Era uma vida inteira de espera. Os rivais já tinham levantado a taça. O Santos de Pelé, o São Paulo de Telê, o Palmeiras de Felipão. Quando seria a vez do Corinthians? Foi em 2012. Em uma campanha irretocável:  14 jogos, oito vitórias e seis empates. Sim, o time foi campeão invicto. Os adversários foram pesados ao longo da trajetória. Vamos lembrar como foi.

Depois de uma primeira fase tranquila contra Deportivo Táchira, Nacional do Paraguai e Cruz Azul, o time teve desafios complicados no mata-mata. A começar pelas oitavas de final, quando enfrentou o Emelec. Foi o primeiro jogo de Cássio como titular do time, em um 0 a 0 no Equador que teve a classificação assegurada em São Paulo, com um 3 a 0 tranquilo.

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Só que as quartas de final reservavam um adversário bem mais complicado: o Vasco, campeão da Copa do Brasil em 2011, com um time estrelado e muito forte. Depois de mais um 0 a 0 fora de casa, no Pacaembu o time teve um jogo marcante. O Vasco entrou escalado assim: Fernando Prass; Fagner, Renato Silva, Rodolfo e Thiago Feltri; Nílton, Rômulo, Juninho Pernambucano e Diego Souza; Éder Luís e Alcssandro. O Corinthians tinha Cássio; Alessandro, Chicão, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf e Paulinho; Jorge Henrique, Danilo e Alex; Emerson Sheik.

Foi naquele jogo que Cássio se eternizou na história do Corinthians. Eram 17 minutos do segundo tempo quando Alessandro foi dar um chutão depois de um escanteio e foi bloqueado por Diego Souza. Ele era o último homem. O Pacaembu silenciou. Diego Souza partiu livre, com o campo de ataque inteiro para correr. Foi até a entrada da área. Escolheu o canto e bateu colocado. Cássio se esticou todo, mostrando o seu tamanho, sua envergadura e sua capacidade. Defendeu e impediu o gol do Vasco. Um gol que obrigaria o Corinthians a marcar dois, porque a partir dali teria tomado um gol em casa.

Aos 42 minutos do segundo tempo, Alex cobrou escanteio e Paulinho subiu para tocar de cabeça e marcar o único gol daquele confronto. Um gol decisivo, emocionante, que teve vários elementos. Tite, expulso, estava nas arquibancadas, ao lado de Edu Gaspar e da torcida. Abraçou, foi abraçado, vibrou. O Corinthians estava na semifinal pela primeira vez desde 2000. Sim, aquele ano do “Lá vem Marcelinho. Ele bate muito bem…”. Só que não desta vez.

O adversário na semifinal também era brasileiro, como 12 anos antes. E, assim como daquela vez, era o então campeão. O Santos de Neymar vinha para um confronto pesado. Só que o Corinthians de Tite se armou para impedir que o camisa 11 santista se criasse. Na Vila Belmiro, foi Emerson Sheik, em um chute lindíssimo, que marcou o único gol do jogo. Vitória por 1 a 0. Tudo seria decidido no Pacaembu. E Neymar conseguiu marcar o seu gol, aos 35 minutos do primeiro tempo. Resultado que levava o jogo aos pênaltis. Mas quem decidiu, então, foi outro dos nomes mais importantes daquela campanha: Danilo. Em um cruzamento de Alex, Danilo, com a calma que lhe caracteriza, limpou a marcação e marcou 1 a 1, aos dois minutos do segundo tempo. Festa no Pacaembu, que não viu mais mudanças no placar. Corinthians na final.

O rival na decisão era um time acostumado a esta fase, sete vezes campeão, camisa pesada. O Boca Juniors não estava nos seus melhores anos, com os melhores times que já teve na primeira década dos anos 2000, mas ainda era o Boca, ainda tinha Riquelme, ainda tinha a Bombonera. E foi lá que começou a final. Depois de sofrer um gol, já no segundo tempo, o Corinthians não se intimidou. Tite lançou Romarinho, que pareceu estar jogando com os aigos quando viu Paulinho desarmar Riquelme, acionar Emerson, que tocou para ele, com frieza e categoria, tocar por cima do goleiro e empatar o jogo em 1 a 1. Uma atuação monumental do lado esquerdo da defesa do Corinthians. Talvez a maior de Leandro Castán pelo clube e uma das maiores de Fábio Santos.

Na volta, no Pacaembu, bastava uma vitória. Uma vitória e acabaria a piada, a espera, a obsessão. O time já tinha passado por desafios técnicos maiores, com Vasco e Santos. O Boca não era um time tão bom quanto os dois rivais anteriores, mas era um time encardido. Ao contrário do que se esperava, o jogo não foi nervoso, não foi duro, nem foi tão complicado como poderia ser. O primeiro tempo terminou 0 a 0, mas o alvinegro estava no controle da partida. Pareceu mais perto de romper a barreira e marcar primeiro.

Naquele 4 de julho de 2012, o Corinthians se libertou do trauma. Emerson Sheik, aos oito minutos do segundo tempo, fez o primeiro gol. Aos 27 minutos do segundo tempo, aproveitou saída de bola errada para marcar 2 a 0. Acabou. É campeão. Acabou a espera. A Libertadores tinha, finalmente, as cores e o escudo do Corinthians cravado. Gravado na história, na memória, na pele, no coração de cada torcedor. A Libertadores finalmente foi para a Zona Leste. Foi para o Parque São Jorge. Foi para Itaquera, onde está no Museu do Corinthians, símbolo de glória.

Naquela madrugada, nós publicamos o texto abaixo, sobre a epopeia do Corinthians até chegar à conquista, depois de tantos anos e eliminações sofridas. Foi há cinco anos.

Vem, Libertadores! Vem que você é da Zona Leste

Por Felipe Lobo
Publicado originalmente dia 05/04/2017, 3h45

Foram mais de 20 anos de espera. Um amor inocente, que nunca perdeu a esperança, mas que trouxe muito sofrimento. Desde aquele jogo em 1991, quando aquele argentino vestido de amarelo e ouro me afastou de você. Mas aquela não doeu tanto assim. Pior foi depois, quando você, Libertadores, seduziu, encantou e fugiu.

Veio 1996, rejeição enorme, falha dolorida. Você nem me olhou, apesar dos meus amigos gritando o meu nome. Veio 1999, quando você me trocou justamente por quem eu menos queria. Por que logo com ele, Libertadores? Mas nada se compara a 2000. Não bastava me trocar por ele, precisava ser de novo, nos pênaltis, daquela forma tão cruel? Me deixar abandonado na zona leste enquanto você desfilava pela Pompéia? O que eu tenho de tão ruim?

Ah, Libertadores, o sonho de 2003, as lágrimas e a tristeza de 2006. Teve aquele 2010, lembra? Não precisava estragar o centenário daquele jeito. Fiz uma festa tão bonita por você, mas você fugiu. E 2011? Você não me deu nem chance de chegar perto de você. Eu tinha um fenômeno, mas você me desprezou antes de eu entrar na festa. Parecia que você nunca seria minha, Libertadores.

Quantas noites você foi chorada, Libertadores. Quantos dias a zona leste amanheceu mais triste, ferida pelo que você causava. Quantas vezes o travesseiro foi o único companheiro para cada uma das eliminações. A rejeição, às vezes cruel. Mas nunca desisti. Corinthians é um nome forte. Tenho história, Libertadores. Por que me rejeitaste tantas vezes?

Hoje eu entendo. Vim mais uma vez, mas você se fez de difícil. Tive que enfrentar um carioca que tentou me roubar você. Um caiçara, que insistia em não querer te largar. Veio então aquele seu amor tão intenso nesses últimos anos, com sabor de alfajor e romantismo. Ah, Libertadores, mas dessa vez você não me escaparia. E teria que ser do meu jeito. Não teria tango, teria a explosão da emoção de viver aqui, ao som do pagode do Tatuapé, da Penha, de Itaquera. Eu sei que você me olhava, você disfarçava, mas eu via. Seu olhar fugia, mas você sabia.

O amarelo e o ouro te chamavam, mas você sabia, lá no fundo, com quem voltaria para casa. Eu sempre soube que você seria minha. Mas neste ano tive certeza. Te olhei com tanta vontade que quando segurei sua mão, ali na Praça Charles Miller, nem você conseguiu mais largar. Ainda mais depois de tantos incentivos, tantos “vai, Corinthians” que você ouviu. Meus milhares de amigos gritando, me incentivando.

Você sabia que aquela noite, eu teria que te ganhar. E te ganhei de um jeito que ninguém poderia contestar. Você sabe que me fez muita falta, mas tenho certeza que você sabe o quanto eu te fiz falta também. Meu nome ficará associado para sempre com o seu. E nós dois jamais esqueceremos esse dia 4 de julho de 2012. Meu nome, Libertadores, ficará gravado em você. E anote aí, porque o meu nome é Corinthians. E essa é só a primeira vez.