A Europa vivia um misto de alívio e esperança durante o segundo semestre de 1945. Depois de seis anos de batalhas e milhões de mortes, a Segunda Guerra Mundial havia se encerrado no continente em maio. A população europeia retomava a sua rotina, reconstruindo os países, enquanto os clubes de futebol também voltavam às atividades costumeiras. E, diante da liberdade de ir e vir que imperava com a queda do nazismo, o Dynamo Moscou serviu de símbolo de confraternização.

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A turnê foi planejada pela própria Football Association, para comemorar o fim da guerra e o retorno do futebol à normalidade. Independente das diferenças entre capitalismo e comunismo que se intensificaram a partir da Guerra Fria, havia um sentimento de comunhão com os soviéticos, especialmente pela maneira como o Exército Vermelho mudou os rumos da guerra a partir de suas ofensivas. Assim, o Dynamo acabou convidado para uma série de amistosos na Grã-Bretanha a partir de novembro de 1945.

O jogo mais emblemático da excursão aconteceu há exatamente 70 anos, no dia 13. Mais de 80 mil pessoas lotaram as arquibancadas de Stamford Bridge – que, nos padrões de segurança atuais, só comportam 41,8 mil espectadores por jogo. Tudo para ver a poderosa equipe de Moscou, campeã soviética naquele ano, enfrentar o Chelsea, então um clube de meio de tabela no Campeonato Inglês. E a multidão que se espremeu no estádio londrino certamente não se arrependeu do espetáculo que viu.

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A expectativa era tanta que as filas de torcedores às portas de Stamford Bridge começaram a se formar às oito da manhã, seis horas antes do pontapé inicial. As linhas de metrô e ônibus estavam abarrotadas, enquanto os moradores da vizinhança alugavam seus jardins para guardar bicicletas e carros. Os portões do estádio foram fechados vinte minutos antes do jogo, deixando ainda 15 mil pessoas para fora. Que, mesmo assim, deram o seu jeito, subindo em prédios vizinhos, cercas e muros ao redor do campo. Tinha gente até no telhado das arquibancadas.

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Mais do que um time vitorioso, o Dynamo também fazia fama por seu estilo de jogo – embora a imprensa inglesa insistisse em menosprezar os “amadores” contra seus profissionais. Os moscovitas primavam pela troca de passes rápida e pela velocidade, bem diferente do jogo de bolas longas que imperavam no futebol inglês da época. Além disso, a equipe já usava uma variação do 4-2-4, que ganharia o mundo principalmente com o sucesso da seleção húngara. Era o que chamavam de “desordem organizada”, com muitas trocas de posições, implantada pelo técnico Boris Arkadyev. E a superioridade tática e física se refletiu quando a bola rolou. O Dynamo terminou o primeiro tempo vencendo por 2 a 0. Entretanto, os Blues (que jogaram de vermelho naquela tarde, para homenagear os soviéticos) conseguiram se recuperar na volta do intervalo, buscando o empate por 3 a 3.

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A turnê do Dynamo Moscou ainda contou com uma estrondosa vitória por 10 a 1 sobre o Cardiff City, um emocionante 4 a 3 sobre o Arsenal e um empate por 2 a 2 contra o Rangers. Vários jogadores soviéticos se tornaram célebres na Inglaterra, especialmente o goleiro Alexei Khomich, que ganhou o apelido de “O Tigre” por sua elasticidade – e, anos depois, serviria de mentor para ninguém menos do que Lev Yashin.

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Para alguns especialistas, aquela turnê marcou o primeiro aviso sobre a evolução do futebol mundial que os ingleses não acompanhavam mais, e que se consumaria com os famosos 6 a 3 da seleção húngara em amistoso em Wembley. De qualquer maneira, a passagem do Dynamo pela Grã-Bretanha marcou bastante. Não apenas pela maneira como o futebol voltou a mobilizar multidões após a guerra, mas também pelo clima de confraternização que imperava na Europa antes da intensificação da Guerra Fria.