Localizada no coração da Grã-Bretanha, Nottingham possui uma vocação especial para mexer com o imaginário das pessoas. Nomeada pela Unesco como “Cidade da Literatura”, é terra de grandes escritores da língua inglesa, com menção principal a Lord Byron. Ainda assim, a história mais famosa originada na “Rainha de Midlands” vem da cultura popular. Foram nos bosques de Nottinghamshire que a lenda de Robin Hood se ambientou, recontada por trovadores durante a Idade Média e sacramentada como folclore amplamente reconhecido ao redor do mundo. A fama se materializa no ponto turístico mais famoso do município: uma estátua do Príncipe dos Ladrões, com o arco em punho.

Já quatro décadas atrás, Nottingham virou cenário de um conto real. E ele possui um quê de Robin Hood, ao se pensar na maneira como as lógicas se inverteram, na exaltação que os “pobres” experimentaram diante dos mais ricos, nos valores populares glorificados. O Nottingham Forest, um clube modesto e de uma cidade do interior às margens dos principais centros, virou o futebol europeu do avesso. Em 30 de maio de 1979, transformou o descrédito em fé para conquistar a inédita Copa dos Campeões. Em menos de cinco anos, os alvirrubros saíram do meio da tabela da segundona para erguer a taça mais prestigiosa do continente.

A literatura premiada que o Forest escreveu não precisou de Lord Byron para ser poética e também não dependeu dos trovadores para ganhar ares míticos. Ela se impulsionou graças a um par de mentes geniais, a dúzias de pés talentosos, a milhares de vozes dedicadas nas arquibancadas. Tal qual espalhavam os contadores de histórias medievais, Brian Clough é um herói de personalidade tão complexa e rica quanto Robin Hood. O treinador é a face inescapável do sucesso, o grande artífice do milagre. O responsável por criar os elementos mágicos no City Ground.

A trajetória do Nottingham Forest, afinal, se encaixa no ideal da Cidade da Literatura. Mistura drama, aventura, comédia e outros gêneros. Sobretudo, provoca o encantamento por chegar a um final feliz, mesmo guardando tantas surpresas na caminhada. Algum escritor que resolvesse botar no papel um conto como o dos alvirrubros precisaria de uma invejável imaginação. O próprio destino acabou sendo mais pródigo, ao pavimentar os rumos. Resta a nós, meros trovadores da cultura popular chamada futebol, tratarmos de perpetuar o encantamento provocado pela lenda totalmente verídica.

A história antes da história

O conto de fadas envolvendo o Nottingham Forest tinha começado bem antes daquele 30 de maio de 1979. Mais exatamente, quatro anos antes, quando o clube vagava no meio da tabela na segunda divisão do Campeonato Inglês e resolveu fazer uma aposta de peso: trazer Brian Clough para o seu banco de reservas. O treinador era amplamente reconhecido no país, sobretudo pelo trabalho à frente do Derby County, que levou da segundona ao título nacional. Os alvirrubros almejavam o mesmo, muito embora também soubessem que aquela escolha talvez fosse uma bomba-relógio. As saídas de Clough em seus três clubes anteriores haviam sido tumultuadas, com menção especial aos 44 dias desastrosos à frente do Leeds United, visto até então como o melhor time do país. Em janeiro de 1975, o técnico chegava ao City Ground para mexer com as estruturas, mas também para reerguer o seu nome.

“Quando entrei no City Ground, foi como se estivesse em um deserto – um lugar sem vida, sem cor e nem mesmo uma folha verde para dar esperança. E, como em um deserto, parecia não haver um fim. Os torcedores estavam cansados de ver os melhores jogadores substituídos por outros sem capacidade, estavam desiludidos”, recordou Clough, em sua autobiografia. “Então, como a minha mãe sempre fazia quando tinha um grande trabalho pela frente, resolvi limpar o convés e começar do zero. Não foi fácil ou prazeroso, mas tinha que ser feito de uma forma drástica, porque o clube estava à beira da falência e eu não gostaria de afundar com ele”.

O principal mérito de Brian Clough à frente do Nottingham Forest não seria necessariamente a aplicação de um ótimo futebol ou a contratação de grandes jogadores, embora tenha feito tudo isso. A maior virtude do treinador seria a maneira como transformou o espírito em City Ground. A forma como os alvirrubros passaram a acreditar em uma nova história. Para tanto, o veterano se valia de seu talento no trato com os atletas. Era um exímio motivador, sem precisar bancar o paizão para isso. Clough sabia escolher as palavras certas, como suas entrevistas sempre deixaram evidente. Isso também se refletia nos vestiários, seja pela linguagem simples, seja pelas liberdades que concedia aos seus comandados, seja pela auto-confiança transmitida, seja pelas broncas. Ele tirava o máximo de seu elenco.

O Forest seguiu confiando em alguns de seus jogadores. Todavia, Brian Clough também realizou gradualmente sua faxina através da adição de novos talentos. Deu-se por satisfeito ao evitar o rebaixamento à terceirona em 1974/75, antes de alcançar a oitava colocação em sua primeira temporada completa, 1975/76. Até que os horizontes realmente se expandissem em julho de 1976, quando se juntou Peter Taylor, eterno braço direito do comandante e seu grande amigo. Excepcionais em suas funções, os dois se tornavam praticamente imbatíveis quando juntos. Enquanto Clough usava o seu temperamento para mexer com o brio dos jogadores e aplicar essa voracidade em campo, Taylor era mais ponderado e se aproveitava de sua capacidade de observação, sobretudo para tirar o máximo das características de cada atleta. Eram os complementos perfeitos, desde os tempos de Middlesbrough, em que um despontava como atacante implacável e o outro era o sóbrio goleiro.

Um novo Nottingham Forest surgiu. Deu o seu primeiro grande passo com a conquista do acesso na segunda divisão inglesa. Apesar das oscilações, o time consumou a promoção graças à terceira colocação na temporada 1976/77. Começava a desenhar um milagre maior. Apesar das contratações que conferiam uma solidez cada vez mais ampla à equipe, os alvirrubros eram vistos como azarões na primeira divisão. Quase ninguém acreditava que poderiam conquistar o Campeonato Inglês. Continuavam não acreditando quando a campanha surpreendente do início da liga passou a se estender. Mantiveram o ceticismo até mesmo diante dos ótimos resultados dos recém-ascendidos, com menção essencial aos 4 a 0 sobre o Manchester United em Old Trafford. E, diante de tudo o que ocorria, a temporada do Forest terminou de maneira realmente inacreditável aos desconfiados. A “bolha”, que muitos diziam estar prestes a estourar, fez um estrondo tremendo quando só se rompeu com dois troféus na mão.

Os comandados de Brian Clough conquistaram primeiro a Copa da Liga, batendo o poderoso Liverpool na final. Já em abril, veio o título do Campeonato Inglês, o primeiro da história do clube. Mesmo subindo da segunda divisão, o Nottingham Forest teve um desempenho impecável em seu retorno à elite. Foi insuperável no City Ground e também acumulou ótimos resultados longe de seus domínios. Confirmou a taça com apenas três derrotas sofridas, nenhuma em casa, além de uma invencibilidade de 26 partidas ao final da campanha. Também contaram com a melhor defesa e o quarto melhor ataque. Não havia mais motivos para se duvidar do potencial daquele timaço. Não havia mais motivos, sobretudo, para se duvidar das palavras de Brian Clough.

E o título inglês ainda garantia uma nova ambição ao Forest: a Copa dos Campeões. O torneio se tornou bastante valorizado na Inglaterra, diante do bicampeonato continental vivido pelo Liverpool de Bob Paisley. Brian Clough também abraçou a ideia e passou a tratar o torneio como prioridade. Na Champions, aliás, o treinador tinha sofrido dois golpes duros em seus trabalhos anteriores. Não deixavam de representar uma motivação a mais.

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Em 1972/73, Brian Clough alcançou as semifinais com o Derby County. Eliminou adversários fortes como o Benfica e o Spartak Trnava, antes de duelar com a Juventus. Comparado com Helenio Herrera, dominou o noticiário italiano com suas declarações ácidas. Contudo, o falastrão sucumbiu diante da Velha Senhora. Perdeu em Turim por 3 a 1 e, mesmo com as promessas de reação, não saiu do empate por 0 a 0 em Baseball Ground. Sofreu com as decisões táticas de Čestmír Vycpálek no acertado time da Juve, enquanto também surgiram teorias conspiratórias sobre os benefícios da arbitragem aos bianconeri. Quase dois anos depois, a Champions virou também uma das motivações do treinador ao acertar com o Leeds. O problema é que a demissão precoce sequer permitiu que estreasse no torneio, contra o Zurique. Seu substituto, Jimmy Armfield, levou os Whites até a decisão contra o Bayern de Munique. Dar a volta por cima com o Forest, então, representava uma questão de honra a Clough.

Para melhorar as perspectivas, Clough tinha um elenco completo. No gol, Peter Shilton foi um caro investimento do clube, contratado na temporada anterior como um dos melhores goleiros do mundo. Viv Anderson, Frank Clark e Colin Barrett eram laterais excepcionais. A defesa tinha dois xerifões principais, Larry Lloyd e Kenny Burns, conhecidos pelo jogo firme – e tantas vezes intimidador. Enquanto isso, John McGovern fazia a proteção incansável no meio-campo, para que companheiros como Archie Gemmill, Martin O’Neill e Ian Bowyer tivessem liberdade. O ponta esquerda John Robertson era o grande craque daquele plantel, dono de uma habilidade refinada com ambos os pés, tanto para os chutes quanto para os dribles. Já na frente, Tony Woodcock, Garry Birtles e John O’Hare serviam como os principais responsáveis pelos gols. Potencial não faltava aos alvirrubros.

Desbancando os bicampeões

Disputar a Copa dos Campeões era uma novidade à maioria absoluta dos jogadores do Nottingham Forest e o sonho de atravessar a Europa para jogar futebol rondava a cabeça de muitos deles. Porém, o sorteio dos 16-avos de final do torneio guardou um banho de água fria aos alvirrubros. Não era apenas o fato de que jogariam dentro do próprio país, em território conhecidamente hostil. Eles encarariam o Liverpool, então bicampeão europeu. O time de Bob Paisley tinha sido derrotado na final da Copa da Liga anterior, de fato, mas só depois de bombardear a meta defendida por Chris Wood e de ver um pênalti contestável garantir a vitória do Forest no replay. A experiência dos oponentes pesava, especialmente pela forma como Anfield se agigantava nas noites europeias. Brian Clough precisaria trabalhar bastante o lado mental de seus atletas.

A imprensa especializada cravava a classificação do Liverpool. Além disso, em uma pesquisa feita com os outros 20 técnicos do Campeonato Inglês, 17 depositavam suas fichas nos bicampeões. O Nottingham Forest já tinha chegado longe demais com a conquista da Football League e encerrar o reinado dos gigantes na Europa parecia um fardo bem pesado aos novatos. Os próprios jogadores no City Ground viam o gigante se erigir, idealizando o time de Bob Paisley como um monstro. Por isso mesmo, o papel de Clough e Taylor foi mostrar que era totalmente possível repetir os resultados dos meses anteriores, independentemente da competição. Em conversa com os atletas, o treinador salientava que “são eles [o Liverpool] que estão preocupados agora”, sobretudo após o revés na final da Copa da Liga.

“O Liverpool tem 14 anos a mais de experiência nas copas europeias do que a gente. Vamos lidar com eles como lidamos no passado: dando nosso melhor. A gente não pode se preocupar demais com o Liverpool, senão vamos ficar loucos. Vamos nos concentrar no nosso jogo e tentar marcar um gol em nossa casa. Fazer o de sempre e se concentrar em jogar um bom futebol”, apontou Clough, na época, durante entrevista à televisão. Mesmo que o “bom futebol” significasse bater de frente com aquele Liverpool inesquecível, de trocas de passes eficientes e um estilo de jogo firme. Do outro lado, estariam ícones do calibre de Kenny Dalglish, Graeme Souness, Emlyn Hughes e outras tantas lendas que compuseram os Reds naqueles anos áureos.

Antes da partida, Clough estimulou seus jogadores garantindo que, “se quisessem ser campeões, teriam que cruzar com o Liverpool de uma forma ou de outra”. Que fosse, então, logo na primeira fase. E a atuação dentro do City Ground, no jogo de ida, beirou a perfeição. Os anfitriões encontraram os atalhos do campo para construir uma confortável vitória por 2 a 0. Sobretudo, contaram com dois heróis inesperados para balançar as redes: o centroavante Garry Birtles e o lateral Colin Barrett.

“A gente achava que iria à Itália ou à Espanha, algum lugar exótico. Encarar o Liverpool não parecia certo. Em partes, porque não era uma grande viagem. Depois, porque era um time tão fantástico que nós imaginávamos a derrota”, declarou Birtles, em entrevista posterior ao Guardian. “No fundo, estávamos com medo. Mas Brian Clough disse que não tínhamos que nos preocupar com os adversários. Ele não enchia sua cabeça com táticas ou avisos. Ele apenas afirmava para sairmos e jogarmos”.

Birtles é o conto de fadas dentro do conto de fadas. O atacante nascido em Nottingham jogava nos times amadores da cidade, enquanto garantia sua renda instalando carpetes. Vestia a camisa do Long Eaton Rovers e disputou sua última partida na non-league contra um adversário chamado Clumber Kitchens and Bathrooms, antes de assinar com o Forest. O negócio custou míseros £2 mil à agremiação. Não era forte e nem rápido, mas impressionou Peter Taylor por sua noção de espaço e por seu controle de bola. Chegou em 1976, passou os meses seguintes limitado a jogos desimportantes e, quando já pensava em tomar novos rumos, virou uma alternativa à equipe principal em 1978.

A venda de Peter Withe ao Newcastle abriu uma lacuna no ataque. Mais cotado para assumir a posição, o prata da casa Steve Elliott não deslanchou. Assim, a oportunidade recaía a Birtles, 22 anos, exigido no mais alto nível de pressão. Após atuar contra o Arsenal no sábado, seu segundo jogo oficial com a camisa do Forest (e o primeiro em 18 meses), recebeu a grata surpresa de que seria titular contra o Liverpool. Seu primeiro gol como profissional foi justamente o que abriu o placar ante os Reds, aos 26 minutos. Após um lançamento de Burns, Bowyer deu um inteligente toque de primeira a Woodcock. O atacante esperou o goleiro Ray Clemence sair em seus pés e entregou o presente ao jovem, com a meta escancarada para inaugurar a contagem. O “desconhecido instalador de carpetes”, como desdenharia Souness, virou protagonista.

O Liverpool cresceu após o gol. Partiu para a pressão e incomodou, apesar das dificuldades em encontrar espaços na defesa do Nottingham Forest. Na melhor chance, Dalglish fez o corte para dentro e soltou o pé, esbarrando em ótima defesa de Shilton. Os anfitriões, de qualquer forma, assustavam nos contra-ataques. E definiram o placar aos 42, quando pareciam dispostos a apenas se defender. Foi um gol que dependeu da iniciativa de Barrett. O lateral bloqueou dois passes no meio-campo, possibilitando o contragolpe. Birtles pegou a bola na esquerda e se mandou, enquanto o lateral também saía desenfreadamente no apoio. Clough e Taylor se esgoelavam na beira do campo, pedindo para que o defensor não subisse. No entanto, quando Birtles chegou à linha de fundo e cruzou, Woodcock aparou de cabeça para Barrett acertar um lindo chute de primeira. A coragem do lateral valeu um gol imensurável.

A emoção de Barrett durante a comemoração é emblemática. O defensor se desvencilha de Woodcock e sai em disparada, no mais puro êxtase. Só para quando é abraçado por Viv Anderson, antes de começar a chorar. Ele sabia o que aquele momento significava, após passar os primeiros anos de sua carreira como um mero coadjuvante no Manchester City. Para muitos, aquele tento é exatamente a gênese do Nottingham Forest bicampeão europeu. Infelizmente, Barrett não participaria de forma tão intensa do processo. Dez dias depois do gol fundamental, ele sofreu uma grave lesão no joelho durante compromisso pelo Campeonato Inglês. Viu o jogo de volta em Anfield, no leito do hospital. Retornaria apenas no fim da temporada, antes de sofrer uma nova contusão no joelho, responsável por abreviar sua carreira aos 26 anos.

E aquele jogo no City Ground ainda teve uma batalha particular no meio-campo, entre Graeme Souness e John McGovern. Dois escoceses, dois volantes de qualidade, dois líderes de suas equipes. Mas o ídolo do Liverpool tinha uma fama de desleal, diferente do abnegado capitão do Forest. “Graeme queria correr no meio-campo. Eu queria correr no meio-campo. Nós dois sabíamos que, quem dominasse aquele pedaço, daria a chance de vitória ao seu time. Ocasionalmente, teríamos que nos encarar, e ele era um jogador mais físico que eu. Graeme chutava as pessoas por diversão. Eu apenas fazia meu trabalho para ajudar o time”, afirmou o veterano, ao livro ‘I Believe in Miracles’, do jornalista Daniel Taylor.

McGovern, que combinava marcação firme e boa saída de bola, era um dos esteios nos trabalhos de Clough. Havia jogado com ele no Hartlepool, no Derby County e no Leeds United, levado também ao City Ground em 1975. Não à toa, usava a braçadeira. Sua bravura foi essencial diante do Liverpool, ganhando as disputas e sempre se levantando das pancadas. Era um verdadeiro líder, um exemplo de vontade. E na disputa particular com Souness, ganhou na bola e na raça. Em retaliação a uma dividida, o meio-campista do Liverpool chegou a agarrá-lo pelo pescoço, o que não foi punido pela arbitragem. “Nunca me envolvi em vinganças, para que isso não afetasse minha concentração”, dizia. Sua resposta estava no placar, com o triunfo consumado.

Gigantes em Anfield

Com a vantagem de dois gols, o Nottingham Forest teve motivos para encher o peito na visita ao Liverpool em Anfield. A vitória por 1 a 0 parecia não ser o bastante para encarar os bicampeões europeus em seus domínios. Dentro do City Ground, a própria torcida visitante começou a provocar os anfitriões, adaptando um sucesso do grupo disco Boney M para dizer que “um gol não era suficiente”. Todavia, os 2 a 0 no marcador emudeceram o outro lado e permitiram que os torcedores do Forest fossem à forra cantando que “dois gols eram suficientes”. O elenco se sentiu mais confiante, como contaria Ian Bowyer: “Eu acho que o gol de Colin deixou aquela segunda partida em Anfield não fácil, mas menos difícil”.

Por outro lado, o Liverpool também provocava calafrios quando era empurrado por sua massa. No início daquele mês, o time de Bob Paisley goleou o Tottenham por impiedosos 7 a 0 pelo Campeonato Inglês. Brian Clough teve que trabalhar a segurança de seus comandados na visita ao mítico estádio. “Não, esse resultado não me assustou, a gente deveria ter marcado sete contra os Spurs também. O ponto fraco do Liverpool é que eles não fizeram nem um gol na gente durante a última temporada. Esses sete gols foram em outro time, não no nosso”, retrucava o treinador, quando questionado sobre o embalo dos oponentes em casa. Antes da partida, Clough distribuiu taças de vinho para tentar relaxar os nervos dos atletas. Já no ônibus, a caminho de Anfield, deu uma surreal carona a Bill Shankly, lenda dos Reds. Passou a viagem conversando com o amigo e bebendo umas cervejas, o que também mudou a relação dos jogadores com o duelo decisivo.

Encarar Anfield gerava uma pressão psicológica imensa sobre o Nottingham Forest. Quando os visitantes entraram em campo, foram cobertos de vaias, mas Clough fez questão que seus comandados passassem em frente à temível Kop – o setor mais febril do estádio. Queria transmitir um sinal de respeito, mas também de enfrentamento. Os torcedores da casa chegaram a atirar laranjas e até mesmo uma bolinha de tênis. Foi neste momento que John Robertson usou sua qualidade para esfriar os ânimos. O craque pegou a bolinha e deu um chute no ângulo. Arrancou aplausos, quebrou o clima nas arquibancadas e também permitiu que seus companheiros tratassem o compromisso com mais leveza. Conseguiram segurar o empate por 0 a 0, mas sem precisar se fechar na retranca. Foi o ápice do sistema defensivo da equipe.

Jogando de maneira compacta e atenta, adiantando-se em campo, o Forest não concedeu muitos lances de perigo ao Liverpool. Nos momentos em que precisou ser exigido, Shilton foi intransponível. E também viu uma atuação muito segura da dupla de zaga à sua frente. Kenny Burns era um sujeito de poucos cavalheirismos, conhecido por suas brigas e suas bebedeiras. De atacante problemático no Birmingham, acabou reconvertido em um zagueiraço no Forest, a ponto de ser eleito o melhor jogador do Campeonato Inglês na campanha do título. Além da firmeza, primava pela técnica. Já ao seu lado, Larry Lloyd era mais conhecido por sua imposição física. E, a ele, a classificação sobre o Liverpool teve um sabor particular. O beque havia vestido a outra camisa vermelha por cinco anos, titular absoluto quando o time de Bill Shankly conquistou a Copa da Uefa em 1973. Entretanto, sofreu uma lesão e perdeu espaço para Phil Thompson após a chegada de Bob Paisley. Acabaria negociado ao Coventry, antes de se mudar ao City Ground em 1976.

“Eu rio quando vejo referências ao grande triunfo tático do Forest naquela noite em Liverpool. Alguns observadores tentam se convencer que é complicado, que coisas técnicas estão acontecendo quando não estão. Alguns ‘especialistas’ saem falando um tanto de porcaria. Nunca olhei para a escalação do Liverpool e disse que operariam desta forma, que este marcaria aquele ou esse tipo de coisa. […] Era um sentimento, uma convicção, um senso que o melhor a fazer era jogar no campo do Liverpool, não escolher uma tática”, avaliou Clough, em sua autobiografia.

O treinador também elogiava bastante Archie Gemmill. O meio-campista dinâmico e refinado já tinha sido seu homem de confiança no Derby County, antes de aceitar a assinatura com o Nottingham Forest em 1977. Virou uma peça-chave na engrenagem, jogando pela faixa central ou pelo lado direito, em complemento a Viv Anderson. “Gemmill foi primordial naquela noite. Ele cuidou de Ray Kennedy – um geordie grande e forte, tão importante ao Liverpool. Não foi planejado que Gemmill o marcasse, mas sua velocidade sempre o colocava no topo. Podia vencer todos no sprint e correr o dia inteiro”, apontava Clough. Anulando a força dos mandantes por ali, o escocês facilitou a classificação.

O empate arrancado pelo Nottingham Forest inspirou uma reverência desde o apito final. Mais silenciosa que de costume, a torcida do Liverpool lamentava o fim do sonho europeu, ao mesmo tempo em que respeitava o feito dos adversários. Os jogadores visitantes, em contrapartida, comemoravam efusivamente.”Quando vencemos o Liverpool, eu me lembro do Bob Paisley dizendo conseguiríamos ganhar a Champions. Aí você percebe como a gente devia ser respeitado”, comentou John Robertson, ao documentário ‘I Believe in Miracles’. Paisley, que mantinha um diário sobre todos os jogos do Liverpool, escreveu uma longa passagem sobre as frustrações contra um Forest dominante. Concluiu que os oponentes tinham um espírito de equipe que ele nunca havia visto em um adversário. “Assim que fechei meu caderno, peguei o telefone e apostei que o Forest levaria a Champions”, apontou. Estaria certo.

A aguardada viagem à Europa continental

A empolgação por cruzar a Europa pelos ares finalmente aconteceu em meados de outubro de 1978. O AEK Atenas voltara a conquistar o Campeonato Grego na temporada anterior, com uma equipe repleta de jogadores da seleção. O nome mais célebre era o do atacante Thomas Mavros, considerado um dos maiores atacantes da história do país. Na linha de frente, tinha a companhia de Dusan Bajevic, entre os melhores iugoslavos de sua geração. E no banco de reservas, outra lenda chegara nos meses anteriores: Ferenc Puskás, tentando reeditar o sucesso que vivera no lado verde de Atenas, quando levou o Panathinaikos à final da Champions. De qualquer maneira, o temor maior dos ingleses se concentrava no clima hostil que poderiam encontrar na Grécia.

Brian Clough incutia uma mentalidade livre em seus comandados. O treinador queria que os seus jogadores tratassem os jogos fora de casa na Champions como um “feriado fora do país”. E isso incluía até mesmo pegar leve nos treinos. Diante da maratona de compromissos que o Forest atravessava, Clough poupava seus futebolistas de atividades físicas mais pesadas. Queria que eles se mantivessem inteiros para dar o máximo em campo – algo que invariavelmente conseguia. Quem exigia mais esforço nos treinamentos era Jimmy Gordon, outro parceiro histórico de Clough e Taylor. Comandante de ambos nos tempos de Middlesbrough, também os acompanhou no Derby County e no Leeds United, voltado aos cuidados físicos dos plantéis. Era um homem com uma enorme ética de trabalho, uma postura honesta e uma sinceridade que o aproximava dos jogadores. Servia como um leal escudeiro nos corredores do City Ground. “Ele era o caráter que eu mais precisava no Forest. O homem em quem poderia confiar minha vida e minha carteira, se eu usasse uma”, resumiria Clough, sobre o companheiro.

A parte física do Forest se complementava por uma tática sem muitos requintes, mas segura. A começar pelo trabalho que realizavam na defesa, com uma linha de zaga imponente e um goleiro fantástico. O apoio dos laterais era importante, sobretudo de Viv Anderson pela direita. Dono de uma potência impressionante, o defensor formado no clube foi um dos primeiros negros a jogar em alto nível no futebol inglês e se tornou alvo de ofensas racistas. Não foi isso que minou o seu futebol, transformando-se em pioneiro na seleção nacional. O meio-campo dos alvirrubros também tinha ótima projeção, em especial pela participação de John Robertson pela esquerda. Era a partir dos dribles do ponta que as jogadas aconteciam, conectando com atacantes valentes na área. Embora não fosse muito inventivo, o 4-4-2 de Clough era extremamente organizado e dinâmico. Havia um encaixe perfeito em suas peças.

“Um time só floresce quando tem a bola. As flores precisam de chuva, é um ingrediente vital. O senso comum diz que o principal ingrediente do futebol é a bola”, declarava Clough. Embora gostasse de se mostrar um cara avesso às táticas, sua estratégia era inerente aos resultados do time. Jogadores antes vistos como medianos chegaram ao rendimento máximo no City Ground. Além disso, ultrapassagens e infiltrações garantiram resultados vitais ao longo da caminhada europeia. Suas instruções eram simples, mas funcionais dentro do sistema que pensava. Foi assim que abriu novos caminhos ao Forest pela Europa.

As preocupações do Nottingham Forest, muitas vezes, nada tinham a ver com questões táticas do jogo. E, antes do primeiro duelo contra o AEK Atenas, isso se evidenciou. O clube havia disputado um amistoso de pré-temporada na Grécia e as arquibancadas literalmente em chamas faziam os jogadores questionarem o que aconteceria em uma partida de Champions. Mais do que isso, eles se preocupavam até mesmo com possíveis armadilhas criadas pelos anfitriões durante a concentração em Atenas – e uma queda de energia súbita nos chalés onde estavam fez muitos suarem frio. Desenhavam um inimigo invisível, o que não se provou.

O encontro com o AEK não foi o bicho de sete cabeças que os jogadores do Nottingham Forest imaginavam. Quando entraram em campo no Estádio Nikos Goumas, de fato, os 35 mil presentes explodiram. Para encará-los, Clough fez sua preleção no centro do gramado. E o clima hostil não se manteve quando a bola começou a rolar. Os alvirrubros fizeram o seu jogo sem maiores sobressaltos, apesar das entradas duras dos gregos. Venceram por 2 a 1.

O primeiro gol saiu logo aos dez minutos. O experiente Frank Clarke, lateral esquerdo trazido do Newcastle, fez uma ultrapassagem e encontrou o campo aberto após receber a enfiada de John Robertson. Cruzou para Birtles, com uma calma tremenda para driblar o goleiro, antes de arrematar à meta vazia. Antes do intervalo, já saiu o segundo gol. Mais um lance de Robertson pela esquerda, no qual McGovern avançou à área para aproveitar a sobra. No segundo tempo, apesar da reação dos aurinegros, Tasos Konstantinou só conseguiu descontar através de um pênalti contestável.

A situação estava sob controle para o reencontro no City Ground. E o Nottingham Forest passeou em campo, na maior goleada aplicada durante aquela campanha: 5 a 1 para cima do AEK. Garry Birtles foi o destaque da noite, com dois gols. Viv Anderson também estava inspirado, com direito a uma pintura do meio da rua. Trazido do Queens Park Rangers, o zagueiro David Needham abriu o placar. E também merece menção especial Tony Woodcock, autor do segundo gol. O atacante, mais uma cria da base, se tornou uma das grandes revelações sob as ordens de Brian Clough. Sabia marcar os seus gols com sua atitude impetuosa, mas também era inteligente e participativo, abrindo clarões aos companheiros e contribuindo com assistências. Muito graças a ele, o Forest dava mais um passo à frente na Copa dos Campeões.

Um novo patamar (não só na bola)

O Nottingham Forest possuía um elenco enxuto. Ainda que as rotações fossem comuns entre os titulares, a base principal utilizada por Brian Clough não passava de 16 jogadores. E impressionava a maneira como eles rendiam, não apenas na Champions. Os alvirrubros continuaram avassaladores no Campeonato Inglês durante o segundo semestre de 1978. Somando todas as competições, chegaram a manter uma invencibilidade de 58 partidas. Além disso, estabeleceram o recorde da primeira divisão naquele período: 42 jogos sem perder. Mais saboroso, Clough destruía a marca anterior, de 34 rodadas, estabelecida pelo Leeds de seu desafeto Don Revie. O Forest, antes desacreditado, empilhava feitos históricos. O recorde permaneceria com o clube por 25 anos, até o surgimento dos Invincibles do Arsenal.

Em certo momento, o Nottingham Forest também passou a sentir os efeitos da maratona e jogadores importantes começaram a se lesionar. A invencibilidade no Campeonato Inglês terminou rompida no início de dezembro, durante a visita a Anfield. Terry McDermott anotou os gols do Liverpool no triunfo por 2 a 0 e ratificou a liderança dos Reds. Embora o time de Bob Paisley já tivesse sofrido duas derrotas naquela altura da campanha, vinha de um começo avassalador, que estabeleceu sua vantagem na liderança. Os comandados de Brian Clough, por outro lado, mais tinham empatado do que vencido naquele momento. Em consequência, o triunfo no confronto direto permitiu que o Liverpool abrisse uma diferença de oito pontos sobre o Forest, que se manteria até o final da campanha.

Com dificuldades na perseguição ao topo da Football League, o Nottingham Forest direcionou suas forças às copas. Em especial, à Champions, que retomaria suas fases finais apenas em março. E, sem um mecenas por trás, Brian Clough decidiu investir o dinheiro das premiações pelos títulos anteriores em um negócio de peso. Jovem talento do Birmingham, Trevor Francis era visto como um dos jogadores mais habilidosos do país, já despontando na seleção. O Forest resolveu comprar o meia-atacante pela bagatela de £1 milhão, cifra inédita no futebol local – e que praticamente dobrava a transação mais cara até então. Não era apenas um reforço ao elenco, mas também uma maneira de ressaltar as ambições dos alvirrubros naquele momento.

As negociações por Francis se arrastaram. O Birmingham exigia o valor milionário e Clough se relutava a aceitar – o que ele definiu como “um tipo de bloqueio mental”, em sua autobiografia. O treinador chegou a brigar com Peter Taylor, que não entendia a resistência. “Tinha algo na minha cabeça dizendo que era errado colocar esse tipo de etiqueta em um jogador, mesmo um com a habilidade extraordinária de Francis. Jogadores têm problemas o suficiente, mesmo sem carregar um fardo extra. Finalmente aceitei pagar £999.999 ao Birmingham. E possivelmente uns centavos a mais. Protegi meu princípio, chegando perto da droga do valor pedido por Jim Smith e calei Taylor”, escreveu Clough.

A apresentação de Francis se tornou um clássico. Clough apareceu impaciente durante a entrevista, chamando o foco para si. Vestia-se pronto para jogar uma partida de squash (seu principal hobby no período) e segurava até mesmo uma raquete. O treinador garantiu que Francis não seria necessariamente titular, enquanto pediu para que a imprensa não o marcasse como “jogador de um milhão de libras”. Pedido obviamente não atendido. A resposta do novato teria que vir em campo. Naquele primeiro momento, porém, estava impedido de disputar as copas – inclusive a Champions. Seria um reforço ao Campeonato Inglês, onde os alvirrubros se engalfinhavam na parte de cima da tabela e tentavam encurtar as distâncias em relação ao Liverpool.

O retorno do Nottingham Forest à Champions aconteceu em 7 de março. Os ingleses abririam as quartas de final no City Ground, recebendo o Grasshopper. Apesar da presença de alguns jogadores da seleção suíça, incluindo um jovem Heinz Hermann (meio-campista que depois se tornaria recordista em participações pela equipe nacional), os oponentes não possuíam um time tão badalado. A preocupação maior estava no fato de que tinham sido os responsáveis por eliminar o Real Madrid nas oitavas, graças aos gols fora de casa. E os helvéticos dificultaram a vida dos alvirrubros no primeiro duelo, mesmo como visitantes. O time de Brian Clough precisou buscar a virada por 4 a 1, só dilatada com dois gols durante os minutos finais.

Claudio Sulser abriu o placar ao Grasshopper logo aos 11 minutos, em um cochilo da defesa da casa. O atacante era quem mais preocupava os ingleses, após anotar incríveis nove gols nos quatro jogos anteriores da Champions, incluindo três no Real Madrid. Antes do intervalo, Birtles mais uma vez se mostrou salvador, buscando o empate ao Forest. Já no segundo tempo, a situação se tornou mais cômoda depois que John Robertson converteu uma cobrança de pênalti. Ainda assim, a queda do Real deixava um aviso e era necessário ampliar o saldo. Depois dos 42, vieram mais dois tentos. Gemmill e Robertson deram números finais ao embate, que diminuía as preocupações antes da viagem à Suíça.

Entre um jogo e outro contra o Grasshopper, o Nottingham Forest disputou mais uma decisão da Copa da Liga. Eliminou Everton e o surpreendente Watford naquela campanha, antes de encarar o Southampton na decisão. Um momento marcante em Wembley aconteceu logo na entrada dos times em campo. Clough resolveu conceder um pouco das honras a Peter Taylor e o assistente conduziu os jogadores na tradicional caminhada, recebendo a ovação da torcida. A final guardaria os seus desafios. Os Saints terminaram o primeiro tempo vencendo por um gol de vantagem, antes que o Forest voltasse com outra atitude do intervalo. Birtles marcou dois gols e Woodcock complementou a vitória, antes que os oponentes descontassem para 3 a 2 já nos minutos finais. A taça outra vez ia para o City Ground, no primeiro bicampeonato da competição criada nos anos 1960.

A festa do Nottingham Forest não pôde se ampliar tanto. Quatro dias depois, o time já estava em campo em Zurique, para encarar o Grasshopper. E os anfitriões impuseram mais dificuldades no Estádio Hardturm. Melhores em campo, os alviazuis era municiados pelo talentoso meia Raimondo Ponte – que, em 1980, seria contratado pelos próprios alvirrubros, mas não teria vida longa no City Ground. Os suíços abriram o placar aos 33 minutos, graças a um pênalti convertido mais uma vez por Sulser.

A sorte do Forest foi arrancar o empate por 1 a 1 apenas cinco minutos depois. Os ingleses contaram com a presença de Martin O’Neill na área, surgindo como um elemento surpresa. Trazido da Irlanda do Norte ainda na adolescência, o meio-campista tinha atravessado as penúrias do Forest nas divisões de acesso até brilhar com Clough. Geralmente entrava pelo lado direito, realizando um intenso trabalho de cobertura e apoio, contribuindo especialmente pela qualidade na armação. Mas, desta vez, apareceu para resolver uma partida essencial, evitando qualquer reação dos suíços na sequência da noite. Selou a classificação às semifinais. Brian Clough já igualava seu feito com o Derby County e queria mais.

Uma noite inesquecível no City Ground

Naquele momento, já se sabia que a Copa dos Campeões teria finalistas inéditos. Malmö e Austria Viena se enfrentavam de um lado da chave, enquanto Nottingham Forest e Colônia se pegavam do outro. O favorito tenderia a sair do embate entre ingleses e alemães-ocidentais. Responsável por despachar Rangers e Lokomotiv Sofia nas etapas anteriores, o Effezeh tinha ainda mais moral pela conquista da Bundesliga na temporada anterior. Evitara o tetracampeonato do rival Borussia Mönchengladbach com um desfecho emocionante na campanha, só garantido pela diferença no saldo de gols. Além disso, o elenco ajudaria a formar a base da seleção alemã-ocidental naqueles anos. Contava com Harald Schumacher, Bernd Cullmann, Herbert Zimmermann, Harald Konopka, Bernd Schuster, Dieter Müller e outros ídolos dos Bodes. Eram treinados por Hennes Weisweiler, um dos maiores estrategistas da história do futebol local, que voltava de uma passagem pelo Barcelona.

Havia uma tensão natural sobre o jogo, por conta do embate entre Inglaterra e Alemanha Ocidental, rivais históricos. E a verdade é que Clough e Taylor não deram a importância devida às qualidades do Colônia. Os comandantes comparavam o estilo dos Bodes com o dos clubes ingleses. O assistente chegou a assisti-los pela Bundesliga, dizendo que não tinham “velocidade suficiente”. Menosprezou os principais jogadores e até os colocou na prateleira dos “times amadores de East Midlands”. Pois, no gramado enlameado do City Ground, os alemães-ocidentais mostraram o contrário. Fizeram um primeiro tempo maiúsculo durante a partida de ida. Por um momento, pareceu que o sonho dos ingleses se encerraria diante de sua torcida.

“Taylor estava convicto. Disse que não cabeceavam e que não eram rápidos. Garantia que iríamos destroçá-los, especialmente depois que vissem o estado do gramado. Logo me lembrei de suas palavras quando o jogo começou. Era o time mais rápido que eu tinha enfrentado e o estado do campo não os incomodou. Acho que todos nós olhamos para Taylor na beira do campo, pensando sobre a besteira que ele tinha falado”, relembrou Martin O’Neill, ao ‘I Believe in Miracles’. Os jogadores do Forest não ignoraram a força dos campeões alemães, mas sentiram o baque de uma partida duríssima.

Em apenas 20 minutos, o Colônia abriu dois gols de vantagem no placar, graças aos seus vorazes contragolpes – pegando desprevenida uma defesa lenta, sentindo falta do suspenso Viv Anderson. Roger van Gool anotou o primeiro, num chute rasante de fora da área, antes que Dieter Müller ampliasse com a meta vazia. As chances surgiam aos montes, de ambos os lados, até que o Forest descontasse aos 28 minutos. Após um cruzamento ajeitado por Needham, Birtles apareceu livre para cabecear no ângulo. O empate não saiu por culpa de Schumacher. O goleiro realizou duas defesas incríveis na sequência, enquanto Shilton também trabalhava do outro lado. E os ingleses encaravam seus problemas. Van Gool ficou a um triz de anotar o terceiro, mas seu sutil toque caprichosamente bateu na trave. Além do mais, Gemmill se lesionou e precisou ser substituído por Frank Clark.

Não seria exagero dizer que o momento mais importante na campanha do Nottingham Forest aconteceu naquele segundo tempo em City Ground. Os alvirrubros precisavam de uma atitude mais contundente para buscar a virada. Foram fulminantes. A atmosfera no estádio era surreal, sobretudo pelo barulho que os torcedores faziam. E, naqueles caminhos tortuosos do futebol, a lesão de Archie Gemmill acabou permitindo o empate aos oito minutos. Ian Bowyer começou a partida na lateral, mas foi deslocado à faixa central com a entrada de Frank Clark. Versátil e técnico, não tinha problemas para se adaptar às diferentes funções. Quis o destino que a jogada decisiva saísse de seus pés. John Robertson cruzou da esquerda e, após uma casquinha de Birtles, o meio-campista acertou um lindo chute de primeira para vencer Schumacher.

O Nottingham Forest cresceu com o gol. Seguiu martelando o Colônia, mas era difícil superar Schumacher. E, por mais que o time insistisse nas jogadas pela esquerda, a solução acabou saindo do outro lado. Aos 18 minutos, a virada se consumou. McGovern avançou e deu um passe para Birtles dentro da área. O atacante sofria a marcação cerrada de um adversário, mas foi fenomenal ao proteger a bola no pivô e, após girar, acertar um cruzamento perfeito para o meio da área. John Robertson, o mágico daquele time, mostrou que também tinha enorme coragem. O ponta se meteu entre os zagueiros e deu um raríssimo (e lindo) peixinho na bola, deslizando na lama. Os ingleses revertiam o cenário.

Robertson é o cara que merece o rótulo de craque naquele Forest. Era um jogador sem tanto cartaz até a chegada de Brian Clough. Um meio-campista sem muitas ambições que recebia críticas por sua lentidão e pelas dificuldades para manter a forma física. O momento era tão difícil que ele esteve prestes a ser negociado com o Partick Thistle, de seu país. O treinador, contudo, reinventou o escocês. Deslocou-o como ponta esquerda e percebeu seu exímio talento. Por mais que não fosse veloz, Robertson criava espaços com seus dribles, cortando para qualquer lado. Além disso, seus dois pés geravam cruzamentos precisos e chutes indefensáveis.

Até mesmo quando Trevor Francis desembarcou, a ordem de Clough foi: “Passe a bola para Robertson, ele é melhor do que você”. E foi melhor do que qualquer outro, com inúmeras atuações fantásticas na ascensão milagrosa. “Ele é um homem pouco atrativo, mas dê a ele uma bola e um metro de grama, que você verá um artista. Ele é o Picasso do nosso jogo”, definia o comandante. Ou como classificava o assistente Jimmy Gordon: “Vi muito de Tom Finney e Stanley Matthews em meus tempos de jogador e era muito difícil escolher um entre eles. Mas se você olhar àquilo que Finney e Matthews tinham a oferecer, John junta um pouco de ambos – e com algo a mais”.

O heroísmo de Robertson na reação contra o Colônia não é explicado apenas pelo gol incomum ou pela participação intensa. Ele era um herói pelo drama que precisou superar durante a semana. No sábado anterior, seu irmão e sua cunhada faleceram em um acidente de automóvel. A sobrinha de oito anos era a única sobrevivente da tragédia, internada em estado grave pelas lesões internas. Na segunda-feira posterior, o camisa 11 teve uma conversa com Clough e o técnico o ajudou a se reerguer. “Ele não poderia ser mais gentil ou solidário. Disse que eu teria o tempo que quisesse, que não precisava me preocupar com o jogo. Eu só deveria voltar quando estivesse pronto”, afirmou, ao livro ‘I Believe in Miracles’. O funeral na Escócia aconteceu durante a manhã do dia do jogo e a família apoiou o jogador a voltar a Nottingham, para que fizesse jus à memória do irmão em campo. John jogou por Hughie e dedicou o gol a ele.

Aquela que parecia a noite invencível de um time fadado a ser campeão, porém, não terminaria da maneira perfeita. Poço de confiança, Peter Shilton falhou no final da partida. Calmo e concentrado, o goleiro realmente elevou o patamar do clube após sua contratação. O prodígio, que foi capaz de desbancar Gordon Banks no Leicester, também se tornou seu herdeiro no Stoke City e na seleção inglesa. Quando desembarcou no City Ground, já acumulava oito anos de convocações aos Three Lions e era um nome óbvio entre os melhores arqueiros da Europa. Primava por seu posicionamento e pela capacidade de antecipar os lances. Todavia, pecou em suas virtudes.

Primeiro jogador asiático do futebol alemão, Yasuhiko Okudera foi uma cartada de Hennes Weisweiler no segundo tempo. A pressão do Colônia era grande e Shilton ajudava a segurar a vitória parcial dos ingleses. Coube ao japonês surpreender, garantindo o empate a cinco minutos do fim. O chute de fora da área nem foi dos melhores, sem tanta força ou direção. O problema é que Shilton calculou mal o quique da bola. Permitiu que ela passasse por baixo de suas mãos, encerrando o placar em 3 a 3. O camisa 1 não se eximiu da culpa, declarando sua frustração, enquanto era atacado pelos tabloides locais. Após a impensável reação protagonizada pelo Forest, ceder o resultado em casa recaía como um anticlímax. Os alvirrubros teriam uma difícil missão em sua visita à Alemanha Oriental.

A estupidez dos champanhes

Contrariando as expectativas, Brian Clough seguiu altivo com o resultado. Manteve a calma nos vestiários, afirmando que seus comandados ainda eram melhores que os alemães-ocidentais, numa conversa sem histerias. Já à imprensa, declarou que estava desapontado, mas que o resultado não era ruim e que a “defesa do Colônia também não impressionou, sem segurar a vantagem de dois gols”. Qual a chance de se classificar? “Apenas marcar um gol a mais que eles”, dizia um treinador cheio de elogios à reação do Nottingham Forest. Viu o copo meio cheio e manteve o ímpeto de seus jogadores. Precisava desse alto nível de confiança para o reencontro no lotado Estádio Müngersdorfer. “Espero que ninguém seja estúpido de nos descartar por antecedência”, apontou, olhando diretamente à câmera. A mensagem era clara.

O clima em Colônia servia para mexer com o espírito do Nottingham Forest. A cidade se portava como se o Effezeh já tivesse se classificado à final. Ingressos começaram a ser impressos para a partida em Munique e companhias de turismo já vendiam pacotes à decisão. Uma arrogância compartilhada pelo próprio time, fotografado com taças de champanhe após o empate no City Ground. A goleada sofrida por 5 a 1 na visita ao Bayern de Munique dias antes, com os titulares em campo, indicava como a mentalidade dos Bodes talvez não fosse a ideal para um momento de tamanha exigência. Teriam o ego golpeado.

Alguns dos personagens principais do Nottingham Forest no City Ground mais uma vez se destacaram durante a partida na Alemanha Ocidental. E a autoestima induzida por Clough se refletiu no gramado. Primeiro, com a redenção de Shilton. O Colônia começou a partida no ataque e Dieter Müller teve uma chance claríssima para abrir o placar, ao escapar da marcação. Ficou de frente para o gol e bateu cruzado, tirando do goleiro, mas o craque desviou com a ponta dos dedos. Transmitia um sinal aos companheiros e aos adversários. Não seria fácil derrotar o Forest desta vez. Enquanto isso, os lances ofensivos dos ingleses eram mais esparsos, dependendo de cruzamentos de John Robertson.

A vitória por 1 a 0 acabou definida aos 20 minutos do segundo tempo. Novamente com Bowyer. Robertson bateu um escanteio fechado pela esquerda. Após um leve desvio de Birtles no meio do caminho, o meio-campista apareceu desmarcado na área. Nem conseguiu cabecear direito, mas pôde tirar a bola do alcance de Schumacher. O que importava era ver o barbante balançando. Diante do tento, o Colônia sentiu a pancada. Depois de alguns momentos em que pareciam satisfeitos com o empate, os germânicos precisariam buscar o resultado.

A tarefa duríssima do Forest se cumpriu em meia hora da mais pura pressão do Colônia. Os Bodes foram com tudo para cima e entrincheiraram os ingleses dentro da área. A equipe de Brian Clough apresentou sua entrega, travando todas as bolas, até na pequena área. Enquanto isso, Shilton se manteve intransponível e realizou outra defesa vital, em bomba de Konopka. Os campeões continentais pareciam se erigir. “Segurar a vitória naqueles últimos minutos nos fez perceber que éramos mais fortes do que qualquer outro time da Europa”, declarou Martin O’Neill, ao documentário ‘I Believe in Miracles’.

A imprensa europeia inteira rendeu elogios a Brian Clough. Foi chamado de “grande estrategista” pelos italianos, enquanto os espanhóis o colocavam como herdeiro de Rinus Michels. “Todo mundo trabalha para todo mundo. Quando eles avançam, são nove atacantes. Quando defendem, são nove defensores. Onde a bola for, há três ou quatro jogadores dando opções de passes”, apontava o Mundo Deportivo. Que o treinador quisesse se afastar da imagem mais professoral, não se negava que ele tinha criado uma máquina de jogar futebol, mesmo que tivesse um manual de instruções simples. O trabalho coletivo daquele Nottingham Forest era excepcional.

Uma final cheia de expectativas

O Nottingham Forest ainda possuía remotas chances de conquistar o bicampeonato inglês após se classificar à decisão da Champions. E sua grande oportunidade aconteceria três dias depois da vitória em Colônia. Outro compromisso duríssimo: o time de Brian Clough precisaria encarar o Liverpool. Naquele momento, não apenas a vitória era fundamental. O Forest tinha que manter um aproveitamento perfeito na apertada série de jogos finais pela Football League, além de secar os Reds. A reviravolta não aconteceu. Após o empate sem gols naquela partida, a derrota para o Wolverhampton na sequência encerrou as esperanças. Soberano, o Liverpool terminou a campanha com 68 pontos conquistados, marca recorde da liga com dois pontos por vitória.

O vice-campeonato não era ruim ao Nottingham Forest. Muito pelo contrário, pensando nas exigências às quais o time havia sido submetido naquela temporada – e sem se esquecer que aquele era apenas o segundo ano desde o retorno à elite do Campeonato Inglês. A equipe disputou 63 partidas oficiais, somando todas as competições. O elenco pequeno teve apenas 16 jogadores que superaram dez aparições. Além do mais, as contusões foram um sério desafio a Brian Clough e Peter Taylor ao longo daquele trabalho. Por isso mesmo, soava como milagre o desempenho consistente na reta final da Football League, considerando a cabeça voltada à Champions. Os alvirrubros subiram de produção e se garantiram no segundo lugar. Contavam com o brilho de um nome especial: Trevor Francis, aproveitando a competição para se entrosar.

O craque de um milhão de libras demorou a engrenar com a camisa do Forest. Enquanto não estreava, chegou a ser designado por Clough para “servir chá” aos companheiros – uma clara jogada para romper qualquer resistência ou arrogância. E quando começou a ganhar sequência, o novato protagonizou o time no Campeonato Inglês. Anotou seis gols em 20 partidas no torneio, impulsionando o bom momento dos alvirrubros. A sua aclimatação seria importante ao desfecho da temporada, afinal. A Uefa permitia que jogadores contratados ao longo do ano fossem inscritos para a final da Champions. O meia se tornaria um reforço e tanto para a decisão em Munique. Havia, em contrapartida, o incômodo para saber quem perderia seu lugar. Recuperando-se de pequenas lesões, apareciam na berlinda Archie Gemmill, Martin O’Neill e Frank Clarke. Quem quisesse jogar precisaria vencer os seus próprios limites.

O adversário do Nottingham Forest naquela final também buscava o seu título inédito na Copa dos Campeões. O Malmö fazia uma campanha igualmente surpreendente, ignorando os prognósticos. Os campeões suecos haviam eliminado adversários mais badalados em sua caminhada até Munique. O grande resultado aconteceu contra o fortíssimo Dynamo Kiev nas oitavas de final, além de terem derrubado Monaco, Wisla Cracóvia e Austria Viena. E o mais desafiante era o aproveitamento defensivo dos celestes. Das oito partidas disputadas até então, em seis o time não havia sofrido gols. Tinham sido vazados apenas três vezes rumo à final, contra sete tentos tomados pelo Forest.

O mentor do sucesso do Malmö era um inglês. Bob Houghton teve carreira modesta como jogador, mas virou técnico cedo nas divisões de acesso. Chegou a trabalhar como assistente de Sir Bobby Robson no Ipswich Town, antes de se mudar para a Suécia em 1974. E passou a ser considerado um revolucionário no futebol local, ao lado de Roy Hodgson. “English Bob” introduziu a marcação por zona no país. Montou uma equipe muito firme na defesa, que pressionava sem a bola e armava contragolpes rápidos, baseados em bolas longas. O sucesso garantiu três títulos do Campeonato Sueco, enquanto a Champions de 1978/79 marcava seu apogeu. Técnico do Austria Viena, Johan Stressi comparou seus algozes com uma “centopéia”, pela forma como se multiplicavam na contenção. Havia um senso coletivo imenso, a um grupo de jogadores que nasceu num raio de 100 quilômetros de Malmö.

Aquela era a base da seleção sueca. Cinco jogadores que foram titulares na decisão em Munique integraram o elenco nacional na Copa do Mundo de 1978, a maioria atuando atrás: o goleiro Jan Möller, o lateral direito Roland Andersson, o lateral esquerdo Ingemar Erlandsson, o zagueiro Magnus Andersson e o volante Staffan Tapper. Além deles, surgiam ainda outros talentos, com menção principal ao meia Robert Prytz, que posteriormente faria carreira na Itália. Uma pena que o Malmö também sofresse com lesões e dois de seus protagonistas tenham sido descartados. Melhor do país em 1977, o zagueiro Roy Andersson permaneceu no estaleiro. Já a ausência mais sentida foi a do meia-atacante Bo Larsson. Aos 35 anos, o veterano tinha três Mundiais no currículo e também já era o maior artilheiro da história do clube. A decisão da Champions seria uma digna despedida à lenda, que deixaria os celestes ao final daquele ano.

Independentemente dos problemas, Nottingham Forest e Malmö experimentavam uma oportunidade histórica. Por isso mesmo, a Alemanha Ocidental se tornou palco de uma verdadeira invasão das torcidas – sobretudo dos ingleses. Cerca de 25 mil pessoas viajaram da Inglaterra, no intuito de empurrar o Forest – incluindo até uma porção que não necessariamente torcia para os alvirrubros. A multidão usou os mais diferentes meios de transporte para se locomover, de aviões a bicicletas, e muitos dormiram até nas ruas da cidade bávara. A maioria nas arquibancadas do Estádio Olímpico seria vermelha. Prestes a viver um momento histórico.

A consagração em Munique

Um dia antes da final, Brian Clough decidiu sua escalação. Trevor Francis, de fato, seria o titular na ponta direita. Ian Bowyer ganharia um voto de confiança pela ótima forma, seja como meio-campista ou como lateral. Restava um lugar para os três que voltavam de lesão. Todos se disseram 100% para o compromisso. Entretanto, a comissão técnica avaliou que Frank Clarke estava em condições melhores para os 90 minutos. A decepção de Martin O’Neill e Archie Gemmill era evidente. Enquanto o norte-irlandês ficou em profundo silêncio, o escocês não quis levar desaforo para casa. Resolveu discutir com Clough após o anúncio, sem esconder o seu ressentimento. Ele havia intensificado as sessões de treinos, após a promessa do comandante de que jogaria se estivesse bem. A relação entre os dois se romperia naquele momento e o meio-campista não voltaria a atuar pelo Forest. A reaproximação aconteceu apenas anos depois, quando o aposentado Gemmill recebeu o convite para trabalhar como assistente do treinador no City Ground.

Realizada a escolha, não se negava a força daquele Nottingham Forest: Shilton, Anderson, Lloyd, Burns, Clarke; Francis, McGovern, Bowyer, Robertson; Birtles, Woodcock. A tensão pela briga entre Gemmill e Clough, misturada ao próprio nervosismo da final, deixou o ônibus mais quieto no caminho ao Estádio Olímpico. O gelo só se quebrou quando, do lado de fora, um alemão que fazia gestos obscenos aos ingleses não viu um poste à sua frente e se esborrachou. Foi o que retomou a risada, com algumas garrafas de cerveja entornadas pelos atletas, sob incentivo do treinador. O clima quente em Munique tornava a festa nas tribunas mais intensa, com 58,5 mil presentes. Restava só mais um jogo para que a história se cumprisse ao Forest. E que o Malmö tivesse os seus predicados, o destino não parecia cruel o suficiente para tirar a taça das mãos dos alvirrubros naquele momento.

O próprio Bob Houghton admitiu o pessimismo que o Malmö alimentava antes de entrar em campo. Segundo o treinador, seu estilo de jogo não favorecia os celestes diante do Nottingham Forest. “Estávamos rezando para que pudéssemos enfrentar o Colônia. Imaginamos que tínhamos chances contra o time alemão, enquanto o Forest seria mais difícil. Nós não conseguiríamos surpreender um adversário inglês, eles estavam acostumados a lidar com nosso modelo de jogo na liga”, declarou anos depois, ao site da Uefa. Além disso, os mencionados desfalques eram um entrave aos suecos. Segurar o resultado parecia o caminho mais sábio.

Não à toa, a decisão no Estádio Olímpico de Munique é considerada uma das mais entediantes da história da Champions. O Malmö entrou em campo para se defender, fechando os espaços do Nottingham Forest e tentando explorar algum erro. Possuíam uma equipe de grande estatura e muita força física, que bloqueava os espaços. Além do mais, os impedimentos eram constantes para tentar anular o ataque alvirrubro. O time de Brian Clough necessitou de resiliência. Necessitou, essencialmente, de seus principais talentos para garantir o triunfo. John Robertson seria predestinado à decisão. Após brilhar em tantos jogos da segunda e da primeira divisão, após desequilibrar ao longo de toda a campanha na Champions, a final ofereceria a consagração definitiva.

Apesar do domínio do Nottingham Forest, as chances de gol eram raras. Os ingleses esbarravam na muralha defensiva formada pelo Malmö. Pior, um erro de Kenny Burns quase entregou o resultado aos celestes. Por sorte, o atacante Jan-Olov Kinnvall se atrapalhou na hora de finalizar e não conseguiu passar por Shilton. Os alvirrubros deram um chute ou outro, até que a vitória por 1 a 0 fosse delineada nos acréscimos do primeiro tempo. Robertson aprontou das suas pela ponta esquerda. Após o lançamento de Ian Bowyer, o camisa 11 dominou e partiu com o campo aberto. A marcação dobrou à sua frente, logo na entrada da área. Então, o escocês cortou para a linha de fundo e venceu os dois defensores, encontrando a fresta ideal para cruzar de canhota.

A bola que ganhava os ares logo cairia dentro da área. Pedia que alguém a arrematasse. Quatro jogadores do Nottingham Forest se posicionavam naquele momento. E o presente veio justamente a Trevor Francis, o jogador de um milhão de libras. Partindo em velocidade, o camisa 7 passou despercebido por trás da zaga. O cruzamento não foi interceptado pelo goleiro Jan Möller, eleito o melhor jogador sueco de 1979. Um erro que teria seu preço. Francis se esticou todo na pequena área e, mesmo sem ângulo, emendou a cabeçada para dentro. Os alvirrubros colocavam a mão na taça.

“O mundo todo estava vendo aquele jogo. Eu me senti sob muita pressão naquela noite. Sabia que precisava justificar minha escalação atuando num nível acima”, avaliou Francis, ao livro ‘I Believe in Miracles’. “Eu estava a 50 metros do gol quando John pegou a bola. Era minha responsabilidade ir ao segundo pau nesse tipo de jogada. Sabia que precisava correr e entrar na área, porque seria uma chance de gol se ele passasse pelo lateral”. O meia cumpriu o seu papel e fez valer cada nota daqueles £999.999 desembolsados pelo Forest.

O Malmö não demonstrou qualquer poder de reação no segundo tempo. O Nottingham Forest manteve a partida em suas mãos e poderia ter aberto uma vantagem maior. Francis quase retribuiu a gentileza de Robertson. Após disparar pela direita, fez o cruzamento e encontrou o craque desimpedido dentro da área, mas o chute de primeira bateu na trave de Möller. Além da dupla de pontas, primordial ao resultado, outros tantos fizeram exibições maiúsculas. Viv Anderson deu vigor pela direita, enquanto Woodcock incomodou os celestes com sua movimentação. Apesar do empenho, o placar magro era mais que suficiente para colocar o Forest no topo da Europa. De grandioso já bastava o enredo que levara o clube até aquele desfecho. À beira do campo, Clough e Taylor compartilhavam o abraço vitorioso. O sorriso do assistente contrastava com a seriedade do treinador. O sentimento perduraria muito além daquele instante.

Marcas eternas

“Quando sento no meu jardim e fecho meus olhos, continuo vendo aquele momento em Munique, quando John Robertson de repente dominou a bola e fez seu movimento na linha lateral. A premonição, essa estranha sensação de que algo especial está próximo de acontecer, levou Peter Taylor a se enrijecer e a segurar meu braço. Robertson não estava longe da bandeira de escanteio. O Malmö tinha seis ou mais jogadores na área. Trevor Francis se lançou em direção ao segundo pau e Robbo mandou um cruzamento perfeito. ‘Um a zero, me passe a taça da Champions, muito obrigado'”, descreveu Clough, anos depois, em sua autobiografia.

Ao apito final, uma trepidação tomou o Estádio Olímpico de Munique. O êxtase era incontrolável na massa britânica que festejava nas arquibancadas. A comemoração dos jogadores do Nottingham Forest, ainda assim, não era tão efusiva quanto poderia se imaginar. Pareciam não se dar conta da façanha que acabavam de concluir. Era uma epopeia saboreada a cada vitória, por um punhado de futebolistas que pouco antes não tinha grandes perspectivas na segunda divisão. Pareciam mais contidos a pensar em todos os sacrifícios que culminaram na conquista – algo expresso por John McGovern ao receber a taça. O capitão não sorriu. Pegou o troféu com um semblante um tanto quanto tenso. Pensava no pai, que perdeu quando tinha 11 anos de idade e nunca o viu jogando futebol. O topo da Europa, a muitos daqueles atletas, também conferia o momento de observar de cima toda aquela escalada.

De qualquer forma, não demorou para que o Forest tivesse verdadeira noção do que a Champions representava. E ela aconteceu no desembarque dos heróis em East Midlands. Milhares de pessoas se amontoavam desde o aeroporto, querendo ver a taça e agradecer o feito. A cada metro que o ônibus avançava nas ruas de Nottingham, os jogadores avistavam mais e mais gente enlouquecida pela glória. Escalavam placas, semáforos, prédios. Cerca de 250 mil estiveram presentes na celebração, um número absurdo, se levarmos em conta que a cidade não tinha mais que 300 mil habitantes na época. Um mar vermelho e branco se formou. Nottingham era o epicentro da Europa. Também o cenário de um dos maiores contos de fadas do futebol.

Munique, porém, não seria o capítulo final. Aquele Nottingham Forest podia mais. Aquele Nottingham Forest faria mais. Os alvirrubros conquistaram o bicampeonato europeu um ano depois, derrotando o Hamburgo dentro do não menos mítico Estádio Santiago Bernabéu. É um raríssimo caso de clube que possui mais títulos continentais do que nacionais. Quando chegou ao City Ground, Brian Clough prometeu que faria o clube campeão em até dez anos. Com cinco anos e meio, conduziu o que nenhuma outra agremiação na história havia feito. Conduziu o que outra agremiação provavelmente nunca mais fará. A trajetória do Forest é irreproduzível, porque transformou o inimaginável em realidade há 40 anos.