O primeiro título brasileiro do Flamengo, que completa 40 anos nesta segunda-feira, representou a afirmação nacional de uma excelente geração de jogadores e consagrou Nunes como Artilheiro das Decisões. E não se limita à épica final diante do Atlético Mineiro no Maracanã, um dos grandes jogos da história da competição: os rubro-negros cumpriram ótima campanha desde o início e souberam ser os melhores num torneio repleto de grandes esquadrões, que reabilitou o próprio Brasileirão após a inchada e boicotada edição do ano anterior.

O Flamengo e os torneios nacionais

Os anos 1960 não foram um período particularmente feliz para o Flamengo. À medida em que os esquadrões memoráveis como os dos dois primeiros tricampeonatos cariocas faziam cada vez mais parte do passado, o clube mergulhava em dificuldades financeiras e, salvo alguns poucos jogadores que marcariam época mesmo naquele período de vacas magras, era forçado a levar a campo times muito mais aguerridos e aplicados do que técnicos.

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Foi nessa mesma época que o futebol brasileiro viu nascer os primeiros torneios nacionais, como a Taça Brasil (disputada entre 1959 e 1968), competição entre campeões estaduais, e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, criado em 1967 como uma ampliação do antigo Torneio Rio-São Paulo (o qual o Flamengo havia conquistado em 1961) e realizado até 1970. Diante disso, pelos motivos já citados, o clube teve poucos momentos de brilho nos dois campeonatos.

Do primeiro só participou uma vez, em 1964, na condição de campeão carioca do ano anterior. Entrou já nas semifinais, em que venceu os dois jogos contra o Ceará, antes de ser superado pelo hegemônico Santos de Pelé com uma derrota por 4 a 1 em noite chuvosa no Pacaembu e um empate sem gols no Maracanã, diante de 52 mil torcedores, pouco mais de um terço do público do Fla-Flu do returno do Carioca daquele ano jogado dois meses antes.

Teria disputado outra vez a Taça Brasil em 1966, pelo mesmo critério da participação anterior. Mas no começo daquele ano de 1965, a Federação Carioca de Futebol decidiu passar a apontar como seu representante na competição o vencedor da Taça Guanabara, um torneio à parte do campeonato principal a ser instituído naquela temporada, em meio às comemorações do quarto centenário de fundação da cidade do Rio de Janeiro.

O Torneio Roberto Gomes Pedrosa, por sua vez, pegou o Flamengo vivenciando o pior momento daquele período já ruim, bem no meio do jejum de sete anos sem títulos cariocas – o segundo maior da história do clube – entre 1965 e 1972. Com três campanhas fracas nas primeiras edições, a exceção seria 1970, quando o time surpreendeu ao brigar até o fim pela vaga no quadrangular final, perdida no saldo de gols. Acabaria em quinto lugar.

A partir de 1971, ao longo daquela década, o clube começaria a oscilar boas e más campanhas, algumas vezes batendo na trave para figurar entre os finalistas. Em 1974, por exemplo, havia feito a segunda melhor campanha geral na primeira fase entre os 40 participantes, ficando só atrás do Grêmio. Mas na etapa seguinte, com o time mutilado por lesões, entre elas a da revelação Zico, ficaria de novo pelo caminho antes de chegar ao quadrangular decisivo.

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Em 1975, a campanha foi mais irregular nas primeiras etapas, mas o time parecia ter crescido na hora certa, às vésperas das semifinais. Vinha de um excelente empate diante do futuro campeão Internacional dentro do Beira-Rio quando pegaria, na última rodada, um surpreendente Santa Cruz, também brigando pela vaga. No Maracanã, o Flamengo jogava pelo empate, mas o Tricolor de Luís Fumanchu, Givanildo e Ramon se superou e venceu por 3 a 1.

No ano seguinte, outra vez a excelente campanha acabou se perdendo em meio ao regulamento da competição e a derrotas fora de hora. O time foi o segundo que mais somou pontos ao longo do certame, atrás apenas de um irretocável Internacional (que levantaria o bicampeonato), mas à frente dos outros três semifinalistas (Corinthians, Fluminense e Atlético-MG). Porém acabou mais uma vez em quinto, eliminado na terceira etapa pelo saldo de gols.

Entretanto, aquelas eliminações não chegaram exatamente a tirar o sono dos rubro-negros. Na época, entre os torcedores do Rio de Janeiro, o Campeonato Carioca ainda era aquele visto com mais carinho, não só entre os flamenguistas – e mesmo tendo em vista as conquistas nacionais de Botafogo (Taça Brasil de 1968), Fluminense (Torneio Roberto Gomes Pedrosa de 1970) e Vasco (Brasileirão de 1974). Alguns números demonstravam isso.

Tanto em 1974 quanto em 1976, mesmo com as boas campanhas do Flamengo, o Campeonato Brasileiro registrou médias de público inferiores às do certame carioca. No primeiro ano, foram 11.601 torcedores em média os que assistiram aos jogos do torneio nacional, enquanto 15.012 viram, também em média, as partidas do estadual. Já em 1976, mesmo com a presença de público subindo para a média de 17.010 no Brasileiro, a do Carioca saltou até 19.070.

Mesmo os clássicos disputados pelo Brasileirão na maioria das vezes não alcançavam os mesmos fantásticos números registrados pelas bilheterias do Maracanã no Carioca. Naquele mesmo ano de 1976 em que Flamengo e Vasco estabeleceram o público recorde da história do clássico num jogo rotineiro de Taça Guanabara (mais de 174 mil pagantes), os dois levaram pouco mais de 52 mil num jogo pela reta final do Brasileiro, com ambos podendo ir às semifinais.

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Por vezes, o que prejudicava a campanha do Flamengo e diminuía o interesse do torcedor pela competição nacional era o desequilíbrio das tabelas. Não foram poucas as vezes em que, desde os tempos do Robertão, o clube teve de fazer um número absurdamente maior de partidas como visitante, atuando em bem menos ocasiões no Rio (leia-se Maracanã). Era como se, para o clube, o campeonato nacional fosse uma espécie de excursão valendo pontos.

Na fase de classificação do Brasileirão de 1972, o Flamengo fez 21 partidas contra equipes de outros estados. Destas, em apenas cinco foi o mandante. No ano seguinte, a distorção voltou a acontecer: dos 17 jogos contra clubes de fora do Rio na primeira fase da competição, o time fez apenas quatro no Maracanã. Pulava de Goiânia para Recife, de Aracaju para Belo Horizonte, de Vitória para Belém. Tudo em intervalos muito curtos.

Tendo de cumprir essa estafante rotina de viagens, estabelecida pela Confederação Brasileira de Desportos (CBD) no intuito de aumentar a arrecadação do torneio – aproveitando-se da abrangência nacional da torcida do Flamengo e da grande atratividade do clube, mesmo nas fases ruins –, o time não poderia mesmo chegar muito longe. Era natural que, sem o devido preparo para a maratona, perdesse peças (e pontos) importantes pelo caminho.

Acordando para o Brasileiro

O grande incômodo, a sensação de que realmente pegava mal um clube do tamanho, do peso e da representatividade do Flamengo não ter um título nacional, só começou a bater pelos lados da Gávea no fim dos anos 1970. E, por mais contraditório que possa parecer, reconquista da hegemonia estadual, com o tricampeonato levantado em 1979, acabou servindo também para abrir a cabeça do clube no âmbito nacional.

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Foi como subir um degrau de cada vez. Se o gol histórico de Rondinelli de cabeça contra o Vasco em 1978 encerrava traumas regionais recentes e, sobretudo, simbolizava enfim a afirmação da talentosa geração liderada por Zico, e se os outros dois campeonatos estaduais vencidos na longuíssima e confusa temporada de 1979 colocavam o clube como o dono do pedaço no Rio, a ordem agora era enfim ser campeão do Brasil.

Haveria, porém, um obstáculo. Depois de vencer seu grupo na segunda fase – etapa em que entrou no mastodôntico Brasileirão de 1979, o de 94 clubes – o Flamengo teria pela frente na terceira o Palmeiras (que só estreara ali), o São Bento-SP e o Comercial-SP. Nas duas primeiras rodadas, os favoritos venceram os adversários interioranos. Mas só o Flamengo atuou fora de casa, vencendo o Comercial por 2 a 0 em clima de guerra em Ribeirão Preto.

E veio então o confronto decisivo da última rodada, no qual o Palmeiras dirigido por Telê Santana tinha a vantagem do empate pelo saldo de gols. No Flamengo, Rondinelli era o desfalque, mas todos confiavam na classificação. Significativamente, era a primeira vez que o Fla levava mais de 100 mil pessoas ao Maracanã em um jogo de Brasileiro contra um time de fora do Rio. Só que o Palmeiras abriu o placar com Jorge Mendonça, após cruzamento de César. 

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O Flamengo foi para o intervalo perdendo, mas conseguiu um pênalti no início da etapa final e Zico bateu com categoria para empatar. A virada, porém, não veio: o time se mandou todo para o ataque, já que só a vitória interessava, e deixou enormes espaços na defesa. O Palmeiras se aproveitou disso passando de novo à frente com Carlos Alberto Seixas, ampliando com Pedrinho e chegando à goleada com o volante Zé Mário, no último minuto.

Novos ventos

Na virada de 1979 para 1980, muitas coisas mudariam no futebol brasileiro. Inclusive a própria entidade que tinha o papel de organizá-lo. Em 23 de novembro de 1979 foi criada a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), sucessora da CBD, extinta em setembro. Imediatamente após seu surgimento, a CBF teve seu primeiro presidente eleito, o industrial carioca Giulite Coutinho, ex-presidente do America, e que prometia reformular o torneio nacional.

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A primeira medida empreendida seria a transferência do torneio para o primeiro semestre do ano, começando no fim de fevereiro e se estendendo até o início de junho. Outra novidade, mais importante, foi a cisão da competição em Taça de Ouro e Taça de Prata, equivalentes ao que se chamaria de primeira e segunda divisão, respectivamente. E o número de participantes passou a ser mais controlado, quase fixo, bem diferente dos anos anteriores.

Depois da competição inchada em 1979 (e que, além disso, também não contou com muitos dos clubes paulistas, que abriram mão de disputa-la), agora apenas 40 – nomeadas obedecendo a critérios técnicos, limando a politicagem que marcou os torneios dos anos 1970 – iniciariam a disputa da Taça de Ouro, com quatro equipes vindas da Taça de Prata (que teria 64 participantes) subindo para disputar o torneio de elite a partir da segunda fase.

Outra mudança promovida pela entidade foi a troca no comando da Seleção Brasileira. Depois de iniciar um trabalho de renovação durante 1979, lançando nomes como Júnior, Sócrates e Éder, o técnico Cláudio Coutinho deixou o cargo no início de fevereiro de 1980, substituído por Telê Santana, precisamente o técnico do Palmeiras que eliminara o Flamengo no Brasileiro. Agora, Coutinho se dedicaria ao time rubro-negro em tempo integral.

E em seu Flamengo para 1980, a zaga – ponto mais criticado contra o Palmeiras – ganhava um reforço: Marinho, trazido do Londrina após fazer ótima partida contra o próprio Fla no Estádio do Café (1 a 1) naquele Brasileiro de 1979. Perto de completar 25 anos, com passagem rápida pelo São Paulo em 1977, boa estatura e impulsão, destacava-se também pela velocidade na cobertura e recuperação. Chegava para ser o titular do setor, ao lado de Rondinelli.

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Outro que chegava era o lateral-direito Carlos Alberto, do Joinville, marcador seguro e apoiador eficiente. Vinha para suprir uma possível lacuna no setor depois de o Internacional quase tirar Toninho Baiano e, mais tarde, o jovem Leandro da Gávea. Por outro lado, Cláudio Adão teve um desentendimento com Coutinho durante os amistosos de pré-temporada e foi afastado do elenco – semanas depois, seria negociado com o Botafogo.

Com o problema da camisa 9 surgido a uma semana da estreia, o treinador teve de improvisar um novo sistema, com Tita a princípio escalado no centro do ataque, mas como o vértice mais avançado de um certo “losango móvel” também composto por Andrade, Carpegiani e Zico, tendo ainda Adílio aberto como falso ponta pela esquerda. A ideia era a de que o tal losango girasse o tempo todo, com os jogadores se revezando nas funções.

Enquanto isso, lá atrás sob as traves, Raul – que esteve quase certo de ser vendido ao Grêmio – ganhava uma nova chance entre os titulares depois de ter atuado em apenas sete das 82 partidas disputadas pela equipe ao longo de 1979. Uma lesão de Cantarele fez com que o veterano goleiro fosse novamente escalado nos amistosos, saindo-se muito bem, em especial num empate em 0 a 0 diante do São Paulo no Morumbi, no qual fechou o gol.

A Taça de Ouro

Além de Raul vestindo a camisa 1, o Flamengo iniciaria sua campanha nacional com Carlos Alberto na lateral-direita (Toninho retornaria na quarta rodada), Rondinelli e Marinho no miolo de zaga e Júnior na lateral-esquerda. No meio, Andrade, Carpegiani e Zico, tendo Reinaldo (ex-America) pela ponta-direita e Adílio (depois Carlos Henrique, ponteiro veloz trazido da Desportiva em 1979) na esquerda. Por fim, Tita de centroavante, dentro do “losango móvel”.

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A etapa inicial da Taça de Ouro trazia os 40 participantes divididos em quatro grupos de dez, enfrentando-se dentro das chaves em turno único. O Flamengo ficou no Grupo C e teria pela frente logo de cara nada menos que o Internacional de Falcão, Batista, Mário Sérgio e um novato chamado Mauro Galvão. Era o atual detentor do título nacional, conquistado de maneira invicta derrotando duas vezes o Vasco na decisão em dezembro de 1979.

O outro grande do grupo era o Santos, que mantinha a base dos “Meninos da Vila” originais, com o goleiro Marola (da Seleção Brasileira de Novos), um meio-campo talentoso com Gilberto Costa, Rubens Feijão e Pita, além dos velozes ponteiros Nílton Batata e João Paulo. A quarta força era a perigosa Ponte Preta, vinda de seu segundo vice-campeonato paulista em três anos e recheada de nomes de alto nível, como o goleiro Carlos, da Seleção principal.

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Completavam o grupo a boa equipe do Náutico, o truculento São Paulo de Rio Grande (RS), o Botafogo da Paraíba (indicado como vencedor do estadual de 1978, uma vez que o de 1979 ainda não tinha se encerrado – e só terminaria em junho de 1980, após o Brasileiro) mais outros três campeões estaduais: o Ferroviário do Ceará, o Itabaiana (que conquistara o bi sergipano mais tarde estendido ao penta) e o Mixto (iniciando um tetra mato-grossense).

Logo de saída, o Flamengo teria de enfrentar os dois principais adversários, a começar pelo Santos no Morumbi. Na época, Zico era com frequência menosprezado pela imprensa paulista, tratado como “jogador de Maracanã”, incapaz de decidir jogos atuando longe do Rio, e hostilizado pelo público quando vinha jogar em São Paulo, até mesmo pela Seleção. Mas o camisa 10 rubro-negro trataria de silenciar os críticos e a torcida adversária.

Naquela tarde de 24 de fevereiro, mesmo enfrentando dura marcação do lateral santista Nelson (o futuro técnico Nelsinho Baptista, que passaria sem brilho pelo Fla em 2003), ele anotaria o gol da vitória aos 25 minutos da etapa inicial, após grande jogada do ponteiro-direito Reinaldo, que ganhou disputa de bola com João Paulo na lateral, avançou em velocidade, driblou o zagueiro Neto e fez o ótimo passe para Zico tirar do alcance de Marola.

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O Galinho voltaria a decidir o confronto seguinte, diante de um Internacional que surpreendeu negativamente por exibir um antijogo pouco afeito à grande qualidade de talento que reunia. Aos 11 minutos da etapa final, Andrade recebeu de Reinaldo e fez assistência maravilhosa para Zico, a bola passando quase como pelo buraco de uma agulha. E o camisa 10 da Gávea chutou alto, vencendo o goleiro Gasperin e selando a segunda vitória rubro-negra.

Após derrubar os principais adversários, parecia que o Flamengo caminharia tranquilo rumo a uma campanha perfeita que lhe daria o primeiro lugar da chave, certo? Errado. Aquele era um grupo traiçoeiro, e o próprio Inter já havia sido vítima de uma zebraça logo na estreia, batido pelo Itabaiana em pleno Beira Rio por 2 a 1. O time sergipano perderia logo em seguida para o Botafogo-PB, que também venceria o Náutico em Recife.

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O Belo seria o próximo adversário do Fla no Maracanã e assumiria o status de grande “fantasma” do grupo: saiu na frente com gol de Soares no começo do segundo tempo, sofreu o empate dos rubro-negros – em atuação confusa e desastrosa – com gol de Tita, mas logo voltaria a balançar as redes com Zé Eduardo. Uma cabeçada de Rondinelli ainda acertou a trave, mas os visitantes foram sempre melhores e mereceram a vitória por 2 a 1.

O resultado derrubou milhares de apostadores da Loteria Esportiva e levou os rubro-negros a repensarem seu esquema ofensivo, considerado pouco efetivo. Tita não rendia como “falso 9”. Com Cláudio Adão descartado, era preciso trazer outro centroavante de ofício, um goleador nato. O clube já tinha um nome bombástico em mente: Roberto Dinamite, que em janeiro trocara o Vasco pelo Barcelona, mas não vinha agradando na Catalunha.

Percebendo a oportunidade, mesmo com o caixa baixo, o presidente rubro-negro Márcio Braga embarcou à Espanha para tentar negociar – até porque os catalães também não estavam nadando em dinheiro, ainda deviam parte do pagamento ao Vasco e, diante disso, não fariam jogo duro para liberar o atacante, que aceitou vir para a Gávea. Quando a notícia chegou ao Rio, a perspectiva da dupla Zico-Dinamite no Flamengo acendeu a torcida.

Enquanto isso, o time se reabilitava no campeonato. Venceu o Mixto em Cuiabá (2 a 0, gols de Carlos Henrique e Zico) e o Ferroviário no Maracanã (2 a 1, dois de Zico). Em Recife, diante do Náutico, abriu dois gols de vantagem, viu Zico sair no intervalo e acabou sofrendo o empate no fim. Mas em seguida o time goleou com facilidade o Itabaiana por 5 a 0, com quatro gols do Galinho e um de Tita, confirmando a classificação antecipada.

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A partida seguinte, um 0 a 0 com o São Paulo-RS no Estádio Aldo Dapuzzo, foi uma verdadeira caçada dos defensores da equipe local aos jogadores rubro-negros, em especial a Zico, que declarou ao fim do jogo: “Vai chegar o dia em que eu não vou aguentar mais. Aí terei que quebrar a perna de alguém para acabar com essa violência. É assim, tem gente que só entende a lei da selva”. O gol da vitória não saiu, mas a atuação do Flamengo foi consistente.

Um novo goleador

O que acabou não dando certo foi a negociação para trazer Roberto Dinamite. Desesperados com a possibilidade de ver seu maior ídolo de então seguir para o arquirrival, os dirigentes vascaínos trataram de atravessar a negociação: com o pretexto da dívida que o Barcelona ainda tinha com o clube, acertaram a devolução de Roberto e a rescisão do contrato, com os catalães indenizando o Vasco pelo valor desembolsado até ali.

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O Flamengo, porém, não deixou de se reforçar. Se o atacante contratado pode ser chamado de “plano B”, então foi um dos melhores do tipo que se tem notícia. Surgido na base rubro-negra como Joãozinho, ponta-direita, mudou de nome e posição ao ser levado ao Confiança. De lá, foi para o Santa Cruz, onde explodiu e chegou à Seleção com o próprio Coutinho. Vendido caro ao Fluminense, seguiu então para o México antes de voltar à Gávea. Era Nunes.

“Vim para ficar. Comecei aqui, e minha meta sempre foi voltar para o Flamengo. Se tiver que retornar ao México, abandono o futebol. Mas tenho certeza de que isso não acontecerá. Confio no meu futebol”, declarou o atacante na véspera da estreia, contra a Ponte Preta no Maracanã, pela última rodada da primeira fase. Trazido do Monterrey por empréstimo, Nunes desejava retribuir as expectativas da torcida com muitos gols. E não decepcionaria.

Mesmo já classificados, Flamengo e Ponte Preta fizeram bom jogo naquela noite de 30 de março, com quatro gols e algumas belas jogadas, como a finalização de Zico na trave, num rebote de Carlos, e as boas intervenções dos dois goleiros. O Fla saiu na frente aos 18 minutos, quando Zico lançou Tita, que desceu pela direita na diagonal e fez um passe espetacular para Nunes, nas costas da defesa. O novo dono da 9 chutou forte e correu para o abraço.

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A Ponte empatou pouco depois em cabeçada de Serginho. Mas no segundo tempo, sob chuva, Nunes voltaria a se destacar: em ótima jogada individual, passou por vários defensores antes de entregar na medida para o chute de Zico. Carlos nem se mexeu: Fla 2 a 1. O zagueiro Juninho ainda salvaria cabeçada do Galinho em cima da linha e, aos 38, Odirlei tornaria a empatar. Porém, diante de mais de 75 mil torcedores, a estreia de Nunes foi animadora.

Além da boa novidade, o time se ajeitava: Raul seguia em grande forma no gol; a nova zaga se entrosava; Júnior fazia partidas cada vez mais exuberantes; Zico já despontava como o artilheiro, com 10 gols, ao lado do gremista Baltazar; Tita era deslocado para a direita do ataque, deixando o ponta autêntico Reinaldo no banco; e Júlio César, o “Uri Geller”, recuperava seu melhor futebol entrando no time no lugar de Carlos Henrique.

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Na segunda fase, os 28 clubes classificados da etapa anterior da Taça de Ouro se juntavam aos quatro promovidos da Taça de Prata (América-SP, Americano, Bangu e Sport) e eram novamente distribuídos em grupos, agora em oito chaves com quatro equipes cada enfrentando-se em turno e returno. O grupo do Flamengo, o J, teria o já citado Bangu, o Santa Cruz e o Palmeiras, criando imediatamente a expectativa para o reencontro após o jogo de 1979.

O Bangu tinha como novidade para 1980 a volta de Castor de Andrade após dez anos de ausência, mas desta vez não mais como diretor de futebol do clube e sim como seu “patrono”, custeando com o dinheiro do jogo do bicho uma equipe repleta de nomes experientes, com longa rodagem no futebol carioca e brasileiro, que naquela segunda fase seria comandada por outro velho malandro do futebol, o técnico Tim, “El Peón”, estrategista tarimbado.

Sob as suas ordens estavam jogadores como o goleiro Tobias (ex-Corinthians), o zagueiro Moisés, o “Xerife”, que recentemente passara pelo próprio Fla, os meias Carlos Roberto e Ademir Vicente, ambos ex-botafoguenses, além do sempre matreiro Dé “Aranha”. E na frente, outro ex-rubro-negro, Caio “Cambalhota”, tinha a companha do trombador Luisão, principal goleador da equipe de Moça Bonita, pronta para atrapalhar os favoritos.

Outro adversário, com quem o Flamengo faria os confrontos mais aguardados, era o Palmeiras. O Alviverde mantinha praticamente o mesmo time que eliminara o Fla no Brasileiro anterior antes de cair nas semifinais para o Internacional. A única baixa era o ponta-de-lança Jorge Mendonça, que saíra para o Vasco. Mas sem dramas: o talentoso Jorginho, ponta-direita em 1979, assumia a camisa 10, enquanto o arisco Lúcio (ex-Ponte Preta) agora vestia a 7.

Houve, porém, a mudança no comando do time, forçada pela saída de Telê Santana para assumir o comando da Seleção. Em seu lugar, entrara Sérgio Clérici, ex-jogador revelado pela Portuguesa Santista e que fizera extensa carreira no futebol italiano, dos 19 aos 37 anos, passando por nada menos que sete clubes diferentes. Mas a campanha apenas regular na primeira fase daquele Brasileiro de 1980 já fazia com que o treinador balançasse no cargo.

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Por fim, o Santa Cruz era um time com histórico respeitável no Brasileirão. Chegara às semifinais deixando o próprio Flamengo de fora em 1975 e estivera bem próximo de voltar a figurar entre os quatro primeiros em outras duas ocasiões: em 1977, quando perdeu a vaga no saldo de gols para o igualmente surpreendente Operário-MS, e em 1978, quando chegou às quartas de final, mas caiu diante do Internacional, terminando numa ótima quinta colocação.

O elenco trazia alguns nomes experientes, como o goleiro Wendell (ex-Botafogo, Fluminense e Seleção), o vigoroso zagueiro Tecão (ex-São Paulo) e o malicioso centroavante Tadeu Macrini (ex-Operário-MS), somados ao bom armador Betinho e ao goleador ponta-de-lança Baiano. Mas o time logo enfrentaria uma troca no comando na virada da primeira fase para a segunda, com o gaúcho Cláudio Duarte dando lugar a Paulo Emílio, o mesmo de 1975.

E seria exatamente o Santa Cruz o primeiro adversário do Flamengo naquela segunda etapa, no Estádio do Arruda, no Recife, no dia 6 de abril. Uma partida com predomínio das defesas sobre os ataques, até com uma certa rispidez por parte dos pernambucanos (o zagueiro Gaúcho chegou a rasgar a camisa de Tita), e que teve os rubro-negros melhores no primeiro tempo e os tricolores, que chegaram a colocar uma bola na trave, no segundo. 

O Fla, no entanto, poderia ter vencido se o árbitro paulista Dulcídio Vanderlei Boschilia não tivesse invalidado uma jogada de Nunes, que recebeu de Zico, encobriu o goleiro Wendell e, após rebote da defesa pernambucana, mandou para as redes. O juiz, no entanto, ignorou a lei da vantagem e preferiu marcar uma falta do arqueiro pernambucano, que havia tocado a bola com a mão fora da área. Apesar dos protestos, o jogo ficou mesmo no 0 a 0.

A grande revanche

A segunda rodada marcava o reencontro de Flamengo e Palmeiras no Maracanã, pouco mais de quatro meses após a goleada alviverde no mesmo local pelo Brasileiro do ano anterior. Agora, em 13 de abril de 1980, o time paulista chegava para o confronto em meio a uma troca de comando: Sérgio Clérici não resistira a uma surpreendente derrota por 3 a 2 para o Bangu dentro do Parque Antártica na estreia da segunda fase e seria demitido.

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Para o seu lugar, a diretoria palmeirense apostou em uma lenda do clube. O veterano Oswaldo Brandão, comandante da Academia bicampeã brasileira em 1972 e 1973, voltava para aquela que seria sua última passagem pelo Parque Antártica. Nome com extenso e vencedor currículo no futebol paulista, havia recentemente dirigido a Seleção Brasileira, entre 1975 e 1977, quando foi substituído exatamente por Cláudio Coutinho – de quem era amigo. 

“O líder, o pai, o técnico: Brandão voltou”: assim a Folha de São Paulo mancheteava o retorno do treinador, que – amizade com o comandante rubro-negro à parte – não evitou lançar uma bravata para motivar o ambiente palmeirense: “Se o Coutinho bobear, arrebento com ele lá dentro do Maracanã”. Para isso, contaria com dez dos 11 titulares do time de 1979. A única baixa, como dito, era a de Jorge Mendonça, compensada com a chegada de Lúcio.

Em São Paulo, onde se costumava até ridicularizar o treinador rubro-negro pelo hábito de ler muitos livros sobre táticas, o jogo era tratado como o confronto entre a “experiência” (Brandão) e a “teoria” (Coutinho). Quando a bola rolou, de fato os primeiros minutos (e boa parte do primeiro tempo) foram bastante estudados de parte a parte, com poucas chances de gol. O Fla, porém, aproveitou melhor as que teve e foi para o intervalo em vantagem.

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Primeiro, aos 13 minutos, Andrade ganhou uma bola estourada com Rosemiro, e ela sobrou para Júlio César na ponta. O camisa 11 parou, olhou para a área e centrou. Gilmar saltou para a defesa, mas não segurou, e Tita rebateu de cabeça para as redes, abrindo a contagem. Depois, aos 33, Júnior fez jogada pela esquerda e sofreu falta do mesmo Rosemiro perto do bico da grande área. A cobrança de Zico foi perfeita, na gaveta de Gilmar: 2 a 0.

No segundo tempo, porém, o Fla foi avassalador. Logo aos sete minutos, Zico tabelou com Tita, entrou na área e foi derrubado por Pires. O próprio camisa 10 bateu e converteu. Aos 12, Zico alegou dores musculares e foi substituído pelo ponta Reinaldo, com Tita assumindo sua função. Mas nem isso fez com que o time de Coutinho diminuísse o ritmo, envolvendo o Palmeiras com seu bom toque de bola e seus deslocamentos constantes.

O quarto gol rubro-negro chegou a lembrar o de Carlos Alberto Torres na final da Copa de 1970. Júlio César bateu escanteio rolando a bola para Júnior, que carregou pela intermediária e abriu na diagonal, Nunes fez o corta-luz e então abriu-se um clarão pelo lado esquerdo da defesa palmeirense. Nele apareceu Toninho, chegando como uma locomotiva e enchendo o pé para fuzilar Gilmar. A vingança já estava completa. Mas cabia mais.

Depois disso, o Fla relaxou e o Palmeiras foi para cima tentando diminuir a goleada. Antes que pudesse fazê-lo, porém, Tita combinou bem com Carpegiani pelo lado direito do ataque e chutou de virada para marcar o quinto gol. Na comemoração, era hora de extravasar: o camisa 7 correu o campo todo e se dirigiu ao setor das arquibancadas onde estavam os cerca de três mil palmeirenses. Com um tchauzinho maroto, acenava despedindo-se deles.

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O Palmeiras ensaiou uma breve reação. Primeiro quando Marinho calçou César na área e o árbitro marcou pênalti, convertido por Baroninho com um chute forte. E em seguida quando um centro de Lúcio da direita encontrou Mococa nas costas da zaga rubro-negra para finalizar marcando o segundo. Mas não terminaria assim: o Flamengo não daria ao adversário o direito de colocar o ponto final no placar da partida em plena revanche.

E veio então o cruzamento de Reinaldo também da direita, procurando Nunes na segunda trave. O zagueiro Beto Fuscão não alcançou, e o camisa 9 rubro-negro, na pequena área, teve todo o tempo de ajeitar, deixar cair e bater seco, por entre as pernas de Gilmar. Só mesmo um gol assim poderia concluir a deliciosa vingança do Flamengo, um time que ali provava sua verdadeira força. E que permitia ao seu treinador calar a boca dos críticos.

Depois da grande forra, o Flamengo tratou de garantir a classificação antecipada para a próxima etapa, já que faria no Maracanã seus dois jogos seguintes, contra Bangu e Santa Cruz – e venceria ambos por 2 a 1. Contra o primeiro, Zico e Nunes marcaram para o Fla e Ademir descontou. Já contra os pernambucanos, Andrade comemorou seu aniversário com um lindo gol de fora da área, antes de Júlio César ampliar e Tadeu Macrini diminuir.

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A confirmação da classificação permitiu a Coutinho poupar Zico, então à beira de um desgaste físico mais sério. Mesmo sem ele, o Flamengo frustraria o troco palmeirense no jogo de volta no Morumbi. E sairia na frente com um golaço: Júlio César armou um salseiro na defesa paulista e passou de calcanhar para Júnior, que disparava em direção à linha de fundo. O centro do lateral encontrou Tita chegando como um raio para cabecear e marcar. 

O Palmeiras empatou três minutos depois com Jorginho, recebendo lançamento no meio da defesa. E virou logo no começo do segundo tempo com o futuro rubro-negro Baroninho, soltando uma bomba quase sem ângulo após rebote da defesa. Mas o Fla decretaria um novo empate a nove minutos do fim: Nunes carregou a defesa, Reinaldo cruzou da direita, Rondinelli escorou de cabeça e Carlos Henrique chutou de virada para empatar.

No último jogo, contra o Bangu, Coutinho descansou Andrade, Carpegiani, Zico e Júlio César e ainda substituiu Rondinelli no intervalo. Mesmo assim, Tita – vestindo a 10 – garantiu a tarde marcando os três gols na vitória de 3 a 0, todos no segundo tempo. Primeiro, apanhando o rebote de um chute de Nunes. Depois, com um toque só, após o goleiro Arerê não segurar o cruzamento de Toninho. E por fim, numa cobrança de falta a la Zico.

A terceira fase

Os 16 clubes classificados para a terceira fase seriam novamente divididos em grupos de quatro equipes, mas desta vez se enfrentando em turno único. Era tiro curto: apenas três partidas para cada clube. Ao Flamengo coube reencontrar dois adversários da primeira fase, Santos e Ponte Preta, além da Desportiva, principal surpresa entre os que avançaram, e que fazia a melhor campanha de um clube capixaba na elite nacional em todos os tempos.

Na primeira rodada, em 10 de maio, o Fla recebeu a Desportiva no Maracanã e venceu por 3 a 0 numa tarde em que Zico e Nunes inverteram os papeis. Foram três assistências do centroavante para três gols do camisa 10. Primeiro, num cruzamento da esquerda para a cabeçada do Galinho. Depois, Nunes driblou o goleiro e centrou para Zico dominar no peito e chutar. E o terceiro, no último minuto do jogo, Nunes cruzou e Zico cabeceou meio sem querer.

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O Santos bateu a Ponte Preta pelo mesmo placar no outro jogo do grupo, o que deixou o time campineiro dependendo de uma vitória sobre o Flamengo em seu estádio Moisés Lucarelli, na noite de quarta-feira, 14 de maio, para seguir com chances. O Fla, por sua vez, queria pelo menos um empate para enfrentar o Peixe na rodada decisiva ainda em boas condições. E conseguiria o ponto precioso, mas não sem enfrentar um adversário duríssimo.

Empurrada pela torcida, a Ponte foi para cima e abriu a contagem aos 19 minutos da etapa final. Após confusão na área, o volante Humberto apanhou o rebote e chutou forte da marca do pênalti para abrir o placar. Mas o Fla não se deu por vencido e empatou aos 34: Zico arriscou de fora da área, Carlos não segurou e Nunes, oportunista, empurrou para as redes. No fim do jogo, Zico ainda foi atingido na barriga por uma pedra atirada por torcedores.

O empate tirou definitivamente a equipe campineira da briga. Mas, para o Fla, melhor ainda foi o resultado do dia seguinte, quando a Desportiva segurou o 0 a 0 com o Santos dentro de uma Vila Belmiro lotada, permitindo que os rubro-negros jogassem por uma nova igualdade diante do time paulista no domingo, 18 de maio, no Maracanã, por terem mais gols marcados, um dos critérios de desempate. Mas o Flamengo não se conformaria com a vantagem.

Curiosamente, o cenário lembrava muito o da fatídica partida contra o Palmeiras no ano anterior: o Flamengo a um jogo das semifinais do Brasileiro enfrentando um grande clube paulista que contava com uma equipe jovem, talentosa e de vocação ofensiva, diante de um público superior a 100 mil pessoas – desta vez, exatos 110.079 pagantes, que estabeleceram o recorde nacional de renda. Agora, porém, o desfecho seria completamente diferente.

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O jogo contra o Santos fechou com chave de ouro a campanha rubro-negra naquela terceira fase. Os paulistas bem que tentaram assustar nos minutos iniciais, mas o Flamengo logo tomou conta das ações. Fechando os espaços, tinha sob controle os dois meias de criação do adversário (Pita e Rubens Feijão), impedindo que a bola chegasse aos perigosos ponteiros Nílton Batata e João Paulo. E confundia a defesa santista com sua movimentação incessante.

Mesmo em meio à excelente atuação coletiva, foram muitos os destaques individuais. Toninho, um colosso na defesa e no apoio. Júlio César, com seus dribles, um tormento constante para o lado direito da retaguarda santista. Júnior, além de tomar conta de Nílton Batata, juntava-se aos meias como mais um armador. Andrade, protegendo e apoiando com muita classe. E Zico, é claro, o grande construtor da vitória e da classificação.

O placar foi aberto logo aos 13 minutos: Carpegiani recebeu a bola no meio-campo e, de primeira, lançou Nunes na ponta-esquerda. Zico, pelo meio, correu para acompanhar. O cruzamento veio na medida: o camisa 10 cabeceou para baixo, vencendo o goleiro Marola, destaque do Santos no jogo. O segundo saiu na etapa final: Zico recebeu de Adílio, fez fila na defesa santista e sofreu pênalti, que ele próprio converteu para selar a classificação.

“Nossos jogadores esqueceram a vantagem do empate e chegaram a uma grande vitória. Na minha opinião, foi um show de autoridade técnica em todos os momentos”, declarava satisfeito Cláudio Coutinho nos vestiários. Uma afirmação que encontrava eco até no resignado treinador santista Pepe: “Atuamos contra o melhor time do Brasil no momento. E se o Flamengo continuar jogando dessa maneira, chegará facilmente ao título”.

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Sobre Zico, que já chegava a 18 gols no Brasileiro e negociava uma renovação de contrato que elevaria seu salário a um milhão de cruzeiros, o maior do futebol brasileiro na época, Pepe também não economizou elogios: “Naquele lance em que ele pegou a bola no meio de campo e levou até a nossa área, cavando o pênalti e cobrando, ficou comprovado que Zico vale muito mesmo. Tudo que ele pedir tem que se dar, pois está muito bem”.

Assim, o Flamengo confirmou os prognósticos para o Grupo O e ficou em primeiro, com duas vitórias e um empate. Nas chaves M e N, também os clubes apontados como favoritos – Atlético-MG e Internacional – avançaram. Apenas o Grupo P surpreendeu, com a classificação do Coritiba à frente do favorito Corinthians de Sócrates e também de Grêmio e Botafogo. E seria o Alviverde paranaense, a sensação do campeonato, o adversário do Fla nas semifinais.

Uma grande semifinal

O Coxa do técnico Mário Juliato fazia ótima campanha mesclando a experiência do centroavante Escurinho (ex-Inter e Palmeiras) e do veterano ponta Aladim (ex-Bangu e Corinthians) a nomes em ascensão, como o zagueirão Gardel, o volante Almir e os armadores Freitas e Vílson Tadei. Ainda não havia perdido em casa no torneio e liderara seu grupo em todas as fases até ali, à frente de equipes como Grêmio, São Paulo, Vasco, Botafogo e Corinthians.

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No primeiro jogo, em Curitiba, o Fla não teve o capitão Carpegiani, com problema muscular. Mas Zico ostentou a braçadeira e foi decisivo ao marcar os dois gols na vitória por 2 a 0. No primeiro, tabelou com o Júnior, que avançou pelo meio, descadeirou o marcador e fez belo passe na frente para o Galinho tocar na saída de Moreira. No segundo, já na etapa final, Adílio limpou a jogada e entregou ao camisa 10, que encheu o pé da intermediária e marcou um golaço.

Para a partida de volta, além de ainda não poder contar com Carpegiani, o Fla também perderia Toninho, que recebera o terceiro cartão amarelo em Curitiba e, como era a sua segunda série, foi suspenso por dois jogos. O que o time não esperava é que também fosse perder outros dois de seus principais jogadores ainda no primeiro tempo do jogo, que se converteria num drama inimaginável, antes de se consumar uma classificação com ares de épico.

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Aos 20 minutos, Zico sentiu uma contratura na coxa esquerda e não poderia continuar em campo. Enquanto ele era substituído, Aladim alçava a bola na área rubro-negra, Escurinho ajeitava de cabeça e Vílson Tadei saía de frente com Raul, tocando de leve para abrir a contagem no Maracanã. E aos 31, Luís Freire recebeu pelo lado direito do ataque, livrou-se de Rondinelli, foi à linha de fundo e cruzou. Aladim apanhou num sem-pulo, e estufou as redes.

O Coritiba estava agora a um gol das semifinais. Mas Nunes não deixaria as coisas assim por muito tempo: três minutos depois, ele foi lançado por Andrade, arrancou e fuzilou Moreira. O Fla diminuía. Imediatamente, porém, os nervos rubro-negros voltaram a ser testados: agora era Júlio César – que vinha em ótima fase – a deixar o jogo com torção de tornozelo. O centroavante Anselmo entrava em seu lugar, e o Fla gastava suas duas substituições.

Mas nem a nova baixa pararia a reação do Fla. Dois minutos depois Andrade cruzou da esquerda, Tita ajeitou e Nunes encheu o pé. Era o empate. Logo em seguida veio a virada apoteótica: o lateral Carlos Alberto interceptou passe de Vílson Tadei e arrancou ainda do campo de defesa. Deu uma meia-lua em Gardel, recebeu um calço do beque, mas seguiu de pé e ao entrar na área, bateu cruzado. A bola voou até encontrar as redes. Êxtase no Maracanã.

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Já na etapa final, depois do gol da catarse veio o gol da arte. Aos 27 minutos do segundo tempo, Tita lançou Anselmo da própria intermediária por trás da defesa alviverde, que parou. O camisa 16 arrancou, deu uma meia-lua no goleiro Moreira (que já saía da área) e mandou um lindo toque de cobertura para as redes. Nem mesmo Gardel, que se esticou todo para tentar afastar a bola, conseguiu evitar o golaço, o quarto rubro-negro na partida.

Com a vaga mais do que confirmada (o Coritiba agora precisaria de quatro gols em menos de meio tempo), o Fla relaxou e o time paranaense ainda descontou aos 43, marcando mais um belo gol para a coleção de pinturas daquele jogaço. Vílson Tadei recebeu cruzamento da esquerda, ajeitou e entregou de calcanhar a Escurinho, que aparou e tocou sem deixar cair para Luís Freire. Também de primeira, o meia bateu forte e cruzado, vencendo Raul.

Na outra semifinal, Internacional e Atlético-MG repetiam o confronto já ocorrido na segunda fase, em que os visitantes prevaleceram (os colorados venceram no Mineirão e os atleticanos no Beira Rio). E a história se repetiria: no jogo de ida, em Belo Horizonte, os gaúchos foram melhores no empate em 1 a 1. Mas na volta, com a ausência de última hora de Falcão, o Inter sentiu o baque mesmo jogando em Porto Alegre e foi engolido pelo Galo por 3 a 0.

A decisão

O Atlético então voltava a uma decisão de Brasileiro depois de três edições. Em 1977, com um time jovem e bastante técnico, tendo como destaque o goleador Reinaldo (ausente do jogo final por suspensão), sucumbira nos pênaltis em pleno Mineirão diante de um São Paulo experiente, vigoroso e catimbeiro. Para a memória, ficou o lance do pisão do volante são-paulino Chicão que provocou uma fratura na perna do talentoso meia atleticano Ângelo.

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O tempo passou, o mundo deu voltas e, no início de 1980, o mesmo Chicão era um dos reforços de peso do Atlético para enfim reconquistar o título nacional. Além do volante, outro velho algoz também aportava no clube: o ex-cruzeirense Palhinha, também famoso pela malícia e catimba, contratado do Corinthians. O terceiro grande reforço era o ponteiro Éder, revelado pelo América-MG e trazido do Grêmio, após ter chegado à Seleção no ano anterior.

E, passadas as semifinais, o time mineiro esfregava as mãos com a perspectiva de enfrentar o Flamengo na decisão. Estava com os rubro-negros atravessados na garganta precisamente desde o dia 6 de abril de 1979, quando, num amistoso em benefício das vítimas das enchentes em Minas Gerais e que teve Pelé vestindo a camisa do Fla, os cariocas golearam por 5 a 1 num Maracanã com 140 mil torcedores, em jogo transmitido pela TV para todo o país.

Daí os dois confrontos daquela decisão de 1980 terem sido truncados, picotados, faltosos – bem diferentes dos jogos do Fla contra Palmeiras e Santos, por exemplo, mais soltos, de poucas faltas, prevalecendo a técnica. No jogo de ida, no Mineirão, os rubro-negros tiveram três importantes baixas: Toninho (suspenso), Zico e Júlio César (lesionados). E o Galo venceu por 1 a 0, com Reinaldo aproveitando-se de um erro de Júnior na saída de bola.

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Mas, para os rubro-negros, o lance que marcou mesmo aquela partida aconteceu mais tarde, aos 26 minutos da etapa final, após uma bola cruzada por Cerezo por sobre a área do Flamengo. De repente, um bolo de gente se formou perto da trave esquerda de Raul. Médicos, enfermeiros, jogadores, repórteres de rádio e televisão. No chão, caído, Rondinelli tinha o rosto – inchado e sangrando – apalpado pelo doutor Giuseppe Taranto.

O Deus da Raça rubro-negro havia levado um empurrão, soco ou cotovelada de Palhinha (a agressão muda de acordo com os diferentes relatos) e se chocara de cabeça contra a trave, fraturando o maxilar e deixando o campo ainda com suspeita de concussão cerebral. Levado aos vestiários, teve de ser contido e sedado. Furioso, queria a forra contra Éder, a quem inicialmente atribuíra a agressão. O clima era muito pesado.

Flamengo e Atlético haviam chegado até aquela decisão com campanhas muito semelhantes. Ambos haviam somado 32 pontos ao longo da competição. O Atlético somava uma vitória a mais (14 contra 13) e o Fla, uma derrota a menos (perdera apenas uma vez, contra duas do Galo). Os dois haviam anotado 43 gols, com o Fla sofrendo quatro a mais (17 contra 13), o que dava aos mineiros uma ligeira vantagem no saldo de gols.

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Contudo, pelo regulamento, era dos rubro-negros a vantagem de decidir o título em casa e de jogar pela igualdade no placar agregado – e, portanto, por qualquer vitória no Maracanã para levantar a taça. Isto se devia ao fato de os critérios de desempate levarem em conta apenas os resultados obtidos da terceira fase de grupos em diante, onde começava a “fase final” para a CBF. Nesta reta final, o Fla somara nove pontos contra sete dos mineiros.

Para o jogo do Maracanã, o Atlético iria completo, assim como fora na ida. Já pelo lado do Fla, se Toninho, Zico e Júlio César voltavam, Rondinelli estava fora. “Passei por uma cirurgia muito séria, perdi 40% da minha audição, hoje só tenho 10%. Eu tenho até hoje a parte que é chamada de buco-maxilofacial toda ela amarrada com fios de aço. Não tenho sensibilidade nenhuma no queixo porque os músculos da face foram cortados”, relembrou o zagueiro.

O épico segundo jogo

Com Manguito no lugar de Rondinelli e diante de exatos 154.355 pagantes – maior público da história do Brasileirão até ali e novo recorde de renda do futebol brasileiro – no Maracanã, o jogo começou quente, como se previa. Logo aos dois minutos, Tita fez falta dura em Jorge Valença e já recebeu o primeiro cartão amarelo do jogo. Para o rubro-negro, era o troco do jogo de ida. Mas a primeira chance de gol foi do Atlético, com Palhinha.

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Porém, aos sete minutos, o Fla saiu na frente no placar. O zagueiro Osmar arrancou da defesa, mas esticou demais a bola ao passar do meio-campo. Andrade recolheu e entregou a Zico, que fez o passe perfeito para Nunes, exatamente no buraco que o beque atleticano deixara em sua defesa. João Leite deixou o gol desesperado, mas o camisa 9 rubro-negro tocou por baixo, com calma. Começava ali a se consagrar como o Artilheiro das Decisões.

A resposta atleticana, entretanto, foi imediata. Pouco depois do reinício do jogo, Cerezo recebeu na ponta-esquerda e passou a Reinaldo no meio da área. Mesmo marcado, o centroavante conseguiu dominar, contornar Manguito e Andrade, e chutar quase da linha de fundo. A bola bateu na coxa de Marinho e tirou totalmente Raul da jogada. Era o empate relâmpago. E o jogo seguiu equilibrado, com chances para ambos os lados.

Zico sofria marcação implacável e dura por parte dos atleticanos. Aos 17, Chicão fez uma alavanca que poderia até ter quebrado a perna do camisa 10 rubro-negro. A falta foi marcada e dali a cinco ou seis passos, o meia foi aterrado novamente, agora por Cerezo, que recebeu o cartão amarelo. Júnior levantou para a área e Marinho cabeceou com perigo, acertando o ferro de sustentação da rede. João Leite fazia cera e era repreendido pelo árbitro.

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Aos 20, Chicão levantou Zico e também recebeu o amarelo. O Atlético fechava a frente da área com Chicão e Cerezo, e o Fla buscava os ataques quase sempre pelo lado esquerdo, com Júnior e Júlio César. Num cruzamento do ponteiro, João Leite saiu em falso e não achou nada, mas Jorge Valença tranquilizou para os mineiros. Empurrado pela torcida, cantando a plenos pulmões já refeita do susto do gol de empate, o Flamengo sufocava o Atlético.

O Atlético seguia pressionando a arbitragem. Aos 30, Luisinho reclamou de uma falta de Tita e José de Assis Aragão apitou, mas o zagueiro atleticano continuou chiando a tal ponto que o árbitro acabou marcando uma infração técnica do defensor atleticano. Aos 36, foi a vez de Nunes levar o amarelo ao acertar o zagueiro Luisinho. Embora o Fla já tivesse mais volume de jogo, as chances se sucediam de um lado e de outro. Até o desempate os 41 minutos.

Luisinho fez falta em Tita na ponta direita, perto da bandeirinha de escanteio. Toninho levantou para a área, João Leite espalmou e Orlando despachou. Mas a bola sobrou para Júnior, que tentou um primeiro chute, bloqueado por Palhinha. A sobra voltou para o lateral, que bateu para o gol de pé direito. No meio do caminho, a bola encontra Zico, que apara e, mesmo quase caindo, consegue tocar para as redes. O êxtase voltava ao Maracanã.

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Mesmo longe das condições físicas ideais e perseguido bem de perto pela marcação atleticana, o camisa 10 rubro-negro era decisivo pela segunda vez no jogo. Na saída de bola, o Atlético ainda tentou novo empate relâmpago com Palhinha. Atenta desta vez, a defesa rubro-negra rechaçou. E ao apito final do primeiro tempo, Chicão pegou a bola e a arremessou contra Júnior, iniciando ali um bate-boca com o lateral enquanto os times deixavam o campo.

No intervalo, nos vestiários, o técnico Cláudio Coutinho recebeu um bilhete e o entregou a Adílio, pedindo para que o meia lesse. Mesmo em voz baixa, podia ser ouvido pelos demais jogadores. Dizia a mensagem: “Companheiros, estou bem, torcendo de fora. Vamos pra cabeça. Assinado, Rondinelli”. Era a senha para que o Flamengo não deixasse de lutar um só instante, honrasse a camisa e a enorme massa de gente que o assistia no Maracanã.

A 45 minutos do título

O entrevero entre Júnior e Chicão seguiu na volta do intervalo: o lateral cometeu falta no volante já no campo de ataque e, após ser provocado, tentou acertar um tapa na cabeça do atleticano. Aragão mostrou o amarelo ao rubro-negro, o segundo do time. Pouco depois, o Fla teve grande chance de ampliar o placar: Tita abriu o jogo para Júlio César na esquerda e o ponteiro cruzou de primeira para Nunes, que chegou atrasado por milímetros.

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O Flamengo voltou à carga aos oito minutos, quando Zico recebeu de Tita e entrou driblando em velocidade pela defesa do Atlético, parado apenas com falta por Luisinho quase na risca da grande área. Na cobrança, a bola acertou a barreira, que andou muito e forçou Aragão a mandar voltar. Cerezo protestou e o árbitro chegou a botar a mão no bolso para puxar o cartão (que seria o vermelho). Mas foi Reinaldo quem acabou levando o amarelo.

O Atlético, que já havia trocado o lateral Orlando por Silvestre no intervalo, teve de gastar sua segunda alteração aos dez minutos da etapa final, quando Luisinho saiu lesionado para dar lugar ao lateral Geraldo (Silvestre passou para a zaga). Logo depois, numa bola esticada pela direita do ataque atleticano que Marinho protegeu para a saída de Raul, Reinaldo sentiu um estiramento no músculo posterior da perna coxa direita.

A torcida rubro-negra gritava “Bichado”, e o jogo parecia se colocar à feição do Flamengo. Cerezo quase marcou contra ao tentar abafar um chute de Marinho, defendido no reflexo por João Leite. Na ponta-esquerda, Júlio César era duramente marcado por Geraldo. O lateral atleticano chegou a atingir o rubro-negro com um carrinho por trás sem, no entanto, levar nem o amarelo. Logo depois, Nunes perdeu chance incrível, chutando mal após passe de Júnior.

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Aos 16 minutos, porém, a defesa rubro-negra cometeu um erro fatal. Manguito saiu da área para dar combate a Palhinha e deixou Marinho sozinho. A bola chegou a Éder, que cruzou alto. Marinho não alcançou, e Reinaldo, que se infiltrara nas costas da zaga, apareceu desmarcado para finalizar de primeira. A bola entrou chorando no gol de Raul. O empate atleticano, que parecia improvável, vinha com um jogador que fazia número em campo.

O Flamengo mexe no time: Carpegiani dá lugar a Adílio. O Atlético ganhava confiança. Mas um impedimento mal marcado de Reinaldo na ponta direita degringolaria numa enorme confusão. O atacante atleticano parou na frente da bola para impedir a cobrança e ainda a chutou. Aragão prontamente expulsou o camisa 9. Procópio Cardoso e todo o banco atleticano entraram em campo, paralisando o jogo por mais de seis minutos. O técnico mineiro também seria expulso.

Reinaldo cai em campo – sente o músculo, faz cera, xinga a mãe do juiz. José de Assis Aragão revida: ‘Quebro a cara desse moleque. Tá expulso!’”, relatou a crônica do jogo publicada pela revista Placar. O fato é que a longa pausa, esfriando o jogo até quase os 30 minutos do segundo tempo, beneficiava o Atlético, que seria campeão com aquele empate. O Fla buscava forças para reagir. Adílio entrara bem no lugar de Carpegiani. E Júlio César crescia.

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Até que, aos 36, Osmar sairia jogando outra vez, mas seu lançamento foi interceptado por Júnior, que entregou a Andrade. O camisa 8 então lançou Nunes novamente no espaço deixado pelo beque atleticano. O atacante rubro-negro disparou em velocidade e tentou alçar a bola para a área, mas ela bateu no peito de Silvestre e voltou para o João Danado. Na risca lateral da área, Nunes parou na frente do marcador, relembrando seus tempos de ponta. 

Sob as traves, João Leite gritava: “Quebra ele, Silvestre!”. Instintivamente, Nunes driblou para dentro, arrancou pela linha de fundo e, quando o arqueiro atleticano caiu para fechar o canto, bateu à meia altura, estufando as redes. Um gol de raça, de ousadia, de inspiração. Um dos mais memoráveis da história do estádio e dos Brasileirões. E que fez explodir de vez a torcida rubro-negra, até então apoiando o time, mas um tanto aflita, roendo as unhas.

O Atlético, à essa altura, já se deixava vencer pelos nervos: driblado por Andrade, Osmar cometeu falta. Quando o camisa 8 se levantava, levou um soco do zagueiro atleticano no rosto. Depois, Tita sofreu falta perto do bico da área pelo lado direito, Chicão pegou a bola e jogou na cabeça de Aragão. Com o Flamengo pedindo desesperadamente o fim do jogo, o árbitro esticava para repor o tempo perdido com a paralisação após a expulsão de Reinaldo. 

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Já eram 48 minutos quando Tita recebeu passe na esquerda e começou a fazer embaixadinhas, até levar um pontapé do descontrolado Chicão, expulso de pronto. Logo depois seria a vez de Palhinha, que discutiu com o árbitro e também recebeu o vermelho. O Fla rodava a bola de pé em pé aguardando o apito final, mas ainda levaria um susto quando Carlos Alberto recuou para Manguito, que teve a carteira batida por Pedrinho.

O ponta arrancou num último gás e passou até mesmo pelo goleiro Raul, que já deixava a área. Quando Pedrinho preparou a perna para armar o chute, Andrade apareceu na hora exata para bloqueá-lo. E, para o alívio dos rubro-negros, aquele seria o último lance da partida, aos 51 minutos. A multidão que já aguardava o fim do jogo à beira do campo rapidamente invadiu o gramado, levando Coutinho e os jogadores nos ombros. 

Alguns torcedores pagavam promessas, cruzando ajoelhados toda a extensão do gramado. Como o paraibano Herontino Colombo, 31 anos, um símbolo da paixão rubro-negra: “Moço, nem sei como vou pagar as prestações da passagem. Ganhei uma grana no bicho e dei a entrada. Me mandei para cá. Nunca tinha botado os pés no Maracanã. Um troço me dizia para eu vir ao Rio, que eu ia ver o Flamengo campeão”, declarou à Placar.

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Herói da final e nordestino como o torcedor, Nunes falava sobre a reação ao gol do título: “Senti a perna tremer. E depois a frustração: eu queria era estar na geral, cair nos braços daquele monte de gente, rolar por cima do povão. Mas fiquei com medo na hora H. Para mim, o jogo terminou ali. Foi por isso que eu fiquei dançando, meio ausente: senti o estádio dentro da minha camisa, como se cada pessoa fosse um Nunes e eu fosse cada um daqueles torcedores”.

Naquele instante, cada torcedor se sentia consagrado como Nunes, imortalizado como Zico, redimido como Cláudio Coutinho. Se sentia tão campeão do Brasil como todo aquele esquadrão rubro-negro, que dali partiria para conquistar a América e o mundo no ano seguinte, e levantando ainda três Brasileirões em quatro anos. Se sentia digno da eternidade.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal