Por Caio Brandão, advogado e colaborador do Futebol Portenho

Pará e Uruguai, outrora extremos do mesmo país (tempos em que um era a Província do Grão-Pará, abrangendo praticamente o norte brasileiro inteiro e o outro, a Cisplatina), ainda guardam entre si quase um Brasil de distância. O que não impediu bem mais de um intercâmbio entre dois lugares tão distantes. Se o Paysandu parece o exemplo mais óbvio desde o nome, o Remo tampouco deixou por menos, e mesmo a Tuna teve uma ligeira participação no mais famoso episódio do tipo – ao menos para os paraenses: o inapelável 3 a 0 bicolor sobre o mais vitorioso ciclo que o Peñarol já teve completa hoje 55 anos, embora não seja o único episódio que mereça ser relembrado.

Prólogos: inspiração para um, ídolo para outro

O Paysandu foi fundado em 1914, quando ainda estava fresca a administração municipal do intendente Antônio Lemos. Lemos governou Belém por mais de uma década e a Guerra do Paraguai foi inspiração constante na nomeação de vias abertas em sua gestão – especialmente no bairro do Marco, cortado por avenidas, ruas ou travessas que relembram as batalhas do Chaco, Humaitá, Timbó, Lomas Valentinas e… Curuzu também. Ou ainda os líderes Duque de Caxias e Almirante Barroso, dentre outros; é na Avenida Almirante Barroso que se situam os estádios dos três grandes.

A cidade uruguaia de Paysandú (a gramática castelhana ordena a acentuação) foi outro cenário da guerra antes de parir o único campeão de Libertadores por Peñarol e Nacional, o atacante Luis Cubilla, sanducero (esse é a palavra que designa os nascidos naquela cidade) como o único uruguaio a vencer o torneio como jogador e técnico pelos clubes locais, Juan Mujica. Quando os dissidentes do Norte Club resolveram fundar uma nova agremiação, havia quem defendesse o nome Team Negra, o apelido do clube-mãe em função da cor das camisas. Partia do líder deles a sugestão por “Paysandu” e outro dos fundadores, Edgar Proença, sugeriu então votação nominal, onde prevaleceu a homenagem militar. 

Ironias: o tal líder dos dissidentes chamava-se Hugo Leão, ainda que em tempos onde o felino não apelidava o Remo, cujo título estadual de 1913 sobre o Norte Club inspirara aquele movimento. O apelido foi criado justamente por Proença já nos anos 30, quando aquele fundador bicolor virara a casaca para se devotar aos azulinos. Caberia a Proença ser o salomônico homenageado no nome oficial do Mangueirão. 

Também foi de Hugo Leão a ideia pela camisas nas listras verticais azul e branca. Ainda que as cores também listrem a bandeira uruguaia, não há nas obras sobre a história bicolor nenhuma sugestão de que a inspiração tenha vindo de lá. E a cidade de Paysandú seria basicamente o episódio isolado de conexão Uruguai-Pará por muito tempo, especialmente no próprio Paysandu, ainda que o clube tenha usado no ano de 1928 um charrua de sobrenome Carrillo. Em 1930, a seleção brasileira levou o marajoara Pamplona à primeira Copa do Mundo, mas o ex-remista não chegou a ser usado em Montevidéu.

É do Nacional do final daqueles anos 30 que virão os dois grandes personagens uruguaios do futebol paraense. Em 1938, o clube levantou o Torneio Noturno Rio-Platense, um decagonal de pré-temporada que uniu a dupla charrua (o tricolor e o Peñarol), a dupla rosarina (Newell’s e Central) e os sete principais clubes argentinos da década – com o quinteto grande oficializado em Boca, River, Racing, Independiente e San Lorenzo sendo acompanhado por Huracán e Estudiantes. 

Promovendo o novato Atilio García, o maior artilheiro do futebol uruguaio, o Nacional foi avassalador, garantindo por antecipação o troféu, ainda destacado no site oficial pelo episódio contra o Estudiantes – contra quem as camisas brancas terminaram manchadas de sangue, sendo depois expostas assim em Montevidéu para ressaltar a superação charrua. Eduardo García foi o goleiro titular. Para as duas rodadas finais, com o título já garantido, deu-se espaço a seu reserva, Julio Véliz. Mesmo perdendo nelas para a dupla Boca e River, o tricolor permaneceu dois pontos à frente do vice-campeão, o San Lorenzo. A nota no site informa que aquele plantel campeão ainda tinha outro goleiro, um tal Roque Máspoli, que, porém, só compôs elenco, sem ser usado.

O festejo do Nacional pelo título contra os argentinos em 1938. Véliz, ao lado do bigodudo artilheiro Atilio García, é o goleiro da esquerda. À direita, a página esportiva de A Província relatando o Maracanaço e o Re-Pa ocorrido no mesmo dia

O Peñarol ainda seria o campeão uruguaio de 1938, acumulando um recordista tetracampeonato seguido. Pois o Nacional não só impediu um ainda inédito penta como ele próprio alcançou primeiro o feito, com o Quinquenio de Oro de 1939 a 1944. Mas sem espaço nem a García, nem a Véliz ou a Máspoli: o goleiro firmado no período foi o arrojado Aníbal Paz, que já saía da pequena área, já se atirava com as mãos nos pés adversários, já usava camisas curtas e já deixava de lado as joelheiras naqueles anos. Recordista de jogos pelo clube no século XX, Paz integraria a seleção uruguaia na Copa de 1950. Mas houve tempo suficiente para Máspoli, incorporado em 1941 pelo Peñarol, levar a melhor e ser o titular.

Véliz, por sua vez, rumou ainda em 1940 ao Grêmio antes de trilhar carreira nos subúrbios do Rio de Janeiro, em tempos onde a distância dos ditos pequenos não era tamanha para os grandes. Eram inclusive capazes de importar argentinos e uruguaios, naqueles tempos de Platinismo. Campeão municipal de 1943 no São Cristóvão, onde chegou a formar uma colônia platina os argentinos Héctor Papetti (depois botafoguense) e Armando Renganeschi (depois destaque em Fluminense e São Paulo), conheceu Belém em 1944 – quando o prestígio daquele título para a época atraiu interessados a uma excursão. 

O Remo logo se interessou e Véliz chegou sob pompa ao Baenão em 1945. Em 1949, o Leão encerrou seu pior jejum estadual, nove anos. O uruguaio ainda ergueria os títulos de 1950 e um tri seguido de 1952 a 1954, contribuindo decisivamente para que o Paysandu é que passasse a viver o seu igual pior jejum ao longo de outros nove anos (1947-56). Crescido nesse período, o ídolo bicolor Beto, um dos personagens vitoriosos 55 anos atrás, cravaria Véliz como um jogador mais importante ao rival do que Alcino em pleno livro dedicado à memória do atacante visto como maior ídolo remista. Uma das tantas vitórias de Véliz no Re-Pa inclusive fez 70 anos neste 16 de julho. Basicamente um outro Brasil de distância em tempos pré-televisão e pré-internet separava Belém do Maracanã e, sim, Remo e Paysandu também duelaram em pleno horário do Uruguai 2×1 Brasil de 1950.

Enquanto os ex-colegas Aníbal Paz e Máspoli improvisavam a comemoração pós-Maracanazo na hospedagem que abrigou os uruguaios (o… Hotel Paissandu), o Remo sagrou-se campeão do primeiro turno do estadual mesmo numa Curuzu cheia – vitória mínima assegurada pelo maior artilheiro azulino do clássico, Itaguary. O jornal A Província não deixou de retratar que “havia no espírito de muita gente a perspectiva de que o estádio iria ficar às moscas pelo fato de à mesma hora se realizar no Rio de Janeiro o jogo Brasil x Uruguai, decisivo da Copa do Mundo. Sem dúvida que as atenções maiores do público de todo o país estavam voltadas para a luta final do magno certame mundial. Nossa terra não fugia à regra. Mas a deliberação efepedeana [alusão à FPD, a Federação Paraense de Desportos] de instalar um serviço de alto-falantes no estádio fez com que as arquibancadas da Curuzu se enchessem, a refletir nisso o prestígio do clássico regional”.

A Celeste não resumia nem mesmo todos os uruguaios que se encontravam no Rio de Janeiro em 1950. Outro deles era Juan Álvarez, igualmente tapado no Nacional pelo predomínio absoluto de Paz no gol. Tivera tempo de conviver com Véliz no Tricolor como juvenil, segundo depoimento dado à Placar. E, por tabela, com Máspoli. Como Véliz, Álvarez veio ganhar espaço nos subúrbios cariocas, onde atuou de 1948 a 1951. Destacou-se nos rivais Bonsucesso (onde teria despertado interesse do Torino após a tragédia aérea que vitimou os italianos) e Olaria e chegou mesmo a dispor-se a representar a seleção brasileira. Sua conexão com o Pará, por sua vez, tardaria até 1964. Era o assistente do técnico brasileiro Zezé Moreira no Nacional vice-campeão da Libertadores daquele ano.

O enfoque no torneio custou um terceiro lugar considerado vergonhoso demais em uma liga uruguaia historicamente duopolizada e Zezé pagou com o cargo. Sondado pelo Paysandu, que tivera a banca de ser treinado recentemente pelo histórico Gentil Cardoso, ele não seguiu à Curuzu. Mas indicou o fiel assistente.

Quando o Peñarol padeceu – parte I

Demorou vinte anos, mas aquele Quinquenio de Oro do Nacional entre 1939-43 enfim foi respondido pelo Peñarol entre 1958-62. A diferença substancial é que o penta aurinegro veio em tempo onde torneios continentais se solidificavam, reverberando a qualidade daquele elenco para muito além do Cone Sul. No mesmo período, o clube decidiu as três primeiras edições da Libertadores, ganhando as duas primeiras e só sendo parado pelo Santos de Pelé na terceira – embora tenha-o derrotado na Vila Belmiro. Em 1965, deu o troco no Santos e chegou a nova final. Calhou de o saldo de gols não ter peso: a derrota de 1 a 0 para o Independiente na Argentina foi revertida com um 3 a 1 no Centenário, mas apenas forçou um terceiro jogo. 

Oliveira, Beto, Jota Alves, Abel, Castilho e Carlinhos; Quarentinha, Pau Preto, Edson Piola, Milton Dias e Ércio antes da vitória sobre o Peñarol. À direita, o técnico Juan Álvarez com Quarentinha em 1966

O Rojo prevaleceu com sobras com um 4 a 1 na neutra Santiago. Mas as quatro finais continentais do Peñarol, com dois títulos (e ainda uma conquista Mundial, em 1961) entre 1960 e 1965 não guardavam paralelo com nenhum outro time no mundo naquele período. Para os brasileiros, a mística se referendava por ter tirado o Santos do caminho e pelo que veio depois. Detalhe não menor é que os uruguaios não puderam contar naquela Libertadores com o artilheiro máximo do torneio, Alberto Spencer, que passou todo o primeiro semestre recuperando-se de uma lesão. Outra ausência para o departamento médico foi o experiente Juan Carlos Abbadie.

Com a Libertadores encerrada em abril e o campeonato uruguaio se resumindo aos meses entre agosto e dezembro, o Peñarol preencheu o vazio no calendário com uma série de amistosos. Eles incluíram nova visita ao Brasil, para o triangular festivo do quarto centenário do Rio de Janeiro, com Palmeiras e Fluminense – já contando-se com os retornos de Spencer e Abbadie. Bateram os campeões cariocas por 3 a 1 e seguraram o 0 a 0 com os paulistas. O Comercial aproveitou-se dessa estadia e convidou os uruguaios para Ribeirão Preto. O 1 a 1 segue celebrado na história comercialina, mas objetivamente representava o 12º jogo seguidamente invicto daqueles astros. Dali, o clube embarcou a Belém, com compromissos marcados contra Paysandu e Remo.

Ao chegar na Amazônia, o Peñarol podia dizer-se invicto há 13 jogos: os reservas que ficaram no Uruguai bateram em 17 de julho o Rampla. O primeiro desafiante estava longe de poder gabar-se de algo assim. Juan Álvarez chegara em maio de 1965 ao Paysandu, aguardado como um disciplinador, em uma reação inicial da diretoria pelos rumos do estadual de 1964 – finalizado só em 28 de fevereiro de 1965, com o Remo igualando-se aos vinte títulos do rival, superando a gozação inicial de ter sido derrotado na quarta rodada pelo lanterna Liberato de Castro (vexame que causara a renúncia de toda a diretoria azulina). Detalhe: o Papão sequer chegaria às finais, tendo o Leão decidido o torneio contra a Tuna.

O Remo também levara a melhor em um primeiro Re-Pa pós-título, em 3 a 2 amistoso em 24 de abril. Álvarez inclusive perdeu seu primeiro Re-Pa, em 16 de maio (2 a 1), embora vencesse um segundo (1 a 0) nove dias depois: todos amistosos. A diretoria bicolor então ousou além: causou furor ao acertar a vinda do lendário Castilho para ser o novo goleiro bicolor. Enquanto ele não estreava, o Papão, empolgado, começou o estadual de 1965 com um 4 a 0 no Júlio César e um 6 a 1 no Liberato de Castro, no fim de junho. A estreia de Castilho, contudo, pedia um Re-Pa, agendado no campeonato apenas para 1º de agosto. Acertou-se então um amistoso em 1º de julho.

Foi um desastre para o veterano. O Remo não tomou conhecimento da estrela e venceu por 3 a 0. A súmula registrou ainda a expulsão de um certo Milton Dias. A gozação de um lado e desconfianças de outro foram inevitáveis. Três dias depois, o Paysandu voltou a campo pelo estadual e o goleiro usado foi Helito, no triunfo de 5 a 1 sobre o Combatentes. Ciente da preferência do público em aproveitar julho para lazeres em balneários pelo Estado, o Estadual faria uma pausa até aquele Re-Pa de 1º de agosto. Mas era preciso aproveitar a boa vontade e disponibilidade do Peñarol, mesmo que a descrença em um bom resultado, o ingresso considerado caro para a época (em 10 cruzeiros) e as férias não lotassem a Curuzu para aquele 18 de julho de 1965 – dois dias depois dos 15 anos do Maracanazo, que teria duas testemunhas oculares para o amistoso: Máspoli era agora o técnico peñarolense e Castilho, reserva de Barbosa, voltaria à titularidade. 

Os cumprimentos dos técnicos Roque Máspoli com Juan Álvarez, que se conheciam desde os tempos de Nacional, e a emoção especial do treinador bicolor

Seriam inclusive três se El Pardo Abbadie não tivesse cometido o desatino de desistir da convocação para 1950 – “não me sinto preparado. Além disso, prefiro não ir de recheio”, teria dito ao treinador Juan López, para admitir que “era orgulhoso e pretendia que me chamassem de cara, para jogar… finalmente foi Morán, fomos campeões do mundo. Queria morrer”, conforme depoimentos presentes no seu perfil no livro Héroes de Peñarol. O tal Morán, de fato, foi reserva em toda a Copa menos no Maracanazo, usado como emergência na vaga do lesionado titular Ernesto Vidal, e nunca pôde estabelecer uma carreira clubística resplandecente. 

O mesmo livro Héroes de Peñarol contém ainda o seguinte depoimento do caudilho Néstor Gonçalves, o jogador mais vezes campeão pelo clube, indagado sobre o triunfo sobre o Santos em 1965: “Um time, para ganhar a Libertadores, tem que ter dois ou três inconscientes. Esses jogadores que não conhecem o medo. (…) Esses jogadores que não medem tamanho, peso, lugar, tradição nem pontuação que lhes dão. Jogam na Amazônia e em Wembley da mesma forma. Esses são os não se importam se você vai à selva sem levar armas”. Não se deixa claro na obra se a menção à Amazônia ou à selva era uma recordação daquela viagem, mas um elemento desconhecido até para aquelas feras era o calor acentuado nos Trópicos.

Na imagem que abre a matéria, colorida pelo perfil MuseudoPapao no twitter (bem como outras daquele período a ilustrarem essa nota), alinham-se da esquerda à direita os visitantes Omar Caetano, Juan Joya, Rubén Dávila, Juan Carlos Abbadie, Pedro Rocha, Alberto Spencer, Ladislao Mazurkiewicz, Luis Varela, Héctor Silva, Juan Lezcano, Pablo Forlán e seu técnico Roque Máspoli. Agachados, os anfitriões, enfileirados com Pau Preto, Edson Piola, Castilho, Jota Alves, Carlinhos, Milton Dias, Ércio, Beto, Abel, Quarentinha e Oliveira.

As escalações, por sua vez, foram Mazurkiewicz; Forlán, Lezcano, Varela e Caetano; Dávila e Rocha; Abbadie (depois substituído pelo peruano Eduardo Flores), Silva, Spencer (depois substituído pelo argentino Miguel Reznik) e Joya de um lado; e Castilho, Oliveira, Abel, Jota Alves e Carlinhos; Beto e Quarentinha; Pau Preto (depois Milton Marabá), Edson Piola (Vila), Milton Dias (Laércio) e Ércio pelo lado do Paysandu, sob arbitragem de um adolescente: o juiz Manoel Francisco de Oliveira tinha apenas 18 anos e não teve maior trabalho, relatando que o jogo transcorreu com tranquilidade. Foi auxiliado pelos bandeirinhas Manoel Moura e Elzeman Rabelo, seu próprio pai.

O Quarentinha da escalação bicolor não é o xará que brilhava no ataque do Botafogo, também paraense e revelado no Paysandu, e sim um volante que viria a ser o jogador mais vezes campeão estadual no Brasil: doze títulos entre 1956 (quando fez o gol que finalizou o jejum de nove anos imposto pela Era Véliz) e 1972; enquanto ele armava as jogadas, sua dupla no meio-campo Beto (o mesmo que coloca Véliz acima de Alcino) se encarregaria de marcar Pedro Rocha. Já Oliveira, sim, é o mesmo que depois desfilaria nos gramados cariocas pelo Fluminense, apoiado pelo ídolo tricolor que agora era seu colega no gol do Paysandu. Nas Laranjeiras, substituiria à altura Carlos Alberto Torres na lateral-direita por oito anos, ganhando em 1970 o primeiro título brasileiro do clube. 

Declarações dos uruguaios à mídia paraense e trecho do relato do Jornal do Brasil

Pau Preto, por sua vez, era quase tão veterano quanto Castilho. Era um curinga que já havia sido usado no meio, na zaga e que, aos 37 anos, voltaria ao ataque – em registros da época e em atuais, ocasionalmente era referido pelo seu nome real, Fernando, por motivos um tanto óbvios. Sua participação no jogo, porém, ficaria longe de se resumir ao folclore do apelido. Ele e os colegas souberam aproveitar o fator clima para se impor cedo na partida, após minutos iniciais de cautela e estudo. Aos 18 minutos, então, o ponta Ércio recebeu de Carlinhos, driblou Forlán e arriscou ainda na entrada da área ao notar Mazurkiewicz ligeiramente adiantado. Foi premiado com um golaço no ângulo.

Aos 43 minutos, a defesa bicolor deu um chutão para afastar um ataque uruguaio. A bola chegou a Pau Preto, que atraiu a marcação aurinegra e então serviu para Milton Dias completar ao gol vazio – em outros registros, a assistência foi creditada a Edson Piola; a ausência de registros fílmicos dificulta uma maior precisão. Um 2 a 0 para aquele Peñarol não era nada insuperável, como o River descobriria dali a menos de um ano na finalíssima da Libertadores de 1966. Para os brasileiros, então, estava fresquíssima a superação diante do Santos nas semifinais de 1965: no Pacaembu, Pelé, Pepe e Dorval haviam aberto um 3 a 0 com sete minutos de jogo. Mas, mesmo sem Spencer e Abbadie, aqueles copeiros uruguaios souberam descontar para 3 a 1, depois para 4 a 2 e, quando já perdiam de 5 a 2, encostaram para honrosos 5 a 4 com dois gols de Héctor Silva nos quinze minutos finais. Energizados, venceram por 3 a 2 no Uruguai e por 2 a 1 no jogo extra na Argentina. 

Álvarez, ainda assim, se permitiu a no intervalo tirar Edson Piola, escalado por melhor impor-se com seu tamanho na zaga carbonera, colocando em seu lugar Vila. No outro vestiário, o intervalo teria sido aproveitado para hidratação: o zagueiro Abel relataria nos 40 anos do jogo que os oponentes pareciam voltar a campo tendo tomado banho com uniforme e tudo (“eu estava cansado e não ia aguentar do ritmo de jogo. O time joga correndo e o calor me estafou”, declararia o veterano Abbadie à imprensa, explicando porque pedira para sair), atrasando o reinício para bem além dos 15 minutos regulamentares. Mas, para a crônica de Nelson Rodrigues ao Jornal dos Sports, o “banho completo” mesmo deu-se pelo placar final mesmo.

Segundo o Jornal do Brasil, Castilho, a dedicar uma das vitórias “mais bonitas da minha carreira” ao seu Fluminense recém-derrotado pelo mesmo adversário, não foi muito ameaçado no primeiro tempo. Mas, com os 2 a 0, viria a ser a grande figura na retomada, de acordo com o Jornal dos Sports: tendo a atuação mais elogiada nas matérias que repercutiram Brasil afora, impedindo que os uruguaios descontassem. Aos 37 minutos, então, o Papão matou o jogo: no relato do Jornal do Brasil, Vila (grafado como “Sila”) chegou à linha de fundo e cruzou para trás. Pau Preto (registrado como Fernando na matéria) então aproveitou o passe “para driblar o zagueiro Varela e chutar forte, não dando chance de defesa ao goleiro”, em lance elogiado pela “calma e categoria” na imprensa local. Já para o Jornal dos Sports, Varela havia sido driblado por Vila mesmo. 

Três notas do diário carioca O Jornal: sobre o 3-0 do Paysandu, o 1-1 do combinado Papão-Tuna e uma exaltação a Castilho

Nos registros paraenses, Caetano teceu elogios especiais a Pau Preto (“menino é bom, maneja muito bem a bola e sempre fugiu da marcação. Foi uma vitória justa”); Joya, a Oliveira (“o dois é bom. Joga certo e não brinca em serviço. Trabalha muito bem com a bola e sabe marcar. Foi muito difícil para mim”) e Spencer, à toda a defesa bicolor (“aqui vi uma defesa quase perfeita, tanto assim que pouco ou quase nada demos trabalho ao Castilho”). Álvarez estava eufórico: “choro de dupla alegria. O Peñarol sempre foi meu maior rival”. Máspoli, após cumprimentar o ex-colega de Nacional, não justificou-se no calor: “o Paysandu venceu porque jogou melhor. Não sou de acreditar em surpresas”. 

Mas para o clube uruguaio, o melhor adversário teria sido Milton Dias, uma quinzena depois de ele ter sido expulso em uma derrota pelo mesmo placar diante do maio rival. Enquanto o diário carioca O Jornal noticiava que a euforia bicolor chegou ao nível de cogitar a contratação de outro campeão mundial com a seleção, o zagueiro Zózimo, Dias seria contratado pelo Peñarol – embora o tempo revelasse-o como craque de um jogo só, mal saindo da equipe B, por mais que compusesse o elenco vencedor da Libertadores de 1966, e que soube adiante, no Mundial Interclubes, fazer no Bernabéu o que não conseguira no Pará: vencer o time da casa. Pois haveria uma nova oportunidade para dali a três dias. 

Naquele mesmo 18 de julho, o Remo venceu o Nacional – no caso, o de Manaus mesmo, voltando do Amazonas com um 1 a 0 em seu primeiro compromisso na Taça Brasil de 1965. O Leão era o adversário originalmente programado, em destaque dado até no Jornal dos Sports quando divulgou-se o embarque peñarolense ao norte, mas preferiu priorizar a partida da volta da Taça Brasil, marcada para o dia 25. Induzido ao erro, o livro Peñarol 120 Años, a documentar todos os jogos do clube, registrou aquela partida então como um “Combinado Paysandu/Remo”, mas o combinado foi entre Papão e Tuna mesmo. E se o jogo de 55 anos atrás rendeu prejuízo de 15 mil cruzeiros ao Paysandu, amenizado por leis municipal e estadual aprovadas para socorrer o clube (a prefeitura e o governo racharam a conta), o jogo seguinte viu o oposto.

Houve superlotação na Curuzu, algo repercutido até na imprensa do Paraná, cujo Diário da Tarde relatou “uma arrecadação que beirou os 40 milhões de cruzeiros passando por suas bilheterias. Havia tanta gente no estádio que parte do alambrado ruiu espetacularmente, ficando feridas três pessoas, embora sem gravidade”; para o Jornal dos Sports, os feridos foram dez. A arbitragem foi outra vez de Manoel Oliveira a e escalação paraense foi Castilho, Oliveira, João Tavares, Abel e Carlinhos; Da Silva e Quarentinha; Santiago, Nascimento, Mário (Milton Dias) e Ércio, contra basicamente a mesma equipe surrada 72 horas antes – o veterano Abbadie dessa vez não jogou: Mazurkiewicz, Lezcano, Forlán, Dávila e Varela; Caetano e Flores; Spencer, Silva, Rocha e Joya. Reznik ainda entraria no lugar de Silva e Obdulio Aguirre, no de Dávila. 

E quase veio uma segunda vitória para a casa: o tunante Nascimento (os outros cruzmaltinos eram Da Silva, Mário e Santiago, sendo a elogiada defesa bicolor integralmente preservada) abriu o placar aos 30 do segundo tempo, mas Spencer fechou a conta ao aproveitar o rebote de Castilho em uma bomba de Reznik, assinalando o 1 a 1 aos 42. Adiante, o Paysandu venceria por 1 a 0 aquele Re-Pa de 1º de agosto e sagraria-se por antecipação o campeão estadual de 1965, com três voltas olímpicas em 22 de novembro: na manhã daquela data, foi campeão estadual na categoria juvenil. Às 14h30, começou o jogo que renderia o título da categoria aspirantes, preliminar para o duelo das 16 horas que garantiu matematicamente o título do time adulto guarnecido por Castilho. Nada que repercutisse tanto fora dali como aquela dita crônica de Nelson Rodrigues, publicada em 20 de julho no Jornal dos Sports. A íntegra segue na imagem abaixo.

Três relatos do Jornal dos Sports: o 3-0 do Paysandu, o 1-1 do combinado Papão-Tuna e a crônica de Nelson Rodrigues

Quando o Peñarol padeceu – parte II (e quando não padeceu)

Mais fácil do que decorar toda a crônica de Nelson Rodrigues foi memorizar a marchinha composta desde ali nas arquibancadas de 18 de julho de 1965: a cantiga “uma listra branca, outra listra azul” pegou tanto que chega a ser erroneamente atribuída como hino do clube, de fato menos conhecido do que a canção que, além de cutucar a maior goleada dos Re-Pas (“pintou o sete numa tela azul, foi feito sem defeito do Papão da Curuzu”), destaca primeiramente que “até o Peñarol veio aqui para padecer”.

Se a imprensa local cogitou em 1965 que o “feito do Paysandu coloca mundialmente o futebol paraense num plano técnico superior” (de fato, só aquele 4 a 1 do Independiente na final da Libertadores foi mais elástico no balanço dos resultados aurinegros naquele ano; o time se recuperaria no segundo semestre com um 3 a 1 na seleção chilena e novo título uruguaio), essa empolgação não foi tão longe. O Paysandu, embora triunfante em 1968 sobre a seleção romena, limitou-se a conquistas de caráter local e uma ou outra vitória sobre alguma potência brasileira. Nem mesmo a vinda de Dadá Maravilha teve êxito, em 1979, por mais que individualmente o veterano tenha correspondido.

O Remo foi além, decidindo a segunda divisão brasileira em 1971 e em 1984, além de vestir mais de uma faixa de campeão Norte-Nordeste na virada dos anos 60 para os 70. A Tuna foi ainda mais longe, ganhando a segunda divisão brasileira em 1985. A Curuzu então conseguiu um feito do tipo ao vencer a Série B também, em 1991. Os vizinhos tratavam de responder: o Leão, em paralelo, chegou às semifinais da Copa do Brasil e fechou o ano com um tricampeonato estadual seguido. No primeiro semestre de 1992, a Tuna venceu a terceira divisão e o Remo garantiu o acesso à elite enquanto o Papão lutava contra as últimas posições, embora beneficiado pela ausência de rebaixamento.

A resposta da diretoria bicolor? Oferecer 25 mil dólares para convidar novamente o Peñarol. Mesmo que viesse de um desempenho ruim na liga uruguaia, fazendo o treinador Ljupko Petrovic chegar em março para sair já em junho, ainda uma camisa de peso recentíssimo no futebol sul-americano pelo título na Libertadores de 1987 – ninguém supunha que seria o último até hoje. O substituto do técnico iugoslavo? O mesmíssimo Roque Máspoli, no que seria a última das inúmeras passagens do goleiro do Maracanazo como técnico carbonero; não houve personagem mais vitorioso que ele no Peñarol na soma jogador e técnico, e a cartolagem manya se ancorou em quem àquela altura já vinha se dedicando a treinar os juvenis do clube. 

Procurado pelo jornal O Liberal, Máspoli expôs suas lembranças sobre 1965: “Fizemos uma excursão bastante proveitosa no Brasil. Em Belém, pensamos que iríamos enfrentar um time de segunda categoria e acabamos jogando contra uma equipe de primeira”. Outro remanescente de 1965 seria o árbitro Manoel Francisco de Oliveira, agora um veterano nos seus 45 anos (e, dessa vez, auxiliado por Júlio Lima e Waldemir Oliveira da Costa). E outro fator a se repetir foi a descrença da torcida. Pouco mais de 7 mil pessoas compareceram no Mangueirão, insuficiente para o jogo ser financeiramente lucrativo ao clube: a renda foi de 77 milhões de cruzeiros, quando só os gastos com as passagens dos visitantes somavam o dobro desse valor, fora o cachê equivalente a mais 100 milhões. “São essas cosias que tiram a nossa força de vontade” foi o lamento do presidente Ruy Salles a O Liberal.

O relato do reencontro em 1992 no jornal Diário do Pará

Afinal, se hoje a escalação visitante com Oscar Ferro (Gerardo Rabajda), Fernando Rosa, Marcelo Asteggiano (Ramón Víctor Castro), Carlos Sánchez (Pedro Pedrucci) e William Castro (Néstor Blanco); Jorge Barrios, Diego Dorta e Danilo Baltierra; Sergio Martínez, Roy Myers (Euler Correa) e Adrián Paz não soa tão imponente como de outros tempos, não deixavam de compor um conjunto de relativo renome para a época: Barrios, William Castro e Martínez já haviam participado de Copa do Mundo pela Celeste e Myers, por sua Costa Rica; Ferro, Ramón Castro, Pedrucci, Dorta e Paz também tinham passagens prévias e recentes pela seleção uruguaia. 

Dorta, Ferro e El Manteca Martínez, prestes a virar ídolo histórico no Boca, inclusive venceriam a Copa América de 1995, onde foi de Martínez a cobrança do título na decisão por pênaltis contra o Brasil tetracampeão. A diretoria bicolor aguardava um lucro para quitar a dívida junto ao Guarani pelo ídolo Cacaio e o jornal Diário do Pará noticiou até que, dependendo da renda, a cartolagem se mexeria até para trazer o Real Madrid. Mas a escalação caseira Luís Carlos, Jura (Zé Augusto), Augusto, Vítor Hugo e Julimar; Waldeir (Nad), Oberdan e Rogerinho; Edil (Mazinho), Cacaio e Fernando Cruz (Marcelo Chermont), treinados por Norberto Lopes, não parecia párea – mesmo que Zé Augusto, Nad, Rogerinho, Edil e Mazinho houvessem servido a seleção paraense que dois anos antes empatara com a Bulgária de Stoichkov no Mangueirão.

Antes do jogo, os vitoriosos de 1965 receberam placas de prata e deram uma volta olímpica no Mangueirão, havendo ainda homenagens póstumas a Pau Preto e a Castilho. Quem esteve lá, não se decepcionou: com 21 minutos de jogo, já estava 2 a 0. Aos 12 minutos, Oberdan buscou a sobra de uma bola mal afastada pela defesa uruguaia e acertou um tiro rasteiro de fora da área no canto direito de Ferro para abrir o placar. Aos 21, Edil cavou uma falta no ângulo esquerdo da grande área. Na cobrança, Vítor Hugo bombardeou uma bola rasante no montinho artilheiro para acertar o outro canto de Ferro. Na maior chance visitante, Jura salvou com o peito em cima da linha uma tentativa de longa distância.

No início segundo tempo, Martínez ciscou pela ponta esquerda, mas só acertou a rede pelo lado de fora. E já aos 7 minutos repetia-se o placar de 1965: artilheiro do Paysandu campeão da segunda divisão de 1991, Cacaio chegou à área livrando-se de três uruguaios. Perdeu a bola na disputa com o quarto, mas ela sobrou a Edil. Toda a defesa aurinegra então se concentrou em Edil e na disputa a bola voltou a Cacaio, que girou para marcar no gol vazio. Paz ainda teve uma chance para descontar, em tiro cruzado pela direita que passou rente à trave do ex-botafoguense Luís Carlos. Mas Cacaio ampliou a festa logo aos 16 minutos: ganhou a corrida contra o marcador no contra-ataque e concluiu com um sutil toque rasteiro na saída de Ferro. 

Ao Peñarol, restou lamentar ainda um lance seguinte onde carimbou o travessão, com a bicicleta de Martínez desperdiçando o rebote sem goleiro. Lance respondido com outra bomba na trave, em outra cobrança de falta de Vítor Hugo. O Liberal suspirou: “Os torcedores saíram do Mangueirão sorrindo com o futebol rápido e envolvente do Paysandu, que fez sua melhor partida dos últimos tempos, contra um adversário de bom nível técnico. A vitória de ontem à noite, com certeza, vai marcar uma nova fase no time bicolor, uma vez que a garra e a determinação mostrada pelos jogadores em campo garantiram o retorno da credibilidade do time diante de sua fiel torcida. A crise que culminou com a perda do Campeonato Estadual em 1991 e a lanterna na Primeira Divisão foram deixadas para trás. Os torcedores só queriam saber de torcer pelo Papão, vibrando com cada gol que o Paysandu fazia no adversário. Os gols, sem exceção, foram dignos de placa no Mangueirão”.

E assim foi, mesmo com o ídolo Cacaio não permanecendo na Curuzu, tendo reforçado o próprio arquirrival para o resto do semestre. Em um estadual de reviravoltas, o Paysandu liderou a primeira fase, mas o hexagonal decisivo do primeiro turno ficou com o rival – que, ainda assim, buscou melhorar o time que estava ganhando sob o treinador Nélio Pereira, substituindo-o por um forasteiro que conhecera Belém em 1965: Pedro Rocha, o próprio. Saiu pela culatra. O Papão venceria os dois Re-Pas no segundo turno e o uruguaio caiu. Nélio Pereira voltou, mas não impediu novos triunfos bicolores nas duas finalíssimas: em um espaço de 30 dias, foram quatro vitórias alvicelestes seguidas por 1 a 0. Na última, com um gol de Mendonça encobrindo desde o meio-campo o adiantado goleiro Paulo Vítor (outrora componente da seleção brasileira na Copa de 1986).

O que não se imaginava é que uma vitória daquelas seria a última do Paysandu por tanto tempo. Os rivais se reencontraram já em 31 de janeiro e 6 de fevereiro de 1993, por um torneio de pré-temporada com a dupla cearense. Após um 0 a 0 no primeiro duelo, o Paysandu vencia por 1 a 0 o segundo, graças a um pênalti convertido por Rildon aos dois minutos do segundo tempo. Em dado momento, o árbitro, o mesmíssimo Manoel Francisco de Oliveira que apitara as duas vitórias paraenses sobre o Peñarol, assinalou um pênalti ao Remo. Peitado energicamente por César e Rogerinho, expulsou os dois. Em protesto, os bicolores se retiraram de campo. Pelo regulamento, isso seria punido com um placar de 1 a 0 a se atribuir ao outro time. Nascia um interminável tabu sem precedentes em grandes clássicos.

No embalo de uma invencibilidade de 33 jogos, o Remo sagrou-se pentacampeão seguido de 1993 a 1997.  Curiosamente, o Peñarol, com Máspoli ocupando a gerência do clube, acumulou no mesmo período o seu próprio penta, sob a regência do reforço Pablo Bengoechea. Foi o terceiro e último Quinquenio de Oro que o campeonato uruguaio viu, e o segundo dos auringeros. Em julho de 1996, pouco após ambos garantirem seus tetracampeonatos seguidos, foi a vez então da diretoria azulina buscar reparar o erro histórico que cometera 31 anos antes. Bancou um amistoso de luxo para troca mútua de faixas de tetracampeões, com direito a sorteio de um carro no Baenão para aquele encontro das 20h30 vendido a dez reais.

Afinal, mais do que o Paysandu (pois o vice de 1996 foi a Tuna do atacante Gauchinho, depois artilheiro da Libertadores de 1999 pelo Cerro Porteño), o Remo fora campeão superando até tragédia – caso da morte acidental do atacante Andrey em 12 de junho, ao brincar com revólver pertencente ao colega Cléberton, inocentado já no inquérito. Após o compromisso final em 4 de julho, em novo triunfo no Re-Pa (2 a 1), o clube jogou contra as seleções municipais de Abaetetuba (4 a 1) e Garrafão do Norte (5 a 2), aguardando o jogo marcado para o dia 16 contra os uruguaios. Luís Júlio Lima foi o árbitro, acompanhado de José Ribamar e Domingos de Jesus.

Usando um uniforme reserva que lembrava o Nacional, o Remo foi escalado pelo treinador Fernando Oliveira (glorificado na Tuna pelo título da Série C de 1992 e por promover o messias Giovanni por lá) com Claudecir, Marcelo Silva, Belterra, Ney e Júlio César; Cléberton, Rogerinho, Zedivan (Zé Raimundo) e Rogério Belém; Castor (Bujura) e Ageu Sabiá – que chegara a brigar pela artilharia do Brasileirão de 1993, quando o Leão protagonizou a melhor colocação de uma equipe nortista no torneio. Ele foi o primeiro parceiro de ataque de Giovanni na Tuna, e o próprio craque santista chegou a ser convidado para o evento antes de embarcar ao Barcelona. Mas recusou e outras ausências sentidas foram a do volante Agnaldo, também em São Paulo como o goleiro Robson (que passaria pelo Flamengo).

Rogerinho era o mesmo com passado pelo Paysandu e, diante da lesão do desfalque Edil (outro ex-bicolor), viraria um raro a enfrentar por duas vezes o Peñarol por clubes paraenses; ou o único, se for desconsiderado aquele combinado Paysandu-Tuna. Seu xará no ataque ainda era chamado apenas de Rogério. Virou Rogério Belém ao migrar ao São Paulo, fazendo com que o goleiro tricolor Rogério então virasse Rogério Ceni. Do lado uruguaio, o único remanescente de 1992 era o meia Baltierra. Treinados por Jorge Fossati, os aurinegros entraram no Baenão com a formação Sergio Navarro, Oscar Aguirregaray, Washington Tais, José de los Santos e Robert Lima; Edgardo Adinolfi, Nicolás Rotundo, Baltierra e Bengoechea (Gustavo Reherman); Luis Romero e Tony Pacheco (Nelson Gutiérrez).

O duelo do Peñarol com o Remo em 1996 na capa do jornal Diário do Pará

Acontece que a despeito da boa fase azulina, a torcida pareceu compartilhar da mesma descrença sentida pelos rivais nas outras ocasiões. O jornal Diário do Pará ressaltou que “era notório o número diminuto de torcedores, causando prejuízo”. O que foi diferente foi a postura nada passiva dos uruguaios: com 20 minutos, Adinolfi foi expulso. Ainda assim, o Peñarol pôde abrir o placar aos 38 minutos; Júlio César perdeu a bola para Tais, que pegou a defesa remista desprevenida e guardou. O duelo Baltierra x Belterra teria sido marcado por jogadas desleais dos dois lados e em uma delas, Aguirregaray também viu o vermelho, aos 30 do segundo tempo – gerando uma confusão que paralisou a partidas por dez minutos, com direito a perseguir no túnel azulino o massagista adversário para revidar um suposto cuspe.

Mesmo com dois jogadores a mais, o Remo falhou em aproveitar suas chances e inclusive se viu dominado em grande parte do jogo, na avaliação do Diário do Pará. Inspirado ou não por aquela garra charrua que voltou à tona também com o falecimento de Obdulio Varela no mês seguinte, o Paysandu, com vistas à disputa da Série B, buscou em Sergio Ramírez o seu quarto treinador no ano. Célebre pela perseguição a Rivellino em um clássico das duas seleções em 1976, só duraria oito jogos: empatou metade, ganhou dois e perdeu outros dois, incluindo um Re-Pa pela segunda divisão. 

Epílogo: enfim, ambições continentais

Até a edição de 1996, a CBF preencheu suas vagas na Copa Conmebol com base no Brasileirão. Para 1997, a entidade passou a aceitar os campeões dos regionais, que, como o Rio-São Paulo, voltariam ao calendário dos clubes. O Remo decidiu então a nascente Copa Norte com o Rio Branco, saindo do Acre com um promissor 0 a 0 no jogo de ida, em 17 de abril. Uma inédita participação sul-americana, porém, esfarelou-se em 4 de maio: surpreendentemente, os acrianos venceram por 3 a 1, resultado que condenou o técnico Fernando Oliveira. A torcida só não se importou tanto porque, improvisando o zagueiro Belterra e o volante Agnaldo como uma dupla de jogadores-treinadores, o Leão simplesmente conseguiu nos dez minutos finais virar para 3 q 1 o compromisso que teve três dias depois: precisamente o Re-Pa que decidiu o primeiro turno estadual. Fechou-se com ouro aquela série, pois aquele foi também o Re-Pa 33.

A Copa Conmebol durou até 1999, sem que as forças paraenses voltassem e chegar tão longe na Copa Norte. Para 2000, a saída da CBF para justificar a permanência dos regionais foi criar a Copa dos Campeões para abrigar seus vencedores na luta por uma vaga extra na Libertadores. Até lá, Rogerinho, autor do gol do pentacampeonato remista em 1997 no primeiro Re-Pa seguinte ao da quebra do tabu, voltara a Curuzu para participar dos anos dourados do Papão. Na esteira de um tri estadual de 2000 a 2002, o Papão levou a Série B de 2001 para, em 2002, ganhar a Copa Norte e a Copa dos Campeões. Só não foi possível segurar o treinador de todo aquele ciclo: Givanildo Oliveira não aguentou a luta contra o rebaixamento em 2002. Atual técnico do clube, Hélio dos Anjos salvou a lavoura, mas acreditou mais no Goiás para 2003.

Juan Álvarez, que pediria que suas cinzas fossem espalhadas na Curuzu, ainda vivia e tinha até a experiência de assistente no último time uruguaio campeão da Libertadores, o Nacional de 1988 – ele comandaria os reservas que continuaram jogando o campeonato uruguaio enquanto os titulares embarcavam a Tóquio para o Mundial. Mas a opção da diretoria foi por outro homem formado no tricolor uruguaio. Mesmo que Darío Pereyra não chegasse a ser pessoalmente o maior conhecedor da Libertadores, com duas solitárias participações pelo seu São Paulo, sua nacionalidade parecia embutir nele um conhecimento, ainda que por osmose, do inconsciente coletivo do seu povo sobre o torneio. Ao menos parece ter sido o pensamento da diretoria ao trazê-lo. Com efeito, sob ele veio os triunfos internacionais mais conhecidos do futebol paraense. História que já retratamos aqui.

Abaixo, os quatro duelos do Peñarol no Pará relembrados na lista de jogos do livro Peñarol 120 Años – abra a imagem em outra janela para uma visão ampliada. E, mais abaixo, outro intercâmbio paraense com os uruguaios, que exibem no museu do Estádio Centenario um presente dos índios marajoaras aos campeões de 1950.

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O Marajó soube ter mais espírito esportivo do que o resto do país na perda da Copa de 1950. O tal Maracanazo faz hoje 70 anos e vale postar de novo a mais linda surpresa da visita ao Estádio Centenário. Fotos de um ano antes da Copa voltar ao Brasil e da seleção de fora campeã da vez ser (novamente) a que mais valorizou nossos indígenas. Pra qualquer paraense, essa arte marajoara deixa em segundo plano relíquias de Pelé, Obdulio Varela, Maradona, Peñarol, Nacional e outras que não caberiam todas aqui mesmo se o insta permitisse 20 fotos por post. Mas história uruguaia de verdade se vê em outros estádios. O do Nacional, ali do lado no Gran Parque Central, foi erguido na fazenda onde acertaram a independência do país. E o do Defensor já seria legal por ser todo bucólico no Parque Rodó, na beira da orla de Montevidéu. E era lá que a oposição à ditadura se sentia livre pra reunir-se abertamente. Quando foram campeões naqueles anos, inventaram até “volta olímpica ao contrário” pra simbolizar a dissidência. É vizinho ao Parlamento do Mercosul também. Fora que a camisa é roxa, rsrs. #Marajó #Uruguai #Uruguay #Uruguaynomá #aquihayoncecharruas #Montevideo #Montevidéu #EstadioCentenario #Maracanazo #GranParqueCentral #LuisFranzini #DefensorSporting #Nacional #Pelé #Maradona #ObdulioVarela #Ghiggia #Schiaffino #Copa50 #FIFAWorldCup #ParqueBatlle #garracharrúa #charrúa #tbt

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