A Copa Libertadores não surgiu apenas para determinar o melhor clube da América do Sul. Logo em seus primórdios, a competição já representaria algo além do Oceano Atlântico: indicava o time mais forte do continente para enfrentar o campeão europeu e, assim, sacramentar qual era o “melhor clube do mundo”. Não é coincidência que, apenas duas semanas após conquistar a recém-criada Copa dos Clubes Campeões da América, o Peñarol logo receberia o Real Madrid penta da Champions, na primeira partida da Copa Intercontinental. E foi há exatos 60 anos, em 4 de setembro de 1960, que os merengues puderam se proclamar como os primeiros “campeões mundiais”. Com uma goleada inapelável por 5 a 1 em cima dos uruguaios no Estádio Santiago Bernabéu, os madridistas faturaram o inédito troféu.

As iniciativas de organizar uma competição entre os melhores clubes da Europa e da América do Sul começaram a surgir a partir da década de 1950. A Copa Rio foi uma precursora neste sentido, aproveitando o sucesso da realização da Copa do Mundo de 1950 – e também o vazio deixado pelo Maracanazo. A Venezuela teve uma versão similar de competição internacional com a Pequeña Copa del Mundo de Clubes. Excursões internacionais e outros torneios de tiro curto motivavam a ideia. Entretanto, a criação da Copa dos Campeões da Europa permitiria um caminho para oficializar a nova disputa.

O Real Madrid se coroou como campeão europeu pela primeira vez em 1956, mas em seus quatro primeiros títulos não havia um oponente de outro continente para enfrentar no “Mundial”. A concepção da Libertadores, inspirada no antigo Campeonato Sul-Americano de Clubes de 1948 e também no similar da Europa, ocorreria em 1958. Durante o Congresso Sul-Americano no Rio de Janeiro, o pai da sugestão seria Pierre Delaunay – então presidente da Uefa. Ele propôs a criação de uma copa que apontasse a maior força entre os clubes da América do Sul e, assim, em confrontos anuais, se disputasse uma taça intercontinental com os campeões europeus.

Ainda houve certa resistência entre os dirigentes da América do Sul, temerosos que isso custasse o prestígio do Campeonato Sul-Americano de seleções. Por fim, em 1959 bateu-se o martelo e, a partir do ano seguinte, o continente ganharia sua própria competição entre campeões nacionais. Em 1960, seria formada a então chamada Copa dos Clubes Campeões da América – cujo troféu, desde os primórdios, homenageava os Libertadores em seu nome. O torneio em tiro curto se concentrou ao longo de apenas três meses. Sete países tiveram seus representantes e, em mata-matas, o Peñarol se provou como melhor equipe da América do Sul. Depois de eliminar Jorge Wilstermann e San Lorenzo nas fases anteriores, bateu o Olimpia nas finais.

Enquanto isso, o Real Madrid desfrutava de sua impressionante hegemonia na Europa. A conquista da quinta Champions consecutiva, sem dúvidas, foi a mais antológica. Na decisão em Glasgow, os merengues golearam o Eintracht Frankfurt por 7 a 3. Foi uma exibição de gala de Alfredo Di Stéfano, autor de três gols, e de Ferenc Puskás, com mais quatro tentos na conta. Os alemães-ocidentais não fizeram uma partida ruim, apesar do placar. Todavia, a inspiração dos espanhóis rendeu uma das maiores atuações da história, com direito a um show particular nos instantes finais.

O Real Madrid vinha de uma temporada particular, aliás. Os merengues iniciaram suas campanhas sob as ordens de Manuel Fleitas Solich e com a contratação estelar de Didi. O treinador não caiu nas graças dos medalhões do elenco, saindo no meio do caminho, assim como o craque brasileiro não se aclimatou ao futebol espanhol. A equipe deixou escapar a taça de La Liga pelo segundo ano consecutivo para o Barcelona e, já na reta final da temporada, o antigo capitão Miguel Muñoz acabou alçado como técnico. Seria ele o responsável por comandar a guinada na Champions, eliminando o próprio Barcelona com duas vitórias nas semifinais, antes da consagração em Hampden Park diante do Eintracht Frankfurt. Por fim, em junho, o Madrid perdeu a decisão da Copa do Rei contra o rival Atlético por 3 a 1.

Dentro de campo, o talento do Real Madrid falava por si. Os merengues tinham seus craques sul-americanos, encabeçados por Alfredo Di Stéfano, o grande dono do time, onipresente dentro de campo. Também alinhavam o goleiro Rogelio Domínguez, o ponta Canário e o zagueiro José Santamaría – uruguaio que conhecia o Peñarol pelo outro lado da rivalidade, antigo ídolo do Nacional. Já entre os craques espanhóis, destacavam-se Luis del Sol e Gento – desfalque na ida, dentro do Centenario, por lesão. E, claro, havia Ferenc Puskás. Aposta depois de fugir da Hungria, o Major Galopante mostrava que o período parado ou a dificuldade em manter a forma física não eram entraves suficientes para que se desprezasse sua enorme habilidade.

O Peñarol não ficava por menos. A conquista do Campeonato Uruguaio de 1959 foi tardia, com o jogo-desempate diante do Nacional ocorrido apenas em março de 1960. Os carboneros se impuseram e iniciaram um período invicto, também com o começo da campanha que renderia mais um título no Campeonato Uruguaio ao fim daquela temporada. Antes disso, os carboneros emendaram a trajetória vitoriosa na Libertadores. A equipe de Roberto Scarone não perdeu um jogo sequer no torneio continental, apesar de certos riscos corridos.

Após o passeio contra o Jorge Wilstermann na fase inicial, incluindo uma goleada por 7 a 1 na abertura da competição, o Peñarol empatou as duas contra o San Lorenzo nas semifinais – o que forçou um jogo extra. Para reduzir os custos de um duelo em campo neutro, os argentinos aceitaram dividir a renda no Centenario e encarar os aurinegros outra vez em Montevidéu. Perderam. Já na decisão, o Peñarol venceu a ida em casa e ia perdendo a volta fora até os 38 do segundo tempo, quando Luis Cubilla decretou o empate por 1 a 1 contra o Olimpia e permitiu a volta olímpica dos charruas em Assunção.

A base dirigida por Roberto Scarone era fortíssima. O sistema defensivo contava com a liderança de William Martínez, veterano da Copa de 1950 que herdou a braçadeira de capitão de Obdulio Varela. Néstor “Tito” Gonçalves era outro famoso caudilho por ali, mais solto para apoiar, enquanto o brasileiro Salvador o acompanhava na proteção na cabeça de área. Na ligação, Luis Cubilla combinava qualidade técnica e poder de decisão, dois anos antes de se transferir ao Barcelona. Já no ataque, o nome mais respaldado era o de Juan Hohberg. Lenda carbonera especialmente pelos feitos no início dos anos 1950, estava em seus últimos momentos no clube. Menos conhecido era um tal de Alberto Spencer, trazido do Equador no início do ano, mas que não demorou a cair nas graças da torcida por seus muitos gols e pelo papel de herói na Libertadores.

Na época, a Fifa impediu que se usasse o nome de “Copa Mundial”, como queriam Uefa e Conmebol. Assim, a organização do torneio convencionou em chamá-lo oficialmente como Copa Intercontinental. De qualquer maneira, a imprensa indicava o vencedor daquele duelo como campeão mundial. “Queremos que o Mundial seja verdadeiro, embora não se possa esquecer que não participaram da Copa Intercontinental de Clubes os africanos, asiáticos ou oceânicos. Mas cabe perguntar, com razão, se existe um futebol qualificado nesses três continentes ou nas calotas polares à digna altura dos dois grupos de nações que marcam a pauta em velho e novo mundo”, questionava o Mundo Deportivo, com pertinência. Já o troféu, uma bola dourada sobre um suporte metálico, trazia as imagens de ambos os continentes. Os continentes também eram carregados no peito pelos jogadores dos clubes, substituindo o escudo nas camisas.

A primeira partida aconteceu em 3 de julho de 1960, em Montevidéu. As expectativas entre os uruguaios eram enormes e, não à toa, aquele duelo intercontinental entrou para história pelo recorde de ingressos vendidos em um jogo no Centenario – apesar do público inferior aos registrados na Copa de 1930. Foram mais de 71 mil entradas adquiridas para ver o embate, com público total de 78.872 espectadores. O Real Madrid era tratado com frenesi e os jogadores tinham dificuldades até para sair do hotel, tamanha a confusão que provocavam nas ruas de Montevidéu. A ocasião reuniria uma enorme massa de imigrantes espanhóis residentes no Uruguai e na Argentina, interessados em empurrar os merengues. De qualquer maneira, os visitantes pregavam respeito diante do Peñarol, apontado como favorito em casa. A seleção uruguaia estava concentrada no período para amistosos e liberou os atletas carboneros.

O futebol apresentado no Centenario não seria dos melhores. O gramado virou um lamaçal por conta do temporal que caíra horas antes do apito inicial e os esquadrões não passaram do empate por 0 a 0. O resultado diante do Peñarol foi tratado como um “triunfo do futebol espanhol”, segundo o catalão Mundo Deportivo. Havia um tom de hostilidade na imprensa, pela própria maneira como declarava o encontro como o “choque do século”. Porém, os espanhóis foram bem recebidos pela torcida em sua entrada em campo, apesar da pressão que as arquibancadas lotadas exerciam. Ouviram-se vaias apenas aos sul-americanos do lado merengue, sobretudo a Santamaría, tratado como traidor pelos compatriotas.

Como já ocorrido na final da Copa de 1930, cada tempo seria disputado com a bola confeccionada em um país. A primeira etapa teve a pelota uruguaia, mas viu um Real Madrid melhor. Mesmo sem impor sua velocidade por conta do campo cheio de poças, os merengues dominaram as ações, sem superar o goleiro Luis Maidana. Di Stéfano e Puskás se viam bem marcados por Salvador e Gonçalves. E, pouco antes do intervalo, quando a torcida da casa reclamou um pênalti de Di Stéfano sobre Hohberg, o árbitro deixou passar. Naturalmente era uma partida dura, com muita firmeza nas divididas.

Na volta ao segundo tempo, Puskás esteve a ponto de marcar. O húngaro aproveitou a falha do goleiro Maidana e bateu às redes vazias, mas o capitão William Martínez salvou heroicamente o lance. Com a bola espanhola, o Real Madrid parecia tocar com mais leveza, ajudado também pelo gramado um pouco mais seco. Mas o Peñarol acordou e respondeu com um bombardeio na área adversária. Os arremates e os cruzamentos eram constantes, com Santamaría liderando a resistência merengue. Walter Aguerre foi quem mais assustou, em tiro que saiu roçando a trave. Do outro lado, Del Sol levava perigo nos contragolpes, mas nada suficiente para tirar o zero do marcador no Centenario.

Depois da partida, Miguel Muñoz declarou que o Real Madrid “poderia ter vencido”, ainda assim satisfeito com o resultado. Elogiou seus jogadores por seguirem muito bem a estratégia e por evitarem os riscos de lesões, pelo estado do campo. Do outro lado, Roberto Scarone avaliou que o desgaste físico do primeiro tempo no campo pesado atrapalhou um rendimento ainda melhor do Peñarol na segunda etapa, não permitindo que os aurinegros se impusessem totalmente. Capitão do Real Madrid, o médio José María Zárraga ainda agradeceu a acolhida proporcionada pelo público uruguaio na saída de campo. À noite, um grande jantar no Jockey Club de Montevidéu promoveu a confraternização entre os jogadores.

“Aquela notável diferença de jogo e de eficácia que mostraram as equipes argentinas há alguns anos na Espanha, diferença que deixava o jogo espanhol em clara inferioridade sobre o americano, não se produziu agora. As técnicas individuais e as táticas de conjunto estão agora equiparadas. São similares e poderia se dizer que não existe uma supremacia manifesta. Por isso, nos confrontos entre grandes clubes europeus e americanos, entra em jogo a inspiração individual e a fortaleza dos times em todo o seu conjunto. O Real Madrid, que é um grande time na Europa, pode atuar com dignidade na América frente às maiores equipes americanas, sejam argentinas, brasileiras, uruguaias ou de qualquer país além dos mares. Se na Europa pode passear vitorioso, também o faz quando joga do outro lado do Atlântico, como nesta ocasião, porque empatar diante do time qualificado como campeão da América é uma nova demonstração triunfal de sua indiscutível condição de campeão”, escreveu o jornal ABC no dia seguinte, em elogio ao Real Madrid, mas também com enorme respeito aos sul-americanos.

Foram dois meses de intervalo até que o reencontro acontecesse em 4 de setembro, no Estádio Santiago Bernabéu. O Peñarol seguia uma disputa acirrada com Nacional e o surpreendente Cerro no Campeonato Uruguaio. Já o Real Madrid apenas voltava das férias, a uma semana de iniciar sua nova temporada no Campeonato Espanhol. Boa notícia aos merengues, Gento estava de volta e atuaria na ponta esquerda. Enquanto isso, o Peñarol não contou com Tito Gonçalves, que tinha uma amigdalite e ardia em febre na véspera da decisão.

A comoção na Espanha ao redor da Copa Intercontinental foi parecida à vista no Uruguai. Mais de 120 mil pessoas se espremeram nas arquibancadas do Bernabéu. Enquanto isso, o jogo teve transmissão ao vivo na televisão para 13 países da Europa – atingindo uma expressiva audiência de 150 milhões de pessoas. E o público pôde presenciar o esplendor do Real Madrid, que confirmou o favoritismo e o bom resultado arrancado em Montevidéu: os merengues golearam por impiedosos 5 a 1, em resultado determinado logo nos dez primeiros minutos, com três gols precoces. Puskás, para variar, protagonizou a façanha.

Com três minutos, o placar estava aberto sob a chuva de Madri. O Real Madrid trocou passes com enorme facilidade diante da marcação uruguaia e Puskás arrematou cruzado, com o goleiro Maidana saindo atrasado. Um minuto depois, os espanhóis ampliaram. Puskás soltou o canudo de fora da área, carimbou Di Stéfano e o desvio do argentino tirou Maidana. Di Stéfano ainda perderia duas ótimas oportunidades na sequência. Já aos nove, uma cobrança de falta rasante de Puskás pegou efeito e terminou dentro da meta carbonera. Com o placar garantido, os anfitriões puderam desfrutar da noite e aplicar seu jogo veloz, sem que o Peñarol desse grandes sinais de reação. Nem mesmo a lesão de Marquitos, que seguiu em campo, fez os madridistas sofrerem grandes apuros.

A goleada seria ampliada pouco antes do intervalo. Chus Herrera saiu de frente para o gol e mandou no canto. O ponta direita, que entrou no lugar de Canário, seria outro destaque daquela ocasião – dois anos antes de sua morte precoce, aos 24 anos, vítima de um câncer. E o quinto se consumou no início do segundo tempo. Num contragolpe, Gento aproveitou a saída desesperada do goleiro Maidana e arriscou do meio da rua, numa pintura por cobertura. O Peñarol dominaria a partida depois disso, apresentando também sua qualidade técnica e o bom manejo. Mas o gol de honra só aconteceu a dez minutos do fim, com Spencer, numa finalização que bateu em ambas as traves. Nada que esfriasse o êxtase ao redor do Real Madrid, com a taça entregue ao capitão Zárraga.

“Viajei de Roma para Madri para ver uma final que durou 10 minutos, mas viajaria com gosto outras 10 vezes para ver o primeiro gol de Puskás”, escreveria o jornalista Jean Eskenazy, no L’Equipe. O Mundo Deportivo avaliava que a “qualidade técnica dos uruguaios não foi respaldada por sua situação tática nem pela necessária rapidez na concepção esportiva”. Já o ABC pontuou: “Se no futebol existisse nocaute como no boxe, a primeira final do torneio intercontinental, autêntico campeonato mundial de clubes de futebol, teria terminado aos nove minutos, por fora de combate do Peñarol”.

No vestiário do Real Madrid, o técnico Miguel Muñoz rechaçava um placar exagerado, afirmando que “o Madrid jogou um primeiro tempo magnífico de rapidez, genialidade e profundidade”. Já o comandante uruguaio Roberto Scarone chamava os adversários de “fantásticos” e avaliou que fizeram uma “partida maravilhosa para se tornarem os legítimos campeões do mundo”. Por fim, o herói Puskás também atribuía um bocado de sorte aos merengues: “Em nossos primeiros minutos, dois gols decidiram o encontro. De outra forma, talvez as coisas tivessem sido mais difíceis, mas creio que demonstramos a superioridade sobre os campeões americanos e a vitória não nos escaparia”. Ao final da noite, um novo banquete seria oferecido a jogadores e dirigentes.

Aquela conquista marcaria o fim de uma série de triunfos internacionais do Real Madrid. Em novembro, o clube sucumbiu diante do Barcelona na busca pelo hexa da Champions, com o famoso gol de peixinho anotado por Evaristo de Macedo. Seria, ao menos, pentacampeão de La Liga naquela sequência de anos. O Peñarol, por sua vez, daria a volta por cima em pouco tempo. Conquistou o bicampeonato da Libertadores em 1961 e, na nova Copa Intercontinental, derrotou o Benfica – com direito a goleada por 5 a 0 no Centenario, embora o resultado tenha forçado um jogo extra depois da derrota por 2 a 1 na ida.

Curiosamente, haveria um reencontro entre Real Madrid e Peñarol na Copa Intercontinental. Em 1966, enquanto os merengues enfim erguiam a sexta taça na Champions, os carboneros levavam também seu terceiro título na Libertadores. Spencer e Tito Gonçalves eram os remanescentes de 1960 no Peñarol, enquanto o Real Madrid mantinha Gento e o técnico Miguel Muñoz. Pois houve revanche: depois dos 2 a 0 no Centenario, os aurinegros ganharam pelo mesmo placar no Bernabéu. Spencer fez três gols naquelas finais, enquanto Pedro Rocha completou a contagem ao time então dirigido pelo ex-goleiro Roque Máspoli. As expectativas e a comoção, ainda assim, não se comparavam ao vivido seis anos antes.