O Vasco atravessou o período mais vitorioso de sua história na década de 1990. Conquistou a Libertadores, dois títulos no Brasileirão, um marcante tricampeonato carioca. No entanto, a era dourada dos cruzmaltinos começa antes disso, ainda no final dos anos 1980. A insaciedade dos vascaínos tem o ponto de partida com um bicampeonato estadual e, especialmente, com o título no Campeonato Brasileiro de 1989. Contando com praticamente uma seleção em seu elenco, a aclamada “SeleVasco”, o clube da Colina desfrutou de um de seus maiores esquadrões e encerrou um hiato de 15 anos sem o título nacional.

Seria uma campanha com suas oscilações e seu entraves. O Vasco causou rebuliço no mercado, sobretudo ao tirar Bebeto do Flamengo, e protagonizou uma acirrada corrida com o Palmeiras rumo à decisão. No entanto, a equipe treinada por Nelsinho Rosa acabaria por se provar em campo. A sólida campanha como visitante pavimentou o caminho ao topo, algo ratificado até mesmo na decisão contra o São Paulo, com o troféu arrematado dentro do Morumbi. Foi a consagração de um time inesquecível, que daria suas contribuições à seleção brasileira rumo à Copa de 1990.

O sonho de reconquistar o Brasil

Bicampeão carioca em 1987 e 1988, o Vasco vivia no fim dos anos 80 a ansiedade por voltar a levantar o título nacional após mais de uma década. Depois da inesperada conquista de 1974 – quando a equipe dirigida por Mário Travaglini nem de longe era apontada como favorita, mas se mostraria sólida o bastante para superar times tecnicamente superiores – o clube da Colina havia batido na trave algumas vezes, mesmo contando com esquadrões mais poderosos.

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Entre 1977 e 1979, foram três decepções seguidas: na primeira, mesmo com São Januário recebendo seu histórico recorde de público, o time caiu diante do surpreendente Londrina por 2 a 0 e ficou de fora das semifinais. Na segunda, o clube chegou entre os quatro finalistas, mas foi superado nos dois jogos das semifinais pelo futuro campeão Guarani. E na última, o time subiu um degrau e alcançou a decisão. Mas seria facilmente batido pelo Internacional.

Cinco anos depois, o Vasco chegaria a outra decisão de Brasileiro com um time superofensivo treinado por Edu Antunes Coimbra. Mas nos dois jogos finais, seu ataque passaria em branco diante do pragmático Fluminense de Carlos Alberto Parreira, que ficaria com a taça. A campanha discreta na Copa União de 1987, vinda entre o bi estadual, só reforçava a ideia de que o clube precisava com urgência mostrar sua grandeza além das fronteiras cariocas.

No segundo semestre de 1988, o clube parecia enfim se movimentar nesse sentido, mesmo após perder o artilheiro Romário (negociado com o PSV Eindhoven) e o técnico Sebastião Lazaroni (que saiu para uma curta passagem pelo futebol árabe), ambos logo após o fim do Carioca. Na primeira fase do Brasileiro daquele ano, marcada pelo regulamento que previa decisões nos pênaltis nas partidas que terminassem empatadas, o Vasco sobrou.

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O time agora dirigido pelo ex-meia Zanata venceu seu grupo de 12 equipes em ambos os turnos – no primeiro, três pontos à frente do Grêmio, e no segundo, quatro à frente do Cruzeiro. Ao todo, foram 54 pontos ganhos, oito a mais que o Internacional, segundo colocado geral. Nas 23 partidas, venceu 13 no tempo normal e sete nos pênaltis, com só uma derrota na marca da cal e duas com bola rolando. Um aproveitamento que superava os 78%.

Forte em campo, o clube também firmou sua posição nos bastidores. Na virada do ano, quando o campeonato foi paralisado para voltar no fim de janeiro com a fase de mata-matas, o vice de futebol do clube, Eurico Miranda, assumiu também o cargo de diretor de futebol da CBF, indicado pelo recém-empossado presidente da entidade, Ricardo Teixeira. Com isso, o cartola vascaíno se tornava o homem forte nos torneios nacionais e também na Seleção Brasileira.

Apontado como o time a ser batido naquele Brasileiro, o Vasco viu, porém, seu sonho ruir nas quartas de final diante de um Fluminense que mantinha alguns algozes cruzmaltinos de 1984, como Romerito, Jandir e Washington. No primeiro jogo, os tricolores venceram por 1 a 0, deixando o Vasco na dependência da vitória por mais de um gol de diferença na partida de volta. No caso de triunfo cruzmaltino pela vantagem mínima, haveria prorrogação.

Foi o que aconteceu. O Fluminense abriu o placar na metade do primeiro tempo, mas o Vasco, com um jogador a menos, reagiu e chegou à virada no último minuto do tempo normal. Na prorrogação, esgotado, o time cruzmaltino assistiria aos tricolores balançarem as redes mais duas vezes, passando novamente à frente no placar e vencendo por 3 a 2, resultado que carimbou a passagem do time de Laranjeiras às semifinais da competição.

A ressaca de enormes proporções seguiu pelo primeiro semestre de 1989, com uma campanha pálida no Estadual, quando o time esteve longe de brigar pelo título da Taça Guanabara e acabou eliminado na Taça Rio – e no Carioca – após parar num empate em 2 a 2 dentro de São Januário com o pequeno Nova Cidade, que estreava naquele ano na elite e brigava contra o rebaixamento. O time ainda perdeu um pênalti, num fiasco que evidenciou o ambiente ruim no elenco.

Para piorar, a equipe também decepcionou em sua curta participação na edição inaugural da Copa do Brasil. Depois de sofrer para eliminar o Rio Negro empatando em 1 a 1 em Manaus (num jogo em que tomou o gol adversário com apenas 30 segundos de partida) e vencendo por um apertado 2 a 1 em casa, o time cairia logo nas oitavas de final diante do Vitória com uma derrota em São Januário por 2 a 1 no jogo de volta, após empate sem gols em Salvador.

A vassourada no elenco não poupou nem mesmo Roberto Dinamite, que após 18 anos quase ininterruptos no elenco profissional do clube, seguiu para a capital paulista, onde defenderia a Portuguesa por empréstimo. Grande referência de talento do time, o meia Geovani também deixou São Januário ao receber proposta milionária do Bologna, migrando para o galáctico Calcio. Mas o posto de maior ídolo não ficaria vago por muito tempo.

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Jogador de maior destaque em atividade no futebol brasileiro naquele momento, Bebeto vivia o auge da carreira, mas enfrentava dificuldades para negociar a renovação de seu contrato com o Flamengo. Os dirigentes rubro-negros não aceitavam os valores pedidos pelo craque e duvidavam da afirmação do procurador do jogador, José Moraes, de que outro clube brasileiro estava interessado em tirar o atacante da Gávea.

Moraes já fora contatado pelo presidente vascaíno Antônio Soares Calçada, que manifestara a ele o interesse em ter o jogador caso a renovação com o Flamengo não acontecesse. Por outro lado, Calçada alimentava a ideia de blefe defendida pelos rubro-negros ao afirmar num almoço com Gilberto Cardoso Filho que não haveria qualquer interesse do clube de São Januário pelo jogador. Enquanto isso, Bebeto se juntava à Seleção para a Copa América.

Foi quando entrou em cena outro nome decisivo na transferência: Eurico Miranda, então diretor de futebol da CBF, reuniu-se com o jogador no hotel da delegação brasileira e apresentou ao atacante a proposta de contrato do Vasco, oferecendo o que o atacante pedia e que o Flamengo se recusava a pagar. Certo de que ninguém tinha em caixa o montante para levar o jogador, o Fla fixara o preço do passe de Bebeto na federação carioca.

Quando ficou evidente que a negociação entre Bebeto e o Vasco não só existia como estava muito perto de ser sacramentada, só então os dirigentes rubro-negros procuraram José Moraes para igualar a proposta cruzmaltina. Mas já era tarde. Bebeto já havia inclusive recebido parte do dinheiro do Vasco e comprado uma casa num condomínio na Barra da Tijuca. E declarou que só voltaria atrás se o clube de São Januário desistisse de tudo.

No dia 26 de julho, a transferência era selada. Agora já não importava mais se os dirigentes rubro-negros desvalorizaram o próprio jogador como barganha na renovação; se Gilberto Cardoso Filho deixara-se ludibriar por Calçada; se Eurico aproveitara-se do cargo na CBF para aliciar Bebeto; ou se José Moraes exercera influência sobre o atacante, jogando lenha na fogueira das relações entre ele e o Flamengo, enquanto deixava o Vasco a par de tudo.

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Bebeto agora era do Vasco. Enquanto os rubro-negros viviam um trauma só equiparado à rumorosa venda de Zizinho para o Bangu em março de 1950, os vascaínos saboreavam a contratação do ex-rival, agora pronto para brilhar com a camisa cruzmaltina. Restava contar os dias para a estreia do atacante, engrossando as fileiras de uma SeleVasco cada vez mais forte.

A equipe-base

O time do início do torneio começava com a experiência, a segurança e a calma do goleiro Acácio. Desde 1982 no clube, o camisa 1 revelado pelo Serrano demorou a garantir seu espaço por conta da pesada concorrência com outros nomes que passaram por São Januário em seus primeiros anos. Mas agora, aos 30 anos, era não apenas absoluto no time cruzmaltino como também nome de Seleção Brasileira, ocupando a reserva de Taffarel.

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A lateral direita tinha novo dono, devido a uma verdadeira dança das cadeiras no futebol carioca, num momento em que a posição era farta em bons nomes no país. O Flamengo, que vendera Jorginho ao Bayer Leverkusen, foi buscar seu então reserva na Seleção, Josimar, no Botafogo. O Alvinegro não ficou atrás e tirou Paulo Roberto do Vasco. Para suprir a lacuna, o clube da Colina trouxe o não menos experiente Luís Carlos Winck do Internacional.

Pelo outro lado, não havia com o que se preocupar: o versátil Mazinho era o dono da posição e nome certo na Seleção, além de ter um bom reserva no garoto Cássio, revelação da base e que teria carreira longa em São Januário. Na defesa, o que se temia era a zaga, tida como irregular e um tanto inexperiente. A dupla do setor tinha Célio Silva, revelado pelo Americano no Estadual de 1987, e Marco Aurélio, trazido do America em meados do ano seguinte.

O clube, no entanto, tinha um nome na mira para reforçar o setor. Mas a negociação acabaria culminando em outro caso polêmico que agitou os bastidores do futebol brasileiro naquele ano. Zagueiro sólido, técnico e ótimo cobrador de faltas, André Cruz era nome certo na Seleção mesmo defendendo uma Ponte Preta relegada à segunda divisão do Paulistão. E que por isso, sabia-se, não duraria muito no clube campineiro.

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Vendido em agosto de 1989 ao Como, da Itália, que não poderia inscrevê-lo no Calcio por também ter sido rebaixado, restava ao zagueiro ser emprestado a um clube brasileiro. Vasco e Flamengo apareceram, negociando com partes distintas. Os rubro-negros fecharam negócio pessoalmente com o zagueiro, munido de uma carta do clube italiano. Só que, enquanto isso, os cruzmaltinos haviam acertado um pré-contrato com o pai do jogador, Hélio Cruz.

Acertado, diga-se, sob coação: “Ele ameaçou te cortar da Seleção”, alegou Hélio ao filho por telefone, referindo-se a Eurico Miranda, na época diretor de futebol da CBF. André estava, assim, de contrato assinado com dois clubes, situação irregular que o impedia de ser inscrito por ambas as partes. O caso se arrastaria entre mandados de segurança e liminares, deixando o zagueiro praticamente inativo por todo o segundo semestre de 1989.

Polêmicas à parte, o meio-campo era um dos pontos fortes do time e se completava. Na proteção, havia a técnica de Andrade – o velho ídolo do rival repatriado pelos cruzmaltinos após passagem frustrante pela Roma – e o vigor do folclórico capitão Zé do Carmo, ex-Santa Cruz. Na criação, o dinamismo do meia Marco Antônio Boiadeiro, trazido do Guarani, combinava-se com a categoria do prodígio Bismarck, a revelação de 1988 e já um nome de Seleção.

Boiadeiro, aliás, chegara ao Vasco por acaso, pouco antes do início do torneio. O alvo dos cartolas cruzmaltinos para o setor era o rodado meia Cristóvão, do Grêmio. Porém, o presidente do Bugre, Beto Zini, também cobiçava o jogador e fez uma contraproposta ao Vasco: cederia seu armador, um dos destaques da meia-cancha do clube campineiro desde 1986, caso os cariocas abrissem mão da contratação do jogador gremista. E assim se fez.

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No ataque, com ou sem Bebeto, o técnico Nelsinho preferia dois jogadores de mobilidade, sem a figura do homem de área. Assim, alguns nomes se candidatavam a parceiro do astro da companhia. Um deles era Vivinho, que já brilhara em momentos do Brasileiro anterior. Outro era o experiente ponteiro-esquerdo Tato, campeão brasileiro com o Fluminense em 1984. Jogador com passagem pela Seleção, foi outro repatriado pelo Vasco, que o resgatou do Elche.

Além destes, outros jovens compunham o elenco, sendo bastante aproveitados naquele início de campanha, como o volante França, o baixinho e dinâmico armador William, ambos da base, além do atacante Anderson, recrutado do XV de Jaú e que mais tarde se tornaria “Sonny” Anderson, ao atuar com destaque no futebol francês. Havia ainda um outro jogador revelado no clube e que despontara em 1988: um centroavante oportunista e bom no cabeceio chamado Sorato.

No comando, depois das experiências malsucedidas com o ex-lateral Orlando Lelé e com Sérgio Cosme no Carioca, o Vasco apostava no experiente Nelsinho Rosa Martins. Ex-meia revelado pelo Madureira, formou dupla marcante com Carlinhos “Violino” no Flamengo nos anos 60. Como técnico, levantara dois estaduais (1980 e 1985) com o Fluminense, tivera passagens por seleções de base, era então o auxiliar de Sebastião Lazaroni na Seleção principal.

Começa o campeonato

O Brasileiro de 1989 seria disputado por 22 clubes divididos em dois grupos de 11. No primeiro turno, os times jogavam dentro de seus grupos, com os oito melhores avançando para o returno, enquanto os três piores formariam um hexagonal, o Torneio da Morte, que apontaria quatro rebaixados. No returno, as chaves eram mantidas e se cruzavam, com os clubes carregando a pontuação. Após a fase de classificação, os campeões dos grupos fariam a final.

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O Vasco estreou no campeonato no feriado de 7 de setembro, um dia após a abertura, diante do Cruzeiro de Ênio Andrade no Mineirão. Depois de segurar a pressão do adversário no primeiro tempo (que incluiu uma bola no travessão em cabeçada de Paulo Isidoro), o time abriu o placar com Vivinho escorando uma cobrança de falta na primeira trave. No fim, Acácio ainda defendeu um pênalti cobrado pelo zagueiro Gilson Jáder, garantindo o começo com o pé direito.

Vivinho voltaria a balançar as redes no jogo seguinte, contra o Coritiba em São Januário, pegando rebote do goleiro após chute de Bismarck, mas o resultado final seria um frustrante empate em 1 a 1, graças a um gol de contra-ataque marcado por Carlos Alberto Dias na metade do segundo tempo. Curiosamente, os dois primeiros jogos seriam um retrato da campanha cruzmaltina, de melhor aproveitamento como visitante do que como mandante. 

Bebeto enfim estrearia no terceiro jogo, na Vila Belmiro diante de um cambaleante Santos, que, no entanto abriria o placar com o ex-vascaíno Ernani, que havia deixado São Januário na barca daquele meio de ano. Porém, o novo ídolo seria decisivo na virada ao escorar uma bola rebatida da defesa para empatar e ao dar o passe para o gol da vitória marcado por Boiadeiro. O astro, porém, ficaria de fora do jogo seguinte, com uma lesão na coxa.

E o Vasco voltaria a tropeçar diante de sua torcida. Atual campeão brasileiro, o Bahia vivia início claudicante na nova edição, com três derrotas nos primeiros quatro jogos. Mas saiu na frente em São Januário com gol de pênalti de Charles. O Vasco ainda chegaria à virada com dois gols de Bismarck em três minutos. Mas a quatro minutos do fim, Acácio deu rebote num chute forte de Marquinhos e de novo Charles aproveitou para empatar e silenciar a Colina.

O clássico diante do Fluminense seria a primeira partida de Bebeto pelo Vasco no Maracanã. Num jogo muito concentrado no meio-campo, as oportunidades de gol foram raras. Fora de forma, o atacante não pôde ajudar os cruzmaltinos a saírem do 0 a 0. Porém, nos dois jogos seguintes, ambos em casa contra Goiás e Grêmio, o time enfim faria apresentações convincentes diante de sua torcida, indicando que embalaria a partir dali.

O Goiás ficou com um jogador a menos ainda no primeiro tempo com a expulsão do zagueiro Boni após falta dura em Bebeto, que jogava pela primeira vez em São Januário. Mas ainda assim abriria o placar com sua revelação daquele ano, um centroavante oportunista chamado Túlio, que desviou cobrança de falta de Wallace. O esmeraldino seguiria para o intervalo em vantagem, mas não conseguiria deter o mordido Vasco na etapa final.

Com um chute de fora da área, Mazinho empataria aos nove minutos. Bebeto, numa cobrança magistral de falta, viraria o jogo. Em outro tiro livre, agora ensaiado, Célio Silva encheria o pé para anotar o terceiro. E no fim, Bismarck receberia belo passe de calcanhar de William e chutaria cruzado para decretar a goleada. Quatro dias depois seria a vez de outra vitória categórica, agora diante do Tricolor gaúcho, vencedor da Copa do Brasil.

Sem Bebeto, outra vez às voltas com problemas musculares, coube a Bismarck levar a equipe a um grande resultado. O meia de 20 anos recém-completos participou dos três gols cruzmaltinos: anotou o primeiro, de cabeça, e o terceiro, cobrando pênalti que ele mesmo sofreu. E serviu William, numa cobrança de falta rápida que iludiu a defesa gremista, para marcar o segundo. O Grêmio descontou com Cuca e chegou a assustar, mas saiu mesmo batido.

No dia 14 de outubro, a Seleção Brasileira faria amistoso contra a Itália em Bolonha e, como hoje, o Brasileirão não parou. No entanto, como teve três jogadores convocados (Acácio, Mazinho e Bismarck), o Vasco conseguiu amparo legal para adiar o jogo que faria contra o Sport na Ilha do Retiro na mesma data. Esse adiamento acabaria sendo o pivô de um caso que agitou o torneio e levaria à exclusão do Coritiba e à salvação do Santos do Torneio da Morte.

Quanto aos cruzmaltinos, ele implicaria em ficar dez dias sem jogar. Se foi bom pelo descanso, também veio em má hora por interromper o embalo às portas do confronto com o Palmeiras (com quem o Vasco disputava a liderança) em São Paulo. E numa noite de quarta-feira, mais uma vez sem Bebeto, os vascaínos seriam derrotados no Parque Antártica por 1 a 0, gol de Gaúcho de cabeça. Caía o último invicto do Brasileiro.

A recuperação não veio de imediato, e o clube ainda voltaria a tropeçar em São Januário, agora parando num empate a zero com a Portuguesa numa tarde de sábado que marcou o reencontro com Roberto Dinamite. Menos mal que, quatro dias depois, na Ilha do Retiro, um gol de Tato num contra-ataque, aos 41 minutos do segundo tempo, deu a vitória sobre o Sport e manteve o time com a mesma pontuação do Palmeiras ao fim do primeiro turno.

Crise na SeleVasco

A primeira partida do returno, contra o São Paulo no Maracanã, marcava também a estreia de dois reforços: o zagueiro equatoriano Holger Quiñónez, titular da seleção de seu país na Copa América daquele ano, e o veterano meia-atacante Tita, outro ex-rubro-negro (como Andrade e Bebeto) e que retornava ao Vasco após dois anos atuando no futebol europeu, primeiro no Bayer Leverkusen (campeão da Copa da Uefa) e em seguida no Pescara.

Além dos novos titulares, havia ainda o retorno de Bebeto. Mas mesmo assim, o Vasco ficou preso na rígida marcação são-paulina e teve de se conformar com outro empate em 0 a 0. A expectativa agora era tentar a reabilitação no clássico diante do Flamengo, que além de vir de três derrotas seguidas, chegava ao duelo do dia 5 de novembro ainda mordido pela guerra das transferências de Bebeto e André Cruz e disposto a testar o prestígio da SeleVasco.

E aquela seria, para os vascaínos, uma tarde para esquecer: comandado pelos veteranos Zico e Júnior, o Flamengo foi superior em campo e venceu por 2 a 0, com dois gols do garoto Bujica, recém-promovido aos profissionais e alçado a substituto de Bebeto. O novo ídolo cruzmaltino, por outro lado, deixaria o campo antes do fim do jogo, expulso após trocar tapas com o goleiro Zé Carlos, que também recebeu o vermelho. 

Era hora de parar e repensar a rota da nau vascaína. Nelsinho decidiu barrar Luís Carlos Winck, Boiadeiro e Andrade, que bateu boca com o treinador pela imprensa e seria o único do trio a não jogar mais na campanha. O time tentou sair da crise enfrentando a Inter de Limeira fora de casa. Começou melhor e abriu o placar com Tita. Mas recuou e permitiu a virada do time interiorano. Só no fim, num pênalti sofrido e convertido por Bismarck, chegou à igualdade.

A equipe voltaria a São Januário para a partida seguinte, diante do perigoso Náutico, que então ocupava a terceira posição no Grupo A, atrás apenas dos líderes Corinthians e Atlético-MG. O jogo prometia muitos gols, já que os pernambucanos eram donos do melhor ataque (comandado pelo centroavante Bizu) e da pior defesa do campeonato. E com um Vasco disposto a varrer a apatia demonstrada nas partidas anteriores, não deu outra.

No primeiro tempo, as redes só balançaram uma vez, num gol do lateral Cássio em chute sem ângulo que colocou o Vasco na frente. Na etapa final, a vantagem foi bem ampliada com dois gols em dois minutos: primeiro Bebeto escorou cruzamento de Tita e depois Bismarck recebeu de Bebeto para chutar na saída do goleiro Mauri. Mas o Náutico reagiu e marcou duas vezes, um chute de Léo resvalado na defesa e numa finalização de Bizu.

Mas no último minuto, o Vasco tratou de tranquilizar a torcida: Vivinho recebeu um passe vencendo a linha de impedimento malfeita pela defesa do Timbu, avançou sozinho e apenas rolou para Bebeto completar da entrada da área e fechar a vitória em categóricos 4 a 2. Em seguida, o time teria pela frente mais dois jogos seguidos no Rio, agora no Maracanã, diante de Atlético-MG e Botafogo, antes de sair para enfrentar Corinthians e Internacional.

No jogo contra o Galo, a sina de tropeçar em casa voltou a assombrar: os mineiros saíram na frente após uma cobrança de falta mal afastada pela defesa cruzmaltina que o atacante Saulo faturou. Mas, no último minuto da primeira etapa, Bismarck cabecearia um ótimo cruzamento de Mazinho para empatar e salvar um ponto. O jeito seria partir para cima do Botafogo, que brigava pela vaga no outro grupo, e tentar enfim vencer um clássico no campeonato.

E o Vasco chegou a sair na frente, num gol de oportunismo de Tita após cobrança de escanteio. Mas o rival reagiu e virou o jogo. Primeiro, Valdeir recebeu nas costas da defesa e avançou para tocar na saída de Acácio. Depois, Donizete cruzou da direita e Zé do Carmo acertou uma cabeçada precisa. Só que contra as próprias redes. Dominado em campo, o time acabou resgatado pelo garoto Sorato, que empatou também de cabeça a três minutos do fim.

Visitante indigesto embala na reta final

O gol garantiu um lugar no time titular ao jovem atacante. E depois de Boiadeiro retornar ao onze inicial contra o Botafogo, agora atuando em sua posição preferida como segundo homem do meio-campo, Luís Carlos Winck também recuperou sua vaga na equipe, com Mazinho puxado de volta à lateral-esquerda. O Vasco se preparava para os dois jogos que decidiriam sua sorte. Ambos fora de casa, onde a equipe tinha seu melhor aproveitamento.

Nas 11 partidas disputadas no Rio, incluindo os três clássicos, o Vasco havia empatado nada menos que sete vezes. Como visitante, vencera três de cinco. Para a partida diante do Corinthians no Morumbi no domingo, 3 de dezembro, só a vitória interessava, já que o Palmeiras estava dois pontos à frente e havia ainda a concorrência de Cruzeiro e Portuguesa, que venceram no sábado. Do outro lado, o Timão queria quebrar um tabu de 14 anos sem vencer os cariocas.

Foi um jogo disputado sob clima tenso. E o Vasco tiraria o zero do placar aos 47 minutos da etapa inicial, quando Luís Carlos Winck fez boa jogada de linha de fundo e cruzou para trás, com Sorato sendo outra vez decisivo, batendo de primeira para o gol. No segundo tempo, o árbitro Gilson Ramos Cordeiro deixaria de marcar um pênalti para cada lado (de Dama em Bebeto e de Acácio em Barbiéri) e ainda seria o pivô de um caso de agressão.

Além de os jogadores do Corinthians terem reclamado do tempo acrescido na primeira etapa (durante o qual acabou acontecendo o gol do Vasco), o técnico Basílio recebeu do árbitro um chute no estômago, enquanto afastava seu preparador físico Paulo César Santos, que xingava o juiz. Do outro lado, no banco vascaíno, além da vitória no Morumbi, o time celebrava a ajuda do Botafogo, que derrotara o Palmeiras no Maracanã.

A combinação de resultados levava cruzmaltinos e alviverdes à última rodada com os mesmos 22 pontos, com os paulistas levando a melhor nos critérios de desempate por terem uma vitória a mais. A tabela marcava o confronto entre o Vasco e o há muito eliminado Internacional em Porto Alegre, enquanto o Palmeiras teria pela frente nada menos que o clássico diante do Corinthians. Por fora, ainda com chances remotas, corriam Cruzeiro e Portuguesa.

O Colorado recebeu os vascaínos com um meio-campo superpovoado, para amarrar o adversário. Mas o time carioca não se intimidou. E se ainda se esperava desde o início do torneio uma atuação brilhante de Bebeto, o atacante responderia mostrando-se decisivo. No primeiro tempo, ele já indicava que infernizaria a defesa adversária quando foi lançado cara a cara com Taffarel, driblou o arqueiro gaúcho, mas viu seu chute desequilibrado acertar o poste.

O Vasco perdeu outras inúmeras chances claras na primeira etapa e poderia ter saído com vantagem folgada para o intervalo. Mas na etapa final, aos 17 minutos, o zero sairia do placar com toque de arte: William, que havia acabado de entrar, recebeu escanteio curto e alçou para a área. Bebeto pegou um maravilhoso sem-pulo que deixou o goleiro Ademir Maria sem reação. Um golaço que já fazia justiça ao melhor time em campo.

E se o primeiro gol foi obra do talento, o segundo nasceu da perseverança. Bebeto passou a William, que avançou e foi desarmado. O novo ídolo da Colina insistiu na jogada, ganhou a dividida com o zagueiro Maurício e, aproveitando a indecisão da defesa colorada, tocou rasteiro na saída de Ademir Maria para confirmar a vitória e a classificação do Vasco. Enquanto isso, no Derby, o Corinthians batia o Palmeiras com um gol de calcanhar de Cláudio Adão.

Assim, o Vasco terminava a fase de classificação com 24 pontos, um a mais que o Cruzeiro – que terminou em segundo ao vencer o clássico com o Atlético-MG por 1 a 0 – e dois à frente do agora terceiro colocado Palmeiras. No outro grupo, após chegar a flertar com o Torneio da Morte no primeiro turno, o São Paulo empreendeu uma arrancada avassaladora e terminou com 23 pontos, superando o Botafogo por um ponto e o Corinthians por dois.

A decisão

Por ter somado um ponto a mais, o Vasco tinha pelo regulamento uma vantagem curiosa na final: poderia escolher se jogaria a primeira partida decisiva em casa ou fora. E ainda, caso optasse pelo campo do adversário e vencesse o jogo, encerraria o campeonato ali mesmo, sem jogo de volta. E esta seria a escolha cruzmaltina, mesmo sabendo que do outro lado, empurrado por sua torcida, havia uma forte equipe são-paulina dirigida por Carlos Alberto Silva.

No gol tricolor, havia a segurança de Gilmar Rinaldi. A defesa era liderada por um Ricardo Rocha em ótima fase (levaria a Bola de Ouro ao fim do torneio) e contava ainda com o zagueiro Adílson e o lateral Nelsinho. No meio, Raí e Bobô esbanjavam talento na criação. E na frente, havia os ponteiros Mário Tilico e Edivaldo para dar velocidade e drible aos contragolpes. Antigos titulares, o lateral Zé Teodoro e o volante Bernardo estavam de fora da final.

O Vasco, por sua vez, trazia uma alteração em relação à equipe que batera o Inter no Beira-Rio: o ponteiro Tato dava lugar ao meia William para fechar o quarteto do meio-campo e dar mais dinamismo à equipe. De resto, era a mesma escalação: Acácio no gol, Luís Carlos Winck e Mazinho nas laterais, Marco Aurélio e Quiñónez no miolo de zaga, Zé do Carmo na proteção, Boiadeiro e Bismarck como armadores, além de Bebeto e Sorato no ataque.

Em campo, o primeiro tempo foi equilibrado, com o São Paulo ligeiramente superior, até porque precisava da vitória a todo custo para reverter a vantagem vascaína. Na meta tricolor, Gilmar teve de intervir para deter uma cobrança de falta de Luís Carlos Winck desviada na barreira e subir para interceptar um cruzamento venenoso do mesmo jogador, além de ver um chute perigoso de Bismarck acertar a rede pelo lado de fora.

Mas, do outro lado, era Acácio quem aos poucos se convertia no grande destaque do jogo. Na primeira etapa, apareceu para encaixar um sem-pulo de Edivaldo e uma finalização de Nei da entrada da área, além de bloquear com as pernas um chute à queima-roupa de Bobô. Já no segundo tempo, depois do Vasco abrir o placar logo aos cinco minutos, ele se transformou num verdadeiro paredão que frustrou a torcida da casa.

A jogada do gol vascaíno começou pelo lado esquerdo com Mazinho e, depois de passar pelos pés de Bismarck e Boiadeiro, chegou à direita para um Luís Carlos Winck que avançava com ímpeto. O cruzamento não veio tão alto, mas Bebeto não pôde alcançá-lo. Sorato, porém, vinha de trás, desmarcado, e teve tempo de preparar a testada mortal para baixo, sem chance para Gilmar. O garoto que fazia seu terceiro jogo como titular marcava o gol do título.

Daquele momento em diante, a pressão do São Paulo se tornaria quase insustentável. “Quase” porque havia Acácio no gol vascaíno. Após espalmar uma cobrança fechada de escanteio e um chute forte de Nelsinho em cobrança de falta, ele voaria para buscar no canto uma cabeçada de Bobô com endereço certo, realizando o maior de seus milagres naquele jogo. Mais tarde, num lance semelhante, espalmaria uma finalização de cabeça de Mário Tilico.

Nos minutos finais, o Vasco ainda se daria ao luxo de desperdiçar dois contra-ataques com três contra um para matar a partida. Mas ao apito final, o objetivo havia sido concretizado com êxito. A SeleVasco enfim fazia jus ao seu prestígio e coroava a conquista com uma grande vitória, que não deixava dúvidas sobre quem havia sido o melhor time daquele campeonato. A espera chegava ao fim: 15 anos depois, os cruzmaltinos eram de novo os donos do Brasil.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.