Por Leandro Stein, da Trivela, e Emmanuel do Valle, dono do Flamengo Alternativo

A camisa da Fiorentina pesa como poucas na Itália. Que a Viola não tenha a mesma supremacia do trio de ferro, não deixa nada a dever para o restante dos clubes do país. E muito por conta de um capítulo de sua história que chegou ao clímax há exatos 60 anos. Em 6 de maio de 1956, o empate contra a Triestina valeu o primeiro Scudetto do clube de Florença. Uma conquista consumada com cinco rodadas de antecedência e que terminou a Serie A com 12 pontos de vantagem – em tempos nos quais a vitória valia dois pontos, vale ressaltar.  O triunfo, aliás, antecipou outro grande momento vivido no Estádio Artemio Franchi: a decisão da Copa dos Campeões de 1957, a primeira disputada por um clube italiano. Momento áureo daquele que é considerado o melhor time dos florentinos em todos os tempos.

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A ascensão daquele time da Fiorentina começa desde o fim da década de 1940, com a contratação dos primeiros campeões. Um dos primeiros a chegar foi justamente o futuro capitão Francesco Rosetta, que fez parte de um dos títulos do Grande Torino, mas estava na Alessandria antes de contratado pela Viola. Além dele, a diretoria também trouxe Sergio Cervato e Giuseppe Chiappella, herdeiros da braçadeira. Juntos, formariam a base do sistema defensivo que se tornou referência na Itália e um dos grandes trunfos dos florentinos ao longo dos anos seguintes. Enquanto as subidas de Cervato tinham grande valia ao ataque, a técnica de Rosetta mantinha a segurança atrás. Já Chiappella recuava da cabeça de área com muita disposição, cobrindo os espaços juntamente com Magnini, a última peça da linha de defesa vitoriosa, trazido ainda em 1950.

Antes acostumada ao meio da tabela, a Fiorentina voltaria a ocupar as primeiras colocações da Serie A, mesmo que não disputasse necessariamente o título. O salto dependeu da chegada do novo dono do clube, em 1952: Enrico Befani, empresário da indústria têxtil que trouxe dinheiro, mas também organização para a gerenciar a equipe. Já meses depois, o clube buscou Fulvio Bernardini, ex-jogador da seleção que trabalhava como técnico do Vicenza, na segunda divisão. O mentor que daria forma ao estilo de jogo. Logo em sua primeira temporada, o “Doutor Fuffo” assumiu uma bomba, livrando da equipe da ameaça de rebaixamento e encerrando a Serie A 1952/53 na sétima posição. Alívio para começar a implantar suas ideias.

Fiorentina_Campione_d'italia_1955-1956

Naquele momento, a Fiorentina começou a se estabelecer como uma força da Serie A. Para 1953/54, a novidade era o atacante Gunnar Gren, trazido do Milan. E a Viola surpreendeu durante o primeiro turno, ficando com o simbólico título da campeã do inverno. Só que o time perdeu fôlego no segundo turno, fechando a campanha da liga em terceiro. De qualquer maneira, a base da seleção italiana que disputou as Eliminatórias da Copa de 1954 se formou com seis jogadores do clube, em especial os defensores. Cinco atletas acabaram representando a Azzurra no Mundial da Suíça: o goleiro Costagliola, os defensores Cervato e Magnini, o meio-campista Segato e o atacante Gratton.

Depois do sucesso, o quinto lugar em 1954/55 decepcionou um bocado. Ainda assim, aquela temporada serviu para dar liga ao time, com contratações notáveis, incluindo o atacante Giuseppe Virgili, o meio-campista Alberto Orzan e o goleiro Giuliano Sarti – famoso pela frieza, que acabaria substituindo o ídolo Costagliola. Bernardini aplicava os seus conceitos baseados no talento individual dos jogadores, com uma tática solta, conhecida como “WM elástico”. O treinador prezava pela qualidade com os pés, o que resultava em um time impetuoso e de grande movimentação a partir da defesa, com a ocupação de espaços e o auxílio de algumas peças ofensivas também na cobertura. O ápice do entrosamento viria no ano seguinte, com acréscimos essenciais para a Viola.

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O grande nome daquela Fiorentina foi trazido justo em 1955: Julinho Botelho. O ponta havia deixado ótima impressão na Europa desde a Copa do Mundo, a ponto de fazer Bernardini afirmar que o time levaria o Scudetto com sua contratação. Após longa disputa, a transferência foi acertada com a Portuguesa um ano depois do Mundial. O brasileiro se tornou um diferencial técnico e tanto em cima daquilo que pregava Bernardini, transformando-se em grande protagonista na campanha do título. Ao lado de Segato, que armava o time a partir da saída de bola, Julinho servia de fonte criativa ao ataque, forjando a maioria das jogadas com seus dribles e enfiadas pela direita. Na mesma época, quem também cruzou o Atlântico foi o argentino Miguel Montuori, atacante que despontou com a camisa da Universidad Católica, e auxiliava principalmente por suas incursões à área.

As pretensões da Fiorentina rumo ao Scudetto tornaram-se claras logo na terceira rodada, diante da Juventus. Por mais que a equipe capitaneada por Boniperti não atravessasse bom momento, a goleada por 4 a 0 em Turim impressionava. Destaque daquela noite com dois gols, Giuseppe Virgili assumia a artilharia da equipe, combinando oportunismo e potência. Entretanto, o jogo realmente decisivo na caminhada inicial veio no clássico diante o Bologna, quando Bernardini terminou de alinhar a sua máquina, entre as trocas de posições na defesa e a liberdade de seus destaques ofensivos. Venceu por 2 a 0, convenceu e disparou como grande candidato ao título. A equipe fechou o primeiro turno sem perder uma partida sequer, triunfando inclusive dentro do San Siro diante do Milan – que contava em suas fileiras com Liedholm, Gunnar Nordahl, Schiaffino e Cesare Maldini.

ataque

Líder desde a sétima rodada, a Fiorentina abriu folga na dianteira: embora acumulasse empates, 13 ao longo da campanha, via os seus rivais ficando pelo caminho com o excesso de derrotas. E a qualidade de seu sistema defensivo, sobretudo, teve enorme importância na campanha. A Viola sofreu apenas 20 gols ao longo das 34 rodadas, a melhor menos vazada da Serie A com sobras. Para se ter uma noção, a segunda melhor defesa tomou quase o dobro de tentos: a Internazionale, terceira colocada, superada 36 vezes. Enquanto isso, o ataque comandado por Virgili, Montuori, Julinho e Segato balançou as redes em 59 oportunidades.

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Em abril, os 3 a 0 sobre o Milan no Estádio Artemio Franchi deixavam claro quem seria o campeão. Duas rodadas depois, a conquista se consumou diante da Triestina, com tentos de Julinho e Brighenti. A partir de então, o objetivo da Fiorentina parecia mesmo ser registrar o título invicto – algo inédito na Serie A até então, e aconteceria apenas três vezes nos anos posteriores. Todavia, os florentinos caíram justamente na última rodada, derrotados pelo Genoa por 3 a 1 no Luigi Ferraris – uma espécie de vingança de Gunnar Gren, que havia deixado Florença em litígio com Bernardini.

O título marcou o grande momento daquele esquadrão, que se manteve em alta, mas não conseguiu levantar mais taças. Em sua primeira participação na Copa dos Campeões, a Fiorentina caminhou rumo à final em Madri. Eliminou Norrköping, Grasshoppers e Estrela Vermelha. Contudo, ficou difícil superar o histórico Real Madrid em pleno Estádio Santiago Bernabéu. Diante de 125 mil espectadores, os merengues concretizaram o bicampeonato europeu com a vitória por 2 a 0, gols de Di Stéfano e Paco Gento. De qualquer forma, os italianos seguraram o zero no placar até metade do segundo tempo e só permitiram o primeiro gol em um pênalti contestado.

Italia-Brasile_3-0,_Milano,_25_aprile_1956

Além disso, a Fiorentina serviu de coluna vertebral à seleção italiana ao longo daqueles anos. Exceção feita a Julinho, todos os jogadores do time-base serviram a Azzurra, incluindo o argentino Montuori, que se naturalizou. Em fevereiro de 1956, oito jogadores do clube atuaram na vitória por 2 a 0 sobre a França de Kopa e Fontaine. Já em dois amistosos contra o Brasil naquele mesmo ano, a Viola também marcou presença. Com sete florentinos em campo, a Azzurra derrotou os brasileiros por 3 a 0 em Milão. Já na revanche, com oito da Fiorentina no Maracanã, a Seleção deu o troco por 2 a 0. Porém, o auxílio do clube não evitou o desastre nas Eliminatórias da Copa de 1958. Eram sete no elenco, que também contava com Boniperti e Dino da Costa, bem como os campeões mundiais Schiaffino e Ghiggia. Mas a Azzurra perdeu os seus dois jogos fora de casa e acabou eliminada pela Irlanda do Norte, sem viajar ao Mundial da Suécia.

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O Scudetto foi seguido por anos amargos à Fiorentina: por quatro temporadas consecutivas o clube foi vice-campeão nacional, assim como sofreu derrotas em duas finais da Copa da Itália. Pior, a queda na copa em 1958 aconteceu justamente diante de Fulvio Bernardini, que deixara o clube meses antes e passara a comandar a Lazio. Naquele mesmo ano, Julinho decidiu voltar ao Brasil e Virgili foi negociado com o Torino. Pouco a pouco, o timaço violeta se desfez. Em 1961, quando conquistou a primeira edição da Recopa Europeia, a equipe de Dino da Costa, Hamrin e Albertosi não contou com nenhum dos velhos titulares nos dois jogos da decisão contra o Rangers. A renovação voltou a render boas campanhas durante os anos 1960 até que a Viola reconquistasse o Scudetto em 1968/69, sob a estrela de Giancarlo De Sisti e Amarildo. Ainda assim, aquela equipe campeã estava distante da reputação e do encantamento de seus antecessores. Um esquadrão que segue insuperável em Florença.

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