Em 8 de julho de 1990, o Estádio Olímpico de Roma serviu de palco à consagração de uma das maiores seleções da Alemanha na história. Que a Copa do Mundo tenha ficado devendo em qualidade naquela edição, não é isso menospreza o timaço treinado por Franz Beckenbauer, muitíssimo digno do título conquistado contra a Argentina. A Mannschaft contava com jogadores históricos por todos os lados, de Lothar Matthäus a Jürgen Klinsmann, de Andreas Brehme a Klaus Augenthaler. E protagonizou uma campanha simbólica na Itália não apenas pela superioridade em campo, mas também pelo clima positivo que se vivia no país. Embora ainda “Alemanha Ocidental” no torneio, aquele troféu seria de toda uma nação que se reunificava, oito meses depois da queda do Muro de Berlim.

Aproveitando a data, relembramos os detalhes da Alemanha tricampeã do mundo. Vale conferir também, sob a perspectiva argentina, o texto dos amigos do Futebol Portenho.

Matthäus, capitão do tri, craque da Copa

Qualquer referência à Alemanha Ocidental tricampeã precisa começar, impreterivelmente, por Lothar Matthäus. Camisa 10 e capitão, também seria o grande craque daquela conquista. Aos 29 anos, o meio-campista já era bastante aclamado por sua trajetória. Surgiu no Borussia Mönchengladbach, protagonizou uma das equipes mais fortes da história do Bayern de Munique e naquela época envergava a camisa da Internazionale, referência do time que sobrou na Serie A em 1988/89. Um craque que até possuía, como reserva, a Euro 1980 em seu currículo de campeão pela seleção, mas que ainda aguardava chegar seu momento em uma Copa do Mundo. Os vices em 1982 e 1986 moldaram um pouco mais o caráter competitivo do astro.

A Copa de 1990 exibe a versão mais dominante de Matthäus, um jogador completo por natureza. Ao longo da competição, o camisa 10 atuou como peça central no meio-campo da Alemanha. Dono de um vigor físico excepcional, cobria uma enorme faixa do campo e avançava de área a área. Desempenhava um importante papel defensivo, especialmente pelas vezes em que bateu de frente com os craques adversários – gente do nível de Ruud Gullit, Paul Gascoigne, Carlos Valderrama e Dragan Stojkovic. Quase sempre se sobressaiu, também por organizar o ataque e desequilibrar por seus avanços mais à frente. O jogo da Mannschaft fluía a partir dos lançamentos de Matthäus. E o capitão também aparecia para definir, com direito a quatro gols anotados durante o Mundial. Ao final do ano, merecidamente, ganharia a Bola de Ouro e o prêmio inaugural de melhor do mundo da Fifa.

Brehme e o gol decisivo de um lateral histórico

Andreas Brehme ganhou o direito de se reivindicar como herói do título da Alemanha Ocidental em 1990. O lateral assumiu a responsabilidade contra a Argentina e converteu o pênalti decisivo, sem se amedrontar com a fama de Sergio Goycochea nos 11 metros. “Na Copa do Mundo, tínhamos três cobradores prontos. Poderia ser qualquer um a bater, caso alguém estivesse machucado ou fosse substituído. Matthäus não quis bater [por ter precisado trocar durante o intervalo suas chuteiras, após oito anos de uso nos jogos da seleção, desconfortável com o novo calçado] e Völler tinha sofrido a falta, então eu peguei a bola. Eu me senti muito seguro, o único problema é que precisei esperar mais de dois minutos para finalmente bater o pênalti. Os argentinos reclamaram, chutaram a bola, fizeram de tudo para tentar me aborrecer. Eu apenas me concentrei na penalidade e fiquei feliz quando entrou”, contaria o lateral, anos depois, à revista 11 Freunde.

Quando chegou à Copa de 1990, Brehme também tinha uma carreira bem estabelecida. Após estourar com a camisa do Kaiserslautern, defendeu o Bayern no final dos anos 1980 e se mudou a Milão junto com Matthäus, igualmente importante na conquista da Serie A em 1988/89. Presente no vice mundial em 1986, o lateral era uma arma a mais aos seus times, em tempos nos quais a maioria das equipes atuava no 3-5-2. O camisa 3 não apenas avançava no apoio, como também centralizava para armar. Brehme tinha uma qualidade técnica excepcional com ambos os pés e usava isso a seu favor, seja para criar oportunidades com cruzamentos ou para finalizar. Enquanto a canhota era mais forte, a direita era mais precisa, e isso contribuía muito nas bolas paradas. O gol contra a Argentina seria o apogeu de um ala que, por sua inteligência e por suas habilidades, merecia o rótulo de craque.

O ataque feito de bólidos

A Alemanha Ocidental sempre contou com grandes centroavantes. Muitos deles, decisivos não somente pelo faro de gol, mas também pela imposição física. Em 1990, porém, a linha de frente do Nationalelf contava muito mais com a mobilidade de seus jogadores para desestruturar as defesas, com dois dos maiores atacantes que o país já formou. Rudi Völler e Jürgen Klinsmann estavam distantes de representar o estilo ‘Panzer’, do tanque de guerra germânico. Compensavam isso com uma combinação letal entre técnica e intensidade, que permitiu a ambos sempre guardarem muitos gols. Como estepe aos dois, Karl-Heinz Riedle era um competente substituto, por mais que não tenha causado tanto impacto na Itália.

Völler era o mais tarimbado da dupla titular, presente também na Copa de 1986 e autor de um dos gols na final. Idolatrado no Werder Bremen, chegou ao Mundial de 1990 tinindo, após uma grande temporada com a Roma. Balançaria as redes três vezes durante a campanha e ainda sofreria o pênalti decisivo durante a final, apesar dos mata-matas acidentados por suspensão e contusão. Klinsmann, por sua vez, disputava sua primeira Copa. O camisa 18 tinha a experiência de boas campanhas nas Olimpíadas e na Eurocopa, mas construía ali sua história nos Mundiais. Fantástico em seus tempos de Stuttgart, chegara à Internazionale para completar o trio alemão-ocidental após o Scudetto. E faria uma grande Copa, especialmente por sua exibição fantástica contra a Holanda, talvez a melhor de sua carreira pela seleção.

Um meio-campo repleto de técnica

Matthäus era o principal jogador da Alemanha e servia de esteio ao meio-campo. Brehme também aparecia por ali, embora aberto como ala. Mas a força da Mannschaft na Copa de 1990 também correspondia à qualidade como um todo que o setor possuía. A equipe teve diversas mudanças na faixa central ao longo do torneio, mesmo sem alterar o seu esquema tático. Contava com jogadores que mantiveram um alto nível, especialmente pelos dois que começaram a final: Thomas Hässler e Pierre Littbarski. Mas não que os outros tenham deixado tanto a desejar, com Uwe Bein ocupando o setor durante o início da campanha e Olaf Thon, com uma predileção por se infiltrar nas linhas, saindo como um dos melhores em campo durante a semifinal contra a Inglaterra.

Littbarski, assim como Matthäus, era um dos únicos a disputar as duas finais perdidas pela Alemanha Ocidental na década de 1980 e se punha como o líder mais carismático do elenco. Antes um ponta muito arisco, o veterano atuava mais recuado durante a Copa de 1990. Era um armador de extrema qualidade técnica, com habilidade de sobra para desmontar os fortes esquemas defensivos vistos naquele Mundial a partir de seus dribles. A lenda do Colônia gastou a bola nos mata-matas, sobretudo contra a Holanda, e se saiu entre os melhores da decisão – mesmo se recuperando de um problema no tornozelo, que o tirara da semifinal. Ao seu lado, Thomas Hässler era um dos mais jovens do grupo. Jovem, mas não inexperiente, especialmente depois de ter anotado o gol que valeu a classificação do Nationalelf ao Mundial. Tinha muito dinamismo e também velocidade, que deixavam mais evidentes sua qualidade técnica. Jogava em diferentes posições do meio para frente e o entrosamento com Littbarski no Colônia ajudava.

Um trio de zaga impecável

A Alemanha Ocidental de 1990 nem sempre é lembrada por seus jogadores de defesa. Entretanto, o sucesso da Mannschaft no Mundial se deve bastante à capacidade dos homens no setor e à maneira como eles renderam durante a fase final da competição. Era um trio praticamente intocável nas escalações e que segurou as pontas quando o ataque não conseguia se impor. A formação começava com Klaus Augenthaler, um dos maiores ídolos da história do Bayern, que fazia jus ao passado de grandes líberos da seleção alemã. O camisa 5 tinha qualidade para trabalhar a bola com os pés e chegava à frente constantemente para colaborar com a articulação, embora sua maior virtude fosse dominar as coberturas dentro da área. Aos 32 anos, era uma das lideranças naturais nos vestiários e logo se aposentaria.

Ao seu lado, Guido Buchwald foi um dos melhores defensores da Copa do Mundo. Outro jogador que despontou pelo Stuttgart, estava em seu primeiro Mundial, embora tivesse atuado em Eurocopa e Olimpíadas pela seleção. O berlinense se apresentou com uma regularidade imensa, deixando o melhor para o final. Arrebentou como líbero contra a Holanda nas oitavas, foi o grande responsável por conter a pressão da Inglaterra na semifinal e anulou Diego Maradona na decisão. Receberia elogios rasgados de Franz Beckenbauer por isso. Ao seu lado, quem se firmou por ali na reta decisiva da Copa foi Jürgen Kohler, que se mudara pouco antes ao Bayern de Munique. Era um zagueiro de muita potência física, ainda que também tratasse bem a bola quando caía em seus pés. E havia Thomas Berthold, outro polivalente, que vestia a camisa da Roma – após surgir no Eintracht Frankfurt e passar também pelo Verona. Começou o Mundial como zagueiro e jogou como volante, antes de ser deslocado à ala direita, onde tomou a posição de Stefan Reuter.

Illgner honrava a escola alemã de goleiros

O mais jovem entre os titulares da Alemanha Ocidental na Copa de 1990 era o seu goleiro. Bodo Illgner tinha apenas 23 anos e havia sido reserva na Euro 1988. Entretanto, crescia na meta do Colônia e despontaria para tomar a posição no Mundial. Muitas vezes o camisa 1 era visto com desconfiança pela imprensa estrangeira, principalmente por não ter o renome de um Harald Schumacher ou de um Sepp Maier. Mas, preparado na seleção pelo próprio Maier, então preparador de goleiros do Nationalelf, o novato escreveria sua própria história com ótima participação durante a Copa.

Muito ágil sob os paus e dono de grande envergadura, Illgner tinha como um de seus pontos fortes ainda o posicionamento e as saídas de gol. Era muito difícil pegar o goleiro desprevenido. Assim, ele transmitia confiança em 1990 e seria fundamental nos momentos decisivos da campanha. Foi um dos melhores do time contra a Inglaterra, na semifinal, quando colecionou ótimas defesas e pegaria um pênalti na disputa que confirmou a classificação da Mannschaft à decisão. Contra a Argentina, não seria muito exigido, mas apareceu seguro em duas bolas que serviram para garantir o tricampeonato de seu país. Na época, tornou-se o primeiro arqueiro a terminar uma final de Mundial sem sofrer gols.

Franz Beckenbauer volta a imperar

Como jogador, Beckenbauer disputou três Copas do Mundo. Em todas elas, ajudou a escrever uma grande história. Ainda garoto, seria um dos melhores da Alemanha Ocidental que alcançou a decisão em 1966. Liderou a campanha do Nationalelf às semifinais em 1970, com sua emblemática atuação com o braço imobilizado no Jogo do Século contra a Itália. E terminou de se eternizar como lenda ao faturar o bicampeonato em 1974 como capitão. O Kaiser carregaria essa aura como treinador, assumindo a equipe nacional em 1984, num momento de crise. Os entraves internos e a má campanha na Euro 1984 fizeram com que os dirigentes recorressem ao velho ídolo – em seu primeiro trabalho como técnico.

A campanha até a decisão de 1986 não contou com muito brilhantismo da Alemanha Ocidental, que até fez jogo duro contra a Argentina, mas se valia muito mais da qualidade de seu elenco do que propriamente de um coletivo bem montado. Beckenbauer iniciou um processo razoável de renovação e ainda teve outro percalço no caminho, com a queda na semifinal da Eurocopa jogada em casa em 1988. No entanto, assim como o técnico, a Mannschaft também amadureceu em 1990. Contou com o fortalecimento de uma geração e também com a consistência garantida por seu treinador. O Kaiser reafirmava sua grandeza com a taça, repetindo o feito antes restrito a Zagallo, de ser campeão como jogador e também como treinador. Após anunciar sua saída durante a campanha, se despediria em alta da equipe nacional.

Lendas mesmo entre os reservas

É importante frisar que aquele time da Alemanha não se continha apenas aos bons jogadores frequentes no time titular. Os reservas muitas vezes correspondiam à altura e vários deles possuem carreiras aclamadas nos grandes clubes da Bundesliga. Andreas Köpke é visto como um dos maiores goleiros do mundo nos anos 1990, justo herói na Euro 1996. Raimond Aumann e Hans Pflüger estão na galeria de grandes ídolos do Bayern nos anos 1980, assim como Stefan Reuter, Karl-Heinz Riedle e Frank Mill representam bastante ao Borussia Dortmund. Günter Hermann era peça central num Werder Bremen de muitos títulos, Uwe Bein envergou com sucesso principalmente a camisa do Eintracht Frankfurt, Paul Steiner se despediu como um gigante do Colônia. E havia um novato Andreas Möller, o mais jovem do elenco, que pouco depois se confirmaria como um dos mais talentosos meio-campistas da Mannschaft e lideraria o Dortmund aos seus maiores feitos.

Um clima favorável nos bastidores

Embora a Alemanha Ocidental contasse com bem mais de 11 jogadores em condições de brigar por espaço no time titular, o clima de companheirismo prevaleceu durante a Copa do Mundo. A união do grupo seria um diferencial em relação a outras campanhas, especialmente se comparando com os Mundiais ao redor. Se em 1986 o elenco se rachava em grupos e isso dificultava o entendimento dentro de campo, em 1994 uma guerra de vaidades seria bastante prejudicial ao sucesso nos Estados Unidos. Em 1990, o objetivo em comum permaneceu claro a todos e isso se reverteu nas partidas. Até mesmo medalhões que não se davam, como Matthäus e Klinsmann, baixaram a guarda. Havia uma clara confiança ao redor do time. Pesava também a liberdade garantida por Beckenbauer na concentração, com a presença das famílias e das esposas sem restrições.

Taticamente exemplar

A Copa do Mundo de 1990 não seria arrojada taticamente. Muito pelo contrário, a maioria das equipes preferia seguir a tendência da época e montar suas escalações no 3-5-2. Dentro disso, contudo, nenhuma outra teve o equilíbrio da Alemanha Ocidental. Por vários dos motivos já listados acima, Beckenbauer teve em mãos um time extremamente funcional – talvez o maior esquadrão desenhado no 3-5-2 em todos os tempos. Havia um líbero com ótima leitura de jogo e zagueiros bons no combate; dois laterais com capacidade na subida e que trabalhavam bem com os companheiros ao lado; um meio-campo bastante dinâmico, com chegada à frente; e dois atacantes complementares, especialmente pela aceleração que conseguiam imprimir. Isso permitiu algumas atuações bastante seguras do Nationalelf, totalmente centrado em sua força.

Demolindo os oponentes na fase de grupos

A Alemanha Ocidental começou a Copa de 1990 provando o tamanho de seu favoritismo. E que o principal desafio da fase de grupos viesse logo na estreia, a equipe se saiu muitíssimo bem: goleou a Iugoslávia por 4 a 1. Autor de dois gols na tarde em Milão, Matthäus fez aquela que seria logo de cara sua melhor exibição ao longo do torneio. O capitão neutralizou o craque adversário, Dragan Stojkovic, e ainda apareceu bastante no ataque para auxiliar os companheiros. Acabou balançando as redes em dois chutaços de fora da área. Outro a aparecer muito bem foi Andreas Brehme, originando os tentos de Klinsmann e Völler.

Na segunda rodada, a Alemanha Ocidental pegou a equipe mais fraca do grupo, os Emirados Árabes Unidos. Cansou de perder gols e, ainda assim, enfiou 5 a 1 nos emiratenses. Völler assinalou mais dois tentos em Milão, enquanto Klinsmann, Matthäus e Bein complementaram o placar. Classificada, a Mannschaft empatou com a Colômbia no fechamento do Grupo D, por 1 a 1. As melhores chances seguiram com os germânicos, mas o primeiro gol só veio aos 43 do segundo tempo, com o substituto Littbarski. Os Cafeteros, que faziam uma ótima partida contra um adversário desfalcado por Brehme, arrancaram a igualdade com uma tacada de sinuca de Carlos Valderrama para Freddy Rincón guardar. Mas o serviço já estava feito pelo Nationalelf.

Dominando os rivais nos mata-matas

A Alemanha Ocidental enfrentou seus maiores desafios nos mata-matas da Copa do Mundo. E as oitavas de final logo previam uma pedreira, com o embate diante da rival Holanda. A Oranje não havia feito uma grande fase de grupos, mas seguia entre os favoritos após o título da Eurocopa – e pelo elenco fortíssimo que incluía Marco van Basten, Ruud Gullit, Frank Rijkaard e Ronald Koeman. O Nationalelf se vingou da derrota na semifinal da Euro 1988 em grande estilo no San Siro. As expulsões de Rijkaard e Völler logo aos 22 minutos, após a famosa cusparada do volante no atacante, arrefeceram a pressão inicial dos holandeses e abriram o jogo aos alemães-ocidentais. A equipe se defendeu bem e explorou bastante os contragolpes, com Klinsmann ganhando espaço para flutuar na frente. Klinsi abriu o placar ao aproveitar o cruzamento de Buchwald no início do segundo tempo e, depois de uma série de chances de sua equipe, Brehme ampliou com um chute colocado no cantinho. Só no fim é que Koeman descontaria, cobrando pênalti.

A Alemanha Ocidental cumpriu sua parte nas quartas de final contra a Tchecoslováquia, em vitória econômica por 1 a 0. Matthäus marcou de pênalti o gol, após falta sofrida por Klinsmann dentro da área. Foi uma excelente exibição do Nationalelf na marcação, dando pouquíssimas chances aos oponentes e neutralizando seu forte jogo aéreo com Tomás Skuhravy. Além disso, os germânicos criaram chances suficientes para construir um placar mais elástico, mas pararam nas defesas do goleiro Jan Stejskal e em bolas salvas em cima da linha. Somente no fim, com um jogador a mais, que os alemães-ocidentais deram um pouco de mole – nada que os derrubasse da competição, no entanto.

Já nas semifinais, outro clássico à Alemanha Ocidental, diante da Inglaterra. As duas equipes fizeram um dos melhores jogos da Copa e também o mais difícil aos futuros campeões, apesar da classificação. Com Paul Gascoigne comendo a bola no meio-campo, os Three Lions dominaram o primeiro tempo e deram muito trabalho a Illgner. A Alemanha só melhorou no início da segunda etapa, quando Brehme abriu o placar em cobrança de falta que desviou em Paul Parker e encobriu Peter Shilton. Depois disso, a pressão inglesa seria incessante até o empate arrancado por Gary Lineker. A prorrogação foi aberta e os germânicos se mostravam mais inteiros. Foram deles as melhores chances, apesar de um gol anulado e de uma bola na trave dos Three Lions. Com o empate por 1 a 1 preservado, a definição ficou aos pênaltis. Os alemães cobraram com precisão, enquanto Illgner defendeu o chute de Stuart Pearce e Chris Waddle mandou para fora. O placar de 4 a 3 levou o time de Beckenbauer à final.

A revanche contra a Argentina

A decisão da Copa de 1986 ainda estava fresca na memória da Alemanha Ocidental. Sete jogadores que perderam a final no México seguiam também no elenco que disputou o Mundial da Itália. E o reencontro com Diego Maradona parecia a chance perfeita de revanche. A Argentina de Carlos Bilardo elevava o pragmatismo à máxima potência em 1990. Contava com uma defesa dura, um goleiro inspirado e um craque que, mesmo lesionado, proporcionava temores. E a estratégia de forçar a disputa por pênaltis seria mais visada no Estádio Olímpico de Roma, onde a Albiceleste precisou se virar sem Claudio Caniggia e outros três jogadores suspensos. Bilardo reforçou ainda mais sua marcação para o reencontro com os alemães.

Segundo os veteranos da campanha, em entrevistas posteriores, a Alemanha Ocidental pegou a Argentina com uma confiança extrema de que levaria o título. O Nationalelf sabia que seu time havia evoluído bastante em quatro anos e que a Albiceleste não era mais a mesma, especialmente sem contar com um Maradona em suas melhores condições. E o que se viu em Roma foi o jogo de um time disposto a atacar e outro limitado a se defender. As chances no primeiro tempo se concentravam todas na área de Sergio Goycochea, embora a noite descalibrada de Völler atrapalhasse a Mannschaft. Enquanto isso, a defesa mais difícil de Illgner aconteceria em uma bola recuada por Brehme.

No segundo tempo, a Alemanha Ocidental aumentou a pressão e os lances se tornavam mais perigosos. Littbarski, Berthold, Völler e Klinsmann tiveram suas oportunidades, mas falharam por pouco. Augenthaler sofreu um pênalti de Goycochea que o árbitro Edgardo Codesal ignorou, antes que Pedro Monzón salvasse um gol contra em cima da linha. Goycochea fez grande defesa em chute de Brehme e a situação parecia se complicar aos argentinos com 20 minutos, quando Monzón foi expulso por uma entrada dura em Klinsmann. Mas, em uma atuação nula da Albiceleste, a arbitragem ruim de Codesal acabaria dando brecha para os sul-americanos ficarem na bronca. Primeiro por um pênalti ignorado em Gabriel Calderón. Depois na marcação sobre Völler aos 40 do segundo tempo, em disputa na qual Roberto Sensini visou a bola.

“Costumo responder sobre aquele pênalti dizendo que alguns árbitros marcariam e outros não. Ele marcou, mas não precisava. Acho que o apito soou porque ocorreram duas ou três situações anteriores em que o árbitro decidiu injustamente contra nós. Honestamente, se ele não tivesse apontado a marca da cal, não teríamos reclamado muito”, diria Völler, anos depois, em entrevista à revista 11 Freunde.

Goycochea até acertou o lado na cobrança de Brehme. Não seria capaz de alcançar a bola certeira, no cantinho, para determinar a Alemanha tricampeã do mundo. No final, ainda haveria tempo a mais um vermelho, a Gustavo Dezotti. A superioridade dos germânicos era clara e, polêmicas à parte por uma arbitragem que prejudicou ambos os times, ganhou quem jogou muito melhor. Matthäus, enfim, erguia a taça que tanto perseguia. E havia uma grande festa dos cerca de 40 mil torcedores alemães que invadiram as arquibancadas do Estádio Olímpico.

A celebração de um país unificado

A classificação da Alemanha Ocidental à Copa de 1990 aconteceu dias depois da queda do Muro de Berlim. Em uma partida tensa contra Gales em Colônia, na qual a vitória seria fundamental à Mannschaft, os jogadores precisaram se desligar do clima de transformação em que o país havia mergulhado uma semana antes para cumprir sua tarefa em campo. E quando a Copa do Mundo se deu, em meio aos processos de reunificação política que seriam assinados três meses depois, a torcida pelo time de Franz Beckenbauer também se espalhou na antiga Alemanha Oriental – que só não se classificou à Itália também por uma derrota na última rodada.

Berlim, com o muro cada vez mais destruído, se tornou o epicentro da comemoração em 8 de julho de 1990. Ainda eram dois países diferentes. Entretanto, mais de 100 mil pessoas, independentemente do lado na capital em restituição, tomaram a avenida Ku’Damm. Outros pontos de concentração se formaram no Portão de Brandemburgo, no Tempodrom e no Lustgarten – com um telão instalado pela Mercedes-Benz já na Berlim Oriental. O tricampeonato mundial ainda seria conquistado por apenas um lado da Alemanha dividida. Historicamente, porém, se marcou como um dos momentos mais importantes da reunificação.

Ninguém se esquece daquela camisa

E se há um símbolo da Alemanha Ocidental campeã do mundo em 1990, este se materializa através da camisa da equipe. O uniforme branco com as três cores em linhas descontinuadas se transformou em um dos mais célebres da história do esporte. Tão reconhecido que seria redesenhado algumas vezes pela Mannschaft, em 2014 e em 2018. Não com a beleza e com a originalidade daquele Mundial da Itália. Nem com a força para representar, de bate-pronto, a história vitoriosa de um time eficiente e dominante.