O profissionalismo, em partes, representou uma libertação ao futebol. A adoção do modelo na Inglaterra, em 1885, se tornou fundamental para que a prática do esporte em alto nível deixasse de ser restrita apenas às classes mais abastadas. Ser jogador se tornou uma profissão a tantos que tinham talento e, a partir disso, poderiam se dedicar mais à atividade. O movimento se seguiu em outros países, com reflexos distintos, mas igualmente importantes. Na América do Sul, por exemplo, ajudou a derrubar barreiras também em relação à cor da pele e às origens. A libertação do futebol, porém, não representava necessariamente a liberdade ao futebolista. E por isso mesmo, há 70 anos, argentinos e uruguaios lideraram aquela que provavelmente foi a greve mais significativa da história da modalidade. Processos distintos, mas paralelos e com várias similaridades. O momento em que craques memoráveis se tornaram líderes sindicais.

A adoção do profissionalismo na Argentina e no Uruguai, durante o início da década de 1930, não cessou as reivindicações dos futebolistas. As primeiras organizações em prol dos direitos dos jogadores surgiram exatamente neste momento, exigindo subsídios em caso de lesão e premiações por títulos. No Uruguai, especificamente, os atletas criaram em 1938 a Agrupação de Jogadores Uruguaios Profissionais, presidida por ninguém menos que José Nasazzi, a lenda que se eternizou como capitão da Celeste Olímpica e do título mundial em 1930. A entidade organizou a primeira greve do país, exigindo mais liberdade nas transferências e pagamento de luvas pelos passes. E apesar da paralisação adiar duas rodadas da liga local, muito acabou prometido, mas nada foi solucionado.

A situação dos profissionais do futebol seguia degradante nos anos 1940. Havia um quê de “escravidão moderna” no sistema de passes, nos quais os jogadores estariam ligados por toda a vida ao clube que detinha o seu contrato. Apenas os dirigentes, e não os atletas, decidiam as transferências. Além disso, as arbitrariedades dos cartolas eram comuns.

A insatisfação crescente levou os jogadores a se reorganizarem em ambos os países. Em 1944, surgiu a Futebolistas Argentinos Agremiados (FAA), que representava os interesses da classe no país. Iniciativa reproduzida também do outro lado do Rio da Prata. Dois anos depois, foi criada a Mutual Uruguaia de Futebolistas Profissionais. As reclamações seguiam as mesmas, mas havia uma renovada energia na luta pelos direitos. Em contrapartida, os dirigentes argentinos e uruguaios se recusavam a reconhecer ambas as entidades. E a partir disso se desenrolaram as lutas, durando por meses, cada uma com suas características particulares.

Argentina: O começo do fim

O cenário político contribuiu para que a situação eclodisse. A Argentina vivia momentos de valorização aos direitos dos trabalhadores e os jogadores de futebol passaram a se inserir neste contexto, pedindo melhores condições. O primeiro sinal concreto aconteceu em maio de 1947, quando os futebolistas da primeira divisão fizeram um protesto simbólico: se recusaram a jogar nos primeiros minutos de jogo. Assim, escancaravam as reivindicações por salários mais dignos e a mudança na lei dos passes.

Pouco a pouco, os atritos aumentavam no Campeonato Argentino. Em março de 1948, o ascendente Alfredo Di Stéfano se recusaria a aceitar o salário inicialmente proposto pelo River Plate em sua renovação contratual. Questionou os dirigentes até que chegassem a um acordo, embora permanecesse diretamente envolvido com a FAA. Semanas depois, em abril, veio o estopim: centenas de jogadores se reuniram na sede da Federação Argentina de Boxe e votaram pela greve. Rechaçaram a nova regulamentação proposta pela AFA (a federação argentina) que, segundo eles, piorava as condições de trabalho. Queriam reabrir as discussões com a formação de uma comissão especial mista, que envolvesse atletas e cartolas.

Entre as determinações da AFA, estava a ideia de impedir transferências até 1951; estipular um teto salarial; e garantir que um jogador sem contrato só escolhesse um novo clube com o consentimento dos antigos empregadores, mesmo se recebesse uma melhor oferta salarial. Os atletas se contrapunham a tudo isso, além de pedirem a instituição de um Tribunal Arbitral e o reconhecimento jurídico da FAA. Os principais futebolistas da primeira divisão do Campeonato Argentino abraçavam os ideais. Embora os craques recebessem mais dinheiro, apoiavam o plano de determinar um piso salarial, que contemplasse reservas e também a segunda divisão.

A paralisação da FAA logo seria contornada por Óscar Nicolini, presidente da AFA e homem forte dentro do governo peronista. O dirigente conseguiu a suspensão da greve, ao se reunir com a FAA e transmitir algumas garantias nos debates. O início do Campeonato Argentino aconteceu naquele mesmo mês de abril. No entanto, as tensões cresciam e iam além das quatro linhas. Como efeito do momento conturbado, os clubes dobraram o preço dos ingressos, o que causou a insatisfação dos torcedores e mais revolta dos jogadores, que recebiam apenas uma porcentagem ínfima do montante.

A relação entre AFA e FAA se desgatou aos poucos, sem que a federação ouvisse totalmente o que os jogadores tinham a dizer. Então, em junho de 1948, a entidade nacional resolveu negar quase todos os pedidos feitos pelos futebolistas agremiados. Diante da postura, a FAA se posicionou de maneira ainda mais contundente: se a AFA não aceitasse suas demandas, iniciaria a greve. A federação sequer recebeu os jogadores, que então recorreram à Secretaria do Trabalho. A entidade do governo reconheceu a FAA e apontou irregularidades na AFA, o que acelerou a trégua.

Homem mais ligado ao governo que ao futebol, Nicolini tratou de fazer o meio-campo, auxiliado pelo Ministro da Fazenda. O presidente da AFA se tornou o responsável por amolecer os agremiados e também encarar o conselho diretivo da federação, que não possuía uma postura tão diplomática quanto a sua. Em julho, depois de duas semanas de paralisação dos futebolistas, nas quais os torcedores precisaram lidar com a abstinência de futebol, as entidades começariam a conversar. Clubes e atletas se comprometeram a realizar reuniões periódicas, em que os temas em pauta seriam resolvidos.

As conversas fluíram de maneira razoavelmente satisfatória por três meses, mesmo sem tanta aproximação entre as partes. Contudo, havia um grande obstáculo: a legislação de contratações. Os clubes não queriam abrir mão das comodidades que possuíam no mercado de passes. Em outubro, passou a ser discutido o “Anteprojeto do Regime de Contratação de Jogadores”. Tanto a FAA quanto a AFA deveriam aprovar o texto. Contudo, a federação resolveu arrastar o tema. Para piorar, ao mesmo tempo, os clubes deixavam de cumprir suas obrigações no pagamento de dívidas com os atletas. Os jogadores passaram a sofrer represálias dos dirigentes. Mais uma vez a paciência estourou: na rodada seguinte do Campeonato Argentino, de novo, os futebolistas ficaram parados durante os primeiros minutos de jogo. O protesto geraria um enorme mal-estar entre os dirigentes.

O contra-ataque dos clubes foi ainda mais radical. Os cartolas convocaram uma reunião com a finalidade de encerrar o futebol profissional e retomar o amadorismo, também suspendendo o Campeonato Argentino e proibindo qualquer amistoso. Ao final, o conselho diretivo da AFA decidiu adotar uma postura mais branda, pedindo para que os futebolistas profissionais participassem da reta final da liga em “homenagem aos torcedores”. Ainda assim, ameaçava aqueles que não entrassem em campo com punições e até prometia suspender por dois anos os atletas que decidissem terminar unilateralmente seus contratos vigentes. Obviamente, os apelos não foram atendidos pelos jogadores.

Em 10 de novembro, uma coletiva de imprensa foi convocada pela FAA. Três grandes ídolos locais serviram de porta-vozes à classe: o já aposentado goleiro Fernando Bello, que marcou sua carreira no Independiente e assumiu a presidência do sindicato logo após pendurar as luvas; o defensor Oscar Basso, capitão do San Lorenzo; e o atacante Adolfo Pedernera, antigo craque de La Máquina do River Plate, que naquela época já defendia as cores do Huracán. O trio referendou a nova greve, a terceira em pouco mais de seis meses. Também atacou a “falta de responsabilidade moral” dos dirigentes.

Durante as cinco rodadas finais do Campeonato Argentino, os times foram escalados apenas com jogadores juvenis – exceções feitas às equipes de Rosário e ao Colón. Líder da competição, o Racing decidiu não comparecer aos dois últimos compromissos, revoltado com a situação e favorável à suspensão geral da liga. Desta maneira, o Independiente terminou com a taça. Além disso, por todos os imbróglios, o rebaixamento foi revogado naquela temporada. O conselho diretivo da AFA levava a cabo as promessas de suspender os grevistas por dois anos e instaurava unilateralmente uma comissão para reformar o futebol profissional.

Em 20 de novembro, a FAA encerrou a greve e acionou a Secretaria de Trabalho, mas os clubes não aceitaram os jogadores de volta, mantendo os juvenis no campeonato. Os profissionais diziam que não eram chamados para resolver os conflitos e salientavam que não agiam pero mero lucro, mas por condições mais dignas de trabalho. A falta de abertura logo passou a desmobilizar o sindicato e alguns atletas importantes deixaram a entidade pela falta de perspectivas.

O imbróglio se arrastou até janeiro, quando finalmente a boa nova surgiu, novamente com o intermédio de Nicolini e da Secretaria do Trabalho. A AFA aceitou o novo regime de contratações e parte dos benefícios. Entre as novidades, havia a estipulação do salário mínimo entre os jogadores profissionais. Determinava-se que a folha de pagamentos fosse de 30% das arrecadações líquidas dos clubes. Em contrapartida, o teto salarial não foi descartado e se reduziu substancialmente com as novas divisões de valores. Além disso, vieram novidades também nos contratos. Um jogador não poderia assinar por mais de três anos e, ao final do período, estava livre para acertar com qualquer outro clube.

Ainda houve uma briga que se estendeu até maio. Somente quatro meses depois é que a FAA recebeu o reconhecimento jurídico como entidade responsável pelo interesse dos atletas. A partir disso, firmou-se um convênio coletivo aos futebolistas. Neste intervalo, o Campeonato Argentino de 1949 já havia iniciado suas atividades, com a participação dos profissionais.

As consequências do desgaste e (principalmente) do salário máximo, entretanto, foram devastadoras ao Campeonato Argentino. As principais estrelas do futebol local preferiram buscar novos clubes no exterior – do México à Itália, mas sobretudo na Colômbia. Com o surgimento do Campeonato Colombiano profissional, a debandada à liga pirata do chamado “El Dorado” foi ampla. Como não eram filiados à Fifa, os clubes cafeteros não pagavam os valores das transferências e atraíram os craques pagando salários suntuosos. Formaram verdadeiros esquadrões, com abundante talento argentino – incluindo jogadores do calibre de Di Stéfano, Pedernera, Néstor Rossi, Héctor Rial, José Manuel Moreno, entre outros.

O novo cenário enfraqueceu alguns dos principais clubes e, sobretudo, a seleção. Em tempos nos quais a Albiceleste não convocava jogadores estrangeiros, a equipe nacional ficou à margem das principais competições internacionais. Embora também existissem entraves políticos que servissem de justificativa às ausências nos torneios, o impacto sobre a competitividade do time era inegável. Em partes, uma geração perdida à Argentina.

Uruguai: a liderança de Obdulio

A postura dos argentinos se refletiu no Uruguai. Se as greves nas adjacências de Buenos Aires eram intermitentes, a de Montevidéu demorou mais a começar, mas foi ininterrupta até o cessar-fogo. Os motivos, aliás, eram bem parecidos. Os dirigentes dos clubes se negaram a reconhecer a Mutual Uruguaia de Futebolistas Profissionais. Diziam que a organização era clandestina e não tinha qualquer validade nas discussões por melhores condições. A queda de braço durou até outubro de 1948, quando os jogadores uruguaios fincaram o pé: entraram em greve até que a sua organização fosse devidamente reconhecida. Além disso, incluíram outras pautas na paralisação, como a exigência por salários melhores e reformulações na lei do passe.

Entre os líderes do movimento, estavam Enrique Castro, Alberto “Cacho” Vázquez e Dalton Rosas Riolfo. Sobretudo, estava Obdulio Varela. O meio-campista ainda não havia se transformado na lenda do Maracanazo. Ainda assim, possuía uma ascendência inegável dentro do futebol uruguaio, como referência da seleção e capitão do Peñarol. De origem humilde e semianalfabeto, o Negro Jefe possuía um senso coletivo enorme.

Antes de se profissionalizar, Obdulio trabalhou como flanelinha, vendedor de jornais e pedreiro. Além disso, sempre se meteu na luta por direitos iguais aos seus companheiros. Em 1945, após uma vitória do Peñarol sobre o River Plate em amistoso, os dirigentes carboneros prometeram pagar 250 pesos a cada jogador do time, mas 500 ao capitão. “Por quê? Eu joguei como todos. Se vocês creem que mereci 500 pesos, são 500 para todos. Se eles mereceram 250, eu também”, questionou. E todos os carboneros receberam o mesmo que o dono da braçadeira: 500 pesos. Postura que se repetiu na greve, três anos depois.

O Campeonato Uruguaio de 1948 foi interrompido após dez rodadas – e até hoje permanece inconcluso. Enquanto isso, os jogadores passaram a se mobilizar para conscientizar o restante da população e bancar os salários de outras maneiras. Os craques do país saíam às ruas para arrecadar fundos junto aos torcedores. Além disso, realizavam diversos eventos beneficentes, de bailes dançantes a amistosos – algo que, em menor escala, os argentinos também fizeram. Como os estádios estavam proibidos aos grevistas, eles organizavam partidas nos campos de várzea em Montevidéu. Enfrentavam-se em duelos como “capital x interior” ou “loiros x morenos”, com entrada gratuita, mas passando o chapéu para a colaboração de quem se dispunha a assistir. Muitos profissionais ainda buscaram novas ocupações simultâneas enquanto a paralisação se mantinha. O próprio Obdulio Varela foi um deles, voltando a trabalhar na construção civil.

As autoridades do governo uruguaio se prontificaram a intermediar a negociação. Contudo, o impasse foi criado pelos clubes: queriam o fim da greve para que começassem a debater. Os jogadores, obviamente, não aceitaram a imposição. O Danubio também propôs criar uma comissão composta por dirigentes para dialogar com a Mutual, algo rechaçado pelo restante das equipes. Ao lado dos atletas, ao menos, estava a opinião pública. Imprensa e torcedores davam razão aos grevistas.

Os líderes das greves precisaram enfrentar situações extremas. Obdulio Varela, por exemplo, sofreu tentativas de suborno. Um episódio particular ocorreu durante uma visita do gerente das Fábricas Nacionais de Cerveja. Prometeu doar três milhões de pesos à causa, desde que o capitão posasse com uma caneca de cerveja na mão. O Negro Jefe negou a ideia, dizendo que não era “um manequim”. Porém, dias depois a Comissão de Ajuda à Criança do Campo pediu apoio à Mutual, para que realizassem uma partida em prol de sua obra social. Por conta da greve, seria mais difícil realizar o amistoso, mas as senhoras que faziam parte da organização convenceram Obdulio a ajudar. Logo sua imagem com o tal chope apareceu no almanaque da cervejaria, enquanto a obra social recebeu uma doação de não três, mas cinco milhões de pesos.

A paralisação gerou seus impactos também na seleção. Em abril de 1949, o Campeonato Sul-Americano (atual Copa América) foi realizado no Rio de Janeiro e em São Paulo. A Argentina sequer participou, enquanto o Uruguai enviou uma equipe recheada de juvenis, além de atletas do interior e outros que preferiram furar a greve apenas para auxiliar a Celeste na competição. Os charruas terminaram na sexta colocação, em edição que contou com oito concorrentes.

Naquelas mesmas semanas, em abril de 1949, os acordos seriam sinalizados. Através da ação do presidente da AUF, César Batlle Pacheco, os clubes uruguaios aceitaram negociar, em reuniões que envolveriam apenas representantes secundários das agremiações e da Mutual. Em 4 de maio, a paralisação chegou ao fim. Depois de sete meses, as reivindicações dos futebolistas foram aceitas. Entre as novas medidas, os jogadores passariam a ganhar 10% do valor de suas transferências; os menores de 21 anos tinham liberdade de ação, caso não fossem oferecidos contratos; e o controle dos clubes sobre os passes foram abolidos. Logo os atletas retomaram os treinamentos e o Campeonato Uruguaio de 1949 se iniciou em junho.

A noção vitoriosa sobre a greve, todavia, se quebrou com o tempo. É como avaliou o próprio Obdulio Varela no livro ‘Obdulio desde el alma’, escrito por Antonio Pippo e publicado em 1993. “A greve? Hummmmm… Mal assunto, mal assunto. A gente se equivocou e, ao final, perdemos a guerra. É certo, nos matamos segurando a paralisação, vendendo rifas, trabalhando no que fosse. E não conseguimos nada. A Mutual? Bem, obrigado. Tudo solidário, mas por alguma misteriosa razão, sempre há alguém que tenta se dar bem apenas por si. Naqueles tempos também aconteceram coisas raras. Juntamos dinheiro para a casa dos jogadores, conseguimos sim, mas as contas nunca ficaram claras. É como hoje, salvando as distâncias, quando a própria Mutual não se coloca em acordo para defender o jogador. Encerramos a greve em 1949. Com quais benefícios? Nenhum. Ao final, nos venceram prometendo mil coisas. E depois… Se vi, não me lembro. Ficamos como no início, com uma mão atrás e outra na frente”, analisou.

O ressentimento de Obdulio é compreensível. O Negro Jefe sofreu ataques pessoais ao longo dos sete meses de greve. Os dirigentes tentaram colocar o público contra ele. Em compensação, quando a paralisação se encerrou, começaram a bajulá-lo. Certo dia, o capitão chegou do trabalho e viu um moderno jogo de cozinha, sonho de sua esposa, sendo entregue em sua casa. Perguntou à mulher se ela havia comprado aquilo, mas os entregadores afirmaram que aquilo era “presente” dos cartolas do Peñarol – uma tentativa suja de restabelecer as pazes. O meio-campista mandou levarem de volta.

Obdulio chegou mesmo a prometer que nunca mais defenderia o Peñarol. Recebeu uma proposta do Boca Juniors, que não aceitou por causa da greve. E depois de encerrada a paralisação, sob os rumores de que o capitão atuaria no exterior, a torcida carbonera e os antigos companheiros tiveram peso para que ele mudasse de ideia.

“As pessoas me paravam nas ruas, pediam que eu voltasse. Recebia cartas de pessoas desconhecidas que me mostravam seu afeto sincero, sua admiração. Até os companheiros do elenco vieram me convencer, falando bem e com sinceridade, como se deve. Se fosse coisa dos dirigentes, eu não aceitava. Mas toda essa gente… Não sei se acreditam em mim, mas eu sempre pensei nos demais, às vezes minha cabeça bagunçava quando refletia sobre as consequências das minhas atitudes. Sou um simples ser humano, modesto, quase ignorante. É lógico que estou cheio de contradições. Ninguém é branco branco ou negro negro, todos temos muito cinza por dentro. Não é assim? Natural, e eu não seria a exceção. Ao final, como não sou rancoroso, mas contrário às injustiças, voltei a pôr a camisa do Peñarol. E como em quase todas as coisas da vida, até agora sigo me perguntando fiz bem”, confessou, em sua autobiografia.

O retorno de Obdulio Varela ao Peñarol também reabriu as portas da seleção ao capitão. Seria ele o responsável por liderar a Celeste na Copa do Mundo de 1950. E os reflexos da greve seguiam no elenco. O ambiente ainda era agitado, não apenas pelas tensões com os dirigentes, mas também pela divisão com alguns jogadores. Segundo o Negro Jefe, os futebolistas quase se recusaram a viajar ao Brasil. Dias antes de pegar o avião, o capitão se encontrou com o presidente da AUF. Pediu um emprego, caso contrário não viria ao Rio de Janeiro. Ao final, o cartola ofereceu um trabalho no cassino, onde o veterano seguiu provendo sustento à família depois de pendurar as chuteiras. Além disso, a própria preparação do time foi conturbada, com improvisações e desordem.

Obdulio teve um papel central para manter o foco da seleção uruguaia. Um episódio importante aconteceu após a estreia na Copa, com a goleada por 8 a 0 sobre a Bolívia. Após o jogo, alguns companheiros saíram para farrear e a bronca dada pelo capitão ajudou a escancarar qual era o objetivo dos charruas. Além disso, há a relação particular com Matías González. O defensor não aderiu à greve e a furou durante o Sul-Americano de 1949, viajando ao Brasil. Por motivos óbvios, o atleta do Cerro passou a ser boicotado pelos colegas. Foi justamente o Negro Jefe quem auxiliou na reintegração de González, titular em todas as quatro partidas do Mundial.

“Passou que esse rapaz não havia nos acompanhado na greve de 1948. Pelo contrário, furou. São coisas dos homens, cada um sabe sobre si, não gosto de julgar ninguém como se fosse Deus. Além do mais, eu entendia que toda essa história da greve havia passado. Matías era um bom jogador, um jogador necessário. E não era mau companheiro. Eu tinha que trabalhar pela unidade do grupo, porque enfrentaríamos os melhores. Os outros tinham colocado Matías de lado, não conversavam com ele, deixavam no vácuo. Isso não poderia seguir assim, estávamos prejudicando todos. E um dia no qual encontrei Matías bebendo cerveja sozinho, de lado, eu resolvi chamar a todos e disse algo muito simples: não estávamos para discutir o passado, mas para sairmos como campeões do mundo. Olhei a Matías, olhei aos demais, e me saiu aquilo de que ‘os orientales nunca bebem sozinhos’. Coisa de quem já andou muito pelas ruas. E o assunto se resolveu, de início mais ou menos, depois com todos”, relatou Obdulio.

O final daquela Copa todos sabem. Pouco mais de um ano após o fim da greve, o Uruguai silenciou o Maracanã ao vencer o Brasil. Obdulio foi uma das grandes figuras da partida, especialmente por recobrar o brio da Celeste, quando havia pouca confiança de que poderiam vencer os brasileiros. Depois, sairia errante pelas ruas do Rio de Janeiro, sentindo o abatimento que se deu sobre os torcedores e se arrependendo da vitória – sobretudo, pela maneira como os jogadores uruguaios foram usados pelos dirigentes. Depois do que ocorrera, os próprios cartolas se aproveitaram da glória para se premiar. O Negro Jefe seguiu sem se curvar, mesmo que não tivesse muito dinheiro, mesmo que a mágoa o acompanhasse. Seu caráter, ao menos, permaneceu inquebrantável.