Depois de algumas goleadas, viradas épicas, ausências, interferências políticas e, como sempre, com muitos craques em campo, a Europa assistia há exatos 60 anos o desfecho de sua primeira competição verdadeiramente continental de seleções. A vitória da União Soviética por 2 a 1 sobre a Iugoslávia na prorrogação, em partida disputada no Parque dos Príncipes, em Paris, valeu ao esquadrão dirigido por Gavril Katchalin e liderado pelo lendário Lev Yashin o troféu da edição inaugural da Eurocopa, na época ainda denominada Copa Europeia de Nações.

O torneio teve criação até certo ponto tardia, depois de outras competições similares realizadas em continentes com futebol menos desenvolvido, como Ásia e África. E não registrou um sucesso imediato. Mas cresceu em reputação ao longo dos anos, chegando a um patamar de importância superado apenas pela Copa do Mundo entre os torneios de seleções. Contamos aqui a história de sua criação desde quando era apenas uma ideia embrionária, bem como tudo o que aconteceu nas Eliminatórias e na fase decisiva da edição disputada na França.

Os antecedentes

A proposta de criação de uma competição entre seleções de toda a Europa foi feita pela primeira vez em 1927 pelo então secretário-geral da Federação Francesa de Futebol, Henri Delaunay. Na época, o continente era palco de várias competições regionais entre seleções. Desde 1883 havia o Campeonato Britânico, disputado entre as quatro nações do Reino Unido. Em 1924, Dinamarca, Finlândia, Noruega e Suécia organizaram o primeiro Campeonato Escandinavo (ou Copa Nórdica). E naquele mesmo ano de 1927, surgiu o Campeonato Centro-Europeu.

Criada pelo austríaco Hugo Meisl, um “homem da Renascença” do futebol europeu, este último torneio também ficaria conhecida simplesmente como Copa Internacional e mais tarde seria rebatizado Copa Dr. Gerö (em homenagem ao dirigente e ex-árbitro austríaco Josef Gerö). Reunia as seleções de Áustria, Hungria, Itália, Suíça e Tchecoslováquia (em sua última edição, contou também com a Iugoslávia) e costumava se desenrolar por vários anos, fazendo grande sucesso no continente especialmente no período anterior à Segunda Guerra Mundial.

A semifinal de 1960, entre União Soviética e Tchecoslováquia

Com a criação da União Europeia de Futebol (Uefa) em junho de 1954, Henri Delauney assumiu o cargo de secretário-geral da entidade e vislumbrou a possibilidade de enfim concretizar de sua ideia de torneio pan-europeu. O dirigente, no entanto, faleceria no ano seguinte, sem conseguir ver o pontapé inicial de sua grande obra, ocorrido em 1958. Porém, em sua homenagem, ficou decidido que a taça entregue ao vencedor da competição receberia seu nome, depois que, ainda em 1955, seu filho Pierre foi nomeado para o comitê organizador da Eurocopa.

Mesmo assim, a primeira edição não foi recebida com muito entusiasmo. Embora o valor da taxa de inscrição fosse considerado baixo (200 francos suíços), menos de 16 países – o número mínimo exigido – haviam submetido suas entradas a poucos dias do prazo final. Nos últimos instantes, porém, alguns acabaram aderindo, fazendo com que ao todo 17 seleções das 29 filiadas à Uefa confirmassem suas participações. Houve, porém, algumas ausências de peso: além das quatro nações britânicas, Alemanha Ocidental, Itália, Suécia e Holanda ficaram de fora.

Rapidamente, ainda no primeiro semestre de 1958, o formato ficou decidido: nas primeiras fases as seleções se enfrentariam em partidas de ida e volta, com um jogo-desempate disputado em campo neutro para o caso de igualdade no placar agregado (algo que não se fez necessário nesta edição inaugural). O sorteio dos confrontos até as quartas de final foi realizado na Suécia durante a Copa do Mundo e atraiu pouquíssima atenção, uma vez que os olhos da imprensa internacional estavam voltados para o Mundial. Mas definiu encontros interessantes.

A bola começa a rolar

Antes, porém, foi preciso definir os participantes de uma etapa preliminar, que se enfrentariam para eliminar a seleção “excedente”, devido ao número ímpar de inscritos. Tchecoslováquia e Irlanda foram as duas indicadas e fizeram o primeiro jogo em Dublin no dia 5 de abril de 1959, com vitória dos donos da casa por 2 a 0. Na volta, em Bratislava, no dia 10 de maio, os eslavos – que haviam participado do Mundial sueco no ano anterior – deram o troco goleando por 4 a 0 e garantindo a vaga. Porém, antes disso alguns jogos das oitavas já haviam sido realizados.

No dia 28 de setembro de 1958, a União Soviética recebeu a Hungria diante de mais de 100 mil torcedores no Estádio Central Lenin (atual Luzhniki) na partida de ida do confronto considerado o mais equilibrado da primeira fase, já que ambas as seleções haviam disputado a última Copa do Mundo. Pressionando desde o início, os soviéticos abriram o placar logo aos quatro minutos com Anatoli Ilyin, tiveram um gol aparentemente legal de Nikita Simonian anulado e ainda no primeiro tempo balançaram as redes mais duas vezes com Slava Metreveli e Valentin Ivanov.

A expectativa de uma goleada dos donos da casa, porém, não se confirmou no segundo tempo, quando os húngaros voltaram mais organizados e apertaram os soviéticos em seu próprio campo. Porém, só conseguiram vencer a forte defesa do time da casa a seis minutos do fim do jogo, com János Göröcs, levando para Budapeste uma desvantagem difícil de reverter. Em 2 de novembro, foi a vez de Romênia e Turquia fazerem o primeiro duelo em Bucareste. A Tricolori deslanchou na etapa final e conseguiu vencer até com certa tranquilidade por 3 a 0.

Ainda em 1958, o torneio teve seu primeiro mata-mata definido, em que a França – que brilhara na Copa do Mundo conduzida pelos 13 gols de Just Fontaine – não teve problemas para superar a fraca seleção da Grécia. No jogo de ida no Parque dos Príncipes em 1º de outubro, os Bleus arrasaram por 7 a 1, com dois gols de Fontaine, dois de Thadée Cisowski, dois de Jean Vincent e um de Raymond Kopa, com Ilias Yfantis diminuindo para os gregos. Na volta, em 3 de dezembro em Atenas, bastou o empate em 1 a 1 para levar os franceses à próxima etapa.

Essa cronologia embaralhada causa muita confusão ainda hoje: a própria Uefa, em seu site oficial, aponta equivocadamente o gol marcado por Liam Tuohy, que abriu o placar para a Irlanda contra a Tchecoslováquia pela fase preliminar, como sendo o primeiro da história do torneio – o qual, na verdade, foi o anotado pelo soviético Ilyin contra a Hungria, mais de seis meses antes. A informação errônea acabou prevalecendo por muito tempo, sendo reverberada pelos meios de comunicação e até na literatura sobre a competição, antes de ser retificada.

O duelo entre França e Iugoslávia na semifinal de 1960

O segundo confronto fechado foi o já citado entre romenos e turcos, definido em abril de 1959: em Istambul, os donos da casa estiveram perto de forçar o jogo-desempate, mas venceram por apenas 2 a 0, com os tentos marcados por Lefter Küçükandonyadis. Já a partida de volta entre a União Soviética e a Hungria demorou quase exatamente um ano para ser realizada: no dia 27 de setembro de 1959, 364 dias após o primeiro jogo, as duas equipes se reencontraram sob chuva forte em Budapeste, num Népstadion lotado com mais de 78 mil espectadores.

Os húngaros haviam trazido de volta ao time muitos de seus veteranos do Aranycsapat, o “Time de Ouro” da primeira metade da década, como o goleiro Gyula Grosics e o médio József Bozsik. Mas os visitantes também contavam com sua cota de experiência em nomes como o arqueiro Lev Yashin e no capitão Igor Netto e, demonstrando muita resiliência, voltaram a superar os adversários, desta vez por um suficiente 1 a 0. O meia Yuri Voinov anotou o gol aos 13 minutos da etapa final e selou a passagem dos soviéticos à fase seguinte.

Os demais confrontos das oitavas transcorreram inteiramente ao longo de 1959. A Áustria venceu os dois jogos contra a Noruega: 1 a 0 em Oslo e 5 a 2 em Viena. O mesmo fez Portugal diante da Alemanha Oriental: 2 a 0 em Berlim Oriental e 3 a 2 no Porto. A Espanha, por sua vez, passou por cima da Polônia: fez 4 a 2 em Chorzów com dois gols de Alfredo Di Stéfano e outros dois de Luís Suárez e, na volta, mais 3 a 0 em Madri, com Di Stéfano balançando as redes outra vez para abrir a contagem e Enric Gensana e Francisco Gento completando a tranquila vitória.

Depois de despachar a Irlanda na etapa preliminar, a Tchecoslováquia teve pela frente a amadora seleção da Dinamarca, que chegou a fazer jogo duro em Copenhague, abrindo dois gols de frente antes de os tchecoslovacos reagirem e empatarem ainda no primeiro tempo. Na volta, em Brno, os escandinavos também chegaram a assustar ao abrir o placar. Mas logo os eslavos reagiram e partiram para uma goleada categórica por 5 a 1, com destaque para o meio-campo Titus Bubernik e o jovem goleador Adolf Scherer, autores de dois tentos cada um.

Mais difícil foi a passagem da Iugoslávia, que teve como adversário a Bulgária – uma seleção que na época ainda não havia participado de Copas do Mundo, mas já apresentava alguns nomes que figurariam nos Mundiais a partir de 1962. Em Belgrado, Milan Galic abriu o placar para os donos da casa logo no primeiro minuto, mas o segundo gol só viria aos 42 da etapa final por intermédio de Lazar Tasic. Na volta, em Sofia, Todor Diev colocou os búlgaros em vantagem no começo do segundo tempo, mas logo depois Muhamed Mujic empatou e deu a vaga aos iugoslavos.

As quartas de final

O chaveamento das quartas de final havia colocado frente a frente França e Áustria, Iugoslávia e Portugal, Tchecoslováquia e Romênia e, por fim, União Soviética e Espanha. Este último era, de longe, o confronto mais aguardado. As duas equipes haviam demonstrado sua força ao vencerem seus dois jogos na etapa anterior. Dirigidos por Helenio Herrera, os espanhóis contavam com um timaço e vinham de duas vitórias bem expressivas em amistosos: 3 a 1 sobre a Itália no Camp Nou e 3 a 0 diante da Inglaterra no Santiago Bernabéu.

A política, no entanto, resolveu entrar em campo. Para o ditador espanhol Francisco Franco e seu regime fascista, a participação soviética lutando contra suas tropas na Guerra Civil do país ibérico ainda não havia sido esquecida. De modo que era inconcebível para ele não só permitir que os jogadores da seleção viajassem a Moscou para a partida de ida, como também atender às exigências dos dirigentes adversários para que, no jogo de volta em Madri, a bandeira soviética fosse hasteada e o hino do país tocado. Surgia ali um grande impasse.

Houve uma especulação sobre a realização dos jogos em campo neutro, intenção cuja origem varia conforme a fonte. Algumas afirmam ter sido uma exigência do regime franquista (ainda que a imprensa espanhola, sob censura, responsabilizasse os soviéticos). Já outras colocam a proposta como partindo da própria Uefa. De um jeito ou de outro, os soviéticos rejeitaram a ideia – o que levou os dirigentes espanhóis a tirarem o time de campo às vésperas da data agendada para a primeira partida. A Uefa, então, confirmou a classificação soviética por “walkover”.

A decisão dos cartolas nacionais provocou enorme frustração ao técnico Helenio Herrera. Embora Franco temesse muito a eliminação da seleção para a de seus rivais ideológicos, “El Mago” (como era conhecido o lendário treinador) não só se mostrava inteiramente confiante na classificação como também no título europeu. Havia ainda a motivação de um gordo prêmio extra anunciado pela Federação Espanhola caso a equipe superasse os soviéticos. Entre os jogadores, a decisão também foi naturalmente recebida com muito desapontamento.

Jesus “Chus” Pereda, então atacante do Sevilla e da seleção, comentou sobre isso em entrevista de 2010 ao jornalista Jimmy Burns citada no livro deste, ‘La Roja’: “Nós todos voltamos para casa com um imenso sentimento de tristeza. Eu me lembro que estávamos todos reunidos nos escritórios da Federação Espanhola em Madri quando de repente nos disseram que o jogo estava cancelado e que poderíamos ir embora. Tudo por pressão [política]. Alguns ministros disseram sim [ao jogo], outros não, mas Franco, que era o chefe, decidiu que não”.

A formação da Espanha

O primeiro classificado às semifinais já havia sido decidido em março. Com seu ataque afiado, a França venceu a Áustria nas duas partidas por um placar agregado de 9 a 4. Mas não sem alguns sustos. Em Colombes, no dia 13 de dezembro de 1959, os Bleus abriram três gols de frente com dois de Fontaine e um de Vincent. Mas os austríacos reagiram e encostaram, com gols de Walter Horak e Rudolf Pichler. O desafogo só veio no fim, com mais um de Fontaine e outro de Vincent, fechando a vitória no jogo de ida em um já confortável placar de 5 a 2.

Na volta, em Viena, os austríacos voltaram a recorrer ao veterano artilheiro Erich Probst. Mas foi com Horst Nemec que eles saíram na frente no primeiro tempo. Na etapa final, a França chegou a virar o placar com tentos de Jean-Jacques Marcel e Bernard Rahis, mas Probst deixou o dele e empatou. Porém, mais uma vez os Bleus acelerariam na reta final e anotariam mais dois para fechar a vitória: François Heutte fez o terceiro aos 32 e Raymond Kopa deu números finais ao jogo ao balançar as redes de Rudolf Szanwald a sete minutos do fim.

A Tchecoslováquia também não teve problemas para eliminar a Romênia, vencendo ambas as partidas sem sequer sofrer um gol. Em Bucareste, saiu na frente aos nove minutos com o meia Josef Masopust e fechou a vitória em 2 a 0 ainda no primeiro tempo com gol de Vlastimil Bubnik. Já em Bratislava, o jogo foi resolvido em apenas 18 minutos: Titus Buberník abriu a contagem no primeiro minuto e ampliou aos 15, antes de o mesmo Bubnik que havia marcado na partida de ida anotar o terceiro e confirmar a força daquele grupo de jogadores.

O confronto entre Iugoslávia e Portugal, por outro lado, esteve mais indefinido entre uma partida e outra. A seleção lusa ainda não contava com Eusébio, mas três de seus precursores formavam o trio central do quinteto ofensivo: o angolano Santana (do Benfica) e os moçambicanos Matateu (do Belenenses) e Mário Coluna (também benfiquista). No Estádio Nacional do Jamor, em Lisboa, seriam exatamente Santana e Matateu os autores dos gols da vitória portuguesa por 2 a 1. Os iugoslavos descontariam o prejuízo a nove minutos do fim com Bora Kostic.

Em Belgrado, no estádio do Partizan, os donos da casa saíram na frente com Dragoslav Sekularac logo aos dez minutos, mas o ponteiro Cavém empatou para Portugal aos 29. No último minuto do primeiro tempo, Zvezdan Cebinac voltou a colocar a Iugoslávia em vantagem, mas o placar até ali levava a decisão para um terceiro jogo. Na etapa final, porém, os balcânicos deslancharam: Bora Kostic marcou o terceiro aos cinco minutos, Milan Galic fez o quarto aos 34 e o mesmo Kostic encerrou a goleada de 5 a 1 anotando o quinto tento a dois minutos do fim.

O torneio final

Conforme o regulamento, a fase final do torneio – compreendendo as semifinais e as decisões do título e do terceiro lugar – seria disputada em sede fixa, escolhida em conferência entre as quatro nações classificadas. No fim de maio, num congresso da Uefa realizado na cidade alemã-ocidental de Frankfurt, ficou decidido que a França (curiosamente, a única entre as quatro a não integrar o bloco socialista) receberia a etapa decisiva da competição, utilizando como estádios o Parque dos Príncipes, em Paris, e o Vélodrome, em Marselha, cada um recebendo duas partidas.

Para o torneio a ser disputado entre 6 e 10 de julho, cada seleção relacionou 17 jogadores. A França, que teria ligeiro favoritismo por jogar em casa e por ter feito a melhor campanha entre as quatro no Mundial da Suécia, não pôde contar com muitos de seus atletas mais experientes. Nada de Just Fontaine (que fraturara a perna) ou Raymond Kopa: apenas o zagueiro e capitão Robert Jonquet, o meia Jean-Jacques Marcel e os atacantes Jean Vincent e Maryan Wisnieski figurariam na lista, ao lado de promessas como Robert Herbin, Lucien Muller e Yvon Douis.

A Iugoslávia, adversária dos franceses na semifinal do Parque dos Príncipes, também incluía vários novatos – embora estes já viessem participando da campanha nas eliminatórias, como Drazan Jerkovic e Milan Galic. De mais experientes, havia o médio Branko Zebec e o defensor Tomislav Crnkovic, além de outros jogadores já conhecidos como os atacantes Bora Kostic e Dragoslav Sekularac. Curiosamente, a seleção era comandada por um trio formado por Dragomir Nikolic, o ex-goleiro Ljubomir Lovric e o velho craque da Copa de 1930 Aleksandar Tirnanic.

As duas seleções entraram mais cedo em campo na noite de 6 de julho, uma quarta-feira, diante de um público de pouco mais de 26 mil espectadores, bem abaixo da capacidade oficial de então do estádio parisiense. Naquele que entraria para a história com o primeiro jogo de uma fase final de Eurocopa, coube à Iugoslávia abrir a contagem com Galic aos 11 minutos. Mas os Bleus – que curiosamente jogaram de camisas vermelhas – reagiram e empataram no lance seguinte, com Vincent. E chegaram à virada antes do intervalo, aos 43, com François Heutte.

O segundo gol deu moral aos franceses, que ampliaram a vantagem aos oito minutos da etapa final com Wisnieski recebendo passe para trás de Vincent. Os eslavos diminuíram pouco depois com o médio Ante Zanetic, quase sem ângulo, desviando na defesa e surpreendendo o goleiro Georges Lamia. Mas nem isso freou o embalo dos donos da casa, que chegaram ao quarto gol aos 17, de novo com Heutte. Vencendo por 4 a 2 em casa a 15 minutos do fim, os franceses pareciam ter a passagem à final carimbada e assegurada. Só pareciam.

Quando o ponteiro Tomislav Knez escorou um cruzamento na pequena área aos 30 minutos, recolocou a Iugoslávia no jogo. E o que se viu nos instantes seguintes foi uma virada improvável. Em duas bolas que Lamia não conseguiu agarrar, Drazan Jerkovic apareceu, oportunista, para conferir o rebote e tocar para as redes decretando a vitória por 5 a 4, diante da atônita torcida local. Enquanto isso, naquele mesmo instante, a bola já havia começado a rolar em Marselha para a outra semifinal, entre União Soviética e Tchecoslováquia.

Os tchecoslovacos traziam uma seleção forte, o que se comprovaria com o vice-campeonato mundial no Chile dali a dois anos. Astros como Jan Popluhár, Ladislav Novák, Titus Buberník, Josef Masopust, Svatopluk Pluskal e Anton Moravcík garantiam a experiência e o talento que faziam da equipe uma boa aposta para o título. E a seleção dirigida pelo rodado Rudolf Vytlacil trazia ainda caras novas, como o atacante Andrei Kvasnák. Porém, teriam um grande teste já nas semifinais, ao enfrentarem os sólidos e igualmente tarimbados soviéticos.

No gol, havia Lev Yashin, então já aclamado como o melhor do mundo na posição. Na defesa, outro experiente, Anatoli Maslenkin, era ladeado pelos novatos Givi Chokheli à direita e Anatoli Krutikov à esquerda. A dupla de médios era formada por Yuri Voinov (nomeado para a seleção da Copa de 1958) e pelo capitão Igor Netto. Na frente, dois georgianos ocupavam as pontas: Slava Metreveli pela direita e Mikhail Meshki pela esquerda. Os meias eram Valentin Ivanov e outro novato, Valentin Bubukin. E Viktor Ponedelnik era o centroavante.

Mesmo realizada à noite, a partida do Vélodrome foi disputada sob o intenso calor do verão no Mediterrâneo e também diante de um público tido como decepcionante: pouco mais de 25 mil espectadores. E teve inicialmente a Tchecoslováquia dominando a maior parte das ações e pressionando o gol de Yashin, que cumpriu atuação excepcional. Os soviéticos, por outro lado, mostraram-se mais eficientes e abriram a contagem já na primeira etapa, aos 34 minutos: Ivanov aproveitou a sobra de uma jogada de Ponedelnik e fuzilou Schrojf à queima-roupa.

Na etapa final, aos poucos a União Soviética foi se assentando na partida e começando a controlar o jogo a partir do meio-campo, com o crescimento de seus homens do setor. Aos 11 minutos, o mesmo Ivanov ampliou ao receber a bola no lado direito da área, driblar o arqueiro e tocar para o gol vazio. E aos 21, em jogada de contra-ataque iniciada por Bubukin com um lançamento para Ponedelnik, que bateu forte e selou a passagem de sua seleção à final, fazendo prevalecer o estilo mais objetivo dos soviéticos sobre o futebol filigranado, de toques curtos, dos tchecos. 

A decisão do terceiro lugar aconteceu em Marselha na véspera da final. E apesar de envolver a seleção da casa, o público foi ainda mais decepcionante: pouco mais de 9 mil torcedores, o menor de todo o torneio. Vindo da inacreditável derrota para a Iugoslávia na semifinal, o técnico francês Albert Batteux trocou quatro jogadores – entre eles o goleiro Lamia, que perdeu a posição para Jean Taillandier – e, buscando tornar mais sólido o setor defensivo, trouxe de volta o veterano capitão Robert Jonquet (aos 35 anos, o jogador mais velho daquela Eurocopa).

A Tchecoslováquia, por sua vez, trocou apenas dois: Moravcík e Kvasnák deram lugar a Ladislav Pavlovic e Pavol Molnár no ataque. E parecia mais confiante no próprio jogo, até porque a torcida francesa – decepcionada com o revés na semifinal – já começaria a demonstrar sua impaciência ainda no primeiro tempo, quando a partida seguia com placar em branco. Menos pressionados e mais concentrados, os tchecoslovacos seguraram o 0 a 0 nos primeiros 45 minutos e voltaram do intervalo preparados para decidir o jogo, o que aconteceu sem sustos.

Logo aos 13 minutos, um escorregão de Jonquet permitiu a Bubník chutar de fora da área para marcar o primeiro gol. Controlando inteiramente o jogo naquela etapa final, os tchecoslovacos, porém, só liquidaram a fatura a dois minutos do fim, com um gol de Pavlovic em falha do goleiro Taillandier. O resultado final confirmou a ascensão do futebol da seleção eslava, reunindo uma boa safra de jogadores – com sua espinha dorsal formada por atletas da forte equipe do Dukla Praga – que permitia antever uma boa participação no Mundial do Chile, em 1962.

França e Tchecoslováquia, na decisão do terceiro lugar

A grande decisão

A final entre União Soviética e Iugoslávia, por sua vez, representava um tira-teima com origens nos Jogos Olímpicos: em 1952, em Helsinque, na primeira participação dos soviéticos num torneio internacional, seus algozes na segunda fase da competição haviam sido justamente os balcânicos, vencedores por 3 a 1 num jogo extra após um sensacional empate em 5 a 5. Quatro anos depois, na decisão da edição de Melbourne, houve revanche: o esquadrão de Lev Yashin venceu por 1 a 0, gol de Anatoli Ilyin, e levou a primeira de suas duas medalhas de ouro.

Quatro jogadores que estiveram naquela final olímpica (marcada por uma batalha campal nos minutos finais, sob vaias do público australiano) também reapareceriam na decisão da Eurocopa: Yashin, Maslenkin e Igor Netto pelos soviéticos e Sekularac pelos iugoslavos. O ponteiro-esquerdo iugoslavo Muhamed Mujic, titular em Melbourne, agora era reserva, enquanto o contrário acontecia com o armador soviético Valentin Ivanov. E um outro reserva na Austrália seria uma das novidades dos balcânicos para a decisão do campeonato europeu.

Era o goleiro Blagoje Vidinic (futuro técnico das seleções de Marrocos e Zaire nas Copas de 1970 e 1974, respectivamente), que entrava no lugar de Milutin Soskic. Além dele, outras duas trocas foram feitas pelo triunvirato que comandava a Iugoslávia: na defesa, saía o capitão Branko Zebec para a entrada de Jovan Miladinovic. E no ataque, o ponta-direita Tomislav Knez, autor de um gol contra a França, era sacado para a entrada do meia Zeljko Matus. A União Soviética de Gavril Katchalin, por sua vez, repetiu integralmente a escalação da semifinal.

O time soviético era composto majoritariamente por atletas dos clubes de Moscou: eram sete dos 11 titulares. No elenco, entre os 17 convocados, os jogadores de equipes moscovitas eram 11, sendo três de Spartak e Dynamo, dois de Torpedo e Lokomotiv e apenas um do CSKA. Dos demais, três pertenciam ao Dinamo Tbilisi, dois ao Dynamo Kiev (ambos forças intermediárias na época) e um do recém-promovido SKA Rostov. Era o atacante Viktor Ponedelnik, que ganhara uma chance às vésperas da Eurocopa e trataria de não desperdiçá-la.

Disputada num domingo à noite, diante de pouco menos de 18 mil torcedores no Parque dos Príncipes, a final começou com os iugoslavos testando Yashin em duas cobranças de falta, mas o goleiro defendeu sem dar rebote. De início, eram quem tinha mais volume de jogo, em especial quando a bola caía nos pés de Sekularac, o organizador do time. Além disso, na parte defensiva, concediam pouco espaço aos perigosos pontas soviéticos. Numa escapada, porém, Ivanov chutou forte e cruzado, obrigando Vidinic a realizar sua primeira defesa importante.

Os capitães na final do Parc des Princes

A seleção balcânica ainda perdeu duas ótimas chances – uma delas com Galic cara a cara com Yashin e outra num cruzamento vindo da direita que o mesmo jogador não alcançou – antes de finalmente abrir o placar aos 43 minutos. Em novo centro vindo da direita, o próprio Galic, mesmo acossado por Voinov, conseguiu mergulhar para cabecear entre o arqueiro soviético e a trave, colocando a Iugoslávia em vantagem até ali merecida, a qual levaria para o intervalo. Porém, ela acabaria não durando muito naquele reinício de partida.

A União Soviética voltou com mais apetite e disposta a reagir. E chegou ao empate logo aos quatro minutos da etapa final. Bubukin recebeu um passe na intermediária, arrancou por alguns metros e desferiu um potente arremate de pouco antes da meia-lua. Vidinic deteve, mas não conseguiu segurar, nem teve – do alto de seu 1,98 metro – agilidade suficiente para impedir que Metreveli, entrando pelo lado direito da área, apanhasse o rebote e cutucasse para as redes. A Iugoslávia tentou reagir de imediato, mas o jogo começava aos poucos a virar para o lado soviético.

Com Bubukin e Ivanov crescendo na partida (em especial o primeiro) e conseguindo enfim acionar os ponteiros, a equipe de Gavril Katchalin começou a deixar a defesa adversária em maus lençóis. A virada poderia ter chegado numa jogada sensacional de Metreveli, costurando três defensores pelo lado direito e cruzando para a cabeçada de Ponedelnik. Mas a bola passou raspando a trave de Vidinic. Ou então numa bonita bicicleta de Bubukin, emendando um cruzamento de Ivanov pela direita. O panorama do jogo já se invertia em relação ao primeiro tempo.

A Iugoslávia então só ameaçava em eventuais cobranças de falta, mas esbarrava num Yashin em atuação impecável. Numa delas, próxima à lateral, Sekularac tentou surpreender o adiantado arqueiro soviético numa cobrança direta para o gol em vez de cruzar, mas o goleirão calmamente se recuperou e espalmou para escanteio. Nos minutos finais, Ivanov ainda desperdiçou mais uma chance clara para virar o placar em favor da União Soviética, escorando um cruzamento da direita na pequena área, com o gol aberto, mas sem conseguir direcionar o chute.

Fisicamente mais inteiros na prorrogação, os soviéticos já declararam suas intenções logo no primeiro ataque, quando Ivanov fez boa jogada pela esquerda, a defesa iugoslava furou e Meshki bateu forte da entrada da área, obrigando Vidinic a fazer boa defesa. Mas quase imediatamente os balcânicos responderam quando Sekularac – o melhor do time – fez ótima assistência para Galic no meio da defesa adversária. A boa finalização do camisa 9, porém, parou mais uma vez em um gigantesco Yashin, que de novo defendeu sem dar rebote.

Os iugoslavos também teriam outra chance de estar novamente na frente no marcador numa cabeçada perigosa do grandalhão Jerkovic após escanteio, numa rara ocasião em que Yashin saiu em falso. No começo da etapa final, seria a vez de Vidinic voltar a ser acionado, espalmando um chute forte de pé direito do lateral Krutikov. Do outro lado, Jerkovic chegou atrasado na pequena área e não conseguiu escorar mais um cruzamento da direita por questão de milímetros. E cerca de um minuto depois, o jogo acabaria decidido em favor dos soviéticos.

Após uma sucessão de bolas alçadas sobre a área soviética, Voinov recolheu um passe e entregou a Meshki, que cruzou alto, mais ou menos da altura do bico da área. E a bola viajou até a cabeça de Ponedelnik. O centroavante não tivera tantas oportunidades ao longo da partida. Mas aquela era a sua chance: ele saltou mais alto que toda a defesa iugoslava e testou colocando a bola no canto de Vidinic, pegando o arqueiro no contrapé. Eram oito minutos do segundo tempo da prorrogação. Naquela altura, os iugoslavos já não tinham mais pernas para reagir.

Ao apito final, o público francês tratou de saudar os campeões, que receberiam US$ 200 cada um como premiação da Uefa e seriam homenageados numa recepção na Torre Eiffel. Ponedelnik, cujo sobrenome significa “segunda-feira” em russo, também viveu uma situação curiosa: devido ao fuso horário de Moscou, coincidentemente a partida decidida com seu gol na prorrogação adentrou pela madrugada de segunda-feira na capital soviética. “Meu sobrenome foi um sonho para os editores de manchetes”, relembrou o atacante ao site da entidade europeia.

Nas décadas seguintes, o torneio agregaria prestígio. Já a partir da edição seguinte, praticamente todos os filiados da Uefa se inscreveriam para participar. A fase final passaria a ser disputada por oito seleções a partir da edição de 1980, aumentando para 16 em 1996 e 24 em 2016. União Soviética e Iugoslávia, as primeiras finalistas, voltariam a decidir o torneio outras vezes, mas sem sucesso: os soviéticos seriam derrotados pela anfitriã Espanha em 1964 e a Holanda em 1988. Já os balcânicos perderiam em 1968 para a também dona da casa Itália num jogo extra.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.