A Serie A de 1988/89 estabeleceu um marco na história do Calcio. O futebol italiano já surfava em seus anos de ouro, trazia craques aos montes para rechear até os clubes mais modestos e também via seus representantes brilharem nas competições continentais. Ainda assim, a grande explosão daquela época gloriosa aconteceu quando a federação bateu o martelo e permitiu que cada elenco da primeira divisão agregasse um terceiro elemento estrangeiro. Há uma certa mística que envolve os célebres trios que se formaram no país. E que se sacramentaram graças aos esquadrões históricos que acumulavam façanhas. Se aquela temporada de 1988/89 marca as conquistas de Milan e Napoli nas copas europeias, não teve quem contestasse a supremacia do Scudetto. Era de uma Internazionale mágica, que bateu recordes e liderou de ponta a ponta.

Era comum que os clubes confiassem em uma mesma nacionalidade para preencher as vagas a estrangeiros. Aos nerazzurri, os olhares se voltavam à Alemanha Ocidental. O primeiro teutônico a desembarcar no San Siro durante aquele período histórico foi Hansi Müller, meio-campista do Stuttgart que defendeu a Inter por duas temporadas. Saiu em 1984, quando acabou substituído por um compatriota. E a contratação de Karl-Heinz Rummenigge se tornou um processo determinante ao fortalecimento dos interistas. O clube, que não conquistava o Scudetto desde 1979/80, deixava clara suas pretensões. Realizava uma das maiores transações da história, ao se reforçar com o ganhador da Bola de Ouro em 1980 e 1981.

Meses antes da contratação de Rummenigge, em março de 1984, a Internazionale tinha sido adquirida por novos donos. O empresário Ernesto Pellegrini comprou o clube e indicava à torcida suas ambições, também com a adição do irlandês Liam Brady. O craque alemão viveria bons momentos com a Inter, principalmente em suas duas primeiras temporadas. Contudo, os problemas físicos limitaram seu rendimento pouco depois dos 30 anos e encerraram sua passagem pelo San Siro em 1986/87. Apesar dos gols que ofereceu aos interistas, a equipe não conseguira superar a terceira colocação na Serie A.

A última temporada de Rummenigge na Internazionale foi transformadora ao clube, por outras razões. A diretoria trouxe um técnico capaz de colocar o time em outro patamar. Giovanni Trapattoni tinha sua história atrelada aos dois grandes rivais. No Milan, conquistou todos os títulos possíveis como jogador. E também empilharia taças na Juventus, como treinador. Todavia, logo depois de conquistar seu sexto Scudetto em dez anos com os bianconeri, o comandante resolveu mudar de ares. Aceitou a proposta dos nerazzurri, tomando as rédeas à beira do campo. Sua missão era uma só: levar os interistas de volta ao topo.

Trapattoni já tinha um elenco muito forte à sua disposição. Não realizou mudanças drásticas em sua primeira temporada, apenas trazendo Daniel Passarella para ocupar a vaga de Liam Brady como segundo estrangeiro. Porém, a Inter só bateu na trave. Terceira na Serie A, sem alcançar o Napoli, cairia nas quartas de final tanto na Copa da Uefa quanto na Copa da Itália. Sem mais Rummenigge para a sua segunda temporada com a Beneamata, Trapattoni realizou uma aposta. Contratou Enzo Scifo, então uma promessa do Anderlecht, que tinha se destacado na Copa de 1986. Também encorpava o ataque com Aldo Serena, seu centroavante na Juve campeã de dois anos antes. Só que mesmo assim o clube decepcionou na Serie A 1987/88. Precisou se contentar com o quinto lugar, longe de competir com Milan e Napoli pela taça.

Os dois anos de seca, incluindo campanhas pouco convincentes nas copas, levaram Trapattoni a ser questionado em seu cargo. O treinador não tinha um bom relacionamento com alguns de seus principais jogadores e a gota d’água aconteceu justamente com Alessandro Altobelli, capitão nerazzurro. Campeão do mundo em 1982 e protagonista em dois Scudetti com a Inter, o artilheiro levou a pior na queda de braço com o comandante. Foi o principal nome da barca que deixou o San Siro, incluindo ainda Daniel Passarella e Enzo Scifo. Ernesto Pellegrini prometia abrir os cofres, também em resposta ao renascimento que o Milan vivia com Arrigo Sacchi.

Trapattoni manteve o seu emprego. E seria um verão bastante movimentado no lado azul de Milão. Em junho, os interistas se viram obrigados a renunciar seu maior alvo para substituir Altobelli. Rabah Madjer tinha construído sua fama no Porto campeão europeu em 1987 e chegou a passar rapidamente pelo Valencia depois disso. Entretanto, o argelino não foi aprovado pelos exames médicos na Itália. Depois do que ocorrera no último ano de Rummenigge, os interistas resolveram não arriscar. Na mesma época, a imprensa italiana chegou a especular que a Beneamata poderia tirar Gary Lineker do Barcelona. Sua escolha foi menos midiática, mas certeira: o argentino Ramón Díaz.

Revelado pelo River Plate, Díaz deslanchou na seleção sub-20 campeã mundial em 1979 e esteve presente na Copa do Mundo de 1982. Depois da participação na Espanha, o atacante arrumaria as malas e antecederia Diego Maradona no Napoli. Não deu certo no San Paolo, mas ganhou uma segunda chance no Avellino e aproveitou. De lá, rumaria à Fiorentina, onde também se tornou destaque. A rodagem no Calcio valeu a confiança da Internazionale, que acertou seu empréstimo. Se não possuía tanto faro de gol como Madjer ou Lineker, era um segundo atacante que compensava com qualidade técnica e capacidade na chegada mais à frente.

Restavam, de qualquer forma, mais duas vagas a estrangeiros. A Internazionale pensou nos outros setores. E voltou a bater na porta do Bayern de Munique, retomando seus laços com a Alemanha Ocidental. Seria para marcar a história. A confiança se depositava em dois jogadores no auge da forma, que haviam sido vice-campeões do mundo com a seleção em 1986. Andreas Brehme estourara no Kaiserslautern, antes de uma curta passagem pela Baviera. Curta, mas suficiente para disputar final de Champions e conquistar a Bundesliga. Era uma aquisição fantástica, por tudo o que o lateral oferecia em campo. Combinava qualidade técnica e inteligência tática, além de muita capacidade para bater na bola – e com as duas pernas.

Já o craque deste novo momento seria mesmo Lothar Matthäus. Quando o Bayern vendeu Rummenigge à Internazionale, o clube alemão-ocidental pagou suas dívidas e se reconstruiu a partir do meio-campista trazido do Borussia Mönchengladbach. Com a liderança digna de um veterano, o jovem conduziu os bávaros ao tricampeonato da Bundesliga, um feito antes só registrado nos tempos de Franz Beckenbauer. O craque representava o suprassumo do futebol na época: era versátil, dinâmico, preciso, consistente. Tornava-se uma referência no ataque e na defesa, algo possibilitado também por sua enorme resistência física. Vinha para ser o dono do time, recebendo a simbólica camisa 10. E chegava dizendo que, mais do que o dinheiro, sua motivação era “competir contra os melhores”.

O mercado de Pellegrini não se encerraria no trio estrangeiro. A faixa central ganharia dois outros reforços fundamentais, prontos a ganhar a posição no time titular. Alessandro Bianchi tinha apenas 22 anos e vinha após se destacar pelo Cesena. Ofereceria velocidade e equilíbrio no lado direito do meio-campo. Já pela esquerda, quem recebia uma oportunidade era Nicola Berti, outro garoto. Apesar de seus 21 anos, tinha despontado cedo com o Parma e já aparecia como titular da Fiorentina desde 1985. Curiosamente, foi o mais caro dos contratados, após uma intensa disputa de bastidores com Milan e Napoli.

Matthäus, Brehme, Berti, Bianchi e Díaz. A Internazionale apresentou seu novo quinteto como uma credencial para subir na tabela e peitar os principais candidatos ao Scudetto. Foram mais de 19 milhões de liras investidas. Ainda assim, a confiança também se elevava pelo sistema defensivo fortíssimo que Trapattoni ajudara a moldar nos anos anteriores. Vários jogadores de seleção estavam à disposição dos nerazzurri, muitos deles revelados pelas próprias categorias de base. Foi um impulso ao encaixe do timaço.

No gol, Walter Zenga chegava ao auge de sua forma. Cria da base e totalmente identificado com a torcida, assumiu a posição em meados da década. Naquele momento, já tinha se tornado também o titular da Itália. Após esquentar o banco de Giovanni Galli na Copa de 1986, virou o camisa 1 durante o ciclo de preparação à Euro 1988 e não saiu mais da meta. Possuía enorme explosão sob os paus. Era um arqueiro clássico, que gostava de esperar os atacantes e frustrá-los com seus voos. Além disso, o temperamento forte o colocava como uma natural liderança daquele elenco interista.

Logo à frente, outro craque na defesa era Giuseppe Bergomi. Prodígio na conquista do Mundial de 1982, já tinha uma ampla experiência aos 25 anos. Ocupava o lado direito da zaga, primando pela força física. A imposição do defensor complementava sua capacidade técnica na posição, com um senso apurado de antecipação. Era um marcador duríssimo contra qualquer tipo de atacante. Auxiliando no combate, Riccardo Ferri também subiu na base interista e chegou à seleção. Era um stopper incansável e bom no jogo aéreo. Já na sobra, Andrea Mandorlini preenchia a área. Meio-campista convertido em líbero por Trapattoni, se valia de sua saída de jogo para o apoio.

O quarteto defensivo daquela Inter, aliás, gostava de se mandar à frente. Pela esquerda, Brehme avançava bastante e muitas vezes afunilava para a faixa central, aproveitando sua precisão com ambos os pés. Mas Bergomi e Mandorlini também não se continham. O time ainda se valia do dinamismo de Gianfranco Matteoli para orquestrar os avanços. O meia ofensivo virou regista com Trapattoni e foi outro a se dar bem na nova função. Além do mais, vale mencionar o papel de Giuseppe Baresi. Grande bandeira dos nerazzurri, o veterano deixou de ser titular absoluto após 12 temporadas consecutivas. Mesmo assim, manteve a braçadeira de capitão e era muitas vezes utilizado no segundo tempo, em diferentes funções no sistema defensivo. Completou 500 jogos pela agremiação ao final do campeonato.

Enquanto Matteoli aparecia na cabeça de área, Matthäus entrava um pouco mais à frente. O camisa 10 se valia de sua forma excepcional para ser um “todo-campista” à Internazionale. E isso incluía suas aparições constantes na área para finalizar, anotando muitos gols. Com Berti pela esquerda e Bianchi na direita, a dupla de ataque era geralmente composta por Ramón Díaz e Aldo Serena. O argentino vinha mais de trás, com velocidade na aproximação. Já Serena, reserva na Copa de 1986, possuía como virtude sua entrega. Abria espaços e sabia fazer o pivô para os companheiros, muito embora estivesse particularmente inspirado naquela temporada. Suas cabeçadas seriam fatais.

No papel, muito prometia àquela Internazionale. O problema era notar o que os concorrentes também possuíam em seus plantéis. O Milan de Arrigo Sacchi era o atual campeão, com o auge de Ruud Gullit e Marco Van Basten. O trio holandês se tornou completo naquele ano, com a vinda de Frank Rijkaard do Zaragoza. E o restante das lendas italianas já estava lá, incluindo Franco Baresi, Paolo Maldini, Carlo Ancelotti, Alessandro Costacurta e Roberto Donadoni. Tão temível quanto os rossoneri, o Napoli superava uma crise interna, mas sem negar seu potencial. Diego Maradona e Careca se afiavam, agora apoiados por Alemão. Andrea Carnevale, Fernando de Napoli, Ciro Ferrara e Alessandro Renica ampliavam a constelação, apesar da saída do ídolo Bruno Giordano após problemas com o técnico Ottavio Bianchi.

Sem se encontrar desde a aposentadoria de Michel Platini, a Juventus aparecia um degrau abaixo, mas possuía Antonio Cabrini, Michael Laudrup, Aleksandr Zavarov, Rui Barros e o recém-chegado Alessandro Altobelli. Inspirava mais respeito pela dupla comandando do lado de fora, Dino Zoff e Gaetano Scirea. A Sampdoria vinha em crescente sob as ordens de Vujadin Boskov, com a brilhante parceria formada por Gianluca Vialli e Roberto Mancini. Além deles, também apareciam Gianluca Pagliuca, Pietro Vierchowod e Toninho Cerezo.

No terceiro escalão, a Fiorentina de Sven-Goran Eriksson botava muita fé na dupla formada por Roberto Baggio e Stefano Borgonovo, além de possuir Dunga na cabeça de área. Também trouxe Roberto Pruzzo, mas o veterano não rendeu conforme as expectativas. A Atalanta, em anos meteóricos após sair da segundona, tinha Evair e Glenn Peter Strömberg mais à frente. Já a Roma não seria tão feliz, apesar do grupo que enfileirava Fulvio Collovati, Bruno Conti, Giuseppe Giannini, Daniele Massaro e Rudi Völler. Foi naquele ano que Andrade e Renato Gaúcho decepcionaram os torcedores giallorossi, apesar das fichas depositadas.

E se é para falar de medalhão estrangeiro, a longa lista ainda inclui quase todos os outros times da metade inferior da classificação. Walter Casagrande (Ascoli), Stéphane Demol (Bologna), Davor Jozic (Cesena), Rubén Sosa (Lazio), Pedro Pasculli (Lecce), Paul Elliott (Pisa) e Claudio Caniggia (Verona) eram alguns. O Pescara apostou todas as suas fichas em um trio brasileiro, formado por Júnior, Tita e Edmar. Já o Torino contou com Müller e Edu Marangon. Ambos terminaram rebaixados, em uma época da liga em que quatro dos 18 participantes caíam.

Quando a bola rolou, porém, a Internazionale não confirmou sua força de imediato. Aquela foi uma temporada particular da Serie A. Por causa dos Jogos Olímpicos, que desfalcaram diversos clubes, a liga só realizou sua primeira rodada no começo de outubro. Antes disso, aconteceram as primeiras etapas da Copa da Itália, que eram organizadas em grupos. Mesmo sem desfalques por causa da seleção, a Inter não empolgou. Ficou atrás do Ascoli na fase inicial e, na segunda, não conquistou uma vitória sequer. Além dos empates contra Udinese e Lazio, os nerazzurri perderam para a Fiorentina por 4 a 3.

Diante da eliminação, a cobrança sobre a Internazionale já surgia no começo da Serie A. E a tabela deu sua contribuição para que o time entrasse com o pé na porta. Serena comandou os 3 a 1 sobre o Ascoli fora de casa, antes que os alemães brilhassem nos 4 a 1 sobre o Pisa na primeira partida dentro do San Siro. O empate com o Verona desacelerou um pouco na terceira rodada, até que os nerazzurri sublinhassem o seu potencial nos dois compromissos seguintes. Berti e Serena balançaram as redes nos 2 a 0 sobre a Roma em Milão. Também em casa, Berti demonstraria que todo o investimento valeu, garantindo triunfo por 1 a 0 sobre a Sampdoria, com quem os interistas dividiam a liderança até então.

A Internazionale era consistente. Mantinha o controle das partidas, tomava raríssimos gols, via o seu ataque funcionar. A partir da vitória sobre a Samp, abriu uma vantagem de pontos que não mais desperdiçaria. E a sequência de cinco triunfos seguidos foi coroada justamente no dérbi contra o Milan, válido pela nona rodada. Bergomi fez uma digna jogada de ponta e cruzou para Serena determinar o placar de 1 a 0. Do outro lado, Zenga estava intransponível, colecionando defesas para garantir o triunfo. A série positiva se encerrou apenas em outro clássico, uma semana depois, na visita dos turineses a Milão. Serena anotou seu sétimo gol na campanha, mas os bianconeri arrancariam a igualdade em 1 a 1. A bonança na Serie A servia também para apagar a frustração na Copa da Uefa. Após eliminarem IK Brage e Malmö, os interistas sucumbiram ao Bayern de Munique nas oitavas de final. Após o triunfo por 2 a 0 na Alemanha Ocidental, perderam de 3 a 1 em casa, com todos os gols no primeiro tempo. De qualquer maneira, poderiam se concentrar na liga.

Àquela altura, só o Napoli demonstrava ter fôlego para perseguir a Internazionale. Os celestes faziam uma campanha igualmente exemplar. A despeito da derrota para o Lecce, chegaram a enfiar 5 a 3 na Juventus e 4 a 1 no Milan. Apesar do calor no cangote, o time de Trapattoni sustentava a invencibilidade. Derrotou Lecce e Bologna, até a visita ao Estádio San Paolo em meados de janeiro. Os nerazzurri fizeram um trabalho especial na defesa, sobretudo ao dobrarem a marcação sobre Maradona. Apesar disso, não podem reclamar do empate por 0 a 0. Os celestes foram bem mais perigosos. Careca atormentou os zagueiros, Zenga fez duas defesaças, De Napoli carimbou o travessão. Ao final, o resultado manteve a vantagem de três pontos dos interistas – em época que, vale lembrar, a vitória valia dois tentos.

Nas últimas quatro rodadas do primeiro turno, a Inter sofreu seus tropeços fora de casa. Empatou com a Atalanta em Bérgamo por 1 a 1. E, depois de já ter confirmado o título de inverno, os nerazzurri perderam sua invencibilidade. Assim como ocorrera na Coppa, a Fiorentina comemorou o triunfo por 4 a 3. Foi um jogaço. Depois que Matthäus abriu o placar cobrando pênalti, Baggio e Enrico Cucchi viraram à Viola. A Inter retomaria a vantagem menos de cinco minutos depois, com dois gols de Serena. Já ao final, Borgonovo virou o carrasco. Empatou em um desleixo da zaga e fechou a contagem a cinco minutos do fim, roubando um recuo na fogueira a Zenga. Apesar dos lamentos, os milaneses permaneciam um ponto acima do Napoli.

O segundo turno, de qualquer maneira, seria ainda melhor à Internazionale. E não só porque o Napoli começou a ficar menor no retrovisor, com muitos pontos desperdiçados fora de casa. A equipe de Trapattoni atingiu o seu ápice com uma série impressionante de vitórias. Depois da derrota em Florença, os nerazzurri responderam com oito triunfos consecutivos, quatro deles anotando pelo menos três gols. Só foram desacelerar nos reencontros com Milan e Juventus, acumulando dois empates. Independentemente disso, a esta altura, faltando sete rodadas, a distância em relação aos napolitanos era de seis pontos – além de 11 sobre os milanistas, na terceira colocação.

O moral da Inter chegou lá no alto após os 2 a 0 sobre o Lecce e, principalmente, os 6 a 0 fora de casa em cima do Bologna. Serena estava particularmente inspirado naquela tarde, ao assinalar dois gols e servir duas assistências. Além do mais, os nerazzurri apresentaram uma fluidez impressionante no ataque, seja pela precisão dos lançamentos longos, seja pela movimentação oferecida também por Ramón Díaz. Os resultados recentes, combinados com o empate do Napoli contra a Roma, criaram uma final para o 28 de maio. Dentro do San Siro, os interistas poderiam confirmar o Scudetto justamente no confronto direto com os celestes. Seria a coroação perfeita a uma campanha tão impressionante.

Pois a aquela Internazionale fantástica não deixou a oportunidade passar. O Napoli já tinha sido campeão da Copa da Uefa, duas semanas antes, e tentava um milagre pelo Scudetto. Tornou-se coadjuvante da festa que tomou Milão. Os celestes tentaram estragar a tarde dos nerazzurri. No final do primeiro tempo, Careca acertou um chute espetacular de fora da área e venceu Zenga, abrindo o placar. O empate saiu no início segundo tempo. Ramón Díaz cruzou da esquerda e o arremate de Berti desviou no pé de Luca Fusi, encobrindo o goleiro Giuliano Giuliani. Careca até poderia ter marcado o segundo, esbarrando na trave. Mas aquele era um dia interista. Algo comprovado pelo gol que decretou a vitória por 2 a 1. Aos 38 do segundo tempo, Matthäus cobrou uma falta rasante e mandou no cantinho da meta adversária. O craque e o título.

Antes que o apito soasse, uma multidão já se amontoava na beira do campo. Aguardavam a confirmação do novo campeão. Pela primeira vez em nove anos, a Internazionale faturava o Scudetto, o 13° de sua história. E seria mesmo um momento para recordar. Apesar de outros títulos em copas, os nerazzurri só voltaram a erguer a taça na Serie A em 2007, quando a façanha de Trapattoni completava sua maioridade. A uma geração de interistas, a campanha de 1988/89 foi o maior símbolo da grandeza do clube.

Com o Scudetto consumado, a Internazionale não tirou o pé do acelerador durante as quatro rodadas finais. Sabia que poderia registrar algumas marcas históricas. A mentalidade valeu mais três triunfos, derrotados apenas pelo Torino, que tentava escapar do rebaixamento. Já no compromisso final, os nerazzurri se vingaram da Fiorentina, enfim. Díaz e Bianchi assinalaram os gols na vitória por 2 a 0, que encerrou a caminhada.

A Inter somou 58 pontos, 11 a mais que o Napoli, vice-campeão. É a maior pontuação da Serie A com dois tentos por vitória e 18 participantes, rendendo um assombroso aproveitamento 85%. Derrotado apenas duas vezes, o time de Trapattoni teve o melhor ataque (67 gols anotados) e também a melhor defesa (19 gols sofridos). Aldo Serena terminou como artilheiro, balançando as redes 22 vezes no total. Já o prestigiado troféu Guerin d’Oro, entregue pela revista Guerin Sportivo ao melhor da competição, ficou com o lateral Andreas Brehme.

O Milan conquistara a Champions naquela temporada, enquanto o Napoli havia faturado a Copa da Uefa. Mesmo assim, o feito da Internazionale não poderia ser considerado algo menor. Foi a campanha mais dominante da Era de Ouro do Calcio, com um aproveitamento que não se via desde o Grande Torino e que só se repetiu na hegemonias da própria Inter e da Juventus neste século – quando a Serie A nem de longe se aproximava da competitividade. O esquadrão de Trapattoni, sem dúvidas, entrou para história como um dos maiores do país.

A Internazionale ficou mais forte rumo à temporada 1989/90. Ao final do empréstimo de Ramón Díaz, o clube optou por completar o seu trio alemão-ocidental e investiu na contratação de Jürgen Klinsmann, arrebentando com a camisa do Stuttgart. Os nerazzurri não conseguiriam o bicampeonato da Serie A, permitindo que o Napoli se distanciasse na reta final, e cairiam diante do Malmö na primeira fase da Champions. Em compensação, a Alemanha Ocidental se valeria do entrosamento dos interistas e conquistaria a Copa do Mundo na Itália, com o trio despontando entre os melhores do torneio. Já em 1990/91, a grande história daquele timaço se ampliaria com o triunfo na Copa da Uefa, derrotando a Roma na final. Foi o capítulo final antes da saída de Trapattoni para a Juventus e, diante de uma conturbada temporada em 1991/92, do desmanche do trio alemão. A epopeia, de qualquer forma, já estava estabelecida. E os ares lendários dimensionam a importância desta Inter suprema.