Há 40 anos, QPR se inspirou no Carrossel Holandês e encantou, mas título inglês ficou por um triz

Equipe de futebol ofensivo protagonizou grande arrancada na reta final, mas não conseguiu bater o poderoso Liverpool

Por Emmanuel do Valle, jornalista e dono do blog Flamengo Alternativo

Na história mais do que centenária do futebol inglês, alguns poucos times conseguiram ser eternizados na memória dos torcedores do país inteiro mesmo sem terem conquistado o título da primeira divisão – e é possível traçar um paralelo com os grandes esquadrões que marcaram época em Copas do Mundo, muitas vezes por seus estilos revolucionários de jogo, mas não levantaram a taça. Um ponto de contato entre essas duas trajetórias aconteceu há exatos 40 anos, quando o Queens Park Rangers dirigido por Dave Sexton encantou a terra da Rainha jogando um futebol claramente inspirado no Carrossel Holandês do Mundial de 1974, embora terminasse um ponto atrás do campeão Liverpool na classificação final da temporada 1975/76 – apenas a quarta da história do clube azul e branco na elite.

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Fundado em 1886, somente em 1920, e depois de perambular por nada menos que 20 estádios diferentes, o Queens Park Rangers seria admitido na Football League, entidade que comandava as então três divisões profissionais do futebol inglês. E até a metade da década de 1960 havia disputado 36 de suas 40 temporadas na liga na terceira divisão. Em 1967, porém, o clube começou a despontar no cenário local quando a equipe treinada por Alec Stock conquistou o título da Copa da Liga, vencendo de virada o West Bromwich, da elite, em Wembley – ainda hoje o único troféu do clube em sua história – e dois anos depois, finalmente estrearia no topo da pirâmide do Campeonato Inglês.

Aquela temporada 1968/69 não foi, entretanto, uma estreia dos sonhos, muito pelo contrário: o time acabou rebaixado após terminar na última colocação somando apenas 18 pontos (12 a menos que o penúltimo colocado Leicester) e sofrendo 95 gols em 42 jogos. Mas de 1972 em diante, uma reconstrução seria comandada pelo técnico Gordon Jago, a partir da saída do ídolo Rodney Marsh, contratado a peso de ouro pelo Manchester City, na época brigando pelo título da primeira divisão. Na temporada de retorno, 1973/74, os Rangers conseguiriam um bom oitavo lugar, apagando a má impressão da estreia. Mas dali a alguns meses, em outubro de 1974, o treinador deixaria o comando do clube.

Para o lugar de Jago veio outro londrino, Dave Sexton. Homem quieto, de poucas palavras e bastante cerebral, já era bem conhecido na capital inglesa: começou como auxiliar no Chelsea, depois dirigiu o Leyton Orient e foi assistente de Bertie Mee no Arsenal, antes de retornar aos Blues, agora como treinador. Sob seu comando, o clube de Stamford Bridge se colocou como uma força no futebol inglês: conquistou a FA Cup em 1970 e a Recopa Europeia no ano seguinte, além de cumprir boas campanhas na liga com alguma regularidade. Em 1974, com a Inglaterra fora da Copa do Mundo, Sexton foi um dos raros treinadores do país a se interessar em viajar à Alemanha para assistir às partidas do torneio. Lá viu in loco a revolução tática do Carrossel Holandês dirigido em campo por Johan Cruyff e fora dele por Rinus Michels. Voltou entusiasmado, mas não seria no Chelsea que aplicaria os conceitos do futebol total: após desentendimento com alguns jogadores e a diretoria dos Blues, deixaria o clube logo no começo da temporada 1974/75, com destino ao vizinho Queens Park Rangers.

Sunday Mirror - abril de 1976

Em Loftus Road, desembarcou trazendo de Stamford Bridge o sólido zagueiro David Webb, e também reencontrou um velho conhecido: o veterano defensor Frank McLintock, ex-Arsenal e capitão dos Gunners na “dobradinha” de 1971. Na temporada seguinte, outro ex-comandado de Sexton nos Blues se juntaria ao grupo, o combativo e dinâmico meia John Hollins. Mas o talento mais explosivo daquele elenco era o atacante Stan Bowles – para muitos torcedores, o maior ídolo da história do clube. Extremamente habilidoso (aparecia na vinheta de abertura do programa esportivo The Big Match, da ITV, fazendo embaixadinhas enquanto corria), rápido e um verdadeiro artista do drible, também tinha de sobra outra característica bem recorrente no futebol inglês daqueles tempos de George Best: a rebeldia. Em campo, esmerava-se em entortar zagueiros, deixar os companheiros na cara do gol e marcar os seus. Fora dele, não tinha papas na língua, brigava com treinadores e era um irrefreável viciado em bebida, mulheres e apostas, não necessariamente nesta ordem.

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O time começava com um goleiro seguro, bastante arrojado e em grande forma, Phil Parkes, um dos melhores ingleses da posição na época, mas com chances restritas na seleção (disputou apenas uma partida, um empate sem gols com Portugal em Lisboa, em abril de 1974) devido à concorrência intransponível dos gigantes Peter Shilton e Ray Clemence. Na lateral-direita jogava Dave Clement, cria do clube, jogador firme na marcação, mas que também apoiava constantemente, já que tinha talento o suficiente para jogar no meio-campo, se quisesse. Pelo outro lado atuava Ian Gillard, um pouco mais defensivo (tinha inclusive porte de zagueiro), mas que também se lançava com eficiência ao ataque, ainda que com menos frequência. Na zaga, havia a força e a experiência da dupla McLintock-Webb, já mencionada anteriormente.

Do meio para frente é que o Carrossel Londrino girava. Não à toa, era onde atuava o jogador símbolo do estilo dinâmico da equipe: Gerry Francis, o patrão do meio-campo. Incansável na marcação, também aparecia tabelando no ataque e chegando à área adversária para finalizar. Típico box-to-box no setor, marcou expressivos 12 gols na liga. Também cria da base, com apenas 23 anos de idade no início daquela temporada já era não só titular da seleção inglesa como tinha acabado de herdar a braçadeira de capitão. À sua direita jogava John Hollins, a última peça a integrar o elenco. E à esquerda, na verdade um pouco mais à frente, o escocês Don Masson, jogador de estilo clássico, talentoso e criativo, e que curiosamente explodiu tarde: só então, aos 29 anos, conseguiu reconhecimento e destaque na carreira, chegando à seleção de seu país.

Na frente, Stan Bowles circulava por onde bem entendesse. O irlandês Don Givens era o mais próximo do que se convencionou a chamar de centroavante, embora também se movimentasse, principalmente pelo lado esquerdo. Foi o artilheiro do clube na liga, com 13 gols. E o time se completava com Dave Thomas, ponta-esquerda de origem apesar de vestir a camisa 7. Caía pelos dois lados do ataque sempre com os meiões arriados. Driblador, raçudo, forte fisicamente e que gostava de cortar pelo meio, nos espaços abertos pelos companheiros nas defesas adversárias, para disparar seus potentes chutes de longa distância. Havia ainda um “12º titular” naquela equipe: o veterano curinga Mick Leach, jogador há mais tempo entre os profissionais o clube o qual defendia desde a base.

Mesmo com este elenco, mesclando jogadores rodados com talentos latentes em vias de explodir, ninguém pôde prever o impacto que o Queens Park Rangers causaria naquela temporada 1975/76 – apenas a quarta na elite da história do clube. E este impacto foi instantâneo. No sábado, 16 de agosto de 1975, pela rodada de abertura da liga, o time recebeu nada menos que o Liverpool de Kevin Keegan e Bob Paisley em Loftus Road. E venceu categoricamente por 2 a 0 – o primeiro gol, marcado por Gerry Francis, de pé em pé da defesa até o ataque, é bem emblemático daquele futebol dos Rangers. Uma semana depois, viajou até o Baseball Ground para encarar o fortíssimo Derby County, atual campeão. E saiu de lá com uma goleada humilhante de 5 a 1 imposta aos donos da casa, com três gols de Stan Bowles. Na sétima partida, deu mais uma demonstração de força ao bater em casa o bom time do Manchester United – então invicto – por 1 a 0, gol do zagueirão Webb. A primeira derrota viria na 11ª partida, diante do Leeds em Elland Road (1 a 2), mas a recuperação se daria logo em seguida, com mais uma goleada de cinco, dessa vez um 5 a 0 sobre o Everton.

A fluência do jogo dos Rangers, baseado nas trocas de passes e na movimentação constante, impressionava e cada vez mais seus jogadores eram requisitados pela seleção – que atravessava fase turbulenta sob o comando de Don Revie: Dave Clement, Ian Gillard, Dave Thomas e Stan Bowles vestiram a camisa do English Team, juntamente com o capitão Gerry Francis. Enquanto isso, Don Masson fazia seus primeiros jogos pela Escócia e Don Givens era nome certo na Irlanda.

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De volta à liga, depois de passar praticamente todo o mês de outubro de 1975 na liderança, o time começou a oscilar na classificação curiosamente durante um período de invencibilidade de oito partidas – cinco delas empates, entretanto. Mas o período mais complicado aconteceu na virada do ano: entre 20 de dezembro de 1975 e 24 de janeiro de 1976, o clube entrou em campo seis vezes pela competição e perdeu quatro – sempre fora de casa e contra adversários difíceis, diga-se: Liverpool, Arsenal, Manchester United e West Ham –, o que o derrubou para a quinta posição. No entanto, quando não se acreditava mais na equipe é que a grande reação começou a acontecer.

A vitória fora de casa sobre o Aston Villa por 2 a 0, em 31 de janeiro, deu início a uma sequência impressionante de resultados: dali até o fim do campeonato seriam 13 vitórias nas 15 partidas finais, incluindo triunfos convincentes como visitante diante de Tottenham, Everton e Newcastle. Em 6 de março, depois de golear o Coventry por 4 a 1, os Rangers voltaram à liderança isolada, tirando proveito de uma derrota do Liverpool em Anfield por 2 a 0 para o Middlesbrough (em cujo time jogava um certo Graeme Souness). Além dos Reds, o Manchester United e o Derby County também apareciam na vice-liderança, com 43 pontos, mas logo ficariam na poeira.

Em 17 de abril, o QPR – agora com a vantagem encurtada para um ponto – foi a Carrow Road enfrentar o Norwich (11º colocado na tabela) e defender sua invencibilidade de 12 partidas, sendo 11 vitórias e um empate. Mesmo com os visitantes dominando as ações, foram os Canários que abriram o placar, antes de Dave Thomas igualar o marcador perto do fim do primeiro tempo. Na etapa final, porém, os donos da casa voltaram a ficar na frente e ainda marcaram o terceiro, com Phil Boyer – em impedimento escandaloso. Nem mesmo um gol contra no fim ajudou os Rangers, que perderam por 3 a 2 e entregaram a liderança ao Liverpool, que no mesmo dia fez 5 a 3 no Stoke.

Mas o campeonato ainda não havia acabado para o time das listras azuis e brancas: em seus dois últimos jogos na tabela, ambos em casa, os Rangers bateram o Arsenal (2 a 1) e o Leeds (2 a 0) em 19 e 24 de abril, respectivamente, retomaram a liderança e… esperaram ansiosamente durante dez dias o desfecho do campeonato. Acontece que, diante do calendário superlotado e caótico, naquele tempo as rodadas eram bastante fragmentadas no futebol inglês. Como o Liverpool disputava em paralelo a decisão da Copa da Uefa diante do Club Brugge (e a seleção do País de Gales, do atacante John Toshack, também jogava o mata-mata das quartas de final classificatórias para a Eurocopa diante da Iugoslávia), seu último jogo pela liga acabou adiado para 4 de maio.

A derradeira partida do Liverpool seria contra o Wolverhampton, seriamente ameaçado de rebaixamento, no Molineaux. O time da casa precisava vencer e torcer por uma combinação de resultados para escapar. Sua vitória também daria o título de bandeja ao Queens Park Rangers. Já o Liverpool, um ponto atrás do líder, precisava apenas do empate pois levava a melhor nos critérios de desempate. Na expectativa, os jogadores dos Rangers foram convidados pela BBC para assistirem ao jogo em seus estúdios, perto da sede do clube. Diante dos monitores, viram os Wolves abrirem o placar no primeiro tempo com Steve Kindon e sonharam acordados, com uma das mãos na taça. A 15 minutos do fim da partida, entretanto, John Toshack ajeitou de cabeça um cruzamento para Kevin Keegan estufar as redes e igualar o marcador. “Assisti ao jogo até sair o gol de empate. Estaria tudo acabado (para os Rangers) mesmo com este resultado, por causa do saldo. Eu disse ao Gerry [Thomas]: ‘Agora eles (o Liverpool) vão mata-los’. Então eu desci até o pub e tomei um porre”, rememorou Stan Bowles, muitos anos depois.

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E foi isso o que aconteceu: nos minutos derradeiros ainda houve tempo de o Liverpool marcar mais duas vezes e sacramentar a conquista da liga – que valeria a vaga na Liga dos Campeões de 1977, a primeira conquistada pelo clube. Depois daquela temporada, nem o Queens Park Rangers nem seus jogadores voltariam a repetir aquele futebol. Já na seguinte, acabaria numa decepcionante 14ª colocação – e o técnico Dave Sexton tomaria o rumo do Manchester United. Em 1979, já com poucos remanescentes do time tão perto da glória, seria rebaixado. Mais tarde, de volta à elite, o clube chegaria a fazer boas campanhas – seria quinto colocado em 1984 e 1993 e sexto em 1988, além de vice da FA Cup em 1982, quando estava na segunda divisão –, mas nunca mais chegaria perto de brigar pelo título. A nota ainda mais triste daquela geração viria três anos depois, com a morte de Dave Clement (pai do futuro zagueiro Neil Clement, do West Bromwich), que, em depressão logo após o fim da carreira de jogador, suicidou-se ingerindo inseticida, aos 34 anos.

Restou aos comandados de Dave Sexton o consolo da aclamação unânime: o Queens Park Rangers foi considerado pela crítica esportiva o time que jogou o melhor futebol daquela temporada 1975/76. Mesmo sem a taça, perdida naquela derrota estúpida em Norwich. Como no desfecho da Copa do Mundo de 1974, o futebol total do Carrossel Londrino – invicto em casa durante toda a temporada e o time que mais venceu na liga – acabou superado pelo pragmatismo e pela força do Liverpool, campeão europeu pela primeira vez na temporada seguinte.