Quando se fala na seleção da Iugoslávia esfacelada pela guerra, o pensamento não deve se limitar apenas aos jovens que mal jogaram pela equipe unificada e depois fariam sucesso em seus países independentes. Completos, os iugoslavos contariam com um verdadeiro timaço composto por Dejan Savicevic, Davor Suker, Predrag Mijatovic, Darko Pancev, Sinisa Mihajlovic, Robert Prosinecki, Zvonimir Boban e ainda outros. Cabe lembrar, porém, que a estrela da companhia teve uma Copa do Mundo para atuar já em alto nível pelo país antes da desintegração. Dragan Stojkovic vestia a camisa 10 iugoslava no Mundial de 1990 e gastou a bola na Itália. Era o mais habilidoso entre tantos talentos balcânicos.

Stojkovic chegou à Copa pouco depois de completar 25 anos. A idade, de qualquer maneira, escondia sua ampla experiência. O meia disputara a Eurocopa de 1984 com a Iugoslávia, bem como duas edições dos Jogos Olímpicos – levando o bronze em Los Angeles. Mais do que isso, era o capitão do Estrela Vermelha que chacoalhava a Europa e peitava os grandes clubes. Nos anos anteriores, os alvirrubros já tinham vencido partidas contra Real Madrid e Benfica nos torneios continentais, além de quase eliminarem o Milan de Arrigo Sacchi e do trio holandês na Champions de 1988/89 – que acabaria faturada pelos rossoneri. Piksi, como era chamado carinhosamente o camisa 10, inspirava enorme respeito.

A Iugoslávia se classificou à Copa do Mundo com uma campanha invicta nas Eliminatórias. Terminou na primeira colocação de um grupo bastante cascudo, em que a Escócia também avançou, mas França e Noruega ficaram pelo caminho. Stojkovic acabou com os Bleus no duelo em Belgrado e anotou o gol da vitória por 3 a 2, que se tornaria decisiva no decorrer do qualificatório. Desembarcou na Itália como talento a se prestar atenção, num elenco que trazia veteranos como Safet Susic e Zlatko Vujovic, mas que também se enchia dos jovens que conquistaram o Mundial Sub-20 de 1987 – a tal geração de Suker, Prosinecki e companhia.

Stojkovic não se salvou na estreia, com a goleada por 4 a 1 aplicada pela Alemanha Ocidental. Não teve vez no confronto direto com Lothar Matthäus na faixa central. Recuperou-se na partida seguinte, quando suas combinações com Susic no meio-campo se tornaram um problema à Colômbia e possibilitaram a vitória por 1 a 0. Já a classificação seria confirmada com o passeio por 4 a 1 sobre os Emirados Árabes Unidos, no qual o camisa 10 não balançou as redes, mas orquestrou o time com sua visão de jogo fantástica e os passes precisos. Até que, nas oitavas de final, a Espanha representasse um desafio maior aos iugoslavos.

Em 26 de junho de 1990, Stojkovic protagonizou uma grande atuação individual. Se aquele Mundial é tão criticado por seu futebol, a tarde de gala do maestro em Verona merece ser citada como exceção. A Fúria contava com uma equipe respeitável, entre as peças do Real Madrid pentacampeão nacional e outros nomes que comporiam o Dream Team de Cruyff no Barcelona. Emilio Butragueño era o capitão. A Iugoslávia, no entanto, se impôs com a vitória por 2 a 1 na prorrogação. Piksi colecionou mágicas naqueles 120 minutos.

Os dois gols da Iugoslávia foram marcados por Stojkovic. No tempo normal, antes que Julio Salinas empatasse, o camisa 10 recebeu o cruzamento na área para deixar o marcador no chão e definir com extrema calma. Já no tempo extra, o tento da classificação surgiu em uma cobrança de falta belíssima, que passou por fora da barreira e não permitiu que Andoni Zubizarreta chegasse a tempo. E o meia ainda distribuiu dribles curtos para abrir seus caminhos. Encadeou passes teleguiados, entre a simplicidade e o requinte, daqueles que fazem o futebol parecer fácil.

A campanha da Iugoslávia terminou nas quartas de final da Copa. Os balcânicos pegaram a Argentina e, mesmo com um jogador a menos desde os 30 minutos do primeiro tempo, foram superiores. Todavia, não conseguiram furar a marcação para ir além do 0 a 0 em Florença. Stojkovic muitas vezes se viu isolado e tentava tirar o coelho da cartola. De novo sobrou com sua habilidade, mas sem decidir. A definição ficou para os pênaltis e a felicidade não acompanhou o craque. Numa disputa em que Diego Maradona também desperdiçou sua cobrança, Piksi mandou na trave. Sergio Goycochea defenderia outros dois chutes e se erigiria como herói, garantindo o triunfo albiceleste por 3 a 2.

Eleito para a equipe ideal do Mundial de 1990, Stojkovic deixou o Estrela Vermelha logo depois da competição. Virou reforço de peso do Olympique de Marseille, que contava com um dos elencos mais fortes da Europa. Porém, não se firmou no Vélodrome. Chegou a se encontrar com os antigos companheiros na decisão da Champions de 1990/91, mas saiu do banco apenas no fim da prorrogação e viu o Estrela Vermelha levar a taça nos pênaltis. Também teve uma rápida passagem pelo Verona e só recuperaria seu melhor futebol na ascendente J-League, reinando por sete anos no Nagoya Grampus Eight. Virou um deus por lá.

Stojkovic era também o camisa 10 da Iugoslávia que chegou a viajar para a Suécia em 1992, mas acabou barrada de última hora e não pôde disputar a Eurocopa por causa da guerra. O craque iugoslavo só voltaria aos grandes palcos em 1998, com o país desmanchado, mas capitão do time composto por sérvios e montenegrinos no Mundial da França. Aos 33 anos, disputou todos os jogos como titular e anotou um gol contra a Alemanha, antes da queda para a Holanda nas oitavas de final. Já em 2000, despediu-se da seleção em sua segunda Eurocopa, novamente eliminado pela Oranje nos mata-matas. Foi-se como um grande, com 84 partidas disputadas pela equipe nacional. E com a impressão de que essa história poderia ser maior, não fosse a guerra. Talento não faltava.