Único scudetto conquistado pelo Milan num intervalo de duas décadas entre os de 1968 e 1988, o título da temporada 1978/79 é marcante por muitos fatores. Além do fim de um jejum na Serie A, representou simbólica passagem de bastão entre gerações, com a despedida do mito Gianni “Il Bambino D’Oro” Rivera e a ascensão à titularidade do jovem Franco Baresi. E ainda permitiu que os rossoneri passassem a ostentar, com seu décimo Campeonato Italiano vencido, a ansiada estrela na camisa, enfim igualando o feito dos rivais Internazionale e Juventus.

No início daquela temporada, porém, os milanistas não eram destacados como favoritos. Nos últimos anos, a hegemonia vinha de Turim. A Juventus já somava nada menos que cinco scudetti naquela década. Enquanto o Torino – campeão em 1976, vice em 1977 e terceiro em 1978 (com a mesma pontuação do surpreendente segundo colocado, o Lanerossi Vicenza) – havia sido o principal concorrente da Vecchia Signora nos últimos três anos.

Não à toa, na recém-encerrada Copa do Mundo da Argentina, na qual a seleção da Itália dirigida por Enzo Bearzot mostrou uma equipe renovada, de futebol interessante, e que por pouco não chegou à final, a dupla de Piemonte cedeu nada menos que 15 dos 22 convocados: nove da Juve e seis do Toro. Milan e Internazionale estavam tão em baixa que tiveram apenas um atleta relacionado cada, assim como Roma, Lazio, Fiorentina e Bologna e o citado Vicenza.

Para o Milan, aquela década de 1970 havia sido até ali uma sucessão de decepções e vexames. No início do decênio, foram três vice-campeonatos na Serie A, sendo dois deles em condições para se esquecer. Em 1970/71, o líder isolado até a nove rodadas do fim acabou quatro pontos atrás da rival Inter. Já em 1972/73, os rossoneri chegaram ao último domingo na liderança, mas uma derrota surpreendente para o Verona (5 a 3) entregou a taça para a Juventus.

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Mas vergonhosa mesmo foi a temporada 1976/77, quando, a duas rodadas do encerramento, a equipe ocupava a antepenúltima colocação, dentro da zona de rebaixamento, com apenas três vitórias em 28 jogos. Nos dois últimos jogos, triunfos sobre os dois últimos colocados Catanzaro e Cesena garantiram a “salvezza” e evitaram um vexame de enormes proporções. Ironicamente, na mesma campanha, veio a conquista da Copa da Itália batendo a rival Inter na decisão.

As copas, aliás, vinham sendo a salvaguarda do clube em títulos. O Milan faturou a Copa da Itália em 1972, 1973 e 1977, sendo que a primeira levou os rossoneri ao seu quarto título continental, o segundo da Recopa, numa final repleta de polêmicas contra o Leeds no ano seguinte. O ano de 1974, porém, seria desastroso: em janeiro, pela Supercopa Europeia, o time foi humilhado com um 6 a 0 imposto por um Ajax já sem Johan Cruyff. E ao tentar o bi da Recopa, em maio, foi surpreendido na decisão pelo Magdeburgo, da Alemanha Oriental.

Por todo esse acúmulo de frustrações, o elenco chegava ao fim da década necessitando de uma vassourada. Os novos ares vieram com a posse do empresário Felice Colombo na presidência e com o retorno do velho ídolo sueco Nils Liedholm para o comando da equipe para a temporada 1977/78, na qual o time chega a liderar a tabela por algumas rodadas na metade do primeiro turno e termina num aceitável quarto lugar, com vaga na Copa da Uefa.

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Na temporada 1978/79, segue a renovação: deixam o clube o lateral Giuseppe Sabadini, o líbero Maurizio Turone e o atacante Egidio Calloni, que haviam integrado o elenco – sempre como titulares – desde 1971, 1972 e 1974, respectivamente. Pela outra porta chegam o volante Walter De Vecchi (Monza), o ponteiro Walter Novellino (Perugia) e o atacante Stefano Chiodi (Bologna), jogadores que terão suas funções ressignificadas no esquema de Liedholm.

Quando a Serie A dá a largada, no domingo, 1º de outubro de 1978, o Milan já está eliminado na fase de grupos da Copa da Itália (utilizada como uma pré-temporada de luxo) e só tem de dividir seu foco, em princípio, com a Copa da Uefa, na qual já havia se sobreposto ao primeiro adversário, o Lokomotiva Kosice, da Tchecoslováquia, nos pênaltis. E o bom começo dos rossoneri na liga ajuda a avalizar suas credenciais a brigar pelas primeiras posições.

A equipe-base começava com um nome que esbanjava experiência: o goleiro Enrico “Ricky” Albertosi, 39 anos de idade e em cujo currículo já constavam três participações em Copas do Mundo (1966, vice-campeão em 1970 e 1974), uma Recopa europeia com a Fiorentina (1961), um histórico scudetto com o Cagliari (1970) e uma Eurocopa com a Azzurra (1968). À sua frente, um sistema defensivo que ainda conservava a formação do tradicional “gioco alla italiana”.

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Promovido da base há duas temporadas, Fulvio Collovati se firmava na equipe como o lateral-direito defensivo, que fechava pelo meio como zagueiro, onde atuava ao lado do experiente Aldo Bet, stopper vigoroso, de jogo mais físico, e por ironia cria da rival Inter, da qual saiu para rodar pela Roma e pelo Verona antes de chegar ao Milan em 1974. Naquela campanha, porém sofreu com problemas físicos, por vezes dando lugar a Simone Boldini.

Um pouco mais atrás, surgia um nome histórico para o clube e o futebol italiano: um jovem de apenas 18 anos e que havia feito apenas um jogo na temporada anterior, mas que impressionara o técnico Nils Liedholm o suficiente ao ponto de ser alçado imediatamente ao posto de titular da crucial função de líbero na campanha seguinte, vestindo a camisa 6 em todas as 30 partidas. Um certo garoto de Travagliato chamado Franco Baresi.

Se Baresi era o futuro, seu colega na lateral-esquerda era o presente: Aldo Maldera, jogador eficiente na marcação, mas ainda melhor no apoio, em que se destacavam sua boa técnica, sua velocidade, seus cruzamentos precisos e seu chute forte. Único nome do Milan na seleção italiana do Mundial da Argentina, terminaria a temporada seguinte – a do scudetto – como nada menos que o vice-artilheiro do time, com nove gols, quase todos decisivos.

Do meio para a frente, o desenho do time de Liedholm se diferenciava dos demais do Calcio de então: em vez de contar com os tradicionais mediano (volante), regista (armador), mezzala (ponta-de-lança), tornante (ponteiro) e a dupla de frente, sendo um deles um ponta-esquerda que fechava como segundo atacante, o que se via era algo mais próximo de um 4-2-3-1, com dois marcadores, três criadores e apenas um jogador de área, mesmo assim adaptado.

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O vértice mais recuado do meio-campo era Walter De Vecchi, verdadeiro leão do setor. Jogador não muito técnico, mas de um espírito de luta fundamental para a equipe, e que ainda assim teria seu dia de herói maior na campanha. Um pouco mais à frente, aparecia o loirinho Ruben Buriani, o pulmão do time, ponta-direita de origem, mas que corria por todo o campo, não apenas ajudando no combate como também se projetando à frente.

Gianni Rivera, ídolo histórico do Milan, começou a temporada entre os titulares e, como sempre, dono da camisa 10 e da braçadeira de capitão. Mas, já com 35 anos e com as lesões tirando-o de ação com frequência, apareceu menos, chegando a ficar uma sequência equivalente a quase um turno inteiro de fora. Dessa forma, o setor de criação foi ocupado por outros três nomes, que souberam estar à altura de substituí-lo ao longo da campanha.

Ponta-direita de origem, habilidoso e com gosto pelo drible, o que o tornava muito visado pelos defensores adversários, Walter Novellino passou a infância em São Paulo, para onde seus pais vieram em busca de trabalho na metade dos anos 50. De volta à Itália, iniciou carreira no futebol, que teve aquele scudetto como seu auge. Embora vestisse a camisa 9 por quase toda a campanha, atuava mesmo como um meia ofensivo, participando integralmente da conquista.

Apelidado “Dustin” pelos colegas em virtude de uma suposta semelhança física com o ator norte-americano Dustin Hoffmann, Roberto Antonelli começou a temporada como reserva de Rivera, atuando como titular em apenas três das primeiras dez partidas. Mas logo o armador de futebol incisivo e de grandes recursos técnicos, perito no drible em velocidade, conquistou seu lugar no time, ainda que vestindo na maioria das vezes a camisa 7 (a 10 foi passada a Buriani).

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O outro armador do time era um atacante recuado, Albertino Bigon, 31 anos. Autêntico camisa 9 no início da carreira, na qual se destacou no Padova, SPAL e Foggia antes de chegar ao Milan, seu novo posicionamento realçava suas características de bom controle de bola e grande inteligência tática, sem que se perdesse sua eficiência em balançar as redes: naquela temporada do scudetto, acabaria como o principal goleador na campanha, com 12 gols.

Por fim, Stefano Chiodi, talvez a figura mais controvertida do time. Ponta-esquerda de origem, é movido para o centro do ataque por Liedholm devido a sua força física, mas tem desempenho muito aquém do esperado para um homem de área: anota sete gols, mas seis deles de pênalti e só um de bola rolando. Em parte, porque sua função era muitas vezes a de se sacrificar abrindo espaços e puxando a marcação para a chegada dos meias ou de Maldera.

Além destes 11 e dos já citados Rivera e Boldini, outros jogadores do elenco tiveram participação significativa na campanha, entre eles o versátil Giorgio Morini, que chegou a atuar pela seleção quando defendia a Roma. Atuava em várias posições da defesa e do meio-campo e jogou com frequência num período crítico de lesões na reta final da temporada. Havia ainda o veterano meia Fabio Capello, cumprindo a penúltima temporada da carreira de jogador.

Título de inverno

Felice Colombo com Rivera

A equipe tem ótimo início na liga: dos cinco primeiros jogos vence quatro, parando apenas num empate sem gols com a Ascoli no San Siro. Abre a campanha com uma vitória sobre o estreante Avellino (1 a 0, num desvio de Buriani), vence com autoridade a Roma na visita ao Olímpico (3 a 0), despacha a Atalanta em Bérgamo (3 a 1) e goleia a Fiorentina em Milão (4 a 1) com uma tripleta de Bigon, capitão do time na ausência de Rivera.

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Na sexta rodada, porém, a derrota para a Juventus em Turim com gol de Roberto Bettega logo no início faz os rossoneri serem ultrapassados na liderança isolada da classificação pela equipe que será a sensação daquela temporada: o Perugia treinado pelo jovem Ilario Castagner. Uma semana depois, o Milan se recupera vencendo o derby contra a Inter por 1 a 0 com um gol de cabeça de Maldera e segue no encalço do surpreendente líder.

Os dois times voltam a ficar iguais na pontuação quando o Milan bate o Lanerossi Vicenza de Paolo Rossi por 3 a 2 fora de casa e o Perugia fica no 0 a 0 com a Roma na capital. E uma semana depois, seguem colados devido aos empates dos rossoneri com o Napoli no San Paolo (1 a 1, gol de De Vecchi) e dos grifoni com o Torino em casa. E justamente na rodada seguinte, a décima, em 3 de dezembro, vem o confronto direto no San Siro.

Os visitantes encaminham a zebra ao abrirem o placar com gol de cabeça de Franco Vannini logo aos três minutos. No fim do primeiro tempo, os rossoneri perdem Bigon, que sofre um estiramento e dá lugar a Antonelli. Na etapa final, o Milan volta pressionando tentando igualar a todo custo. E o empate vem aos 15 minutos, graças à estrela do substituto: ele recebe de Rivera na intermediária, avança e enche o pé com um tiro cruzado de fora da área.

O resultado mantém os milanistas na liderança, a qual voltam a ocupar de maneira isolada na rodada seguinte, após novo empate do Perugia. Enquanto isso, de novo no San Siro, o time de Nils Liedholm derrota o Torino por 1 a 0 com outro gol em chute de fora da área – desta vez disparado por De Vecchi – e que toca nas duas traves antes de entrar. E o volante volta a marcar um golaço no jogo seguinte, o terceiro na vitória de 3 a 1 sobre o Verona.

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Após um primeiro tempo sem gols, Novellino abre o placar para o Milan em cobrança de falta, os donos da casa empatam com Arcadio Spinozzi e os rossoneri voltam a ficar em vantagem com um gol de Antonelli. E aos 28, De Vecchi recebe de Maldera e dispara um chute colocado, que morre no ângulo do goleiro Franco Superchi. Os milanistas se mantêm um ponto à frente quando da parada de inverno que interrompe o campeonato.

No começo de janeiro, o Milan amplia a vantagem na liderança ao golear o Catanzaro por 4 a 0 (quando Chiodi marca pela única vez com bola rolando e Bigon, Novellino e Antonelli completam) e bater o Bologna fora de casa por 1 a 0 (gol de Maldera) enquanto assiste ao Perugia empatar com Verona e Lazio, tropeços que confirmam o título de inverno aos milanistas. No dia 21, um triunfo de 2 a 0 sobre os laziali encerra o primeiro turno para os rossoneri.

Naquela altura, a equipe já tinha apenas a liga para disputar. Na Copa da Uefa, depois de deixar pelo caminho o Levski Sofia na segunda fase, o time foi eliminado nas oitavas pelo Manchester City, no início de dezembro. No San Siro, os ingleses abriram dois gols de vantagem, mas Bigon marcou duas vezes e deu esperanças para o jogo de volta. Porém, em Maine Road, o City não deu a menor chance e venceu por 3 a 0, todos os gols anotados ainda no primeiro tempo.

Returno

Altobelli (e) e Collovati

O returno da liga começa com derrota, com o Avellino devolvendo o 1 a 0 da estreia, resultado que só não diminui mais a vantagem porque o Perugia fica no empate com o Lanerossi Vicenza. Logo em seguida, porém, a diferença torna a aumentar, quando o Milan bate a Roma (1 a 0, gol de pênalti de Antonelli) e o Ascoli (1 a 0, gol de Maldera), e os grifoni precisam ir buscar dois empates com Inter (um 2 a 2 no último minuto) e Fiorentina (1 a 1 em Florença).

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Na rodada seguinte, é a vez do Milan tropeçar em casa na ameaçada Atalanta: Bigon marca um belo gol, dominando no peito e chutando de primeira para vencer o goleiro Luciano Bodini, mas Roberto Tavola empata ainda no primeiro tempo. A sorte é que o Perugia – que já vê o Torino encostar na vice-liderança – para em seu quarto empate seguido, um 0 a 0 com a Juventus, então distante numa quinta colocação, seis pontos atrás do Milan.

Outra grande vitória sobre a Fiorentina, agora em Florença, tem Albertosi e Bigon como heróis: Maldera abre o placar aos cinco minutos e o meia-atacante amplia aos 35, antes de Giuseppe Lelj descontar perto do intervalo. Na volta, Bigon outra vez amplia, mas um gol contra de Baresi recoloca a Viola no jogo. Até que surge um pênalti para os donos da casa a 12 minutos do fim. Mas Albertosi impede o empate ao defender a cobrança de Antognoni.

A grande vitória, no entanto, antecede o momento mais difícil da equipe no campeonato. Entre 11 de março e 8 de abril, o Milan fica cinco partidas sem vencer. Primeiro, empata em 0 a 0 com a Juventus no San Siro. Depois vem o derby contra a Inter, um dos jogos mais marcantes daquela campanha. No início do segundo tempo, Albertosi volta a defender um pênalti ao parar o chute de Altobelli. Mas a Inter marca na etapa final com Oriali e o mesmo Altobelli.

Perdendo por dois gols a dez minutos do fim e completamente envolvido pela rival, o Milan parece batido. Até que De Vecchi bate falta com um chute rasteiro e diminui. Os rossoneri então vislumbram um sopro de esperança e partem para a pressão. E aos 44 minutos, mais uma vez De Vecchi, o carregador de piano daquela equipe, encontra o caminho das redes com um tiro seco, forte e rasteiro, decretando um empate tão incrível quanto fundamental.

Porém o esforço cobra seu preço nos dois jogos seguintes: o time fica num travado empate em casa com o Lanerossi Vicenza (0 a 0) e perde seu único jogo no San Siro para o Napoli (1 a 0). É quando vem o confronto direto do returno contra o Perugia – agora apenas dois pontos atrás – fora de casa. Chiodi abre o placar de pênalti aos 15 minutos. Mas logo em seguida, os donos da casa também têm um pênalti a seu favor e empatam com Gianfranco Casarsa.

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As vitórias voltam na hora certa: em 14 de abril, enquanto o Perugia bate o Napoli, o Milan viaja para enfrentar o perigoso Torino, terceiro colocado. A vitória, no entanto, é categórica: Bigon abre e fecha o placar, com mais um gol de pênalti de Chiodi entre os dois tentos: 3 a 0, e a vantagem na ponta é mantida. É o impulso decisivo para o scudetto.

O lanterna e já rebaixado Verona dá um susto no jogo seguinte, abrindo o placar em pleno San Siro com o ex-milanista Egidio Calloni. Mas Rivera, de volta após sua longa ausência por lesão, empata logo no início da etapa final e Novellino, após grande jogada de Buriani pela direita, cabeceia para virar o placar a seis minutos do fim, enlouquecendo o estádio.

A boa vitória sobre o Catanzaro fora de casa (3 a 1) em seguida volta a deixar os rossoneri quatro pontos à frente na liderança, já que o Perugia cede dois empates contra os mesmos Catanzaro e Verona. A duas rodadas do fim, o Milan precisa de apenas um ponto para confirmar a conquista. No dia 6 de maio, os grifoni batem a Lazio por 2 a 0 e torcem para que o Bologna, ameaçado pelo descenso, surpreenda e arranque uma vitória no San Siro.

Mas o empate em 0 a 0 é o suficiente para começar a festa da torcida rossonera com a conquista do décimo scudetto e a honrosa despedida do ídolo Gianni Rivera. Houve ainda uma sentida lembrança de Nereo Rocco, treinador histórico de um dos períodos mais vitoriosos do clube e falecido em fevereiro, menos de dois anos depois de ter comandado a equipe pela última vez. Em meio às múltiplas emoções, parecia que aquele seria um título de redenção.

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Com o empate em 1 a 1 diante da Lazio em Roma, o Milan terminou três pontos à frente do Perugia, curiosamente um vice invicto. Na temporada seguinte, porém, o time passou boa parte da campanha tentando perseguir a rival Inter, líder com vários pontos de frente, e perdeu o fôlego na reta final, acabando em terceiro. Em 23 de março de 1980, porém, a explosão do caso do Totonero marcaria profundamente a história do clube.

No inquérito sobre manipulação de resultados que envolveu uma dezena de clubes da Serie A e outros cinco da Serie B, o Milan acabou punido com o rebaixamento para a divisão inferior – o primeiro de sua história – e teve seu presidente Felice Colombo banido do futebol, além de três jogadores suspensos: Enrico Albertosi (por quatro anos, pena depois abrandada para dois anos), Giorgio Morini (dez meses) e Stefano Chiodi (seis meses).

Por boa parte da década de 1980, o clube tentaria aos poucos se reerguer como força dentro do futebol italiano, o que só conseguiria a partir de 1987, já com o magnata das comunicações Silvio Berlusconi na presidência e a chegada do técnico Arrigo Sacchi e de craques como os holandeses Ruud Gullit e Marco Van Basten, que levariam o clube a um novo scudetto logo em sua primeira temporada. Do time “da estrela”, só restava Franco Baresi. Mas esta já é outra história.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.