O milésimo gol de Pelé foi comemorado no dia 19 de novembro, contra o Vasco, no Maracanã. Por pouco, o jogo que marcou a consagração do Rei não foi contra o Corinthians, no Pacaembu, 15 dias antes, em um clássico que teve características especiais.

O Santos enfrentaria o Corinthians, uma das suas maiores vítimas na vitoriosa carreira, no estádio do Pacaembu. Na conta da época, Pelé tinha 996 gols. Pela recontagem feita anos mais tarde, Pelé já tinha 999 gols. Então, na verdade, faltava só um. Ainda que na época não fosse reconhecido, ficaria marcado na história.

E mais: o jogo seria no dia 19/10, mas foi adiado por causa das chuvas. Por isso, naquele dia, o jogo teve portões abertos. E à tarde o estádio já estava tomado. Pela concentração de pessoas, a polícia abriu o portão às 15 horas. Às 17 horas, já havia uma enorme preocupação com a superlotação. Tanto que houve feridos entre torcedores policiais que faziam a segurança. Os números não são oficiais, mas calcula-se que 65 mil pessoas estavam no Pacaembu naquela noite.

Era 4 de novembro de 1969. Corinthians e Santos fariam um clássico vibrante no Pacaembu. Primeiro porque o mando era do Corinthians, que fazia excelente campanha e brigava para garantir a classificação à próxima fase da Taça Roberto Gomes Pedrosa, o Robertão – na época também chamada de Taça de Prata.

A expectativa foi descrita no relato da Folha de S. Paulo. “A cidade começou a sentir diretamente os efeitos do seu maior jogo logo depois das 14 horas. Esquecendo um pouco a rotina do trabalho de uma terça-feira normal, em todas as esquinas, nas lojas, escritórios, bancos e indústrias o assunto principal das conversas era um só, Corinthians e Santos. Além da partida, todos comentadas as atrações a parte que ele iria proporcionar; as boas defesas de Ado, o novo goleiro do Corinthians; a vontade de Pelé de marcar quatro gols e chegar logo aos mil; o ingresso gratuito e o televisionamento direto”.

O jogo terminou Corinthians 4×1 Santos. Nas palavras do relato da Folha de S. Paulo: “Pelé, que luta pelo seu milésimo gol, não conseguiu marcar, embora haja lutado muito, sendo praticamente anulado pela defesa corintiana, que não lhe deu qualquer possibilidade”. Quem se destacou, nos relatos da época, foi Suíngue, meia que acabou marcando um dos gols. Outro destaque foi o Reizinho do Parque, Rivellino, que marcou duas vezes.

A vitória foi tão comemorada que O Estado de S. Paulo relatou um fato curioso após o fim do jogo. “(…) Um vendedor de sanduíches, depois de abaixar os preços, distribui gratuitamente umas duas dúzias deles homenageando a vitória do Corintians: – Hoje vale tudo. Isso é para vocês que não jantaram. Olê, olá…”.

O Corinthians acabou se classificando para o quadrangular final daquela Taça de Prata como primeiro colocado do Grupo A, com 24 pontos em 16 jogos (na época, a vitória valia dois pontos), a melhor campanha da primeira fase. O Cruzeiro também avançaria como segundo colocado do grupo, com 22 pontos. No Grupo B, Palmeiras e Botafogo avançaram. Na fase final, porém, o Corinthians não conseguiu ir bem. Empatou com o Palmeiras por 0 a 0, venceu o Botafogo por 1 a 0 e perdeu para o Cruzeiro por 2 a 1. O Palmeiras seria o campeão, empatando com o Cruzeiro em pontos, mas vencendo no saldo de gols.

Para o Corinthians, porém, ficou a lembrança de um jogo marcante contra o Santos de Pelé e um dia que a sua torcida fez uma grande festa na Praça Charles Müller. Um dos muitos momentos marcantes da torcida durante a fila, que só acabaria em 1977.