Por Emmanuel do Valle

O futebol carioca entrava em uma nova e decisiva era há 80 anos. Em 29 de julho de 1937, acontecia formalmente a criação da nova Liga de Football do Rio de Janeiro, substituindo as duas entidades de que polarizavam o jogo na antiga capital federal, em uma batalha que vinha desde a cisão resultante da adoção do profissionalismo. O acordo, que permitiu a volta da realização de vários dos clássicos locais mais tradicionais e mobilizou a cidade, foi resultante de conversas secretas entre os presidentes do Vasco e do America (na época, filiados cada um a uma liga). Os dois clubes, aliás, disputariam dali a dois dias um amistoso que receberia um apelido alusivo ao contexto e que se eternizaria: o “Clássico da Paz”.

A Guerra

Para contar a história da paz, primeiro precisamos retornar mais alguns anos e contar a história da briga, dentro de seu contexto específico. Em 1932, o Campeonato Carioca considerado oficial era regulado pela Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA). O regime reconhecido era o amador, mas já há alguns anos era notório o pagamento de gratificações aos jogadores, bem como as transferências de atletas entre clubes motivadas por compensações financeiras. Assim, para se admitir formalmente o que já era aplicado na prática, a proposta de introdução do profissionalismo foi apresentada pela primeira vez pelo Fluminense, em 29 de agosto de 1932, em uma reunião entre os clubes fundadores da entidade.

Diante da aprovação unânime inicial quanto às conversas, foi marcada uma nova reunião para janeiro do ano seguinte. Nesta, surgiram as primeiras divergências. Alegando que a medida visava “esfacelar” seu elenco, campeão do ano anterior e possível alvo de propostas de transferência no caso da adoção do profissionalismo, o Botafogo marcou posição contrária à instalação do regime. Flamengo e São Cristóvão, vivendo disputas políticas internas entre grupos pró e contra a mudança, também decidiram inicialmente permanecer onde estavam.

Diante da impossibilidade de implantação do profissionalismo dentro da AMEA, America, Bangu, Bonsucesso, Fluminense e Vasco deixaram a entidade e fundaram, em 1933, a Liga Carioca de Football. Seria um rompimento como nunca antes havia acontecido no futebol carioca. Diferentemente do que havia acontecido em 1912 ou em 1924, a reconciliação não viria logo no ano seguinte. Entre 1933 e 1936, várias pequenas batalhas dentro do grande conflito seriam travadas.

02. Jornal dos Sports 1933

Com os campeonatos já iniciados (os dois em 7 de maio), as correntes favoráveis ao profissionalismo dentro de Flamengo e São Cristóvão começaram a contornar as posições iniciais dos clubes, que depois de um certo tempo resolveram abandonar o campeonato da AMEA e solicitar filiação à LCF. Os rubro-negros foram aceitos por unanimidade, mas os cadetes tiveram sua entrada vetada notadamente pelo Fluminense e acabaram relegados à chamada “subliga” (torneio paralelo disputado por alguns clubes que aspiravam a uma vaga na entidade profissional), sendo enfim admitidos a partir do ano seguinte.

Dos 12 clubes que disputaram o torneio da AMEA de 1932, o último antes da cisão, apenas quatro (Botafogo, Olaria, Andaraí e Sport Club Brasil) restaram para o do ano seguinte após as debandadas. Para preencher as vagas, a entidade precisou recrutar clubes suburbanos que disputavam divisões inferiores, deixando o torneio sensivelmente enfraquecido: saíram Fluminense, Vasco, Flamengo, America, Bangu, São Cristóvão, Bonsucesso e até o pequeno Carioca, do Jardim Botânico (que se licenciou por um tempo), e entraram Engenho de Dentro, Confiança, Cocotá, Mavilis, Portuguesa e River.

O movimento em favor do profissionalismo avançava por meio de rupturas não só no Rio, mas em outros estados como São Paulo. Assim, era questão de tempo a fundação de uma nova entidade de caráter nacional para abrigar e legislar sobre os dissidentes. Surgiu a Federação Brasileira de Football (FBF), independente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), que permanecia no amadorismo.

No caso particular do Rio de Janeiro, em favor da AMEA havia o reconhecimento do torneio oficial, por ser ela a entidade legalmente filiada à CBD, e, portanto, à Fifa. Por outro lado, a LCF, tachada de “pirata” por integrar a FBF, contava com o peso das camisas. Era difícil não reconhecer e ignorar a legitimidade de um torneio disputado por quatro dos cinco clubes grandes do futebol carioca (America, Flamengo, Fluminense e Vasco) e ainda pelas forças suburbanas mais expressivas da época (Bangu, Bonsucesso e, mais tarde, o São Cristóvão).

Porém, o regime profissional enfrentou resistência não só de alguns clubes, como também de parte da imprensa. Periódicos como o Jornal do Brasil criticavam sistematicamente o que chamavam de “câncer” do futebol brasileiro, que obrigava os clubes a esticarem os campeonatos, aumentando o número de jogos, e a criarem novas competições (como o Torneio Extra e o Torneio Aberto) com o objetivo de se manterem em atividade e garantirem as arrecadações – o que soava como uma mácula ao espírito fidalgo do esporte, além de vulgarizar, banalizar os confrontos.

A divergência teve impacto até mesmo sobre a Seleção Brasileira que disputaria a Copa do Mundo da Itália, em 1934. Sem chegar a um acordo entre amadores e profissionais, restou à CBD, que administrava o escrete, levar atletas de clubes que pertenciam a suas ligas filiadas (o Botafogo, única força realmente expressiva da AMEA, cedeu nada menos que nove jogadores), além de recorrer ao expediente de contratar atletas de clubes dissidentes, caso de Leônidas da Silva, na época atleta do Vasco (então filiado à LCF).

No fim daquele ano houve nova divergência: o Vasco se desentendeu com a LCF e saiu para fundar uma nova entidade. Carregando consigo o Bangu e o São Cristóvão, bateu à porta do Botafogo – agora tendendo mais a admitir o profissionalismo – e juntos decidiram se reagrupar na Federação Metropolitana de Desportos (FMD), criada no início de 1935 em substituição à antiga AMEA. Assim, quando a temporada de 1937 estava para começar, o Rio tinha dois “atuais campeões”, ambos conhecidos em decisões com melhor de três. Na LCF, o Fluminense havia encerrado um jejum de 12 anos (seu maior na história do Estadual) superando o Flamengo na decisão. Já na FMD, a final foi entre os vencedores de turno, com o Vasco batendo um surpreendente Madureira (vencedor do returno) para ficar com a taça.

O time do Vasco de 1936

O time do Vasco de 1936

A paz

Entre 1933 e 1937, por diversas vezes foram tentados acordos para pôr fim à cisão. Em 1935, após mais uma tentativa malsucedida, o presidente do Flamengo, José Bastos Padilha, seria profético ao detectar o entrave que sempre prejudicava a reunificação: para o cartola rubro-negro, a paz nunca viria se fosse discutida entre as federações, mas sim por um movimento imposto pelos clubes. A frase ficou na cabeça do presidente do America, Pedro Magalhães Correa, que, no outono de 1937, começou a se encontrar secretamente com o mandatário do Vasco, Pedro Novaes, para buscar uma solução definitiva.

As reuniões entre os presidentes, travadas ao longo de quatro meses, foram cercadas de sigilo. Havia um pacto de se revelar o novo projeto de pacificação apenas na hora considerada apropriada. Quando finalmente veio a público, em 17 de julho, caiu como um terremoto. Pela nova proposta, desapareceriam a Liga Carioca de Football e a Federação Metropolitana de Desportos, sendo criada uma nova liga para gerir o futebol do Rio de Janeiro. Num plano superior, todas as federações estaduais passariam a ser filiadas unicamente à Federação Brasileira de Football, ao passo que esta seria agora vinculada à Confederação Brasileira de Desportos. À CBD, por fim, caberia a representação do país na Fifa.

04. instalada

O acordo não admitia recusas: o clube que não concordasse com a nova regulamentação seria afastado das competições oficiais. E também estabelecia que nove clubes – America, Bangu, Bonsucesso, Botafogo, Flamengo, Fluminense, Madureira, São Cristóvão e Vasco – seriam considerados membros “efetivos” da nova liga, número que poderia aumentar por meio de convites. Para compensar os eventuais prejuízos dos demais clubes que haviam se preparado para disputar os torneios das antigas ligas e que agora seriam preteridos, outros três foram convidados para completar o torneio de 1937: Portuguesa (da LCF), Andaraí e Olaria (ambos da FMD) – embora já se declarasse de antemão que estes não teriam vaga assegurada na competição do ano seguinte, independentemente da colocação final.

Apesar de todos os clubes convidados terem aceitado a reformulação, a notícia repercutiu de maneiras bastante distintas entre eles. Ainda que apanhados de surpresa pela novidade, Flamengo e Fluminense prontamente cerraram fileiras com a nova entidade, após receberem o convite por parte do America, seu colega da LCF. “O esporte brasileiro terá dias de maior glória”, saudou o presidente rubro-negro José Bastos Padilha. “Faço questão de frisar esse ponto: não há a menor discordância entre os pontos de vista dos clubes da Liga Carioca”, assegurou o mandatário tricolor Alaor Prata.

Por outro lado, como já havia acontecido em relação à adoção do profissionalismo, o Botafogo foi o último a ceder. Indignados com o Vasco, seu colega de FMD, por todo o sigilo que envolveu a elaboração do projeto, alguns dirigentes alvinegros chegaram a afirmar que preferiam extinguir a seção de futebol do clube a aceitar a pacificação. A reação botafoguense chegou a representar uma ameaça à concretização de toda a reforma, já que na época o clube praticamente controlava a CBD. Mais tarde, os ânimos foram razoavelmente serenados, graças à ação do dirigente Carlito Rocha, e o Alvinegro acabou aceitando participar da nova liga.

Quem tinha fortes razões para reclamar, mas acabou não o fazendo na época foi o São Cristóvão. Se o torneio da LCF ainda não havia sequer começado quando veio a pacificação, o da FMD já estava em pleno andamento, com o mesmo regulamento do ano anterior (dois turnos em separado com uma decisão em melhor de três entre seus vencedores). E nele o clube cadete cumpria campanha irretocável: faltando apenas duas partidas avulsas para o encerramento do primeiro turno, a equipe de Figueira de Melo havia vencido todos os seus jogos e não poderia mais ser alcançada na liderança, tendo vaga certa na finalíssima. Porém, o acordo entre as ligas provocou a interrupção imediata do torneio, sem que este fosse concluído. Apenas no dia 3 de setembro o extinto Conselho Geral da FMD acabou por proclamar o time alvo como o seu campeão de 1937, mas o título acabou esquecido com o passar do tempo.

No dia 19 de julho, reunidos na sede do Jornal dos Sports, os presidentes de Vasco e America celebravam a aceitação unânime do projeto, anunciavam para o dia 31 a realização de um amistoso comemorativo entre os dois clubes – que disputariam numa melhor de três um troféu de bronze chamado de “Taça da Paz”, oferecido por uma camisaria – e propunham o nome de “Liga de Football do Rio de Janeiro” para a nova entidade. Durante o encontro, Pedro Magalhães Correa, mandatário americano, fez questão de lembrar a afirmação de Bastos Padilha, que se revelaria crucial ao apontar o caminho para o sucesso daquele projeto pacificador.

05. presidentes

Dali a dez dias, na sede da Associação dos Empregados do Comércio, na Avenida Rio Branco, centro do Rio, seria assinada a ata de fundação da Liga de Football do Rio de Janeiro. O evento chegou a ter transmissão ao vivo pelo rádio. A pacificação gerou enorme expectativa entre os torcedores cariocas, porque traria de volta à disputa vários clássicos que há tempos a cidade não via devido à cisão. Flamengo, Fluminense e America não enfrentavam o Botafogo há cinco anos e o Vasco há três.

A euforia pela cidade foi tamanha que até os comerciantes resolveram participar das celebrações. Um certo Sr. Costa Machado, alfaiate, fez publicar nos jornais um anúncio de que ofereceria um “Traje Silvânia, de finíssima casemira” ao jogador que marcasse o primeiro gol do jogo entre Vasco e America. A Casa Fortes, da Praça Tiradentes, também divulgou um desconto nos preços de camisas e gravatas “comemorando a pacificação”. Houve até mesmo uma “Passeata da Paz”, promovida pelo jornal A Nota, numa caminhada até a sede da AEC.

No dia 31 de julho, Vasco e America pisariam o gramado de São Januário para a partida histórica que simbolizaria a conciliação. Os rubros abriram o placar com Nelson e foram para o intervalo em vantagem, mas na etapa final os cruzmaltinos viraram com um gol de Raul e dois de Lindo, antes de Carola descontar para o time tijucano, dando números finais ao jogo. O confronto entre as duas equipes passaria a ser chamado dali em diante – e até hoje – de “Clássico da Paz”.No mesmo dia, Antônio Avellar era eleito por consenso o primeiro presidente da LFRJ, em face da recusa do antigo mandatário da LCF, Carlos Façanha Mamede. E no começo de setembro eram finalmente acertadas as questões envolvendo a vinculação da FBF, presidida por Plínio Leite, à CBD, dirigida por Luiz Aranha.

Nos meses de agosto e setembro, vários dos confrontos que não eram realizados há tempos foram retomados em partidas amistosas, algumas com a “Taça da Paz” também entregue ao vencedor. E no primeiro fim de semana de outubro teria início a edição inaugural do “campeonato da paz”. Os dez clubes se enfrentaram em turno e returno numa disputa que atravessou até o fim de janeiro do ano seguinte. Contando com craques do quilate de Tim e Hércules, e especialmente o atacante Romeu Pelicciari em grande fase, o Fluminense treinado pelo uruguaio Carlos Carlomagno sagrou-se campeão com uma rodada de antecipação, três pontos à frente do Flamengo (que também tinha uma forte equipe liderada por Leônidas da Silva e dirigida pelo húngaro Dori Kürschner), oito à frente do Vasco e dez a mais que Botafogo, São Cristóvão e America.

06

Apesar de simbólica do fim da cisão no futebol carioca, a LFRJ teria vida curta. Em abril de 1941, com a promulgação do decreto-lei nº 3.199 por Getúlio Vargas, a entidade foi renomeada como Federação Metropolitana de Futebol. Pela mesma legislação, a Federação Brasileira de Football foi declarada extinta, passando as ligas estaduais a se filiarem diretamente à CBD. Os clubes excluídos do campeonato de profissionais em princípio se reagruparam temporariamente em uma nova associação, que funcionou como uma espécie de subliga da LFRJ, antes de serem incorporados pela Federação Atlética Suburbana – que mais tarde seria substituída pelo chamado Departamento Autônomo.

A partir dos anos 40, enquanto o Campeonato Carioca se concentraria em um grupo quase restrito de participantes, alguns destes outros clubes fechariam as portas. Outros permaneceriam no amadorismo e outros aos poucos reconquistariam seu espaço nos torneios profissionais. Em 1960, quando da transferência da capital nacional para Brasília, momento em que o Rio deixou de ser o Distrito Federal para se transformar no estado da Guanabara, a FMF mudou outra vez de nome, virando Federação Carioca de Futebol. Mas outras mudanças profundas só viriam mesmo no fim dos anos 70, momento de uma fusão mais ampla do que o futebol: a da Guanabara com o antigo estado do Rio de Janeiro. Mas essa já é outra história.


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