico contra o Espanyol. Assim, a definição ficou para o sprint final.

Na rodada derradeira, o Real Madrid perdeu o compromisso difícil que teve. Visitou o Athletic Bilbao em San Mamés e sofreu o revés por 2 a 0. Já o Barcelona cumpriu sua parte ao golear a Real Unión por 4 a 1 em Les Corts, com dois gols de José Sastre e dois de Manuel Parera. Apesar disso, a esperança resistia aos merengues. Em um campeonato tumultuado por várias rodadas atrasadas, os madrilenos permaneciam à frente graças aos critérios de desempate, mas aguardavam um compromisso adiado dos catalães. Não adiantou secar. Os blaugranas foram até o País Basco e, dependendo apenas do empate, superaram o Arenas por 2 a 0, com mais dois gols anotados por Parera. Com dois pontos a mais que os rivais, o Barça ergueu a taça. Em seu elenco, o clube contava com alguns ídolos históricos, em especial Josep Samitier – segundo maior artilheiro da Copa do Rei.

Enquanto o Barcelona se sagrou campeão e o Real Madrid acabou com o vice, Athletic Bilbao e Real Sociedad apareciam logo abaixo na tabela. O Espanyol não conseguiu se valer tanto de Zamora e terminou em sétimo, mesmo com o goleiro sendo o menos vazado da competição. Já o lanterna foi justamente o Racing de Santander. Os cantábrios disputaram um playoff de rebaixamento contra o Sevilla (campeão da segundona) e venceram de novo os andaluzes, permanecendo na elite. Por fim, Paco Bienzobas se eternizou como o primeiro artilheiro. O símbolo da Real Sociedad anotou 17 gols em 18 partidas disputadas.

A segunda temporada de La Liga aboliria os playoffs de descenso e se desenrolou a partir de dezembro de 1929. Já a primeira ampliação no número de participantes veio em 1934/35, com a admissão de mais dois times. No entanto, o campeonato seria forçado a uma paralisação em 1936, por conta da Guerra Civil Espanhol. Até então, o Athletic Bilbao se firmava como a principal potência, acompanhado à distância por Real Madrid e Barcelona, enquanto o Betis se tornou a primeira surpresa a faturar o troféu. Histórias que foram se acumulando e transformado a competição ao longo das décadas. Depois de 90 anos, o passado é riquíssimo.