Passar-se-ão anos e anos, séculos e séculos, o lado colorado de Porto Alegre poderá ostentar o título mundial de 2006, mas o lema “Grêmio campeão do mundo: nada pode ser maior” será sempre bradado pelos torcedores tricolores a cada 11 de dezembro para celebrar a primeira vez que um time do Rio Grande do Sul se tornou campeão mundial. E é justo que se diga: naquela partida contra o Hamburgo, no Estádio Nacional de Tóquio, em 1983, o time gremista teve um comandante a capitaneá-lo tecnicamente em campo. Claro, Renato Portaluppi, o Renato Gaúcho – o “Maluco”, como os torcedores daquele tempo o chamavam, barbarizando pela ponta direita desde 1982.

Não que faltassem nomes capazes de aguentar o tranco de uma decisão de Mundial no time da Azenha, que Valdyr Espinosa tão bem comandava. Longe disso. Havia Mazarópi, de tanta tranquilidade no gol, protagonista em muitos momentos cruciais – como esquecer sua defesa num pênalti, no 2 a 1 sobre o América de Cali, num dos triangulares semifinais da Libertadores? Havia os coadjuvantes seríssimos, altamente dedicados – aqui vale a lembrança de Jorge Baidek, na zaga, e de China, como volante.

Havia um nome tão ousado quanto Renato (dentro e fora de campo: não à toa, ambos são amigos até hoje), só que na lateral direita: Paulo Roberto, surgido até antes, já titular no time campeão brasileiro de 1981. Oswaldo, de rapidez e técnica no ataque. Havia até os contratados da vez: gente de experiência comprovada, de muita história para contar e habilidade para mostrar em campo, ainda que não fossem vinculados tão fortemente ao Grêmio – claro, aqui a referência é a Paulo Cezar Caju e a Mário Sérgio.

Havia um símbolo gremista de outros tempos, que vivera a difícil primeira metade dos anos 1970 e os tempos de bonança pós-Gaúcho de 1977: Tarciso, de memória já saudosa. E finalmente, aquele cuja liderança em campo simbolizara a conquista da Libertadores: Hugo de León, já ostentando novamente a barba em Tóquio, após cortá-la como cumprimento de promessa do título sul-americano.

Todos eles, capazes de formar um time desafiador o bastante para o Hamburgo campeão europeu, treinado por Ernst Happel, com Felix Magath como grande destaque técnico, tendo ainda Wolfram Wuttke e o dinamarquês Allan Hansen no ataque, o goleiro Uli Stein (que só não era titular da Alemanha por ter à sua frente Eike Immel e, acima de todos, Harald Schumacher) e a zaga formada pelos vigorosos Holger Hieronymus e Ditmar Jakobs.

Só que, se eram vigorosos, o líbero Jakobs e o zagueiro Hieronymus (que jogava pela esquerda) também eram, digamos, estáticos demais. Sofreriam com um ponta que saracoteasse e jogasse bem por ali. Justamente o caso de Renato. Ele foi o antídoto para um primeiro tempo que transcorreu com os hanseáticos segurando a bola e tentando impedir as tabelas gremistas. Isso durou 38 minutos. Até que o camisa 7, o “Garrincha criado a galeto e polenta” (palavras de Sérgio Xavier Filho), pegou a bola na direita. Chegou à área. Cortou para um lado, Hieronymus foi. Cortou para o outro, Hieronymus foi também. Só que foi mais lento do que Renato, que chutou rasteiro, quase sem ângulo, por baixo de Stein. Bola na rede.

Era uma vantagem admirável. Que durou quase todo o segundo tempo, já que o Grêmio segurou bem as investidas do Hamburgo. Só na bola parada é que o time alemão chegou ao empate, aos 40 minutos da etapa final. Magath lançou a bola para a área, numa cobrança de longe. Jakobs evitou que ela saísse, e de cabeça, escorou para o meio da pequena área. Lá estava Michael Schröder, sozinho, numa das raras falhas defensivas do Grêmio ao longo dos 120 minutos que aquele jogo teve. E ele finalizou para o empate. Mesmo superior em campo, com graúdas atuações de Oswaldo, Mário Sérgio e Renato (como esquecer aquela triangulação, com direito a chaleira de Mário Sérgio?), o Tricolor teria de encarar uma prorrogação.

Em geral, como se sabe, essas são as horas em que os destaques aparecem. Separar homens de meninos, aquilo tudo. Renato já dera mostras de que era topetudo, em outros momentos – numa briga de vestiários, ao ouvir de Paulo Cezar Caju “eu sou PC Caju, sou tricampeão do mundo”, o novato de Guaporé reagiu com um “e eu vou quebrar sua cara”. Mas nos poucos minutos entre o fim dos 90 minutos e o início dos 30 suplementares, é que Renato provou que era homem maduro de verdade, mesmo com apenas 21 anos. Reza a lenda que, para acalmar os colegas, apregoou: “Vem cá, turma: faz de conta que estamos enfrentando o Aimoré”, em referência a um time enfrentado no Campeonato Gaúcho. Citando um verso caro aos tricolores gaúchos: Renato soube o seu nome elevar.

Foi o bastante. O Grêmio recuperou alguma velocidade e efetividade no ataque já nos primeiros minutos da prorrogação. Um lançamento longo, e o mesmo cenário do primeiro gol: Renato frente a frente com Hieronymus. Daquela vez, ele só fez “tchan”, sem o segundo corte. Aguardando a virada para a direita, Hieronymus ficou sem ação. E Renato teve caminho livre para chutar e fazer 2 a 1, aos três minutos do tempo extra.

Era demais para o Hamburgo. A partir de então, o Grêmio é que manteve a bola, seguro de sua vantagem, esperando o apito final do juiz francês Michel Vautrot. A ansiedade subia, conforme Armindo Antônio Ranzolin bradava nos microfones da Rádio Gaúcha, narrando o jogo: “O Grêmio vai ser campeão do mundo! O Rio Grande do Sul e o Brasil vão viver uma madrugada que não terminará antes do sol nascer!”. Vautrot apitou. E a partir dali, a torcida gremista teria sempre uma lembrança para ostentar: Renato, o “homem-gol”, com dois golaços, Grêmio pra sempre campeão mundial, nada pode ser maior, tudo isso que os adeptos sabem.

Renato Portaluppi passara pelo primeiro portal da imortalidade tricolor – como passaria pelo segundo, 34 anos depois, campeão sul-americano como treinador. Correu mundo, deixou amores no Rio de Janeiro, mas agora se sabe: sua querência é e sempre será o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. Só restava a colegas de time seus naquele 11 de dezembro de 1983 reconhecerem, como Mário Sérgio fez em 2005: “Joguei pra cacete, mas o Renato fez dois gols e foi o melhor em campo”.