Menos lembrado do que deveria, menos vitorioso do que poderia. Mesmo assim, Everaldo Marques da Silva está entre os grandes do futebol brasileiro. O porto-alegrense nascido há exatos 70 anos, em 11 de setembro de 1944, tem seu nome marcado por quebrar barreiras. Eternizou-se ao ser o lateral esquerdo daquela que é considerada por muitos como a melhor equipe da história, a Seleção de 1970. Ao lado de Piazza e Tostão, foi um dos primeiros campeões do mundo pelo Brasil que não defendia clubes de Rio ou São Paulo. E, por causa do tri, recebeu ainda uma bela homenagem do Grêmio: a estrela dourada acima do escudo, perpetuada após a precoce morte do jogador, quando tinha apenas 30 anos, em um acidente de carro. O ídolo negro que todos os tricolores, inclusive os acusados recentemente de racismo, carregam no peito.

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Exceto por uma breve passagem pelo Juventude, Everaldo dedicou a carreira inteira ao Grêmio. Foi três vezes campeão gaúcho pelo clube, no qual chegou ainda na adolescência. Apesar disso, o respeito ao defensor ultrapassava os limites da rivalidade. Tanto é que ele protagonizou o principal momento de rebeldia contra a seleção brasileira em plena ditadura militar. Por sua causa, gremistas e colorados se uniram contra o Brasil.

O episódio aconteceu em 1972, durante as comemorações dos 150 anos da Independência. Entre os eventos organizados pelo regime de Emilio Garrastazu Médici estava a Taça Independência, chamada de ‘Mini Copa do Mundo’, que contou com a participação de 20 seleções. No entanto, Zagallo preferiu não convocar Everaldo para o torneio. Uma decisão que foi tratada como afronta pelos gaúchos, torcedores do Grêmio e também do Internacional, por excluir da festa o grande nome do futebol do Rio Grande do Sul naquele momento.

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A comoção popular causada pela ausência de Everaldo promoveu uma partida especial. Presidente da federação gaúcha, Rubens Hoffmeister desafiou a seleção brasileira para um duelo no Beira-Rio, tentando aplacar os ânimos de seus conterrâneos. Antes de estrear na Taça Independência, o Brasil precisou enfrentar a seleção gaúcha estrelada por Everaldo. A equipe local contava com quatro jogadores de outros estados e três estrangeiros, mas todos cedidos por Grêmio e Inter. Dentro do próprio país, o time tricampeão foi perseguido pela torcida. Afinal, o que realmente importava para colorados e gremistas era o orgulho regional.

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Na véspera, os jornais relatavam o clima de guerra e de ressentimentos.  Para o Beira-Rio receber o maior público de sua história. “O estádio estava enfurecido. Foram 110 mil pessoas, que vaiaram o Brasil do primeiro ao último minuto. Era como se estivesse em uma situação de guerra, uma manifestação de resistência à ditadura. Uma inevitável referência à Revolução Farroupilha. Também foi a única vez que os rivais se uniram”, afirmou o historiador Cesar Guazzelli, professor da UFRGS, em entrevista à Trivela.

Com o hino vaiado e bandeiras queimadas nos arredores do estádio, o Beira-Rio foi palco de um jogo inesquecível. Tovar, Carbone e Claudiomiro fizeram os gols da seleção gaúcha, sempre à frente no placar. Mas Jairzinho, Paulo César Caju e Rivellino também balançaram as redes, fechando o placar em 3 a 3. Apesar do empate, a honra de Everaldo e dos gaúchos estava lavada.

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Foi um momento de contestação à ordem estabelecida pelo regime militar, em que os gaúchos acabaram criticados pela falta de patriotismo. “Num raro momento de união entre colorados e gremistas, fortalecia-se a identidade gaúcha justamente quando a ditadura tratava de moldar um Brasil de fantasia, unido, próspero e feliz, muito bem representado pela seleção”, escreveu Guazzelli, no artigo ‘A mágoa em chuteiras’. Mais do que o temor, pesaram a idolatria e o bairrismo.

Sem Everaldo, a Seleção conquistou a Taça Independência ao bater Portugal na decisão. E o lateral nunca mais seria convocado. Após agredir o árbitro José Faville Neto em partida do Campeonato Brasileiro, foi suspenso por um ano e jogou por pouco tempo depois disso, entrando para a política. Esteve longe de disputar a Copa de 1974, meses antes de sua morte. O reconhecimento do jogador, contudo, não dependia apenas da camisa amarela, e isso já tinha sido provado. Mais simbólico foi unir colorados e gremistas de maneira tão intensa, assim como servir de símbolo de um dos regionalismos mais fortes do país. Algo que Everaldo conseguiu e que dificilmente será repetido dentro do futebol.