A história e a tradição do futebol na Argentina e nos Estados Unidos possuem uma enorme diferença. Enquanto a prática do esporte sempre foi muito forte na América do Sul, pode-se afirmar que os americanos ainda passam por um processo de desenvolvimento da modalidade no país, ainda que seja executada há muitos e muitos anos no território estadunidense. Basta assistir aos jogos dos campeonatos locais para notar que cada um desses dois países trata o lado emocional do futebol de uma forma. E isso diz muito sobre o que está em jogo. Eis que esta noite, pela segunda vez na história, as seleções argentina e americana colocarão suas diferenças em campo para medir forças em busca de uma vaga em uma final de competição.

LEIA TAMBÉM: “Caramba, que tristeza!”: Como a TV mexicana narrou o massacre do Chile na Copa América

A partida de hoje vale pela Copa América Centenário, que nada mais é do que a primeira edição do torneio co-organizada pela Conmebol e pela Concacaf. O sentimento de ineditismo também se fazia presente há 86 anos, quando os argentinos e americanos se confrontaram pela primeira vez. Não só por se tratar de duas seleções que nunca antes haviam se enfrentado. Mas por ter sido na primeira edição do que hoje é o maior evento relacionado à futebol do planeta. Em 1930, a Fifa decidiu ampliar o êxito do futebol sul-americano, que há 15 anos mostrava sua força por meio da Copa América, e criar uma competição que abrangesse países de outros continentes. Foi assim que Estados Unidos e Argentina, junto com mais 11 nações, chegaram à primeira Copa do Mundo, realizada no Uruguai.

Naquela época, e só nela, a participação das seleções no torneio se deu exclusivamente através do interesse de cada país em disputar. Não haviam eliminatórias, tampouco critérios para que as equipes concorressem ao título. No entanto, em função da mais grave crise econômica do século XX, conhecida como A Grande Depressão, e dos conflitos bélicos que assolavam a Europa, mas cujos resquícios respingavam praticamente no resto do mundo inteiro, o número de times inscritos foi baixo. Aliás, para se ter uma noção do quanto os inúmeros problemas mundiais afetaram a execução do evento, de seleções europeias, só estava na primeira Copa a França, Iugoslávia, Romênia e Bélgica. Nem mesmo a da Inglaterra, a mais antiga do mundo, pôde participar. Eram tempos difíceis e a situação era bastante crítica.

Como havia um número ímpar de participantes, a Fifa separou os times em quatro grupos, tendo um deles quatro seleções. No grupo 1, estavam Argentina, França, México e Chile. Era, não só pela maior quantidade de equipes, a chave mais competitiva. Mas isso não foi problema para os argentinos, que venceram as três partidas que disputaram e caminharam tranquilos à semifinal do torneio. Já no grupo 4, os Estados Unidos, que enfrentaram uma longa e cansativa viagem de alguns dias a bordo do navio S.S. Munargo, enfrentaram a Bélgica e o Paraguai. Assim como a equipe argentina, os americanos saíram vitoriosos de todos os jogos de sua chave e avançaram à penúltima fase da Copa do Mundo. Paralelamente à classificação dessas duas seleções, a do Uruguai e da Iugoslávia também garantiam vaga na semifinal.

Por conta das vitórias de 3 a 0 diante da Bélgica e do Paraguai (esta, com os três tentos anotados por Bert Patenaude, o autor do primeiro hat-trick da história das Copas), a imprensa uruguaia apontava os Estados Unidos como um dos favoritos a levar o título, mesmo a seleção americana tendo a seleção americana tendo menos tradição. Mas as previsões da mídia do país anfitrião foram por água abaixo no dia 26 de julho de 1930, quando Argentina e Estados Unidos brigaram em campo pela chance de disputar a final da competição. Diante de 112 mil pessoas que abarrotavam o Estádio Centenário, em Montevidéu, os argentinos, que já eram tetracampeões da Copa América, mostraram que a supremacia do futebol da América de baixo ante à de cima era uma realidade.

Além de se tratar um time mais tradicional, a Argentina contava com jogadores que atuavam em grandes clubes do país, já organizados em uma liga mais forte. Seis minutos depois do apito inicial, o goleiro americano, James Douglas, o maior responsável pelos dois ‘clean sheets’ (jogos sem tomar gol), torceu o joelho e teve que abandonar o gramado. Não muito tempo depois, a maldição das lesões atacou novamente, desta vez com um dos destaques da zaga dos Estados Unidos, Ralph Tracey, que quebrou a perna direita e aguentou firme até o fim da primeira etapa – ao menos é o que dizem os relatos. A bruxa realmente estava solta e tudo conspirava contra os americanos.

Impossibilitado de fazer mais substituições, o técnico americano Robert Millar se viu em uma encruzilhada e acabou perdendo o controle tático da partida, que teve seu segundo tempo iniciado com 10 jogadores do lado dos Estados Unidos. O desempenho dos adversários da Argentina despencou com o festival de lesões, e foi na fragilidade dos oponentes que os argentinos, que já venciam por 1 a 0, conseguiram marcam três gols em um espaço de sete minutos. E não parou por aí. O placar indicava 6 a 0 e o jogo se encaminhava para os instantes finais, quando os Estados Unidos esboçaram alguma reação boa diante da desgraça e fizeram o chamado gol de honra. Coincidentemente, a semifinal entre Uruguai e Iugoslávia também terminou com o marcador apontando 6 a 1 para o time sul-americano. E, como sabemos, foram os donos da casa que levaram a melhor na primeira edição da Copa.

O duelo entre os argentinos e americanos, apesar de desequilibrado, rendeu bons frutos para ambos os lados. Com o bom desempenho dos Estados Unidos na fase dos grupos, James Brown e Alexander Wood, jogadores americanos, acabaram despertando o interesse do Manchester United e do Leicester City, respectivamente, e foram construir carreira profissional na Inglaterra. Da outra parte, o argentino Francisco Varallo imortalizou seu nome vestindo a camisa do Boca Juniors, sendo, até hoje, um dos maiores artilheiros da história do clube de La Bombonera, e se tornou um dos principais jogadores da Argentina da década de 30.

Hoje a história do confronto ganha mais um capítulo, 86 anos depois deste primeiro e marcante encontro. É improvável que ela se reproduza fielmente, já que o futebol dos Estados Unidos foi aprimorado ao longo dos anos e, desde então, o nível do esporte subiu de forma considerável. Ainda assim, a equipe argentina conta com a combinação perfeita de história, tradição, boa fase e excelentes nomes no elenco. É a seleção que ocupa o topo do ranking da Fifa. E depois do que aconteceu com o México, uma das maiores apostas desta Copa América, contra o Chile, vimos que é perigoso subestimar qualquer equipe, bem como é arriscado traçar comparações ou elevar os times da América do Norte a um patamar que talvez eles ainda não tenham atingido.

Já conhece o Trivela FC? Nosso clube de relacionamento que você participa e marca um golaço pelo jornalismo independente