Por Emmanuel do Valle, jornalista e dono do blog Flamengo Alternativo

Jogadores e torcedores mal podiam imaginar, mas o título inglês do Manchester United em 1956-57 marcaria o fim de uma era. Há exatos 60 anos, os Red Devils goleavam o Sunderland por 4 a 0 em Old Trafford e conquistavam o bicampeonato nacional. Aquela, no entanto, seria a última taça levantada pelos Busby Babes, o jovem elenco reunido pelo técnico Matt Busby, que parecia iniciar uma hegemonia no futebol inglês. Em fevereiro do ano seguinte, o time teve sua trajetória vitoriosa interrompida pelo desastre aéreo de Munique.

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Ex-jogador de dois rivais dos Red Devils – o Manchester City e o Liverpool – nas décadas de 1920 e 1930, o escocês Matt Busby chegou ao Manchester United em fevereiro de 1945, convidado pelo presidente do clube na época, James Gibson. Sua aceitação do cargo foi condicionada a que ele tivesse plenos poderes para não apenas comandar os treinos como também escalar a equipe e gerenciar diretamente a compra e venda de jogadores, atribuições que passavam longe do trabalho usual de um treinador na época.

Busby, um profundo conhecedor de futebol e que dominava a arte de passar suas ideias aos jogadores e de comandar o elenco, trouxe a Old Trafford no ano seguinte o auxiliar técnico Jimmy Murphy. Galês de boa oratória e bastante persuasivo em seu discurso, Murphy tinha também um olho clínico para jovens talentos. A maior prova dessas características foi a contratação de um jovem promissor de Dudley chamado Duncan Edwards.

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Torcedor do Wolverhampton – na época uma das equipes mais fortes do país – e nascido a poucos quilômetros da sede de seu clube de coração, Edwards se destacara numa competição de juvenis e chamara a atenção de vários clubes, incluindo o Liverpool e os próprios Wolves. Coube a Murphy convencer os pais do jovem de que seu futuro estava um pouco mais ao norte.

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A aposta nos jovens já era uma ideia posta em prática no clube desde pouco antes da paralisação das competições em virtude da Segunda Guerra Mundial. Às vésperas de ser deflagrado o conflito, no fim dos anos 1930, um grupo de professores fundou o Manchester United Juniors Athletic Club, oferecendo estrutura para ajudar no desenvolvimento dos talentos novatos que chegavam a Old Trafford.

Os resultados da combinação da política do clube com a astúcia da nova comissão técnica não tardaram em aparecer. Em 1953, a Football Association criou a FA Youth Cup. E o time sub-18 do Manchester United conquistou logo de cara as cinco primeiras edições do torneio, entre 1953 e 1957. E logo em seguida estes jovens de 16, 17 anos seriam promovidos ao time de cima. Naquela temporada 1956-57 em que defenderia o título da liga, o elenco era majoritariamente jovem e formado no próprio clube. Dos 18 atletas que mais atuaram, 12 tinham até 23 anos ao início da campanha e apenas quatro haviam trazidos de fora.

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O time começava com o goleiro Ray Wood, contratado do Darlington no fim de 1949 com apenas 18 anos. No esquema WM, padrão no futebol inglês da época, Bill Foulkes era o lateral-direito, Mark Jones era o zagueiro central e Roger Byrne, um dos mais experientes do elenco, era o lateral-esquerdo. A dupla de médios era formada por Eddie Colman (pela direita) e Duncan Edwards (pela esquerda), ambos com 19 anos ao início da temporada.

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A linha de ataque tinha como meias “internos” o irlandês Liam Whelan e Dennis Viollet, de 21 e 22 anos, respectivamente. Nas pontas, Johnny Berry (o veterano daquela equipe) jogava pela direita e David Pegg pela esquerda. E Tommy Taylor, que largara o emprego nas minas de carvão para se profissionalizar como jogador no Barnsley, era o centroavante.

O elenco trazia ainda outras peças bastante utilizadas, como o zagueiro central norte-irlandês Jackie Blanchflower (irmão do lendário Danny Blanchflower, do Tottenham), o atacante galês Colin Webster, o médio Wilf McGuinness (de apenas 18 anos, e que mais tarde teria passagem como treinador no clube), além de outro garoto muito talentoso também de 18 anos que estreara naquela temporada: um atacante chamado Bobby Charlton.

A campanha na liga

Atual campeão inglês, o United começou a nova temporada voando. Foram dez vitórias e dois empates nos primeiros 12 jogos. A curiosidade fica por conta da tabela, num tempo em que a liga inglesa marcava aleatoriamente a sequência dos jogos, sem a noção de turno e returno. Assim, ainda em agosto, primeiro mês de campeonato, o United já havia enfrentado duas vezes aquele que seria um de seus principais adversários pelo título, o Preston North End, vencendo tanto fora de casa (3 a 1 no dia 20) quanto em Old Trafford (3 a 2, nove dias depois).

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Líder com grande vantagem, o United só sofreria sua primeira derrota no fim de outubro, e de modo surpreendente, goleado por 5 a 2 pelo Everton em casa. O revés prenunciaria uma sequência difícil contra Blackpool, Wolverhampton (segundo e terceiro colocados na temporada anterior, respectivamente) e o bom time do Bolton. A única vitória viria contra os Wolves em Old Trafford (3 a 0), mas tropeços fora de casa diante dos rivais de Lancashire (empate em 1 a 1 com os Tangerines e derrota por 2 a 0 para os Trotters) afastariam momentaneamente o United da primeira colocação, superado no goal average pelo Tottenham.

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Após a vitória por 3 a 2 sobre o Leeds, em 17 de novembro, o time não deixaria mais a ponta da tabela em nenhum momento, tendo ainda seu auge goleador entre dezembro e fevereiro, batendo por placares dilatados o Chelsea (3 a 0), o Newcastle (6 a 1), o rival Manchester City em Maine Road (4 a 2), o Arsenal (6 a 2) e o Charlton fora de casa (5 a 1). O momento seguinte, porém, seria o de fazer valer a reserva de pontos acumulada: entre o fim de fevereiro e o começo de abril, enquanto brigava também na FA Cup, o United andou rateando na liga, com apenas duas vitórias em sete jogos, além de tropeçar de novo no Blackpool e no Bolton, perdendo em casa para ambos por 2 a 0.

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Mesmo assim, a boa vantagem na liderança não preocupava a equipe. E a má fase de resultados seria demolida a partir de 13 de abril, ao bater o Luton por 2 a 0 fora de casa, iniciando uma série de cinco vitórias consecutivas – incluindo duas contra o Burnley. Entre esses dois triunfos diante dos Clarets veio o jogo que valeu o título, uma goleada de 4 a 0 sobre Sunderland em Old Trafford, com dois gols de Liam Whelan, um de Duncan Edwards e outro de Tommy Taylor.

O time de Matt Busby terminaria o campeonato com expressivos oito pontos à frente de Tottenham e Preston e com 11 de vantagem sobre o Blackpool (vale lembrar: a vitória valia dois pontos na época). Teve ainda o segundo melhor ataque do torneio – com espantosos 103 gols, um a menos que os Spurs – e a segunda melhor defesa – sofrendo 54 gols, número maior apenas que o do Burnley.

As duas outras frentes de batalha

Além do bicampeonato da liga, o Manchester United também chegou perto do título em duas competições eliminatórias, cumprindo grande campanha e chegando longe em ambas: a Copa da Inglaterra (a única do país na época, já que a Copa da Liga só seria criada dali a quatro anos) e a Copa dos Campeões.

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Na FA Cup, o United foi avassalador, passando por todos os adversários logo no primeiro jogo, até chegar à final. No caminho até Wembley, derrubou Hartlepool, Wrexham, Everton, Bournemouth e Birmingham (este, no campo neutro de Hillsborough). Era favorito na decisão contra o Aston Villa, décimo colocado na liga. Se vencesse, tornaria-se o primeiro clube a fazer a dobradinha no século (precedendo em quatro anos o feito que seria do Tottenham).

Mas a partida acabaria marcada pela lesão do goleiro Ray Wood logo aos seis minutos, num choque pelo alto com o ponta-esquerda norte-irlandês Peter McParland, do Villa. Wood faturou o malar e teve que ceder o posto ao médio Jackie Blanchflower, já que as substituições não eram permitidas na época. O arqueiro improvisado não conseguiu impedir a vitória do Aston Villa por 2 a 1, com dois gols de McParland antes de Tommy Taylor descontar para o United no fim da partida.

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Já na Copa dos Campeões, o primeiro adversário do United apareceu antes mesmo da bola rolar: o clube precisou enfrentar a oposição da Football Association inglesa, que havia convencido o Chelsea a boicotar o torneio na temporada anterior, mas não teve o mesmo êxito com os mancunianos. Contrariando a federação, o United confirmou sua participação no torneio e estreou contra os belgas do Anderlecht, então amadores.

A vitória por 2 a 0 em Bruxelas já deixou a classificação encaminhada, enquanto o jogo da volta foi um passeio: o United fez 10 a 0, com quatro gols de Dennis Viollet, três de Tommy Taylor, dois de Liam Whelan e um de Johnny Berry. O detalhe curioso é que aquela partida (assim como os jogos em casa das duas fases seguintes) foram disputadas no estádio do rival Manchester City, em Maine Road, já que Old Trafford não dispunha na época de refletores para os jogos noturnos de meio de semana, como era o caso das partidas das copas europeias.

Na etapa seguinte, o adversário seria o Borussia Dortmund. No primeiro jogo, em Manchester, o United abriu 3 a 0 antes do intervalo, viu os alemães descontarem duas vezes, mas segurou a vitória. Um empate sem gols em Dortmund no jogo de volta garantiu a classificação.

Nas quartas foi a vez de encarar o forte Athletic Bilbao, que vinha de eliminar o Honvéd de Puskás na fase anterior. No San Mamés, foi o Athletic quem abriu 3 a 0 no primeiro tempo. O United descontou duas vezes, sofreu mais dois gols, mas marcou o terceiro a cinco minutos do fim com Liam Whelan. No jogo de volta, Dennis Viollet abriu o placar no primeiro tempo e Tommy Taylor ampliou na metade do segundo. O gol da classificação, que evitou um jogo extra, foi marcado Johnny Berry, novamente a cinco minutos do encerramento.

O adversário das semifinais, no entanto, revelaria-se forte demais para o time de Matt Busby: nada menos que o Real Madrid de Di Stéfano. No primeiro jogo, no Chamartín, vitória merengue por 3 a 1, gols de Rial, do próprio Di Stéfano e de Mateos, com Tommy Taylor marcando para os ingleses. Na volta, finalmente em Old Trafford, a situação se complicou ainda mais quando os madridistas marcaram duas vezes ainda na primeira etapa, com Kopa e Rial. O empate, com gols de Tommy Taylor e Bobby Charlton, foi tudo o que o United conseguiu. O título europeu demoraria pouco mais de uma década para chegar a Manchester.

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O acidente com o voo 609 da British European Airways no aeroporto de Munique em 6 de fevereiro de 1958 provocou a morte instantânea de sete jogadores do United: os defensores Mark Jones, Geoff Bent e Roger Byrne, o médio Eddie Colman, o meia-armador Liam Whelan e os atacantes Tommy Taylor e David Pegg. Salvo no desastre, mas em estado grave, Duncan Edwards morreu 15 dias depois no hospital. As múltiplas lesões sofridas na colisão também forçaram o fim das carreiras de Johnny Berry e Jackie Blanchflower.

O próprio Matt Busby permaneceu dois meses internado e chegou a receber a extrema unção por duas vezes, mas sobreviveu. Embora tivesse pensado em abandonar o futebol, voltou ao fim da temporada após ser substituído temporariamente no cargo por Jimmy Murphy – que escapou de viajar por compromissos com a seleção do País de Gales.

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Com reservas, jovens promovidos e jogadores contratados de última hora, o United acabou se distanciando da briga pelo tricampeonato inglês, despencando para a nona posição. Por outro lado, conseguiu chegar à decisão da FA Cup, sendo derrotado pelo Bolton, e ainda bateu o Milan em Old Trafford no jogo de ida das semifinais da Copa dos Campeões, mas acabou eliminado com uma goleada por 4 a 0 em San Siro. O Real Madrid, que viria a ser o campeão, chegou a sugerir que os ingleses ficassem com a taça, mas a questão não foi levada adiante.

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Pelas seis temporadas seguintes, o clube oscilaria na liga. Terminaria com o vice-campeonato em 1959 e 1964 e flertaria com o rebaixamento em 1963. Neste mesmo ano, voltaria a Wembley decidindo a FA Cup contra o Leicester e finalmente levantando a taça depois de 15 anos. Já o título da liga voltaria a ser dos Red Devils somente na temporada 1964-65, após disputa acirrada com o recém-promovido Leeds de Don Revie, decidida nos critérios de desempate. Apenas Bill Foulkes e Bobby Charlton, além de Matt Busby, eram remanescentes da última conquista. E já era outro momento do futebol inglês.