Imagine o maior jogador da história estreando em um gramado pintado de verde para cobrir as muitas falhas e buracos, de um estádio inaugurado 40 anos antes e com capacidade para 22 mil pessoas. O país do espetáculo esportivo levou o melhor jogador de futebol de todos os tempos para estrear assim. Apesar das más condições para o seu primeiro jogo, o impacto que aquele dia causaria no futebol dos Estados Unidos seria imenso. Naquela época, os americanos ainda não tinham a fama de ser o país que sabe tratar o esporte como um show. Muito longe do que se tornou o Superbowl, a final do futebol americano, ou os jogos da MLB e da NBA. Foi no velho estádio Downing, em Nova York, que no dia 15 de junho de 1975, Pelé estreou pelo Cosmos, acontecimento que completa 40 anos nesta segunda-feira.

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Cinco dias antes, no dia 10 de junho, o Cosmos anunciou a contratação de Pelé, especulada já há algum tempo. O contrato de era de três anos com salários de US$ 2,8 milhões por ano, o que, na época, significou ser o atleta mais bem pago do mundo. A contratação gerou um alvoroço, mesmo em um país que não só não se interessava por futebol, mas que mal conhecia esse esporte. Nunca podemos esquecer que Nova York já era uma cidade cosmopolita naquela época e o futebol, por ser um esporte mundialmente popular, atraía a atenção de muita gente, mesmo que não da maior parte do público.

A estreia no dia 15 de junho foi contra o Dallas Tornado, naquele estádio antigo que não estava em grandes condições, embora a sua história tenha presenciado momentos importantes, como as seletivas olímpicas com Jesse Owens em julho de 1936, meses antes deste ícone do esporte fazer Hitler engolir o discurso com vitórias marcantes no Estádio Olímpico de Berlim. Foi também a casa do New York Yankees para alguns jogos de beisebol entre 1936 e 1937. Mas em 1975, o estádio já estava desgastado.

Pelé estava há oito meses sem jogar desde se aposentar com a camisa do Santos. Para a sua estreia, ele tentou administrar a expectativas dizendo que, aos 34 anos, precisaria de ao menos duas semanas para entrar em forma e que provavelmente não aguentaria jogar todo o tempo na sua primeira partida. Claro, não adiantou muito. Todos esperavam ansiosamente para ver Pelé em campo.

Com o histórico de três Copas do Mundo conquistadas em quatro disputadas e sendo o único a ter atingido a marca de mil gols na carreira, Pelé atraía a atenção do mundo todo. A partida foi transmitida pela rede CBS, uma das maiores dos Estados Unidos.  O jogo foi transmitido para 30 países, com 300 jornalistas fazendo a cobertura daquele que se tornou um grande evento do esporte mundial. A CBS teve 10 milhões de expectadores na partida, um recorde para jogos de futebol na época.

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O relato do New York Daily News da época mostra o tamanho da expectativa para ver o astro em campo. O jornal conta que às 10 da manhã os torcedores já faziam fila para comprar os ingressos. O jogo seria às 15h30. As filas continuaram até 16h30, quando já se passava uma hora desde o início do jogo. Cambistas vendiam por US$ 20 o ingresso que custava US$ 6. Às 12h30, três horas antes do jogo, o torcedor Dom Malizza já estava dentro do estádio. “Eu esperei 25 anos por isso. O que são três horas de espera?”, disse Dom Malizza ao repórter do New York Daily News, na época.

O jogo foi só uma pequena demonstração das habilidades do camisa 10. Ele deixou os companheiros na cara do gol algumas vezes, mas eles não pareciam ter habilidade suficiente para aproveitar. Assim, o Dallas Tornado abriu 2 a 0 no jogo, tornando o placar um anticlímax em relação à festa pelo astro que estreava.

Então, Pelé tratou de resolver. Aos 34 anos e ainda não na sua melhor forma, ele deu um passe magistral para Mordechai Shpiegler, que tinha participado da Copa do Mundo de 1970 por Israel. Ele, assim como Pelé, tinha sido contratado naquele ano de 1975 para reforçar o time do Cosmos. O israelense quase perdeu, mas marcou o gol que diminuiu o placar. Depois, veio o gol que enlouqueceu o estádio. Em um cruzamento para a área, Pelé subiu de cabeça e fez um movimento perfeito para jogar a bola para as redes. O gol de empate do time. Fez a sua comemoração tradicional com o soco no ar, imortalizada na história, e foi cercado por fotógrafos.

Nos três anos jogando pelo Cosmos, Pelé marcou 37 gols e fez 30 assistências. Naquela época, a NASL usava um sistema maluco de seis pontos por vitória, mais um bônus por gol marcado (com limite de três) e um ponto por vitória nos pênaltis, caso o jogo terminasse empatado. Uma loucura. O Cosmos só foi campeão em 1977, justamente o ano da aposentadoria de Pelé.

Durante a passagem de Pelé, foram quebrados recordes de público. No dia 9 de abril de 1976, 58.128 pessoas estiveram presentes, recorde de público da NASL. No dia 9 de junho de 1977, o público foi de 62.394, recorde para o futebol nos Estados Unidos. Finalmente, em 14 de agosto de 1977, 77.691 pessoas estiveram presentes para o jogo que marcou o recorde de público para futebol na América do Norte.

Foi ali que os Estados Unidos deram um pontapé inicial para o crescimento definitivo do futebol. Foi ali que o grande camisa 10 da seleção brasileira fez com que um país entendesse a magnitude da sua presença. Quando, muitos anos depois, David Beckham chegou, a situação já foi bem diferente. Os americanos já tinham vivido a queda da sua liga profissional em 1984 e o seu renascimento após sediarem a Copa do Mundo em 1994, com a MLS estreando em 1996. Foi com Pelé que tudo começou. E foi em um 15 de junho. Há 40 anos.