Por Caio Brandão, advogado e colaborador do Futebol Portenho

Exibida em 2017, a novela global ‘A Força do Querer’ teve um núcleo paraense onde chamava a atenção o personagem de Tonico Pereira. Notório torcedor do Goytacaz, ele interpretava um fã da Tuna Luso no folhetim, em involuntário marketing gratuito, suficiente para alavancar vendas de camisas e adesões de sócios no clube sediado no bairro belenense do Souza. Curioso é que a Tuna foi justamente algoz do próprio Goytacaz, há 35 anos – quando a Águia, ao bater o time de Campos em um jogo dos mais emocionantes, tornou-se a primeira equipe do Pará a ser campeã nacional, pela segunda divisão, glória só repetida no Estado pelo Paysandu e pela equipe feminina do Pinheirense. O próprio Tonico brincou com a situação, que merece ser relembrada juntamente com a outra conquista nacional tunante, talvez ainda mais épica, ambas convertendo vilões em heróis que marcaram o gol decisivo.

Prólogo: um clube “com futebol” e não “de futebol”

Clubes de regatas que passaram a focar no futebol não são incomuns no Brasil, desde a dupla Flamengo e Vasco, passando pelo extinto Tietê e tendo no próprio Pará o Remo como exemplo óbvio. O Moto Club era outro mais dedicado à velocidade, ainda que terrestre, que adotou a bola redonda. Algo mais raro é um time de futebol ter surgido em um clube de música. Esse foi o caso da Tuna, expressão comum no português de Portugal para designar trupes musicais – antes de adotar a cruz emblemática das origens portuguesas, o emblema inserido no seu distintivo chegou até mesmo a ser uma clave de sol.

Fundada em 1903, ela primeiro voltou-se também aos esportes náuticos, ganhando já em 1906 uma regata, vindo a criar apenas em 1915 o seu departamento de futebol. Mas um departamento ainda focado em recreações internas e não inscrito no campeonato estadual; o hino, composto em 1918 por Augusto Meira, ainda buscava nas águas sua inspiração, começando com “enquanto o mar bater nas penedias/e a noite os astros derramar dos céus/de Sagres cantarão as ventanias/de Portugal, os sonhos e troféus” e terminando com “enquanto o amor, alevantando altares/encher de fogo os jovens corações/os céus e as ondas cantarão, dos mares/conosco a pátria que cantou Camões”. O primeiro jogo sério de futebol deu-se em amistoso contra o Remo, já em 12 de novembro de 1931, igualado em 0 a 0 na casa adversária, em duelo anunciado já na época como “batismo de fogo” do futebol tunante pela Folha do Norte.

Exatamente um ano depois, em 12 de novembro de 1932, era lançada a pedra fundamental do campo empreendido pelo cartola Francisco Vasques, que dá nome oficial ao campo popularmente conhecido como Estádio do Souza, embora não se resuma ao estádio: as instalações eram aglutinadas à sede social, a conter ainda quadras de vôlei e basquete. Mas mesmo antes da inauguração (em 1935, trazendo para o Pará os pernambucanos do Santa Cruz) o clube já adentrou no estadual, estreando em 1933 e não tardou muito a conhecer a glória: em 1937, primeiramente, festejou em março a conquista (invicta) do torneio de basquete ainda válido por 1936, o primeiro de sua história – para, em dezembro, sagrar-se, também invicta e pela primeira vez, campeã no futebol. Em 1938, veio o bi. Dentre seus jogadores, o centroavante Pinhegas, que passaria pelo Fluminense.

Novo título veio em 1941, mas o Paysandu dominaria seguidamente a década, concluindo em 1947 um pentacampeonato. Mas dali pelos nove anos seguintes o estadual se revezaria apenas entre Remo e Tuna, campeã em 1948, 1951, 1955 (invicta) e depois em 1958. Entre 1937 e 1958, o trio de ferro dividiu igualitariamente os 21 estaduais disputados, em sete títulos para cada um (não houve edição em 1946, marcada pelas discussões quanto à oficialização do profissionalismo). Os quatro títulos entre 1948 e 1958 tiveram como ícone o driblador meia-direita China, ele próprio filho de português, embora os olhos puxados rendessem o apelido inspirado na Revolução Maoísta.

O ídolo-mor China ao centro, em foto publicada pela Placar em 1977, em cujo Brasileirão o goleiro Edson Cimento seria premiado com a Bola de Prata da revista

Recusando propostas do sul do país, China teria inclusive aplicado a “folha seca” nos campos paraenses antes mesmo do recurso ser patenteado por Didi, sendo mencionado em 1977 na revista Placar como “o jogadorzinho atrevido da Tuna Luso que provocava”. “Uma coisa é certa, craque como China nunca mais pisou no Souza”, concluiu o historiador Ferreira da Costa nos perfis dedicados a ele, tanto no livro Gigantes do Futebol Paraense como no Memorial Cruzmaltino, fonte primal desse prólogo. Na Era China, o clube, para celebrar seus 50 anos, ainda empreendeu para Belém as visitas do Atlético Mineiro recém-campeão do Gelo e do Vasco, em 1953; em 1957, empatou em 1 a 1 com o Cerro Porteño e trouxe nada menos que o Benfica para o Estádio do Souza, caindo honrosamente por 3 a 1; e, em 1959, na condição de campeã estadual de 1958, tornou-se a primeira equipe a representar o Pará na nascente Taça Brasil – já data daí o pioneirismo paraense nacional da Tuna, clube do Pará mais vencedor no século XX a nível brasileiro.

No primeiro Brasileirão, China e colegas eliminaram o Ferroviário, campeão maranhense, e estiveram perto da final da etapa Norte-Nordeste contra o futuro campeão Bahia: trouxeram da Ilha do Retiro um 1 a 1 com o Sport, mas os recifenses triunfaram no Souza por 3 a 1 – dentre os vencedores, o lateral-direito Zé Maria, presente no título tunante de 1951 e que naquele ano representaria a seleção brasileira na Copa América. China pendurou as chuteiras em 1961 e em 1964 o clube sofreu a morte do cartola Francisco Vasques. Ele ainda viveu para a criação do departamento de natação em 1963, a contar com inauguração de piscina olímpica que já em 1964 recebia a segunda edição dos Jogos Luso-Brasileiros. Afinal, a piscina era a maior em volume de água no Brasil, com estação de tratamento com capacidade para abastecer uma cidade de 400 mil habitantes.

Sem China, o futebol minguou, ainda que no fim dos anos 60 revelasse Manoel Maria (convocado ainda como tunante à seleção olímpica do Brasil em 1968, ao lado de um certo defensor do Bonsucesso chamado José Dutra dos Santos) e Haroldo Nepomuceno para o Santos de Pelé: no Estadual, só viriam desde então títulos em 1970, 1983 e 1988. Nada que tirasse muito do sério os dirigentes, satisfeitos com a força do futebol de salão, campeão em série em 1967, 1969, 1971, hexa de 1973-78 e ainda em 1980 e 1982; e, sobretudo, com a natação dona de treze títulos seguidos no Pará naquele período, que viu em Geraldo Santos o recordista sul-americano dos infantis em 1971. Domingos Ferreira, cujos 50 anos de dedicação a esse departamento no Remo foram celebrados em 2018, declarou que sua maior alegria nesse esporte entre as quase 300 medalhas estaduais, nacionais e internacionais foi a ocasião em que essa série tunante foi enfim desbancada.

Festa pela 10ª conquista seguida na natação. Seriam treze seguidas. Registro de A Província

Assim, ciente da incapacidade em competir em popularidade com Remo e Paysandu, a Tuna propositalmente recusava-se a participar do Brasileirão, temendo prejuízos financeiros. Em setembro de 1976, chegou a ser notícia na Placar o pensamento “se a Tuna não entra no Brasileiro, melhor para a Tuna” corrente entre cartolas, noticiando-se que “a Tuna é o clube de maior patrimônio do Pará e o que mais se tem destacado na prática de esportes amadores. Por isso mesmo, há uma forte corrente de associados que é até favorável à extinção do departamento de futebol profissional. E mesmo os adeptos de futebol se dividem, a maioria achando que não é justo sacrificar o patrimônio do clube na aventura do Brasileiro” e que “a maioria dos torcedores do Remo e do Paysandu não é associada de seus clubes – todos preferem ter carteirinha da Tuna, que oferece muito mais em termos sociais e de esportes amadores. Mesmo o mais fanático torcedor de Remo ou Paysandu vibra é com a Tuna quando se trata de basquete ou vôlei”. Até a piscina, luxo inclusive aos mais ricos na época, servia de atrativo aos associados tunantes.

Por quase todos os anos 70, os cartolas lusos se contentaram em emprestar jogadores à dupla Re-Pa para o Brasileirão, e o grande exemplo foi o goleiro Edson Cimento, emprestado ao Paysandu na edição de 1974 e ao Remo para as de 1977 e 1978, sendo premiado como remista com a Bola de Prata da Placar. Em 1979, ele seguiria no Brasileirão, mas agora pela enfim estreante Tuna Luso, a adentrar junto com a dupla Re-Pa na edição mais inchada que o certame já teve. No estadual, a Lusa teve de se resignar com o terceiro lugar, longe de competir com a dupla embalada pelo duelo artilheiro entre Dadá Maravilha e Bira, logo contratado pelo próprio Inter campeão invicto daquele Brasileirão.

Outros membros daquela Tuna eram o zagueiro Fernando Oliveira, o volante Jorginho, o ponta Puma e o atacante Luís Carlos. Após passar pelo Fluminense, Edson Cimento já estava no Náutico em 1985, mas os demais seguiam na Tuna – no caso de Fernando, como supervisor técnico. Nesse período, levantaram o estadual de 1983 e assim a Tuna disputou pela segunda vez a divisão máxima do Brasileirão, em 1984.

Invicta nos quatro primeiros jogos, arrancando empates com Vasco e São Paulo, a Lusa acordou na quinta rodada: levou de 9 a 0 do Vasco em São Januário, despedindo-se do certame em 2 de março. Em paralelo, o Remo avançava à final da segunda divisão. Dadinho, seu maior artilheiro, foi também o goleador do certame. Era o suficiente para garantir o Leão na elite em 1985, mas não o bastante para contentar a torcida contra o vice-campeonato diante do Uberlândia, em conta que caiu nos ombros do treinador – aquele José Dutra dos Santos da seleção brasileira olímpica de 1968, que brilhara na zaga remista ao longo dos anos 70. Ao fim de 1984, a Tuna ainda chegou perto do bi estadual, levantando o primeiro turno, mas caindo na finalíssima com o Paysandu. Para participar da Taça de Prata de 1985, porém, as lembranças convertidas em lições ainda rememoravam os 9 a 0 diante do Vasco e a saída pelos fundos de Dutra, o novo treinador cruzmaltino. Ele é o 14º homem em pé da esquerda para a direita na imagem que abre a matéria.

Comecemos, enfim, essa história.

A Taça de Prata de 1985

Bira, Ondino, Ronaldo, Ocimar, Mário Vigia e Quaresma; Puma, Edson, Queiroz, Luís Carlos e Tiago. Do facebook de Ondino

Ao todo, 24 clubes disputaram a Taça de Prata, como era chamada a segunda divisão, iniciada em três fases de mata-matas que definiriam três sobreviventes. Estes lutariam em triangular de turno e returno pelas duas vagas do acesso em jogo para a primeira divisão de 1986, bem como pelo título. Dos titulares vices em dezembro de 1984 no estadual, meio time foi alterado: o goleiro Mário Fernando não renovou e rumou ao próprio Paysandu, para jogar na elite, e seu outrora reserva, Ocimar, virou titular. Ronaldo passou à reserva, preterido na quarta zaga por Paulo Guilherme, que estava emprestado ao Botafogo. Ondino, também devolvido pelo Botafogo, assumiu a cabeça-de-área, suprindo a ausência de Samuel, outro a não renovar. No comando do ataque, Miltão deixou a vaga para Mariolino, reserva durante dois anos.

Com isso, Ocimar, Quaresma, Bira, Paulo Guilherme e Mário Vigia; Ondino, Queiroz e Jorginho; Tiago, Mariolino e Luís Carlos foi o time que em 2 de fevereiro estreou contra o Moto Club, treinado por Ary Grecco, técnico tunante tanto no título estadual de 1983 quanto nos 9 a 0 sofridos contra o Vasco. O jornal A Província, assim, noticiava que todos eram cobrados por uma vitória mesmo fora de casa, incentivados por um bicho de 150 mil cruzeiros a cada um até em caso de empate – embora a manchete fosse a visita de Tancredo Neves a Ronald Reagan, que aplaudia a redemocratização do Brasil, bem como o sumiço de semanas do líder soviético Konstantin Chernenko.

Ficou-se no 0 a 0. A despeito do ponta Tiago ter perdido um pênalti, cobrando-o sobre o goleiro maranhense, o desempenho paraense foi noticiado como bom fisicamente, embora ainda devesse na técnica – Dutra exaltou que “a Tuna me surpreendeu no Maranhão. O time jogou um futebol acima do que eu previa. Correu bem, mas tem que melhorar tecnicamente. Na escala de um a dez, eu considero que o nível técnico do time ainda está em quatro. Mas a tendência é melhorar”. O treinador também elogiou uma boa atuação de Mariolino, mas, com a regularização de Paulo César (único reforço de um time já estruturado, vindo do Vasco), justificou que este passaria de imediato à titularidade por encaixar-se melhor no esquema. Uma semana depois, em 9 de fevereiro, jogou-se a volta, e novo empate encaminharia a disputa diretamente para os pênaltis.

Sem dar margem ao azar diante de 2.454 pagantes no estádio do Remo, após um primeiro tempo equilibrado (sobressaindo-se os goleiros nas conclusões falhas dos atacantes), a Tuna começou o segundo com tudo: aos quatro minutos da segunda etapa, Luís Carlos converteu um pênalti para abrir o placar. Paulo César ampliou, ainda que em impedimento denunciado por A Província, e aos 39 minutos o triunfo se definiu: Mariolino, que acabara de substituir Paulo César (ainda sem a forma física ideal), cabeceou bem uma bola cruzada pela direita para dar números finais aos 3 a 0. Foi, inclusive, o primeiro triunfo do futebol paraense em todas as divisões naquela edição do Brasileirão.

Contra Moto Club e Rio Negro, no Baenão. Fotos de A Província

Em uma época sem calendário pré-definido, o time não sabia ainda quando voltaria a jogar, chegando a irritar-se quando a CBF enfim comunicou que os jogos se dariam somente após o carnaval. Dutra não deu folga aos comandados e aproveitou a parada para intensificar os treinos físicos preparados por Ruy Pacheco, embora o elenco se abalasse pela morte de Maria Izabel, mãe do massagista Braulino e figura materna no plantel, segundo o Diário do Pará. O jogo seguinte deu-se em 23 de fevereiro e terminou em vitória mínima contra o Rio Negro diante de 1.511 pagantes no Baenão: Bira, da defesa, lançou a Paulo César, que serviu a Queiroz – que, recebendo em impedimento, segundo o Diário do Pará, driblou o goleiro Cícero para marcar aos 35 minutos. A baixa foi Jorginho de Castro, que dez minutos antes precisara sair com um estiramento em uma coxa, desfalque que teria impedido placar maior na avaliação da imprensa.

Sentindo o joelho em um treinamento pós-jogo, o zagueiro Bira também foi vetado e a partir dali Ronaldo voltou da reserva para formar um viril miolo de zaga com Paulo Guilherme, mantido mesmo quando Bira, visto como mais técnico, recuperou-se. Dutra criticou a violência amazonense e, embora confiante em nova vitória em Manaus, admitiu que ela poderia escapar, mas não “no grito”. Não escapou. Em 2 de março, Paulo César abriu o placar aos 18 minutos, embora já aos 27 os amazonenses empatassem com Nilson. Aos 41 minutos do segundo tempo, Mariolino assegurou a tranquilidade ao anotar o 2 a 1. O bicho pago ainda no vestiário e a adrenalina amenizaram quem estava com o rosto cheio de esparadrapos, como Paulo César (que sofreu uma cotovelada), ou com a perna cheia de calombos, caso de Queiroz, segundo reportou O Diário do Pará. Luís Carlos atuou com contrato vencido, algo ainda insuficiente para gerar questionamentos na época.

Em 10 de março, foi a vez de enfrentar fora de casa o Fortaleza. Usando o mais defensivo Edgar do que o ofensivo Ondino na cabeça de área, Dutra conseguiu segurar o placar zerado no Presidente Vargas enquanto os jornais do dia 11 anunciavam a morte de Chernenko e sua imediata substituição por Mikhail Gorbachev. No dia 13, a notícia já era o poderio atômico tunante: desorientados, os cearenses abriram a torneira ao sofrerem no primeiro tempo três gols após os 37 minutos. Paulo César, primeiramente, aproveitou escanteio de Tiago para abrir o placar. A mesma jogada se repetiu aos 43 e aos 46, com Tiago cobrando escanteio que resultou em gols de Luís Carlos e Ronaldo, respectivamente. Paulo César completou sua tripleta ao, já no segundo tempo, ampliar aos 17 e aos 22 minutos – ele, de quebra, assumiu a artilharia da competição. Coube ao Leão do Pici somente descontar já aos 40 minutos de jogo, com Toninho Barrote vencendo Ocimar.

Ao fim, 5 a 1 e Tuna no triangular em alto estilo, como única ainda invicta; tendo a melhor defesa, com só dois gols sofridos (que diferença para o 9 a 0!) e o segundo melhor ataque, onze gols – o Figueirense somara um a mais. No sorteio da ordem dos jogos do triangular contra o Figueira e Goytacaz, curiosamente, a Lusa fez-se representar pelo patrono do Bangu, o bicheiro Castor de Andrade. Já era vista como única alegria nacional do futebol paraense, especialmente ao usar basicamente pratas-da-casa, enquanto a dupla Re-Pa, com veteranos renomados, não empolgava na elite (com Zanata de técnico, Chico Spina no ataque e Rondinelli por onze dias e dois jogos na defesa, o Papão chegaria a perder em casa do Ceará de virada, com direito a gol contra do antigo “Deus da raça” flamenguista).

Capa do Diário do Pará após o 5-1 no Fortaleza. Com pouca torcida, a Tuna ainda não atraía maior destaque

Para a pompa do triangular final, a CBF impôs que a Tuna passasse a usar o Mangueirão, cujo gramado já estava recuperado do show que o Menudo fez no fim de fevereiro em Belém – o estrago feito pelos (ou pelas?) fãs fora tamanho que o Baenão vinha se sobrecarregando. Em 19 de março, pouco menos de apenas 4 mil pagantes viram a estreia contra o Figueirense, e em noite de pouca renda a equipe da casa conseguiu um triunfo que valeu muito. Contra um adversário retrancado, onde só o centroavante Bagrão foi alinhado ofensivamente (ironicamente, em duelo vendido como tira-teima entre o time do melhor ataque do campeonato contra o da melhor defesa), o jogo foi equilibrado, com os dois goleiros trabalhando bem. Já o ataque da casa parecia confuso, insistindo demais pelo meio sem notar espaços pela direita, na corneta do Diário do Pará.

Direto da cabine de imprensa em função de uma suspensão, Dutra então mexeu duas vezes. Trocou Jorginho, ainda não totalmente recuperado de uma lesão que o tirou por 20 dias, por Nilsinho Leão na armação; e Tiago por Puma na ponta-direita. Foi premiado: aproveitando cruzamento pela esquerda do lateral Mário Vigia (que se livrara de dois alvinegros em bela jogada), Puma, dez minutos após entrar, concluiu bem para anotar aos 20 minutos do segundo tempo o único gol da noite – por mais que os visitantes partissem para o abafa, mas desordenados e bem repelidos por Ocimar. Triunfo que rendeu bicho de 200 mil cruzeiros a cada jogador, sob promessa de 250 mil em caso de novo triunfo no jogo seguinte. Ocimar estava especialmente empolgado, se vendo à mercê de faturar 300 mil cruzeiros de bicho em contraste à luta que era ganhar 10 mil no ano anterior.

Incentivo certeiro. Em 24 de março, a Tuna soube vencer fora de casa o Goytacaz por 1 a 0. “Não é fácil, nem para os grandes clubes do Rio de Janeiro, derrotar o Goytacaz aqui em Campos. A Tuna está conseguindo algo extraordinário”, declarou um comentarista esportivo de Campos não identificado à Rádio Marajoara, no registro feito por A Província, enquanto o Diário do Pará noticiou a recepção com festa no aeroporto em Belém. Dutra, àquela altura sondado pelo Paysandu (que demitira Zanata e cuja postura quase provocou o rompimento de relações entre os dois clubes), avaliava o oponente como melhor que o Figueirense e não escondia a torcida para que vencesse-o no duelo direto que fariam também em Campos, o que significava tirar o Figueira do páreo pelo título e desmotivarem-no para o duelo contra os paraenses em Florianópolis.

Os catarinenses perderam mesmo para o Goytacaz, permitindo que a Tuna pudesse se sagrar campeã por antecipação se vencesse no Orlando Scarpelli. Pela honra e pela briga pela vaga de vice, porém, os alvinegros provocariam a única derrota tunante na campanha, a despeito do bicho de 500 mil prometidos os cruzmaltinos em caso de vitória. Não adiantou contra o cansaço após voo com conexões em Brasília e em São Paulo. Nada deu muito certo: Luís Carlos teria perdido displicentemente um pênalti, enquanto outro teria sido desmarcado pela arbitragem após o bandeirinha acusar impedimento. O terceiro gol sofrido veio em outra infelicidade, onde o arremate desviou em Mário Vigia e enganou Ocimar. Ainda foi preciso aguardar cinco horas de conexão no Rio de Janeiro para voltar.

O início do triangular, contra o Figueirense. Clique para ler ampliado

Mas o anticlímax só durou até ali. Na noite de 4 de abril, doze mil presentes no Mangueirão, compreendendo gente das três principais torcidas do Estado, presenciaram um jogo aceso especialmente no segundo tempo, onde saíram os cinco gols. Que seriam seis se Ronaldo não perdesse um pênalti aos 12, após Luís Carlos, acionado por Paulo César, ter sido derrubado – a cobrança foi em cima do goleiro. Nada que abalasse o espírito de luta e a troca de bola mantida nos instantes seguintes, sem procurar desordenadamente o gol. Postura logo premiada, pois aos 14 Tiago invadiu pela direita e lançou para Paulo César, que pôde dominar e chutou na saída do arqueiro. Acertou a trave, mas Luís Carlos pôde aproveitar o rebote para abrir o placar. Só que outros dois minutos depois, a comemoração esfriou: Gaúcho Lima cobrou com perfeição uma falta e empatou.

Mantendo a serenidade, sobretudo no volante Edgar, elogiado por O Liberal como o melhor em campo nas disputas pelo meio contra o experiente Rubens Galaxe (antigo membro da Máquina Tricolor do Fluminense), a alegria das três torcidas paraenses voltou em cinco minutos. Foi quando, aos 23, Paulo Guilherme dominou no peito um cruzamento e completou para as redes após tirar o goleiro da jogada. O delírio pelo título foi reforçado aos 31, com direito à redenção de Ronaldo, outro bastante elogiado. Após ter perdido um pênalti, pôde marcar o terceiro gol, aproveitando confusão na área em cobrança de escanteio. Aos 33, o suspense voltou, com Souza aproveitando cochilo da zaga cruzmaltina para descontar.

Nada que impedisse o triunfo e as lágrimas do técnico Dutra, ainda que a capa dos jornais destacassem mais a situação crítica da Tancredo Neves. Na falta da taça, só encaminhada pela CBF um mês e meio depois, gerando a percepção de que a entidade estava descrente que o troféu iria ao Pará (a rodada final do triangular seria Goytacaz x Figueirense, realizada dali a três dias), quem foi erguido às lágrimas na volta olímpica foi o comandante tão exaltado pelos jogadores – afastando a pecha de “incapaz”, no registro do Diário do Pará, e “pé frio”, nas menções de A Província e O Liberal, que ainda o atormentavam dos tempos de Remo. O Diário do Pará concluiu o seguinte:

“Por que a Tuna chegou lá? Porque houve humildade, divisão de tarefas. Se alguns dirigentes se esconderam nos seus escritórios quando conheceram o gosto amargo de ter que meter mais de uma vez a mão nos bolsos a troca da satisfação de servir o clube, todos já esqueceram que muitos deles emergiram no túnel depois de memorável conquista, e deram até volta olímpica. Graças à Tuna, o Pará é campeão brasileiro. Mas graças, sim, ao trabalho quase anônimo de gente do caráter e da formação de Reinaldo Barros, Francisco Pacheco, Walter Abel, Manoel Fonseca, César Mattar, Raimundinho Fidalgo, Raimundo Mendes, Thompson Motta, Eduardo Boulhosa, Alberto Gonçalves, Valdomiro Gomes e a disposição aguerrida de atletas na acepção do termo, como Ocimar, Nunes, Quaresma, Ronaldo, Bira, Mário, Paulo Guilherme, Ondino, Jorginho de Castro, Edgar, Queiroz, Tiago, Puma, Paulo César, Mariolino, Jorginho Macapá, Nilsinho Leão, Riba, Edson Júnior, Luís Carlos e Roberto Galote, que em primeiro lugar sempre souberam respeitar a imprensa e, em segundo, tiveram a fibra e a coragem de disputar uma competição onde, se existe um vencedor, é o futebol paraense. A arma usada foi a humildade, com dignidade e muito respeito”.

O Liberal retratando a conquista de 1985 e os jogadores dela relembrados por A Província em 1992 com o troféu tardio, às vésperas do bicampeonato nacional. Clique para ler ampliado

Segunda Divisão de 1992

Não, o leitor não leu errado. Se a segundona de 1985 foi denominada de Taça de Prata, a terceirona de 1992 era a Segunda Divisão… pois a segundona, embora não se chamasse Série A-2, era denominada de Intermediária inclusive popularmente. Sem fazer um bom papel na elite em 1986 (a segunda e última a contar com os três grandes paraenses juntos), o clube foi colocado diretamente na virtual terceira divisão do controverso Brasileirão de 1987, caindo para o Paysandu no último mata-mata prévio ao triangular final. O troco veio em 1988, ao faturar sobre o Papão o último título estadual cruzmaltino, embora essa conquista seguisse sob disputa nos tribunais e só fosse definitivamente ratificada exatamente em 1992.

Ainda sem haver critérios técnicos efetivados, a Tuna disputou o equivalente à Série B em 1989 e 1991 (não participou de nada em 1990), onde foi 21ª geral entre 64 times. Seria o suficiente para ela figurar na Série B de 1992, que abarcaria os 22 primeiros da edição de 1991 além dos rebaixados da elite e times convidados. Mas a Lusa, embora vice-campeã paraense em 1991, terminou realocada na terceirona mesmo. Seu forte estava no time juvenil, que vinha de um tricampeonato estadual seguido na categoria, estrelado pelo futuro messias santista Giovanni.

Dos campeões de 1985, seguiam na nau cruzmaltina o lateral Mário Vigia e o volante Ondino, além de Fernando Oliveira (o descobridor de Giovanni) como supervisor na maior parte da campanha e técnico interino na final. Das figuras novas, destaque especial ao barrigudinho mas veloz Ageu “Sabiá”, maior artilheiro do futebol paraense na soma de gols em todas as divisões – o que incluiria uma briga pela artilharia da Série A de 1993 para a versão noventista de Walter. Dutra não foi por cerca de um semestre outro remanescente de 1985. Desde o segundo turno do estadual de 1991, sua prancheta foi repassada a Nélio Pereira.

A terceirona de 1992 deveria ter 25 clubes, com um representante indicado por federação. Depois, a CBF falou em 36 e por fim em 42, mas falou também que não bancaria viagens e hospedagens, motivando debandada de times que incluíram o Figueirense, o America-RJ, o América-RN e o Vila Nova e das federações do Mato Grosso do Sul e do Rio Grande do Sul. O torneio quase foi cancelado, mas acertou-se a participação de 31 times, divididos em sete grupos – três com cinco cada, todos pelo Norte-Nordeste, uma chave nordestina com quatro e outras três do Centro-Sul com quatro cada. Só os líderes avançavam, e o primeiro lugar na chave também já bastaria para confirmar o acesso à segundona. Para a Tuna, a saga começou no Souza em 22 de março, em 1 a 0 no Moto Club.

Foi um jogo ruim das duas equipes (com os maranhenses ressaltando dezenove horas de viagem rodoviária), com muitos passes errados e insistência em ligações diretas infrutíferas. Ageu, aproveitando cruzamento de Manelão desde a linha de fundo aos nove minutos do segundo tempo, marcou o único gol visto pelos 652 pagantes; o próprio Manelão teria aberto o marcador ainda aos 20 do primeiro tempo, mas o lance foi anulado por impedimento. A Águia manteve-se na liderança em 29 de março, ao derrotar em casa o Flamengo do Piauí com emoção: só aos 45 minutos do segundo tempo é que a eficiente retranca piauiense (deixando Ageu e Júnior isolados nas pontas) foi vazada. Sanauto cobrou escanteio no primeiro pau, Juninho desviou para a pequena área e o reserva Tarcísio, que substituíra Júnior, completou.

A Tuna não era a única equipe paraense na disputa. A outra era o Izabelense, do município de Santa Izabel do Pará. O “Frangão” tinha consigo antigas figuras tunantes, do goleiro Edson Cimento a dois membros de 1985 – o artilheiro Luís Carlos (goleador no título estadual de 1988 também) e o reserva Jorginho Macapá. A Tuna mandou o duelo caseiro no Baenão em 1º de abril. Sanauto abriu o placar aos 26, convertendo pênalti sofrido por Ageu contra o goleiro após lançamento de Mário Vigia. Aos 35, o empate: também de pênalti, sofrido por Babo contra Varela e convertido por Tiago. No segundo tempo, com gol de Ageu aos 33, aproveitando confusão na área em escanteio cobrado por Sanauto; e outro de Jaime aos 38, em contra-ataque puxado por Ageu, a Tuna garantiu o triunfo. Vale a curiosidade de que o técnico adversário (Djalma Cavalcante) estreou naquele dia, mas assistindo o jogo nas cabines no primeiro tempo para então descer ao gramado no segundo.

Varela, Mário Vigia, Guilherme, Juninho, Luís Otávio e Altemir; Ageu, Júnior, Ondino, Tarcísio e Dema em 14 de junho de 1992, no facebook de Ondino. Pode-se notar na torcida algumas camisas azulinas e bicolores

Em 5 de abril, em meio a notícias da guerra civil iugoslava e de reiterados golpes de Fujimori no Peru e da Aids alcançando Arthur Ashe e o colorado Gerson, a Tuna aproveitou-se do desempenho ainda pior do Sampaio Corrêa para vencer por 3 a 0 no Souza mesmo sem um jogo coeso. O Liberal registrou que a Bolívia sofria com dois meses de atrasos salariais e presidência vaga, inclusive atrasando o início da partida ao não dispor de caneleiras, àquela altura obrigatórias pela Fifa – os visitantes terminaram usando emprestadas as dos juniores tunantes. O Sampaio facilitou tudo com um gol contra abrindo o placar; no lance, Tarantini desviou para as próprias redes um chute torto de Ageu.

Aos 28, Varela arriscou de longe e Juca Baleia aceitou. Ainda no primeiro tempo, Ageu acertou aos 39 um cabeceio na pequena área em bola cruzada por Mário Vigia. No segundo tempo, os mandantes se contentaram em administrar o placar, na avaliação d’O Diário do Pará. Já O Liberal registrou o desabafo do técnico Nélio Pereira: “Esta vitória é uma resposta àqueles que criticaram a Tuna nas partidas anteriores, quando eu sempre declarei que o time estava se ajustando e só com o tempo os resultados começariam a aparecer”. Era enfim a hora de sair de Belém. Em 8 de abril, a figura tunante no Castelão de São Luís foi o goleiro Altemir, evitando a derrota para o Moto Club com defesas e uma cera punida com o único cartão amarelo do jogo. A vitória poderia ter vindo se uma falta cobrada por Juninho não acertasse somente o travessão.

Mas o empate fora de casa manteve o humor do líder invicto e dono do melhor ataque e defesa – mesmo que ele, na longa volta de ônibus, sofresse com um pneu furado. Os jornais seguintes ao fim de semana de 12 de abril, por sua vez, registraram dias de festa para o trio de ferro paraense. O Paysandu, reestreando o ídolo Edil Highlander (vindo do Vitória), afastou-se da lanterna na Série A ao golear por 3 a 0 o Guarani com três gols do atacante, o último deles recordado pela própria Placar dentre os mais curiosos do Brasileirão, driblando adversários e poças d’água no Mangueirão. O Remo, sobretudo, garantiu o acesso à elite, aproveitando as vagas inchadas da “intermediária” que contava com o Grêmio.

O clube paraense que resmungou foi o Izabelense, derrotado em casa (recusando oferta cruzmaltina para mandar o jogo em Belém e ter mais lucros de renda, insistindo no uso do acanhado Abreuzão) pela líder Tuna. Especialmente porque Edgar errou um pênalti no travessão para o time de Santa Izabel quando o placar ainda estava zerado. Ainda aos 15 minutos, saiu o único gol do duelo caseiro, do cruzmaltino Tarciso. Aos 30 do segundo tempo, Juninho ainda acertou a trave cobrando falta.

Em 16 de abril, novamente a Tuna safou-se de um pênalti, com a torcida do Flamengo vendo Coxinha acertar a trave aos 34 minutos do primeiro tempo no Piauí. No segundo, os visitantes entraram dispostos a ganhar, embora tardassem até os 38 minutos para abrir o placar. Ageu levou pela meia-direita e passou na entrada da área para Jaime ajeitar e acertar um golaço no ângulo esquerdo. Só que na saída de bola tomou-se o empate, com Etevaldo completando com a cabeça um cruzamento pela direita. Ageu ainda desperdiçou boa chance na cara do goleiro aos 44. Mas àquela altura só o Moto Club poderia impedir a vaga da Tuna. Que, na rodada final, enfrentaria justamente o Sampaio Corrêa, podendo apenas empatar, ainda que fora de casa.

Em 19 de abril, os paraenses de fato venceram, com um gol solitário em chute forte do lateral-esquerdo Joãozinho concluindo tabela com Varela aos 21 minutos do primeiro tempo. O Diário do Pará publicou parte do discurso do treinador: “Pretendemos que vocês continuem com o espírito de humildade, pois ainda iremos mais longe”. Até lá, foi preciso aguardar quase um mês de indefinição no Brasileiro, com as atenções voltando-se ao estadual de juniores, onde a Águia almejava o tetracampeonato da categoria. Nesse ínterim, a boa base ergueu no Souza o primeiro turno após um 5 a 1 sobre o Remo – os dois últimos, anotados por Giovanni. E por que indefinição no nacional? É que as datas dos jogos eram agendadas com o desenrolar do torneio, não havendo ainda nem mesmo uma fórmula clara de como os sete clubes sobreviventes concluiriam a disputa.

Como o acesso dos sete líderes (Nacional na outra chave Norte; no Nordeste, o Auto Esporte e Fluminense de Feira; Operário-PR, líder do grupo da Chapecoense; Matsubara, melhor contra o São Bento; Rio Pardo, que avançou com um ponto a mais do que o Atlético-GO) já estava garantido, houve entre eles quem cogitasse abertamente em desistir do prosseguimento, insatisfeitos com uma competição financeiramente deficitária. Ao invés de um heptagonal final ou dois grupos, definiu-se ao fim que o Fluminense de Feira se juntaria ao trio do Centro-Sul em mata-matas para apontar um dos finalistas enquanto os representantes de Amazonas, Pará e Paraíba travariam um triangular pela outra – em tabela que não agradou muito aos paraenses, que, embora donos da melhor campanha, abririam e fechariam fora de casa a série de quatro jogos.

Ageu contra o Flamengo-PI e Ondino contra o Sampaio, em registros do Diário do Pará

A saga não recomeçou exatamente em 10 de maio, dia da visita ao Auto Esporte. Pois, para jogar 90 minutos, 36 horas de viagem “na base do leite, pão e banana” foram necessárias no trajeto rodoviário. Mesmo assim, os visitantes venceram no Almeidão, gol do zagueiro Guilherme, improvisado no lugar do lesionado Joãozinho na lateral-esquerda, aos 17 minutos de jogo. E atuaram melhor nos dois tempos – registrando-se que o placar não foi mais dilatado por conta de duas boas chances perdidas por Ageu. As 64 horas de viagem entre ida e volta convenceram a CBF a adiar em um dia a peleja contra o Nacional, realizada em 14 de maio. Não adiantou muito: no Baenão, os paraenses não saíram do 0 a 0, frustrando os quase mil presentes.

Porém, como o Auto Esporte já havia derrotado o Nacional, uma vitória sobre os paraibanos garantiria a Águia por antecipação na decisão. Mesmo sem jogar bem, o objetivo se cumpriu cedo, com Juninho aproveitando um escanteio para marcar ainda aos quatro minutos o único gol. A comemoração ficou no campo: o Diário do Pará não deixou de registrar a revolta nos vestiários quando os jogadores não encontraram nenhum cartola com a premiação esperada. Para cumprir tabela em Manaus, a Tuna enviou uma delegação reduzida (após ver negado seu pedido de cancelamento da partida, convertida na prática a um amistoso que de luxo não tinha nada, com 20 milhões de cruzeiros em despesas aéreas pagas dos próprios cofres cruzmaltinos), já de olho na final, onde esperava enfrentar o Matsubara, que decidiria em casa contra o Fluminense após perder de apenas 1 a 0 no interior baiano.

Essa expectativa inclusive fez o presidente tunante Genésio Mangini declarar ao Diário do Pará que “não abro mão de apelar ao governador Jader Barbalho, afinal, é um título brasileiro, sua Excelência saberá compreender que vamos ter que desembolsar mais de 50 milhões por um jogo lá fora e o título é nossa meta”. No Vivaldão, Ageu Sabiá decretava uma virada, com gols aos 20 do primeiro tempo e aos 42 do segundo revertendo o placar aberto aos quatro por Edelvan. Mas houve tempo para Dênis reigualar o marcador no último lance. O folclórico Genésio Mangini agora estava contente em saber que o adversário seria o Fluminense, não escondendo sua opinião de que trataria-se de uma equipe inferior não só à dupla Ba-Vi “mas quem sabe até da Catuense”. Os paraenses inclusive voltaram a usar ônibus, em viagem iniciada na quarta-feira com pernoite em hotel de estrada na quinta e chegada na sexta-feira em Feira de Santana, véspera da partida de ida.

Como única equipe invicta, a Lusa teve dois benefícios: jogar a segunda partida em Belém e pelo empate no placar agregado, sem haver peso no gol fora de casa. Na prévia da decisão, a grande notícia paraense capaz de dividir as manchetes nacionais com a abertura da Eco 92, críticas a Instinto Selvagem e as denúncias de Pedro Collor contra o próprio irmão não foi a saga da Tuna e sim as notas policiais sobre o Cacique Paulinho Paiakã, cuja acusação de estupro tinha pano passado até por Sting. Na parte esportiva, a polêmica centrava-se em Dema em meio a notas do São Paulo na final da Libertadores, a contratação de Charles pelo Boca com dinheiro de Maradona ou o banimento da Iugoslávia na Eurocopa.

O registro do título em O Liberal. Clique para ler ampliado

Quem era Dema? Edilson Cardoso Soares era um cabeça de área que sabia armar jogadas e que por isso acreditava ter recebido na base o mesmo apelido dado ao santista premiado com a Bola de Prata da Placar em 1983. Pai desde os 17 anos, situação que o forçou a deixar a maconha, embora essa pecha seguisse acompanhando-o, foi revelado pela Tuna aos 20, em 1987. E viria a ser o último campeão estadual pelo trio, entre a conquista tunante de 1988 e a obtida com o Paysandu em 2000 após passar os anos 90 até pelo futebol francês (Toulon, em 1994) e colecionando taças não só com o Remo, mas também por Ceará e América-RN. Sua carreira longeva atravessou quatro décadas diferentes, ainda participando em 2011 da conquista da terceira divisão cearense com o Uruburetama.

Pois bem: naquele primeiro semestre de 1992, Dema estava emprestado ao Paysandu para a disputa da Série A, com direito a figurinha própria no álbum do Brasileirão. Com o Papão despedindo-se do torneio ao fim de maio, a Águia aproveitou a brecha para reaver seu volante para as duas finais, entabulando um acordo com os bicolores sob o compromisso de concordar em vendê-lo em definitivo no fim de junho. O ciúme dos antigos colegas que roeram o osso antes do filé mignon foi escancarado em notícias dos três jornais – A Província inclusive reportou que ele iria à Bahia de avião, no próprio sábado da partida, mas a regularização junto à CBF não foi efetivada a tempo e ele, mesmo embarcado, não atuou no jogo de ida. Extenuada da viagem e desconcentrada, a Tuna adotou um 4-5-1 isolando apenas Ageu na frente. Ele acertou duas bolas na trave mas não evitou a perda da invencibilidade, derrotada por 2 a 0 no Joia da Princesa.

Nélio Pereira terminou suspenso pelo STJD e o supervisor Fernando Oliveira então foi requisitado para comandar a Tuna à beira do gramado em 14 de junho, ainda que Nélio seguisse orientando os treinos. E os três jornais viriam a registrar que as críticas internas a Dema foram engolidas em seco, com o volante sendo o grande destaque dos treinamentos ao longo da semana que antecedeu o compromisso derradeiro e ganhando a vaga de Sanauto. Receosos da retranca baiana, os jogadores tunantes tentaram levar o jogo ao Mangueirão, cujas dimensões superiores do gramado abririam mais espaços aos paraenses. Mas os próprios cartolas não levaram adiante a pretensão e a partida ocorreu no Baenão, sob apoio de todas as torcidas locais – enquanto o estádio do Souza recebia a o clássico entre Tuna e Paysandu pela penúltima rodada do segundo turno do estadual juvenil.

Os juniores venceram por 3 a 1, com Giovanni abrindo o placar de pênalti e fornecendo a assistência para o segundo, encaminhando o tetra que terminaria adiante garantido. Já o time adulto repetiu o placar, mas em missão das mais complicadas, cheia de reviravoltas nos primeiros minutos e nos minutos finais testemunhados por Ricardo Teixeira e seis mil pagantes. Dema, no fim das contas, gastou mais tempo posando para a foto do título, pois foi expulso logo aos 12 minutos junto do adversário Zelito após troca de agressões sem bola que foi usada pela arbitragem para anular o gol que Tarcísio marcaria na sequência para a Tuna. A garganta não tardou a desengasgar: aos 15, Guilherme obrigou o goleiro a mandar para escanteio. O zagueiro Juninho avançou para participar da sequência. A bola destinou-se a Ageu, mas Juninho terminou útil para triangular com o atacante, que então fugiu da marcação e completou para as redes. Mas a forte retranca baiana e seu goleiro Eugênio evitaram pelo resto do primeiro tempo o gol a mais ainda necessário para o título paraense. Postura reforçada no segundo tempo, quando a Lusa então começou a cansar-se.

À esquerda, outro registro de O Liberal. À direita, o do Diário do Pará

Fernando Oliveira, orientado desde o alambrado por Nélio Pereira, então trocou o volante Varela pelo atacante Manelão, enquanto o zagueiro Guilherme, descrito como melhor em campo por O Liberal, embora novamente improvisado na lateral-esquerda (Joãozinho estava suspenso pelo terceiro amarelo), foi substituído por Charles após contundir-se – Charles, na verdade, passou a ocupar a lateral-direita, cujo dono da posição, Mário Vigia, passou à esquerda. Embora hábil nas duas laterais, Mário sobrecarregou-se e o Fluminense passou a explorar seus contra-ataques na sua nova lateral. Os visitantes ficaram com nove jogadores em campo após Ieiê ser expulso (ao infantilmente chutar a bola depois de uma paralisação), mas conseguiram empatar já aos 42 do segundo tempo. Seu atacante Ronaldo não foi brecado por Juninho e concluiu na saída de Altemir, convulsionando o banco de reservas baiano enquanto boa parte do público desanimou-se e começou a deixar o Baenão.

Mas então veio a sobrevida: aos 45 minutos, mesmo esgotado, Mário Vigia descolou cruzamento suficiente para Manelão completar e assinalar o 2 a 1 (embora a súmula tenha creditado o gol a Charles). Restavam acréscimos com os quais a arbitragem de Odílio de Mendonça compensaria a cera nordestina. Se cinco minutos hoje são lugar-comum, não eram na época – que dirá então mais. Aos 49, então, a Tuna arrancou um escanteio. Juninho novamente avançou, e, com Ageu preso na marcação, dessa vez o zagueiro completou a jogada ensaiada cobrada por Júnior. Recuperou-se cinematograficamente da falha no gol visitante.

“A gente sempre treina essas jogadas”, frisaria Juninho, descrevendo como sempre se colocava na entrada da área para então impulsionar-se. Foi preciso conter a invasão de campo após o gol, pois a partida ainda teve mais minutos – três, na apuração do Diário do Pará e cinco, na d’O Liberal, que registrou ainda que os cartolas do Fluminense concordaram com os longos acréscimos, mas não com a inclusão de Dema e prometiam usá-la para tentar impugnar o resultado.

Prevaleceu, porém, a epopeia no gramado. O Diário do Pará, que sequer listou Dema na ficha dos campeões, exaltou que “só mesmo a Tuna acreditou nesta competição, ao contrário de muitas equipes que desistiram antes mesmo da Segundona começar, devido à palavra final da Confederação Brasileira de Futebol de não apoiar qualquer equipe. A lusa foi lá, confiou e garantiu mais um título inédito para o futebol paraense, fazendo inclusive a alegria para os torcedores de Clube do Remo e Paysandu”.

Epílogo: um clube quase sem futebol

Em um elenco onde somente o goleiro reserva Mário Fernando não era paraense, a prata-da-casa prometia. No Estadual de 1992, realizado no segundo semestre, Ageu entendeu-se bem com a revelação Giovanni: marcaram respectivamente 22 e 21 gols, embora a final não se livrasse de um Re-Pa e a artilharia, dos 24 gols de Edil Highlander. Mas para o ano seguinte muita coisa mudou. Em crise, o departamento de futebol cruzmaltino esteve a um triz de ser fechado e a Águia preferiu desfalcar-se na Série B de 1993, onde caiu na primeira fase, para ter o dinheiro do empréstimo de um pacotão ao Remo. Ageu, Giovanni, Guilherme e o herói Juninho então participaram pelo Leão da melhor campanha nortista na Série A, apesar do anticlímax com que foi finalizada. Tarcísio era outro tunante no Remo, assim como Dema e o zagueirão Belterra, remanescente da Tuna participante da elite em 1986 e campeã em 1988.

Em 1994 e em 1995, a Lusa caiu na lanterna da segunda fase de grupos da Série B até recobrar alguma força em 1996: após meia década, voltou a ser vice no Estadual, que teve seu artilheiro no cruzmaltino Gauchinho, produto da base que dali a três anos faturaria a artilharia da Libertadores pelo Cerro Porteño; no Brasileirão, o time avançou aos mata-matas com um elenco onde três levantariam pelo Paysandu a Copa dos Campeões de 2002: o zagueiro Sérgio, o volante Sandro Goiano e o atacante Luís Carlos Trindade (Jobson seria outra figura daquele título revelada na Tuna, campeão com Giovanni no título juvenil de 1992 embora já não estivesse no Souza desde 1995), embora a revelação fosse vista em Arinelson – vendido ao Santos enquanto Giovanni já saía-se bem no Barcelona àquela altura. Mantendo a base de 1996, o time foi ainda mais longe na Série B de 1997, com direito a um 4 a 0 no Paysandu no mata-mata que a qualificou para um dos quadrangulares-semifinais, algo que repercutiu até na Folha de S.Paulo.

Giovanni (foto de seu facebook) e Paulo Henrique Ganso já entrevistado pela Globo

A Tuna ainda avançou aos mata-matas da Série B em 1998, mas terminou rebaixada junto do Paysandu em 1999. Na confusa Copa João Havelange, o time do habilidoso meia Vélber (outra figura do Paysandu na Copa dos Campeões de 2002) avançou até a terceira fase de grupos, perdendo por dois pontos para o Malutrom o lugar na final entre os módulos verde e branco. Foi o suficiente para recolocar o Souza na Série B em 2001, onde o time se engraçou com a classificação no primeiro turno, mas despencou no segundo, tendo novamente um algoz no Malutrom – dessa vez, na repescagem contra o rebaixamento. De volta à casa, Dutra foi o treinador do início ao fim da campanha que culminou com o rebaixamento.

Ainda que a Tuna Luso tenha terminado vice-campeão dos estaduais de 2002 e 2003 e dando pinta de que conseguiria o acesso à Série B em 2004, 2006 (quando um jovem David Luiz, então no Vitória, passou mal com o calor no Pará) e 2007, a saída definitiva da segunda divisão parece tê-lo ruído, especialmente após precisar concorrer teoricamente com o Remo por um lugar na nascente Série D. Nem isso aconteceu: rebaixada no próprio estadual em 2008, a equipe tornou-se um ioiô. O campeonato de 2020 foi outro a não vê-la presente na elite paraense.

Virou um clube que nem mesmo consegue promover novas revelações, tendo perdido Paulo Henrique Ganso ainda juvenil para a base do Paysandu. Algo a prejudicar não apenas a si, mas, a prazo maior, o próprio futebol paraense, cada vez mais distante do bom ano de 2003 – onde a histórica Libertadores do Papão ofuscou uma boa campanha do Remo na Série B, abaixo somente da dupla Palmeiras e Botafogo na fase inicial.

Foi essa a linha sugerida por dois campeões 35 anos atrás, Ronaldo e Tiago, em depoimentos gravados respectivamente na ocasião dos 30 anos da Taça de Prata, em 2015, resumindo os problemas de outrora ao apito, sem atrasos salariais. “É muito lamentável a situação em que a Tuna se encontra hoje. É um time que geralmente era a terceira força, realmente, do futebol paraense. Aí não sei como, não sei o descaso ou o problema que aconteceu. A Tuna sempre foi formadora de bons jogadores”, disso Ronaldo. Complementou Tiago: “Tenho uma opinião formada. A Tuna Luso sempre foi um celeiro de craques e também alimentava os dois grandes, a Tuna sempre formou boas equipes e geralmente esses jogadores eram levados tanto para o Remo como para o Paysandu. A Tuna era assim, os jogadores apareciam aqui, outros vinham e pegavam”.

As torcidas irmanadas foram algo em comum em 1985 e 1992