Entre os muitos times gloriosos do Milan em sua história, um dos que teve mais sucesso e marcou uma geração ficou conhecido como “Milan dos holandeses”. O time dirigido por Arrigo Sacchi, no final dos anos 1980, primeiro encantou a Itália para depois conquistar a Europa.Duas vezes. Em uma época que a liga italiana só permitia três estrangeiros, os times precisam ser cirúrgicos nas contratações para ter sucesso. Frank Rijkaard, Ruud Gullit e Marco van Basten eram os estrangeiros dos rossoneri e foram cruciais para as conquistas. Há 30 anos, no dia 23 de maio de 1990, o clube de Milão conquistava a sua segunda taça da Copa Europeia seguida.

Os anos 1980 foram bem tumultuados para o Milan. Começou com o time na segunda divisão pelo escândalo Totonero (contamos a história desse escândalo aqui na série especial sobre a Itália), uma punição ao clube no famoso esquema de apostas. Rebaixado pelo escândalo para a temporada 1980/81, o Milan conquistou o título da Serie B e voltaria à Serie A, mas o time não aguentou a primeira divisão e foi imediatamente rebaixado de volta à segunda divisão, desta vez pelo desempenho em campo. Novamente, venceu a Serie B em 1982/83. O clube voltou à primeira divisão, mas a situação financeira era terrível. O time estava à beira da falência e o futuro parecia terrível. A torcida do Milan implorou para Berlusconi comprar o clube.

Em fevereiro de 1986, Berlusconi enfim comprou o Milan. A aquisição seria consumada no dia 24 de março daquele ano, quando ele oficialmente assumiu o controle do clube e foi eleito o 20º presidente da história da instituição. Dias depois de comprar o clube, Berlusconi, já um magnata também de TV, disse: “O Milan é um time, mas também é um produto para vender, algo a oferecer no mercado”. Um discurso moderno para a época e que o dirigente levaria a cabo para além das palavras.

Berlusconi criou uma loja do Milan perto da famosa Duomo di Milano, a Catedral da cidade, uma obra histórica e marcante do estilo de Milão. Não era comum que clubes se preocupassem com lojas com seus produtos nos anos 1980. A cidade da moda tinha um clube que se preocupava com isso, queria o estilo, queria mostrar que ia além de um clube de futebol: era um estilo de vida. O dirigente ainda criou uma revista inteiramente dedicada ao clube, Forza Milan. O clube operava com um espírito empresarial de Berlusconi, que já tinha sucesso e conexões com o alto escalão político e financeiro do país.

Tudo isso fez com que o Milan começasse a gerar mais lucros. O clube conseguiu vender 60 mil carnês de temporada, o que significava muito em uma época que a bilheteria tinha um peso ainda maior do que o atual. Fora de campo o clube tinha se modernizado, mas e dentro? Berlusconi sabia que nada feito fora de campo teria mais efeito do que o time ali dentro das quatro linhas. Tudo precisava ser feito de forma coordenada. Um time moderno que cai para a segunda divisão continuaria sendo um problema.

O Milan de Berlusconi buscava, de fato, um novo estilo. A Juventus era um time clássico do futebol italiano, representando uma ideia (vaga, mas uma ideia) do Catenaccio dos grandes times do país. Berlusconi quis algo novo. O time deveria ser ofensivo e, para isso, ele apostou em algo ousado: Arrigo Sacchi, um ex-vendedor de sapatos que tinha dirigido o Parma na segunda divisão.

O técnico passava ao largo da escola tradicional italiana, de sistemas defensivos sólidos e rigor tático. Sacchi bebia da fonte do Honvéd, da Hungria, o time de Puskás; o Real Madrid dominante na Europa dos anos 1950; a seleção brasileira, encantadora desde os anos 1950 até o brilhantismo frustrado em 1982; e a Holanda, inovadora e genial. Sua carreira ainda não tinha nenhum grande destaque. Treinou o clube local, Bellaria, passou pela base do Cesena, o Rimini e depois foi para a base da Fiorentina.

A oportunidade surgiu em 1985 quando assumiu o Parma, na Serie C1, a terceira divisão. Subiu com o time para a Serie B na primeira temporada e, na segunda divisão, fez uma campanha surpreendente que o fez brigar pelo acesso. Ficou a três pontos de conseguir. Mas o que colocou os holofotes no técnico foi a campanha na Copa da Itália. Venceu o Milan na fase de grupos por 1 a 0 e depois no mata-mata, em um placar agregado de 1 a 0. Chamou a atenção do dono Silvio Berlusconi. Foi o escolhido, naquele ano de 1987, para assumir o Milan, na primeira divisão.

A escolha de Sacchi levou a muitas críticas na imprensa em Milão. O treinador nunca tinha sido um jogador profissional e, por isso, havia questionamentos se ele conseguiria lidar em um ambiente profissional de alto nível. Lembrem que estamos falando da Itália nos anos 1980, o centro futebolístico mundial. Era o maior campeonato nacional do mundo na época. Questionado a respeito dessa falta de experiência como jogador, Sacchi, então com 41 anos, disse uma frase que se tornaria lendária: “Eu não sabia que para ser jóquei era preciso ser cavalo primeiro”.

O técnico, junto com o vice-presidente Adriano Galliani, desenhou o que ele esperava do elenco. O time já tinha no seu elenco Franco Baresi e Roberto Donadoni, além do jovem, mas promissor Paolo Maldini. Foram contratados Ruud Gullit e Marco van Basten para o ataque, além de Carlo Ancelotti, que estava na Roma, para o meio-campo. O seu 4-4-2 fazia o time pressionar alto e usar muita velocidade, sempre pressionando muito o adversário.

Com todos esses elementos, o Milan foi dominante naquela temporada 1987/88 e conquistaria o scudetto pela primeira vez em nove anos. O técnico, porém, não estava satisfeito. Buscou no mercado outro reforço. Outro holandês: Frank Rijkaard somou-se aos dois compatriotas, formando um triunvirato holandês que escreveria seu nome na história dos milanistas.

Em 1989, o clube ficaria em terceiro na Serie A, perdendo o título para a rival Internazionale de Jürgen Klinsmann e Lottar Matthäus, mas conquistaria o título europeu pela primeira vez em 20 anos, com o trio dos holandeses brilhando. Marco van Basten terminou a temporada com 32 gols marcados, dois deles na final da Copa Europeia, junto a outros dois de Gullit, nos 4 a 0 sobre o Steaua Bucareste, campeão em 1986.

A temporada 1989/90 seria histórica na Itália. No âmbito doméstico, o Napoli de Diego Maradona foi um adversário feroz do Milan dos holandeses e acabaria com o scudetto. Na Europa, porém, o Milan é quem conseguiria mais uma conquista. Aliás, aquela foi a temporada mais bem sucedida da história do futebol italiano em termos europeus: a Juventus venceria a Copa da Uefa, enquanto a Sampdoria seria a campeã da Recopa Europeia.

A Copa Europeia, predecessora da Champions League, era no formato de mata-mata. Naquela edição de 1989/90, eram 31 times, que jogavam de forma eliminatória até a final. Na primeira fase eliminatória, o Milan enfrentou o HJK, da Finlândia. Tratou de resolver o duelo já no primeiro jogo, em um 4 a 0 em San Siro, com gols de Giovanni Stroppa, Daniele Massaro (duas vezes) e Alberigo Evani. No jogo de volta, nova vitória milanista por 1 a 0 em Helsinki, gol de Stefano Borgonovo.

O primeiro duelo eliminatório pode não ter assustado, mas o segundo já seria de peso. O adversário seria o Real Madrid, campeão espanhol. No ano anterior, também pela Copa Europeia, os rossoneri tiveram o mesmo adversário na semifinal e já tinham levado a melhor: depois de um empate por 1 a 1 no primeiro jogo no Santiago Bernabéu, trucidaram o time de Sanchíz, Butragueño e Sánchez com um 5 a 0. Desta vez, porém, o jogo de ida foi em San Siro. E os italianos venceram por 2 a 0, gols de Rijkaard e Van Basten, em um pênalti contestado com razão: a falta foi fora da área.

O jogo de volta foi um sufoco para o Milan. Emilio Butragueño fez o gol do Real Madrid, aos 45 minutos do primeiro tempo, depois de uma imensa pressão dos merengues. Jogando na casa do time espanhol, o Milan teve muitos problemas. E a pressão foi grande no segundo tempo. Hugo Sánchez chegou a marcar, de cabeça, mas estava impedido e o gol foi anulado. Hierro e Sanchís abriram a caixa de ferramentas para bater nos milanistas e o segundo acabou expulso, prejudicando a busca pelo gol do time espanhol. À medida que o tempo passou, o Milan ficou melhor no jogo e passou a levar perigo. No fim, foram os italianos que avançaram.

Nas quartas de final, o Milan teve pela frente os belgas do Mechelen. Depois de um 0 a 0 em Bruxelas, os rossoneri sofreram em San Siro: novo empate sem gols no tempo normal e a prorrogação. Foi só no tempo extra que os então campeões conseguiram os gols que deram a classificação, com Van Basten e Marco Simone. A vitória por 2 a 0 selaria a classificação para as semifinais.

Na semifinal, o adversário seria o Bayern de Munique. Mais uma vez, as coisas foram tensas. Em Milão, uma vitória por 1 a 0, gol de pênalti de Van Basten. Na volta, os bávaros devolveram a vitória por 1 a 0, gol de Strunz. Na prorrogação, foi Stefano Borgonovo que marcou o gol que seria o da classificação. Alan Bruce McInally ainda faria outro para os alemães, que venceriam o jogo por 2 a 1, mas perderiam a classificação nos gols fora de casa. Mais uma vez, o Milan estava na final da Champions League.

O adversário era o Benfica, amaldiçoado por Bela Guttmann, último técnico a conquistar o título europeu com o Benfica, em 1962 – o time que desafiou o Santos de Pelé no Mundial de Clubes, mas acabou amassado pelo time da Vila Belmiro. Ao sair do clube, supostamente porque pediu um aumento salarial e não foi atendido, ele amaldiçoou o clube de Lisboa: “Sem mim essa equipe nunca mais ganhará uma final europeia”.

Foi no dia 23 de maio de 1990, no Praterstadion. Curiosamente, Guttmann morreu justamente em Viena, em 1981, quando tinha 82 anos. No fim da vida, orou para que a maldição fosse quebrada, arrependido do peso das suas palavras. Não deu certo. O ídolo Eusébio visitou o túmulo do antigo técnico e chorou, na semana da final.

O Benfica tinha Sven-Goran Eriksson como técnico, Ricardo Gomes como zagueiro, Valdo como meia ofensivo. O Milan de Paolo Maldini, Mauro Tassotti, Alessandro Costacurta, Rijkaard, Evani, Ancelotti, Gullit e Van Basten acabaria vencendo por 1 a 0. Uma grande jogada pelo meio-campo, com Van Basten fazendo o pivô para o meio-campista, que entrou livre por dentro e fez o gol da vitória.

O Milan conquistava o segundo título consecutivo, algo que ninguém tinha conseguido fazer desde o Nottingham Forest, errem 1978/79 e 1979/80. Aliás, ser bicampeão europeu era tão complicado que foram 27 anos, até o Real Madrid que ganhou o título em 2015/16 e 2016/17. Arrigo Sacchi ainda ficaria mais uma temporada no clube, 1990/91, mas o time não ganharia o título, perdendo para a Sampdoria, e seria eliminado pelo Olympique de Marseille, nas quartas de final. Sacchi deixaria o comando do Milan após aquela temporada para assumir a seleção italiana, em 1991. Deixou o Milan, mas entrou para a história.

O time do Milan comemora com o dono, Silvio Berlusconi