Por Caio Brandão, advogado e colaborador do Futebol Portenho

A escolha de um previsível elefante branco para ser a sede nortista da Copa de 2014 ao invés do Mangueirão não foi a primeira vez em que cartolas foram insensíveis com o futebol paraense. O Brasil não foi a primeira seleção nacional a jogar lá e o convite à Bulgária partiu justamente para minimizar o descumprimento da palavra de Ricardo Teixeira. O duelo que ontem completou 30 anos não teve a pompa merecida e permanece dos mais alternativos do futebol até para os próprios paraenses – e o que poderia em tese ser o momento mais protagonista da carreira do autor do gol amazônico não foi sequer lembrado nessa reportagem que resumiu sua carreira.

Segundo o livro Gigantes do Futebol Paraense, aquela foi precisamente a última partida oficial da seleção do Pará, criada em 1915. Após um amistoso inicial contra o Paysandu em 28 de fevereiro (derrotada por 7-1 na Curuzu), ela foi retomada em dezembro para uma série de amistosos de virada do ano contra o Flamengo – cuja excursão pela Amazônia contou com o reforço do inglês Henry Welfare, lenda do Fluminense mas cujo trabalho como professor de geografia levou-o a juntar-se provisoriamente ao rival. Os cariocas inicialmente golearam por 5-1 em 26 de dezembro, mas tiveram melhor oposição nos seguintes: 1-1 em 1º de janeiro, vitória de 2-0 em 8 de janeiro e 0-0 outro dia depois.

Amistosos contra outros clubes paraenses e representantes de Amazonas e Pernambuco permearam encontros esporádicos até o advento do Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais, em 1922. A primeira edição não teve nenhum Estado do Norte, mas o Pará estreou na segunda. Bastante prestigiado até o surgimento da Taça Brasil (foi o triunfo carioca na edição de 1947 que fez o Vasco representar o Brasil no Sul-Americano de Clubes de 1948, o precursor da Libertadores), esse torneio serviu de vitrine a muitos craques do país adentro rumo “ao Eixo”. E o Pará não foi exceção, especialmente nos anos 20 e 30, quando mostrou-se a grande potência do Norte-Nordeste, com diversos títulos simbólicos de campeão dessa zona antes de não fugir de uma eliminação nas semifinais ou nas quartas-de-finais das fases decisivas em São Paulo ou no Rio de Janeiro.

A primeira semifinal do Pará deu-se em 1925. Friedenreich marcou dois gols na vitória paulista por 3 a 0 em 6 de setembro, mas a delegação amazônica aproveitou a viagem para testar-se três dias depois no Rio de Janeiro contra o Vasco da Gama. E ganhou por 3 a 2, com o ponta Santana marcando o da vitória. Ele ainda permaneceu no Remo por mais dois anos, e também na seleção paraense, novamente “campeã do Norte” em 1926 após ele marcar duas vezes em um 5 a 1 no Maranhão e três no 7 a 0 no Amazonas, e outra em 1927 com mais três deles em um 12 a 2 sobre Alagoas. Naquele ano, Santana enfim rumou ao Vasco para já em 1928 vencer o Brasileirão a serviço da seleção carioca, chegando à própria seleção brasileira em 1930. Como vascaíno, deixou o gol dele nas maiores goleadas dos clássicos contra Fluminense (6 a 0 em dezembro de 1930) e Flamengo (7 a 0 em março de 1931).

Página final do livro Gigantes do Futebol Paraense, de Ferreira da Costa, obra que resgatou a partida de 30 anos atrás

Nos anos 30, a primeira revelação foi Quarenta, que passou rapidamente por Vasco da Gama e São Paulo após nada menos que sete gols no 12 a 2 sobre o Maranhão e outros dois no 6 a 1 sobre o Amazonas que, além de embalar o “hexa do Norte” seguido, teriam lhe rendido a real a artilharia do Brasileirão de 1931 – afinal, só essa soma já supera os oito gols do pernambucano Oswaldo, apontado pelo RSSSF como o goleador. Após lesionar-se no Tricolor, preferiu voltar sem autorização ao Paysandu e já reaparecia pela seleção paraense na edição de 1935 do Brasileirão. Chegou a ser o maior artilheiro do Papão e do Re-Pa, bem como o maior campeão pelo clube. Nas duas artilharias, ainda é atualmente o terceiro maior (abaixo de Bené e de Hélio pelo clube, e do mesmo Hélio e de Itaguary no clássico). 

Mas, para o resto do país, o tempo tornou Quarenta conhecido apenas como pai do artilheiro-mor botafoguense, Quarentinha – que, revelado pelo Paysandu, causou uma primeira boa impressão nos cariocas ao marcar os três gols alviazuis em derrota por 7 a 3 em uma visita do Vasco a Belém, em 1953. Essa visita foi providenciada pela Tuna Luso, que celebrava seus 50 anos, e contou com homenagem solene dos cariocas ao antigo ídolo Santana. Curiosamente, os anos 50 viriam surgir na Curuzu um segundo Quarentinha, sem parentesco com estes. Considerado o maior craque do Papão e primeiro ídolo a virar estátua na Curuzu, foi o único a superar Quarenta em títulos estaduais: 12, que ainda são um recorde nacional, igualados neste século pelo zagueiro Durval.

Esse Quarentinha atuou de 1956 a 1973 apenas pelo Paysandu, recusando ofertas de fora por, dentre outros fatores, priorizar sua estabilidade adquirida como servidor público da polícia, em tempos nos quais o passageiro tempo de futebol, mesmo no “Eixo”, não bastava para um pé de meia. Pela seleção paraense, serviu de 1958 a 1971, já em tempos de concorrência maior com as outras seleções vizinhas. Quando ainda mostrava-se continuamente soberano no Norte-Nordeste, o Pará teve sua última revelação ao “Eixo” em Vevé, eleito pela Placar em 1982 como o maior ponta-esquerda da história do Flamengo. Ainda remista, figurou no Brasileirão inicialmente na edição de 1938, com seus dois gols no 9 a 2 sobre o Maranhão e outro no 7 a 0 sobre o Amazonas rendendo novo título simbólico de “campeão do Norte”. Despediu-se deixando outro gol em derrota em Salvador por 3 a 2 para o Bahia, em amistoso em 1940 contra este clube. Na época, já pertencia ao rival Galícia, sua escala antes de chegar em 1941 à Gávea e, em 1945, à seleção brasileira.

Seleção paraense no Brasileirão de 1987, do facebook de Edil: Jair, Nad, Juranir, Pagani, Mário Vigia e dois membros da comissão; Edil, Gerson, Ondino, Cabinho, Walber e Edgar. Cinco deles foram relembrados em 1990, embora Mário e Cabinho terminassem cortados

Sem Vevé, a principal referência ofensiva da seleção paraense permaneceu com o veterano Quarenta na primeira vez em que o Pará bateu uma seleção do Sul: no Brasileirão de 1941, após marcar três vezes no 4 a 1 sobre o Amazonas, ele fez os dois da vitória por 2 a 1 sobre o Paraná no Pacaembu (com os nortistas jogando com dez, após a fratura do lateral-direito Orlando Brito), antes do conto de fadas acabar honrosamente no 3 a 2 para a seleção gaúcha, onde prevaleceram os dois gols de Tesourinha. 

O Pará ainda foi o campeão de sua zona em 1950 e em 1952, mas já sem chegar às semifinais. E as as derrotas para Pernambuco, Maranhão, Ceará ou Amazonas nas fases qualificatórias tornaram-se a tônica. Foi o que ocorreu em todas as outras sete edições do Brasileirão que ocorreram de 1942 a 1962 (ano em que nem o comando técnico de Gentil Cardoso evitou a eliminação já contra os primeiros adversários, os maranhenses, ou a presença de Walmir – outro filho do velho Quarenta e por sua vez artilheiro do estadual tanto por Remo como pela Tuna). Em prestígio decrescente com o surgimento em 1959 da Taça Brasil, o torneio foi descontinuado três anos depois. 

Em 1970, a nascente revista Placar noticiou que nem a já extinta Taça Brasil e nem o Robertão vinham sendo encarados como torneios que se configurassem verdadeiramente como um campeonato brasileiro, promovendo um debate de técnicos. O do Athletico Paranaense manifestou-se pela “volta do Campeonato Brasileiro de Seleções, disputado em chaves. Acho que isso desperta o futebol do norte e do nordeste, valorizando seus jogadores” Enquanto a ideia do Brasileirão não era retomada, a seleção paraense o foi após nove anos, em 1971, para amistoso contra os portugueses do Porto: empate em 1 a 1 no dia em que o maior ídolo do Paysandu (o citado segundo Quarentinha) pôde atuar lado a lado com o maior ídolo do Remo – Alcino, autor do gol paraense no Baenão. Amistosos esporádicos contra o Amazonas foram basicamente o que reuniu a seleção ainda em 1971, 1976 e 1977. 

Em 1978, o Mangueirão foi inaugurado e a seleção reapareceu em três jogos entre 4 e 12 de março. O primeiro, na inauguração oficial do estádio, foi anunciado como se fosse contra a seleção principal do Uruguai. Mas a Celeste fez-se representar pela escalação juvenil: Vieira, Bueno, Loutanau, Quintero e Moreno; Gutiérrez, Saralegui e Rivas; Caballero, Ramírez e De Lorenzo – onde só os sobrenomes Gutiérrez e Saralegui se fariam presentes em uma Copa do Mundo, já em 1986. Alinhados no gol com Edson Cimento, premiado com Bola de Prata pelo Brasileirão de 1977 (só encerrado naquele março de 1978) mesmo atuando pelo Remo, e nas linhas com Marinho, Dutra, Darinta e Zuza; Adérson, Roberto Bacuri (Mego) e Mesquita (Patrulheiro); Leônidas (Gabriel), Bira e Júlio César “Uri Geller” (Nilson Santos), os locais golearam: Mesquita fez dois e Bacuri e Gabriel deixaram um cada, com o jornal O Estado do Pará condenando o estelionato dos visitantes: “Uruguai enganou a torcida. 4 x 0 foi pouco!”. 

Edição especial da Placar de 2005 sobre os grandes clássicos brasileiros teve essas fotos de Edil e de Ageu, dupla de ataque do Pará para 1990

No dia 8, os paraenses venceram por 3 a 2 o Amazonas e, no dia 12, igualaram em 0 a 0 com o Botafogo. Ainda em 1978, a volta do Brasileiro de seleções no lugar do Brasileiro de clubes chegou a ser proposta pelo presidente da federação goiana, segundo a Placar. Mas a ideia só foi levantada seriamente em 1985, aprovada por ambas as chapas que concorriam à presidência da CBF, com o retorno do torneio já se programando de antemão para 1987. Julho de 1987 veio e o Brasileirão de seleções de fato foi retomado após 25 anos – e a seleção paraense, após nove. Só que a competição foi desprezada pelos principais centros. Na baiana, havia até espaço para um atacante da Catuense chamado Vandick, logo adquirido para o banco de reservas do Flamengo na vitoriosa Copa União, anos e anos antes de triunfar no Pará.

Às vésperas da decisão, já em fevereiro de 1988, a Placar reportou que somente na fase semifinal a seleção paulista foi devidamente representada, após competir inicialmente com jogadores das divisões de acesso. A gaúcha só usou gente do interior, com a dupla Gre-Nal não abrindo mão de jogadores em prol de excursões à Europa, e terminou eliminada pela paranaense – que, boicotada pelo Athletico, preferiu cair por W.O. diante de Goiás quando notou-se que só 65 espectadores foram prestigiá-la em Ponta Grossa. A seleção mineira era basicamente o Villa Nova. E a carioca, inicialmente representada pelo Vasco, viu os cruzmaltinos priorizarem a Taça Guanabara e precisou se socorrer nos jogadores do Americano. O próprio presidente da CBF não escondeu da reportagem seu descrédito com a competição. Para arrematar, o Rio foi campeão pela caneta, após desacordo de datas com São Paulo para o jogo da volta.

Diferentemente dos times do Centro-Sul, o Pará fez-se representar por uma seleção condizente, mas só pôde enfrentar o Amazonas: após um 1 a 0 para cada em casa, não houve pênaltis e o rival levou a melhor no sorteio para avançar. Se em 1985 a ideia era que o torneio fosse disputado a cada ano ímpar para preencher o calendário entre estaduais e o Brasileirão de clubes, Ricardo Teixeira elegeu-se em janeiro de 1989 à CBF sem precisar apelar à natimorta competição. Os Estados periféricos seriam contemplados com a nascente Copa do Brasil e com a presença da seleção brasileira – que, justiça seja feita, até já havia de certa forma pisado em Belém. Mas não a principal e sim a olímpica, em 1972. Antes de embarcar para os Jogos de Munique, ela teve como últimos compromissos um amistoso não-oficial contra o Remo no Baenão (1 a 0, em 9 de agosto); e outro contra a Tuna no estádio cruzmaltino do Souza, com Clésio arrancando um glorioso empate em 1 a 1 no placar aberto por Roberto Dinamite e não mais alterado pelo time que ainda tinha Falcão e Dirceu, embora todos fossem obscuros na época. 

A virada dos anos 70 para os 80 viram o advento de seleções juvenis e também as femininas, que tampouco contemplavam Belém. O jogo contra a Bulgária teria surgido exatamente de uma promessa descumprida pelo cartola máximo da CBF. Afinal, a edição ainda de 5 de janeiro de 1990 do jornal Diário do Pará noticiou a chamada “A Seleção vem – Belém é a preferida de Ricardo Teixeira”. Na nota, se dizia que “o primeiro dos dois jogos da seleção brasileira no Brasil, dia 5 de maio, com a Romênia, deve ser disputado em Belém. Este é o desejo do Presidente da CBF, Ricardo Teixeira, embora outras cidades, como Campo Grande e Goiânia, queiram sediar a partida. O diretor de futebol Jorge Salgado prefere o Rio, mas sabe que os interesses políticos são mais fortes”.

Pará, que usou o uniforme brasileiro, e Bulgária na hora dos hinos no Mangueirão, no registro do jornal A Província

A notinha seguia assim: “Ricardo Teixeira continua defendendo a realização dos amistosos fora do eixo Rio-São Paulo, de preferência em locais onde a Seleção nunca tenha se apresentado. É um compromisso de campanha que ele tem procurado cumprir fielmente. Além disso, o dirigente acha que a Seleção é melhor recebida fora dos grandes centros (…). Financeiramente, também, ele vê mais vantagens. ‘O público enche os estádios, incentiva a Seleção e a CBF recebe ajuda dos próprios governos estaduais, o que não costuma ocorrer no Rio e em São Paulo’ – explica”. A partida contra a Romênia ocorreu ainda em 17 de abril. E foi sediada em Londrina mesmo. Se o Mangueirão não viu Hagi, veria Stoichkov. Mas não graças à CBF. A Bulgária de fato enfrentaria o Brasil em um 5 de maio, mas em Campinas. A reação da Federação Paraense de Futebol foi aproveitar a passagem búlgara pelo país e programar para 7 de maio um amistoso próprio com ela. 

Já em 24 de abril, publicava-se no Diário do Pará uma convocação inicial da seleção paraense, treinada pelo técnico tunante Luís Paulo, que precisava conciliar a tarefa com uma dor de cabeça: na antevéspera, em 22 de abril, o Paysandu sagrou-se campeão do primeiro turno do estadual com um categórico 3 a 0 no Remo, resultado que causou a queda do treinador azulino Armando Bracalli. Só que o próprio técnico vencedor também já tinha saída assegurada, tamanha a falta de clima na Curuzu – era José Dutra dos Santos, homem com passado glorioso nos rivais Remo (como zagueiro nos anos 70, chegando à própria seleção paraense) e Tuna (técnico campeão da Série B nacional em 1985). Dutra tinha contra si esse passado, a sua ligação com o presidente antecessor ao que ocupava o cargo na Curuzu e a perda em fevereiro do estadual ainda válido por 1989, após três empates e uma derrota em quatro Re-Pas ocorridos naquele mês. 

Dutra calhara ainda de pegar um time que, campeão do primeiro turno de 1989 ainda com Givanildo Oliveira, perdera esse embalo após uma interrupção de cinco meses que o torneio teve por conta da Série B nacional. O Remo traria Paulinho de Almeida para substituir Bracalli, mas a insistência do Paysandu em aliciar Luís Paulo para repor Dutra causou a fúria da diretoria cruzmaltina, que se declarou disposta a boicotar a seleção por conta do diretor de futebol alviceleste também ser o diretor da mesma. No fim, quem substituiu Dutra foi César Moraes. Originalmente, os convocados tinham sete do Paysandu – casos do goleiro Samuel, do lateral Aldo (campeão brasileiro com o Fluminense em 1984 e tri carioca com os tricolores na época, que voltava ao time que o revelara), do zagueiro Nad, dos meias Zé Augusto e Rogerinho e dos atacantes Edil e Cabinho; e seis do Remo – casos do goleiro Wagner, dos laterais Paulo Verdun e Ney, do zagueiro Chico Monte Alegre, dos meias Edgar e Bebeto.

Completavam a lista cinco da Tuna (o lateral Mário Vigia, os zagueiros Belterra e Juninho, o meia Dema e os atacantes Luiz Carlos e Ageu Sabiá) e, de outros clubes, os meias Paulinho Oliveira (Pinheirense) e Bessa (Tiradentes) e o atacante Ivaldo (Sport Belém). No dia 29, divulgou-se ainda um reforço de peso para a ocasião: anunciou-se que Zico, cuja despedida oficial no Maracanã ocorrera nove dias antes, defenderia os paraenses no Mangueirão – o que terminou não ocorrendo. Em 1º de maio, houve no Baenão um primeiro jogo-treino, um rachão onde os titulares Samuel, Paulo Verdun, Chico Monte Alegre, Belterra e Mário Vigia (Ney); Edgar, Zé Augusto e Rogerinho; Edil, Cabinho (Luiz Carlos) e Ageu; derrotaram por 4 a 0 os reservas Wagner, Aldo, Nad, Juninho (Eduardo) e Ney (Ediniz); Bessa, Bebeto e Paulinho Oliveira; Luiz Carlos (Nino Carioca), Ivaldo e Carlos Alberto. Os gols se distribuíram entre Edil, Rogerinho e Ageu.

Outras cenas do jogo no registro do jornal A Província

O Diário do Pará elogiou o entrosamento dos titulares e reportou o folclore do público, que elogiava e vaiava os jogadores conforme seus clubes de origem. No rachão, Mário Vigia, um dos dois jogadores bicampeões nacionais com a Tuna, presente tanto na Série B de 1985 como na Série C de 1992, rompeu os ligamentos do joelho e terminou cortado. Claudiomiro, outro tunante, foi chamado ao seu lugar. A atividade também serviu para notar-se que Dema (de presença-relâmpago no título brasileiro da Tuna em 1992), que já se apresentara contundido, também não tinha condições. Ele nem entrou em campo para ser cortado e então dar lugar ao protagonista do amistoso, o bicolor Mazinho. Às 21 horas do dia 4 houve novo jogo-treino, agora contra o combinado dos lanternas do primeiro turno do estadual de 1990 – Santa Rosa, Izabelense e Independente. Antes, nova baixa: na véspera, Cabinho, autor do gol paraense sobre o Amazonas nos duelos de 1987, sentiu contusão. Para o seu lugar, chamaram o remista Tiago, remanescente da Tuna campeã brasileira de 1985. 

O segundo rachão terminou em 6 a 0, com Edil marcando duas vezes e Ageu, Rogerinho, Luiz Carlos e Juninho completando. No sábado de 5 de maio, o Diário do Pará exibiu todo o rancor do presidente da federação estadual: “Que a Seleção Canarinha tenha um tropeço hoje” e que “nossa Seleção Paraense obtenha sucesso no jogo de segunda-feira” foram algumas palavras, vociferando que a CBF “não mexeu uma palha sequer” para o Brasil vir a Belém e que ainda assim teria de receber 5% da renda do jogo. A praga não deu tão certo assim. Embora a vitória magra de 2 a 1 do Brasil não convencesse, uma greve de rodoviários foi anunciada para a segunda-feira na qual estava agendada a partida dos paraenses. Como os búlgaros já chegariam a Belém na madrugada do sábado para o domingo, o amistoso foi antecipado em um dia. 

A Cortina de Ferro ainda não se abrira totalmente na Bulgária, com os craques ainda segurados pelo futebol estatal. Isso, o menor intercâmbio televisivo com as copas europeias e a não-classificação ao Mundial fazia os adversários serem verdadeiras incógnitas ao torcedor paraense, ainda que o Diário do Pará noticiasse no domingo da partida que a delegação oponente “apresenta uma grande estrela, que é o centroavante Stoichkov, do Sredets Sófia”. Esse era o nome que o CSKA Sófia adotava desde 1985 após uma batalha campal deflagrada pelo próprio Stoichkov na final da Copa da Bulgária daquele ano, fazendo o governo extinguir formalmente seu clube e o rival Levski (renomeado Vitosha). O temperamental atacante chegou a ser banido, mas foi anistiado após um ano e, naquela temporada 1989/90, terminaria premiado ainda com a Chuteira de Ouro da France Football, como maior goleador de uma liga europeia.

O prêmio foi o chamariz final de Stoichkov para rumar ao Barcelona ainda em 1990, após já ter enfrentado os catalães em outro amistoso não-oficial da Bulgária, na partida de homenagem ao ídolo blaugrana Migueli, em 1989 (na imagem que abre essa matéria). O Diário do Pará clamava: “Vale salientar que o torcedor paraense terá uma rara oportunidade de ver de perto uma escola europeia, o que implica dizer que é justificável qualquer sacrifício para estar no Mangueirão esta noite e prestigiar a promoção da FPF”, que disponibilizara 40 mil ingressos. “A empreitada é da FPF e louve-se a disposição do [presidente] Euclides e Djalma, e claro, a torcida não pode negar fogo, para provar que outras promoções poderão vir por aí”. Luís Paulo foi ainda descrito como um técnico bem informado sobre o rival: “Eu vi esse time jogar quando estive lá na Arábia, é de força e velocidade, mas tem quem conheça”.

Já o jornal A Província registrava que “a Seleção da Bulgária ficou de chegar no final desta noite, trazendo craques completamente desconhecidos do torcedor paraense (…). A Federação Paraense de Futebol espera uma arrecadação superior a 3 milhões de cruzeiros – as despesas do jogo estão calculadas em mais de 1,5 milhão de cruzeiros. O selecionado búlgaro vai receber, livre de despesas, 28 mil dólares e a promoção é de inteira responsabilidade da Federação Paraense de Futebol e do Governo do Estado. Por causa dessa responsabilidade, o jogo foi antecipado por causa da greve dos motoristas, cobradores e fiscais da empresa de transportes coletivos de Belém nesta segunda-feira. Com isso, vai haver ônibus suficiente à disposição do torcedor”.

A Província ainda fez um dossiê dos titulares. O único equívoco foi que o remista Bebeto, já descrito no perfil de Edil como seu irmão (e pai de outro Bebeto), acabou sendo o real titular na vaga de Rogerinho. Assim os jogadores foram descritos, com observações nossas nos colchetes:

O gol paraense registrado pelo jornal O Liberal

“SAMUEL – É dono do próprio passe. Atua no Paysandu desde 1987. Já foi duas vezes campeão paraense. No presente campeonato estadual, é o goleiro menos vazado. Como religioso, é protestante e presidente a Associação dos Atletas de Cristo. Uma de suas virtudes é a avantajada estatura, que facilita seu trabalho no jogo aéreo. A ‘frieza’ em campo é uma de suas mais notáveis características” [na realidade, terminou campeão apenas em 1987, pois o título de 1988 terminaria definitivamente cassado em 1992 para a Tuna. Mineiro de Carangola, ainda tinha 23 anos, mas já com passagens por Minas, Ceará e Maranhão, chegando ao Papão a partir do Moto Clube para ser reserva de Paulo Goulart. Assumiu a titularidade logo, após lesão do titular, e a imprensa noticiava a titularidade na seleção como exemplo de superação: fora herói no primeiro turno do estadual de 1989 ao defender três pênaltis no Re-Pa, mas não repetiu a proeza em nova decisão por pênaltis no segundo turno e teria sido infeliz nas finalíssimas, não se livrando de críticas públicas dos próprios colegas em tempos mais politicamente incorretos].

“PAULO VERDUN – Também é dono do próprio passe. Há um ano e quatro meses joga pelo Clube do Remo, depois de ter passado pelo Volta Redonda e Botafogo, do Rio, e Rio Negro, de Manaus. Foi destaque do Remo tanto na campanha do Parazão 89 como na belíssima participação no campeonato brasileiro da divisão especial. Com um preparo físico invejável, pratica o futebol moderno do lateral que tanto defende como ataca frequentemente” [Curiosamente, jogou pela seleção do Amazonas contra a do Pará em 1987].

“CHICO MONTE ALEGRE – O passe pertence ao Remo, onde chegou em fevereiro de 1989, oriundo do São Raimundo, de Santarém. É de Monte Alegre, como o próprio nome indica. Está em início de carreira, mas já possui em sua galeria o troféu de ‘melhor jogador do futebol paraense’, prêmio outorgado pela Aclep. É um zagueiro de raro talento. Além da segurança que oferece na defesa, se constitui num perigoso atacante a cada lance em que procura a área do adversário, principalmente nos cabeceios” [Teria grande destaque ao longo dos anos 90 pelo Sport Recife, sendo multicampeão estadual na Ilha].

“BELTERRA – Outro santareno, de Belterra. Seu passe pertence à Tuna. Seu primeiro clube no futebol profissional foi o Remo, onde nem chegou a assinar contrato. Após a rápida passagem pelo Baenão, em 1985, brilhou no Amazonas e voltou para o futebol paraense como jogador da Tuna. Aos poucos, ganhou destaque e respeito em Belém. Ano passado cumpriu empréstimo no Ceará, que não comprou seu passe por não poder pagar o que a Tuna exigia” [no decorrer dos anos 90, viraria emblema do Remo, integrando o elenco semifinalista da Copa do Brasil em 1991, o time que voltou à elite em 1992, o dono da melhor campanha nortista na Série A em 1993 e o penta estadual de 1993 a 1997, permeado por um tabu de 33 jogos no Re-Pa antes de vencer o estadual de 1998 pelo Paysandu – é um dos raríssimos campeões pelo trio de ferro, pois vencera o de 1988 como tunante].

“NEY – Com apenas 20 anos, é o mais jovem do grupo. Acaba de assinar o primeiro contrato profissional. Sua real posição é quarto-zagueiro, mas surgiu nas finais do campeonato estadual de 1989 improvisado na lateral-esquerda. Foi convocado como reserva de Mário, mas acabou ganhando a posição em função da contusão que afastou o lateral tunante da seleção. Ainda com idade de júnior, mas foi profissionalizado por já ter disputado mais de quatro partidas neste ano pelo time profissional do Remo, tornando-se legalmente inapto para o campeonato de juniores” [Apelidado de Sorvetão pelo penteado, seria outra figura vitoriosa no Remo dos anos 90, embora tivesse mais de uma passagem também pelo rival].

Autor do gol, Mazinho é o segundo jogador agachado no Paysandu campeão da Série B de 1991 – Edgar (quarto em pé) e Rogerinho (penúltimo agachado) também empataram com a Bulgária. À direita, ele no álbum do Brasileirão 95

“EDGAR – Tem uma origem curiosa. Saiu do futebol peladeiro para a equipe profissional da Tuna, que em 1985 sagrou-se campeã brasileira da Taça de Prata. Foi titular na gloriosa campanha cruzmaltina. Virou remista ano passado, quando foi trocado por Aleixo. É habilidoso e guerreiro em campo. Intempestivo, é um campeão de cartões. Ano passado foi suspenso sete vezes: duas por cartão vermelho e quatro por cartões amarelos. Neste ano, vai cumprir a primeira suspensão na próxima partida do Remo, por ter sido expulso no último Re-Pa” [em 1991, integraria o Paysandu campeão da Série B, sendo especialmente decisivo na semifinal contra o Americano, ao marcar o golaço de falta que forçou a decisão por pênaltis – onde o Papão levaria a melhor, garantindo ali o acesso antecipado à elite].

“ZÉ AUGUSTO – Tem passe preso no Paysandu, onde iniciou a carreira na divisão de juniores. É profissional há quatro anos e já foi sondado por grandes clubes do país, mas continua bicolor desde o início da carreira. É natural da cidade de Ourém. Joga com elegância, destruindo e construindo sempre de cabeça erguida. Consciente do seu valor e profissional dedicado, Zé Augusto é um dos jogadores que melhor ganha no Pará, mesmo sendo prata de casa” [Não confundir com o atacante Zé Augusto revelado na virada do século pelo mesmo clube].

“MAZINHO – É baiano, mas se considera um paraense por adoção. Surgiu no futebol do interior, defendendo a seleção de Rondon do Pará, em 1986, no antigo Intermunicipal. Em 1987, iniciou a carreira profissional no Expressinho do Paysandu. No mesmo ano, cumpriu empréstimo no Yamada. No ano seguinte, entrou na equipe principal do Paysandu, lançado por Givanildo Oliveira. Desde então, se mantém como titular. Pratica um futebol muito voluntarioso” [Campeão brasileiro da Série B com o Paysandu em 1991, levantaria o Estadual de 1994 com o Remo].

“ROGERINHO – É um dos três únicos desta onzena que não são paraenses. É paulista (os outros dois são Samuel, mineiro, e Paulo Verdun, carioca). Está no Paysandu desde junho do ano passado, quando chegou juntamente com o conterrâneo Eduardo, ambos emprestados pelo Botafogo de Ribeirão Preto. Já neste ano, teve seu passe comprado pelo Papão, o que confirma a boa qualidade do seu futebol. Muito técnico, Rogerinho é um meia que sabe jogar sem bola, isto é, sabe se deslocar em campo explorando os melhores espaços nos melhores momentos” [Na realidade, havia outros não-paraenses na seleção, como o próprio Mazinho ou o amapaense Tiago, além do cortado catarinense Cabinho. Rogerinho é o único presente nos dois títulos do Papão na Série B, em 1991 e em 2001, levantando ainda a Copa dos Campeões de 2002 e participando do triunfo na Bombonera, recuperando-se para a torcida da imagem de carrasco que construiu ao marcar pelo rival o gol do penta estadual remista em 1997]

“EDIL – Tem uma história curiosa. Surgiu nas divisões inferiores do Paysandu. Projetou-se em 1987, como ponta-artilheiro. Foi irresistível tanto no Campeonato Estadual como no brasileiro/Módulo Branco. Em 1988, surpreendeu: foi por conta própria para o Marítimo, da Venezuela, a convite do irmão Bebeto, ex-Remo e Paysandu. Após muita polêmica, comprou o passe. Virou ídolo dos venezuelanos e mais uma vez surpreendeu: voltou para Belém. Ano passado esteve perto de assinar com o Remo por duas vezes e chegou a se apresentar na Curuzu como contratado do Paysandu, mas permaneceu fora do futebol. Neste ano, foi finalmente contratado pelo Paysandu, emprestando o passe por seis meses. É artilheiro do Parazão 90 com dez gols e o principal jogador do momento no Pará” [Depois apelidado de Highlander, integrou o Remo semifinalista da Copa do Brasil de 1991, rendendo um contrato com o Vasco e depois com o Vitória. Sem êxito, voltou ao Pará para ser Rei, sendo o maior artilheiro do Re-Pa na era Mangueirão. Figura azulina no pentacampeonato nos anos 90, voltou à Curuzu para ser campeão em 2000 e ir às semifinais da segundona. Seu sobrinho, também apelidado de Bebeto e outro a jogar na dupla Re-Pa, teve passagens por Flamengo e Corinthians]

Mazinho defendeu o Paysandu de 1987-95, salvo uma passagem pelo Remo em 1994. À esquerda, é observado pelo futuro messias santista Giovanni em Re-Pa registrado pelo Diário do Pará. A foto direita é daquela Placar de 2005

“AGEU – Cumpre sua segunda temporada como profissional. É monte-alegrense, mas foi descoberto pela Tuna no futebol santareno. Mesmo sem alcançar grande destaque, foi artilheiro da Tuna e vice-artilheiro do Campeonato Estadual de 1989. Neste ano está repetindo o feito. É o maior goleador da Tuna e o segundo na artilharia do certame. Atravessa sua melhor fase. Coma orientação do treinador Luís Paulo, vem aprimorando muito o posicionamento na área e até o próprio oportunismo” [goleador na Tuna campeã da Série C em 1992, disputou pelo Remo a artilharia da Série A em 1993 e foi outra figura carimbada dos títulos noventistas do Leão].

Diferentemente do que o Uruguai fez em 1978, a Bulgária usou seu time principal: Iliya Valov, Emil Dimitrov, Trifon Ivanov, Pavel Dochev e Kalin Bankov; Ivaylo Yanchev, Hristo Stoichkov e Krasimir Balakov; Emil Kostadinov, Nikolay Tudorov e Georgi Georgiev foram os titulares visitantes há 30 anos, após todos terem entrado em campo 24 horas antes contra o Brasil. No decorrer do jogo, também ingressaram Zarko Pachev, Petar Mihtarski e Yordan Lechkov, respectivamente nos lugares de Stoichkov, Balakov e Georgiev.

A avaliação técnica da partida não foi unânime. Para o jornal O Liberal, “o nível técnico do jogo foi equilibrado e a seleção búlgara, apesar de ter jogado sábado em Campinas contra o Brasil, apresentou principalmente no primeiro tempo um bom volume de jogo, criando situações de gols”. A Província, por sua vez, opinou que “não foi um jogo bom tecnicamente, mas pelo menos o torcedor que foi ao Mangueirão viu dois jogadores paraenses se destacarem: Chico Monte Alegre e Mazinho”. Para o Diário do Pará, “o confronto entre duas escolas completamente opostas tornou o jogo extremamente agradável”, descrito como “um amistoso proveitoso”, “repleto de movimentação e alternativas, agradando sensivelmente”.

Para o desagrado da torcida, que se manifestava a favor de um uniforme estadual, a seleção paraense usou o uniforme brasileiro mesmo. Só O Liberal descreveu o primeiro tempo, reportando que “a Seleção Paraense começou de forma fulminante e até os 12 minutos tinha o domínio completo do jogo, onde desperdiçou várias oportunidades com Ageu e Edil. A seleção da Bulgária aos 12 minutos fez o primeiro ataque, numa descida pela direita com Stoichkov, que chutou forte e Chico Monte Alegre desviou a bola para escanteio. Aos 25 minutos, aconteceu o melhor lance do primeiro tempo. Paulo Verdun fez um longo lançamento para Ageu, que, entre os zagueiros adversários, ajeitou a bola como quis, passou pelo zagueiro e mano a mano com o goleiro tentou mais um drible e perdeu a bola. Já aos 35 minutos, Belterra perdeu a bola para Kostadinov, que da linha de fundo cruzou forte e Samuel defendeu bem”. Afinal, os gols só vieram na segunda etapa.

Segundo O Liberal, “no segundo tempo, aos cinco minutos de partida, a zaga paraense vacilou na marcação e o ponteiro Kostadinov entrou livre e chutou à meia altura para inaugurar o placar”. A reação veio já no minuto seguinte. Segundo A Província, “nem bem os búlgaros comemoravam o gol, a Seleção do Pará teve um escanteio a seu favor, Edgar cobrou com perfeição e Mazinho furou a zaga adversária e de cabeça empatou o amistoso”. Mais detalhado, O Liberal reportou ainda que “aos 13 minutos, Mazinho fez uma jogada individual e chutou uma bomba para a defesa de Valov. Em seguida, o treinador Luís Paulo tirou Bebeto e Ageu para as entradas de Luiz Carlos e Tiago. A seleção caiu ligeiramente de produção enquanto a Bulgária passou a tocar a bola, apresentando sinais de cansaço. O Pará ainda teve duas chances de marcar, com Luiz Carlos e Edil, contudo o goleiro Valov mostrou muita categoria e arrojo nos chutes dos paraenses. O jogo foi dirigido por Antônio Macedo, com um trabalho regular, já que deixou os búlgaros usar de violência em alguns lances. Luiz Júlio Lima e Jaime Batista foram os bandeiras”. 

A quarta e última vez em que a seleção brasileira esteve no Mangueirão, contra a Argentina de Guiñazú (ao fundo) pelo Superclássico das Américas de 2011. Foto oficial da CBF

Sobre o jogo, o Diário do Pará elogiou especialmente Zé Augusto, Edgar e Mazinho, descrito como “o melhor de todos, e Luís Paulo provou competência em fazer um time com dois cabeças de área altamente agressivos. Infelizmente choveu muito, mas o gramado do Mangueirão assim mesmo não comprometeu o jogo, prejudicando apenas (…) Tiago naquele lançamento que nenhum gringo ia pegá-lo na corrida. Que senso de colocação tem o time búlgaro e taticamente como dá aulas em campo”. “Foi possível colher algumas informações da equipe visitante. Segundo o professor, a Bulgária não vai disputar a Copa por falta de experiência da sua equipe (média de 22 anos) e pelo grupo forte em que foi enquadrada (Romênia e Dinamarca)”.

O que os três jornais convergiram foi em apontar a própria falta de torcida local. Se O Liberal registrou que o público pagante foi de exatos 7.055, A Província foi mais enfática desde o próprio título da matéria pós-jogo, que foi: “Seleção Paraense jogou bem, mas público foi decepcionante”. Relatou-se então que “foi superior a um milhão de cruzeiros o prejuízo que a Federação Paraense de Futebol teve para fazer a Seleção da Bulgária jogar domingo passado, no Mangueirão, contra a Seleção Paraense. Pouco mais de 7 mil torcedores pagaram ingressos para assistir o confronto que terminou empatado em 1 a 1. A arrecadação, que se inferior a 1,5 milhões de cruzeiros daria prejuízo à FPF, somou apenas Cr$ 521.400,00. Mas valeu a experiência, porque o selecionado búlgaro, que havia perdido para a Seleção Brasileira por 2 a 1 sábado à noite, no estádio Brinco de Ouro, em Campinas, diante de mais de 45 mil torcedores que chegaram a vaiar o selecionado nacional, acabou valorizando o futebol paraense, embora seus jogadores demonstrassem visível cansaço”.

O Diário do Pará também lamentou: “Aos promotores do amistoso, faltou sorte. Primeiro, porque a antecipação de segunda para domingo não alcançou o grande público. Muita gente nem tomou conhecimento. O horário da programação também não ajudou. Enfim, houve um desencontro generalizado. É oportuno salientar, entretanto, que o futebol paraense necessita de intercâmbio e o público dificilmente deixará de corresponder. Se desta vez não foi possível, paciência. É importante que outras promoções deste porte sejam viabilizadas”. Em outra coluna do jornal, deu-se “aplausos à FPF, pois seus dirigentes lavraram o maior tento dos últimos 10 anos, ao trazer aqui a Seleção da Bulgária, num arroubo de coragem e audácia. A resposta da galera e até mesmo de muitos coleguinhas de imprensa foi lastimável”.

O mesmo Diário, porém, teceu algumas cornetas à federação: “A torcida não gostou da seleção paraense ter usado o uniforme do Brasil. Pior mesmo foi a justificativa: a FPF não conseguiu camisas do Pará. Também a ausência da bandeira do Pará não foi bem aceita. Ademais, a CBF acabou sendo homenageada numa programação em que não contribuiu com nada. Ao contrário, só atrapalhou”. A Província, por sua vez, salientou ainda que “a Federação Paraense de Futebol não vai ficar com o prejuízo provocado pelo amistoso internacional entre a Seleção Paraense e Seleção da Bulgária. O governo do Estado resolveu assumir o prejuízo depois que a Confederação Brasileira de Futebol se negou a mandar o selecionado búlgaro a Belém. Ontem, antes de deixarem Belém, os búlgaros foram conhecer os pontos turísticos da cidade e a ilha balneária do Mosqueiro, convidados pelo presidente da FPF, Euclides Freitas Filho”. 

Se Stoichkov chegou a comentar em algum treino do Barcelona em 1996 com Giovanni sobre o Mangueirão ou Mosqueiro, não se sabe. O que se sabe é que aquela Bulgária assumida como ainda imatura floresceu rápido, indo às semifinais da Copa do Mundo de 1994 após jamais ter vencido um só jogo nos cinco Mundiais anteriores. Também se sabe que a seleção do Pará só foi desde então retomada para jogos de veteranos – o trauma financeiro parece ter pesado mais do que o bom resultado esportivo e, além disso, Ricardo Teixeira satisfez a FPF ainda em 1990, com o Mangueirão recebendo em 8 de novembro um 0 a 0 com o Chile pela “Taça da Amizade”. Ela marcava o reencontro entre as duas seleções após a confusão envolvendo o goleiro Rojas em 1989 e 33 mil presentes viram Falcão escalar Sérgio, Gil Baiano (Luís Henrique), Paulão (Cléber), Adilson e Lira; César Sampaio (Leonardo), Donizete Oliveira, Cafu e Neto (Valdeir); Careca Bianchesi e Charles.

Em outubro de 1997, o Mangueirão recebeu o Marrocos em noite incomum, em que os dois gols da vitória brasileira foram anotados por Denilson, não exatamente um artilheiro pela seleção.  Diante de 30 mil pagantes, Zagallo usou Taffarel, Cafu (Russo), Júnior Baiano, Gonçalves (Cléber) e Zé Roberto; Zé Elias, Emerson, Juninho Paulista e Denilson; Donizete Pantera e Dodô (Christian). Em outubro de 2005, veio o único jogo válido pelas Eliminatórias. O Brasil já estava classificado à Copa, mas Parreira enfim permitiu ao paraense ver uma seleção verdadeiramente representativa em qualidade disponível, ao invés dos times experimentais dos antecessores. Dessa vez, 47 mil compareceram para ver Dida, Cafu, Lúcio, Juan e Roberto Carlos; Emerson, Zé Roberto (Juninho Pernambucano), Kaká e Ronaldinho Gaúcho (Alex); Adriano (Robinho) e Ronaldo. Os brasileiros fizeram Dudamel buscar três vezes a bola no gol venezuelano, em assinaturas de Adriano, Ronaldo e Roberto Carlos. 

Por fim, Ricardo Teixeira deu em 2011 um afago a quem se vira de fora da Copa do Mundo. Permitiu a Belém receber um Brasil x Argentina, ainda que com seleções caseiras. E 43 mil completaram à capela o hino antes da prática ficar mais comum, para verem o time com: Jefferson, Danilo, Dedé, Réver e Cortês (Kléber); Ralf, Rômulo e Lucas Moura (Diego Souza); Ronaldinho Gaúcho, Neymar e Borges (Fred). Os anfitriões ganharam o Superclássico das Américas com gols de Lucas e Neymar em uma Argentina que, sem os lesionados Verón, D’Alessandro e Riquelme, pudera estrear Montillo. Na mesma noite da partida, outro afago do cartola: anunciou-se verbalmente que Belém seria recompensada como sede da Copa América de 2015. Mas Teixeira caiu em 2012. Sobreveio uma troca com o Chile para que o Brasil viesse a sediar o torneio só em 2019. Onde nem a presidência do paraense Coronel Nunes evitou que nova promessa da CBF terminasse descumprida…

Seleção do Pará só foi retomada para juniores ou veteranos, como nesse registro no facebook do bigodudo Nildo, autor do gol do título do Grêmio na Copa do Brasil de 1994. O primeiro agachado é Edil, presente nos jogos de 1987 e 1990