São inúmeras as simbologias e os significados da conquista da Recopa Europeia pelo Slovan Bratislava, que completa 50 anos nesta terça-feira. Em meio a um período politicamente conturbado na Tchecoslováquia, o clube se tornou o único do país – tanto antes quanto depois de sua divisão entre República Tcheca e Eslováquia, em 1993 – a disputar uma final continental, e mais ainda: a levantar a taça. E o primeiro do antigo bloco socialista a fazê-lo.

A história turbulenta daquele torneio começa dez meses antes de os eslovacos derrotarem o favorito Barcelona por 3 a 2 na decisão disputada no estádio suíço de St. Jakob Park, na Basileia. No dia 10 de julho de 1968, em sua sede de Genebra, a Uefa sorteou os confrontos da primeira fase de suas duas taças, a Copa dos Campeões e a Recopa (a Copa das Feiras, terceiro torneio de clubes do continente de então, era organizada por um comitê independente).

A CRISE POLÍTICA

Naquele momento, a Tchecoslováquia vivia dias de apreensão. O chefe de Governo Alexander Dubček, secretário-geral do Partido Comunista do país, havia proposto uma série de reformas para uma abertura no regime socialista que não agradaram à União Soviética. Depois que as tentativas de diálogo falharam, em 20 de agosto os tanques do Pacto de Varsóvia (organização militar que reunia os soviéticos e seus países satélite da Cortina de Ferro) invadiram e ocuparam o país, gerando incerteza política, ainda que recebidos sem violência.

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Uma semana depois, a Uefa convocou reunião de seu Comitê de Urgência em Zurique para tratar de suas copas de clubes diante dos últimos acontecimentos em Praga. Segundo nota publicada no jornal catalão Mundo Deportivo, a entidade deveria avaliar a posição do Celtic, que enfrentaria o Ferencváros pela Copa dos Campeões e se opunha à disputa de jogos contra equipes dos países que haviam participado da invasão da Tchecoslováquia.

Não era a primeira vez que questões políticas interferiam em torneios europeus: em 1956, a reação ao levante húngaro fez com que o grande time do Honvéd fosse obrigado a transferir para Bruxelas sua partida como mandante contra o Athletic Bilbao pela Copa dos Campeões, antes de sair pelo mundo em excursão. No fim de 1962, a Grécia se recusou a enfrentar a Albânia (que se classificou automaticamente) em Tirana pelas Eliminatórias da Eurocopa, sob a alegação de que os dois países estavam tecnicamente em guerra desde 1912.

Temendo que a contrariedade do Celtic encontrasse eco em outros clubes da Europa ocidental, o comitê decidiu simplesmente anular a tabela original e anunciar uma nova no dia 30, mantendo do sorteio anterior apenas os confrontos entre equipes do mesmo bloco político e remanejando os demais. A única exceção ficou por conta do jogo da Recopa entre o Torino e o Partizan Tirana, da isolada Albânia, o qual a entidade achou desnecessário alterar.

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Foi então a vez de alguns países da Cortina de Ferro protestarem contra a interferência na formulação do torneio e ameaçarem levar a questão à Fifa. As ameaças de boicote não tardaram a aparecer: em 12 de setembro, dias antes do previsto para a realização dos jogos de ida da primeira fase, a federação polonesa anunciou que retiraria seus clubes de ambos os torneios caso a Uefa não voltasse atrás em sua medida, a qual considerava “ilegal”.

No dia seguinte, já era oficial: os búlgaros anunciaram sua retirada, seguidos um dia depois pelos húngaros. Também no dia 14, os alemães-orientais acenaram com a possibilidade de deixar os torneios caso a tabela original não fosse recuperada. Como a Uefa não recuou, todos os quatro países mais os soviéticos decidiram pelo boicote. Do bloco socialista, apenas Romênia, Iugoslávia e a própria Tchecoslováquia preferiram continuar no torneio sob a nova tabela.

Assim, os confrontos da Recopa entre Spartak Sofia e Union Berlin e entre Górnik Zabzre e Dinamo Moscou não chegam a acontecer. O Dinamo Bucareste, por sua vez, avança para a segunda fase diretamente, por desistência do Gyor húngaro. Embora vença de modo surpreendente o jogo de ida em casa contra o Torino, o Partizan Tirana é batido na Itália e eliminado. Resta apenas o confronto entre o Slovan Bratislava e o pequeno Bor, da Iugoslávia.

O pequeno clube sérvio, fundado em 1919 por franceses numa região de mineração, havia vencido a segunda divisão iugoslava em 1968 e também alcançado a final da copa nacional no mesmo ano, mas não resistiu ao poderoso Estrela Vermelha, que aplicou um sonoro 7 a 0 na decisão e completou sua dobradinha. Porém, o Bor acabou herdando a vaga na Recopa, naquela que seria sua primeira e única participação nas taças europeias.

O TIME-BASE

Do outro lado, os Belasí (azuis celestes) – que nasceram como ČsŠK Bratislava também em 1919 e se tornaram Slovan em 1953 – já eram grandes na Tchecoslováquia, embora enfrentassem então um jejum de 13 anos na liga. Tinham ainda certa tradição europeia: foram os primeiros representantes do país na Copa dos Campeões, em 1956/57, e registraram alguns de seus melhores resultados na Recopa, caindo nas quartas de final em 1962/63 e 1963/64.

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Na temporada 1967/68, seu rival Spartak Trnava conquistou seu primeiro título da liga na história, mas perdeu o técnico Anton Malatinský, que seguiu para a Áustria onde comandaria o Admira. Para o lugar, trouxe Ján Hucko, exatamente o comandante do Slovan, que havia sido vice na liga e levantado a Copa da Tchecoslováquia, batendo o Dukla Praga. Os Belasí então acertaram com Michal Vičan, que vinha fazendo ótimos trabalhos com o pequeno Jednota Trenčín.

Ex-zagueiro do próprio Slovan quatro vezes campeão nacional na virada dos anos 1940 para os 1950, Vičan se tornou um treinador adepto do futebol rápido e direto, levando com isso o Jednota ao vice-campeonato da liga em 1963 e a terminar em terceiro naquela temporada, além de ter chegado à final da Copa Mitropa em 1966, quando perdeu para a Fiorentina em Florença, depois de ter eliminado potências como o Estrela Vermelha e o Vasas.

No Slovan, Michal Vičan herdaria um elenco que mesclava experiência e juventude. Sua espinha dorsal era formada por quatro remanescentes da seleção tchecoslovaca que disputara, sem sucesso, as Eliminatórias para a Copa de 1966, perdendo a vaga no Mundial para Portugal de Eusébio. Eram o seguro goleiro Alexander Vencel, o sólido zagueiro e capitão Alexander Horváth, o dinâmico meia Ivan Hrdlička e o habilidoso atacante Karol Jokl.

Além deles, havia um nome ainda mais experiente: o líbero Ján Popluhár, 33 anos, veterano das Copas de 1958 e 1962, e já nos estertores da carreira, com número reduzido de atuações. Outro jogador rodado era o atacante Ľudovít Cvetler, 30 anos, também com passagem pela seleção, mas ainda titular dos Belasí. Já a juventude era simbolizada pelos gêmeos Jozef e Ján Čapkovič (meia e atacante, respectivamente), ambos com 20 anos ao início da campanha.

Outra dupla de irmãos atuava pelas laterais: Ľudovít Zlocha atuou pelo lado direito na maior parte da campanha, perdendo a posição na reta final para Jozef Fillo. Já seu irmão três anos mais velho, Ján Zlocha, seguiu intocável na lateral-esquerda durante todo o torneio. Completavam aquela equipe-base o zagueiro Vladimír Hrivnák, que substituiu Popluhár na função de líbero, e o meia-atacante Ladislav Móder, que fazia dupla de pontas-de-lança com Jokl.

Uma mostra do potencial daquela equipe foi dada no fim de julho, quando o clube organizou um quadrangular em comemoração ao seu 40º aniversário de fundação e terminou levantando a taça após vencer por 1 a 0 o Hamburgo, que acabara de chegar à final da Recopa, na qual foi derrotado pelo Milan, e golear por 4 a 1 o Ajax, campeão holandês que alcançaria a decisão da Copa dos Campeões contra os mesmos rossoneri ao fim daquela temporada.

O COMEÇO DA CAMPANHA

Na nova edição da Recopa, o Slovan estreou batendo sem dificuldade o Bor por 3 a 0 no estádio Tehelné Pole, em Bratislava, embora os gols só tenham saído na segunda etapa: Jokl abriu o placar logo aos três minutos e ampliou aos 24. O meia Hrdlička completou a contagem aos 35 com um gol que acabou sendo crucial para a classificação. Na volta, os donos da casa marcaram um gol em cada tempo, e o Slovan teve de conter a pressão para ficar com a vaga.

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Nas oitavas de final, o adversário seria o Porto, que vinha de eliminar no sufoco o Cardiff City, mas fez o suficiente para bater o Slovan por 1 a 0 com gol de Custódio Pinto no velho Estádio das Antas. Na volta, porém, os eslovacos amassaram os portugueses: Ján Čapkovič abriu o placar aos 22 minutos, Jokl ampliou logo depois do intervalo e, nos minutos finais, a goleada foi fechada em 4 a 0 com tentos de Jozef Čapkovič e outro de Jokl, cobrando pênalti.

Com a eliminação do Dínamo Bucareste frente ao West Bromwich Albion ainda nas oitavas, o Slovan passava a ser o solitário representante do bloco socialista entre os oito quadrifinalistas. E, logo após a virada do ano, com a liga nacional suspensa pelo inverno, o time viajou à Argentina para disputar um torneio em Mar del Plata, no qual colheu alguns bons resultados, como uma vitória sobre o campeão mundial Estudiantes e um empate sem gols com o Palmeiras.

Em 19 de fevereiro, o Slovan sai na frente nas quartas de final com uma grande vitória sobre o Torino em pleno Comunale por 1 a 0. O único gol aconteceu aos nove minutos da etapa final. O atacante Dušan Hlavenka, substituto de Móder naquele jogo, cruzou da direita, o goleiro Lido Vieri se antecipou a Čapkovič para tentar espalmar, mas a bola foi rebatida de cabeça por Cvetler, e chegou a Jokl, que tocou longe do alcance do arqueiro italiano.

O bom time do Toro contava com o meia franco-argentino Nestor Combin, além de vários nomes da Azzurra, como o próprio Lido Vieri, o lateral Fabrizio Poletti, o volante Giorgio Puja e o meia e capitão Giorgio Ferrini. Mas acabou superado também na partida de volta, em Bratislava, no dia 5 de março, mesmo com o Slovan tendo de atuar por quase uma hora com um jogador a menos devido à expulsão de Hrdlička por jogo brusco aos 35 minutos da etapa inicial.

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Naquela altura do jogo, o Slovan já vencia por 1 a 0, com um gol em chute de muito longe do zagueiro Horváth. E na etapa final, aos 18 minutos, Hlavenka ampliou o placar e a vantagem no mata-mata. Somente na última volta do ponteiro o Torino anotou seu gol de honra, com Alberto Carelli, quando a vaga já estava mais do que assegurada aos Belasí. Nas semifinais, o time pegaria o Dunfermline, da Escócia, que eliminara o West Bromwich num duelo britânico.

O time escocês, que começara aquela década sob o comando do lendário Jock Stein e levantando a Copa da Escócia, vivia bom momento em âmbito doméstico e também europeu: havia voltado à decisão da FA Cup de seu país outras duas vezes, reconquistando o troféu em 1968. Figurava com frequência entre os quatro primeiros da liga escocesa. E havia alcançado as quartas de final tanto na Recopa, em 1961/62, quanto na Copa das Feiras, em 1965/66.

No primeiro jogo, disputado no campo pesado do estádio de East End Park, o Slovan saiu atrás no marcador no último lance da primeira etapa, quando, após uma cobrança de falta para a área e uma falha da defesa em seguida, o meia Jim Fraser tocou com tranquilidade para as redes. Mas a oito minutos do fim da partida, após muita pressão do Dunfermline, veio o empate: Ján Čapkovič foi lançado no lado esquerdo do ataque e tocou de cobertura, na saída do goleiro.

A partida de volta em Bratislava foi uma verdadeira batalha, com os escoceses entrando forte e os donos da casa revidando. E ficou ainda mais pegado depois que o Slovan abriu o placar com um gol de Ján Čapkovič, aos 23 minutos. Na etapa final, o saldo do jogo truncado foi a expulsão do atacante Pat Gardner, do Dunfermline, aos 31 minutos. Com um a mais, os donos da casa se tranquilizaram e controlaram a partida, confirmando a passagem à final.

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Enquanto isso, na Copa dos Campeões, o arquirrival Spartak Trnava também havia chegado entre os semifinalistas, repetindo o feito do Dukla Praga em 1966/67. Porém, sucumbira ao Ajax do jovem Johan Cruyff, perdendo por 3 a 0 em Amsterdã e vencendo por apenas 2 a 0 em casa. O fato de ter superado a campanha do rival tornou a classificação do Slovan à decisão ainda mais saborosa. Mas os Belasí também teriam pela frente um forte adversário.

A DECISÃO

Já então um nome de prestígio no futebol europeu, o Barcelona vivia então um momento não tão vitorioso. Estava bem no meio de um jejum na liga espanhola que duraria 14 anos (entre 1960 e 1974). Naquela década, havia levantado apenas duas taças nacionais e uma Copa das Feiras em 1966. Chegara, é verdade, à final da Copa dos Campeões em 1961, mas caíra diante do Benfica numa final em Berna, na mesma Suíça a qual voltava agora para decidir a Recopa.

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Era, porém, uma equipe repleta de jogadores experientes. O zagueiro e capitão Ferran Olivella havia ostentado a braçadeira também da seleção espanhola no título europeu de 1964. Além dele, o goleiro Salvador Sadurní e os meias Josep Maria Fusté e Jesus “Chus” Pereda também estavam naquele elenco da Roja. Além disso, Olivella, Fusté e o lateral-esquerdo Eladio também haviam estado no Mundial inglês, dois anos depois.

Mas nem só de jogadores rodados vivia aquele Barça: o habilidoso ponta-esquerda Carles Rexach, de apenas 21 anos, despontava como promessa de talento (teria extensa carreira no clube e na seleção ao longo da década seguinte). Pelo maior peso no futebol continental do clube e de seus jogadores, o Barcelona era apontado pela imprensa e pelas casas de apostas como o grande favorito ao título da Recopa, na decisão da Basileia. Mas as surpresas não tardaram.

O Slovan abriu o placar com apenas 40 segundos. Uma bola interceptada no campo de defesa eslovaco chega até a meia esquerda e de lá à intermediária ofensiva, com Hrdlička se projetando. Ele se infiltra e passa a Cvetler na área. O chute do camisa 7 espirra na defesa e volta a Hrdlička, que novamente faz o passe. Cvetler, agora desmarcado no meio da área, cara a cara com Sadurní, bate com o bico do pé direito antes da chegada do defensor. 1 a 0.

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Aos 10, os eslovacos quase ampliaram quando Ján Čapkovič foi lançado nas costas do lado direito da defesa blaugrana, avançou em diagonal e bateu cruzado levando muito perigo ao gol adversário. Mas logo depois, aos 16, quem marcou foi o Barcelona, que nesta altura já tinha mais o controle do jogo. Num contragolpe, a bola foi alçada da esquerda para a área e Carles Rexach escorou de cabeça para a finalização do capitão José Antonio Zaldúa.

E os catalães quase chegaram à virada numa falha do lado direito da defesa do Slovan, que Santiago Castro não aproveitou e bateu por cima do gol. Depois do susto, os eslovacos voltaram a ter mais a bola, e Jokl testou Sadurní com uma cabeçada. Até que, aos 30, o Slovan recuou o jogo até os zagueiros, já postados na linha intermediária. Quando o central Hrivnák recebeu, ele arrancou para o ataque, tabelou, entrou na área, ganhou a disputa na bola espirrada com a defesa e bateu firme na saída de Sadurní para deixar os Belasí outra vez em vantagem.

Em busca do empate, o Barcelona começou a entrar mais duro nas divididas e quase tirou Hrivnák do jogo. Mais tarde, Zaldúa obrigou Vencel a uma grande defesa num chute de fora da área. Só que a defesa voltou a falhar aos 42 minutos: numa cobrança rápida de lateral de Jokl, o capitão Olivella furou bisonhamente e a bola sobrou para Ján Čapkovič, que, sozinho, bateu cruzado para marcar o terceiro gol e aumentar a vantagem dos eslovacos antes do intervalo.

Na etapa final, a primeira boa chance foi do Slovan, em contra-ataque iniciado por Jozef Čapkovič e concluído por Jokl, para a defesa de Sadurní. Mas quem dominou os minutos iniciais foi o Barça: Vencel precisou se desdobrar para espalmar um chute venenoso de Pellicer. Mas não conseguiu deter uma cobrança fechada e ainda mais enganosa de Rexach no escanteio resultante. Um gol olímpico recolocou os catalães no jogo. O Slovan teria de suportar a pressão.

E o empate blaugrana quase veio um minuto depois, numa cobrança de falta de Rexach – a figura responsável pelo crescimento dos catalães na partida – que Vencel defendeu em dois tempos, uma fração de segundo antes da chegada de Fusté. Com o andar do relógio, porém, o ímpeto do Barcelona vai esfriando, ainda que o Slovan não tenha muitas oportunidades de reter a bola no ataque. Para isso, aliás, o técnico Michal Vičan faz entrar o atacante Bohuš Bizoň.

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O Barcelona ainda perde uma chance incrível aos 27 minutos, quando Rifé faz jogada de ponta pela esquerda e rola para a chegada de Zaldúa. Mas o camisa 9, na pequena área, com o goleiro batido, toca por cima do gol e se desespera. No fim do jogo, Sadurní quase entregou de vez o ouro numa saída errada da área que quase o levou a ser encoberto por Cvetler, mas o arqueiro conseguiu voltar a tempo para a meta e espalmar.

Com o árbitro estendendo os acréscimos além do comum para a época, o Barcelona ainda teve uma última chance num chute forte de Fusté de fora da área que Vencel encaixou. Foi a senha para enfim o holandês Laurens van Ravens apitar o fim do jogo e dar início à festa do Slovan, o azarão que conquistou a Recopa, o dono de um feito histórico, o clube que escreveu o nome do futebol tchecoslovaco na galeria de campeões do futebol europeu.

DEPOIS DA CONQUISTA

O rival Sparta Trnava levaria o bicampeonato nacional naquele ano. Mas o Slovan retomaria a taça na temporada seguinte, 1969/70, e serviria de base para a seleção da Tchecoslováquia que disputaria a Copa do México, cedendo sete jogadores entre os 22 convocados: o goleiro Vencel, os zagueiros Hrivnák e Horváth, o lateral-esquerdo Ján Zlocha, o meia Hrdlička e os atacantes Jokl e Ján Čapkovič (Horváth, Hrdlička e Jokl enfrentariam o Brasil na partida de estreia).

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Mais adiante naquela década, o clube conquistaria um bicampeonato nacional em 1974 e 1975, com uma equipe que novamente serviria de base para a seleção, e desta vez num momento de glória: seriam outra vez sete jogadores dos Belasí (entre eles, Vencel e Jozef Čapkovič) no grupo de 22 que conquistaria o título da Eurocopa, eliminando a Holanda de Johan Cruyff na semifinal e superando a Alemanha Ocidental na decisão, nos pênaltis.

Nas copas europeias de clubes, por outro lado, o Slovan nunca mais fez campanha digna de nota, embora fosse assíduo nos torneios. Assim como as equipes da antiga Tchecoslováquia (antes e após a divisão) nunca mais voltaram a uma decisão. As melhores campanhas terminaram sempre uma etapa antes, nas semifinais: o Sparta Praga (1973), o Banik Ostrava (1979) e o Dukla Praga (1986) na Recopa e o Bohemians (1983) e o Slavia Praga (1996) na Copa da Uefa.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.