Romário defendeu o Barcelona por apenas um ano e meio. Pouco tempo, mas suficiente para o Baixinho colecionar atuações lendárias em seu auge. A própria estreia no Campeonato Espanhol, anotando uma tripleta de golaços diante da Real Sociedad, já apresentou como o craque seria capaz de infernizar os zagueiros adversários. E a partida mais lembrada do brasileiro pelo Barça aconteceu há exatos 25 anos. O sábado de clássico no Camp Nou terminou com uma das maiores goleadas registradas pelos catalães em cima do Real Madrid. Imparável, Romário simplesmente acabou com a defesa merengue. Anotou três gols nos 5 a 0 sobre os rivais, em jogo emblemático também ao tetracampeonato nacional faturado pelo ‘Dream Team’ de Johan Cruyff.

Acredite, Romário chegou à semana do clássico com o prestígio em xeque. Até meados de outubro, o Baixinho continuou brilhando no Campeonato Espanhol. Anotou mais dois gols no Osasuna, um no Valladolid, três no Atlético de Madrid (apesar da derrota do Barcelona), um no Racing de Santander e dois no Tenerife. Ocupava, inclusive, o posto de artilheiro da competição. Mas atravessou uma fase de vacas magras a partir do final daquele mês. Em uma sequência de seis rodadas da Liga, o centroavante só anotou um tento, no empate contra o fraco Logroñés no Camp Nou. Também passou em branco em três compromissos pela Champions e no jogo de ida com o Sporting de Gijón pela Copa do Rei. Mas o pior mesmo ocorreu na Supercopa da Espanha.

 

Naquela temporada, a Supercopa foi realizada em dezembro. Então tricampeão espanhol, o Barcelona encarou justamente o rival Real Madrid, dono da Copa do Rei. Seriam os primeiros clássicos de Romário pelo Barça. E eles deixaram lembranças nada felizes ao brasileiro. O jogo de ida aconteceu no Santiago Bernabéu. Embora Hristo Stoichkov tenha aberto o placar aos visitantes, Alfonso e Iván Zamorano comandaram a virada merengue por 3 a 1. Já no reencontro, o empate por 1 a 1 selou a conquista dos madridistas. Titular nos dois jogos, o Baixinho não se saiu bem. E, em meio àquele momento ruim, os ingratos torcedores culés passaram a vaiá-lo.

A perseguição certamente motivou Romário. E o clássico pelo Campeonato Espanhol não tardou, marcado para 8 de janeiro. A chance perfeita para a revanche.  O elenco do Barcelona se fechava ao redor do Baixinho. Às vésperas do embate, Stoichkov saiu publicamente em defesa do amigo. “Todo mundo diz que ele está mal, mas eu não concordo. Acontece com ele o mesmo que ocorreu comigo no final da temporada passada: a bola não entra. Tive essa experiência, por isso falo muito com Romário e o tranquilizo. Na Holanda era mais difícil que passasse por uma seca como essa, porque o nível é inferior e, além do mais, te dão menos pancadas. Mas na Espanha as defesas são duras e os rivais têm mais qualidade. Insisto que o animo, porque é um craque. E craques como Romário não há muitos. Não há dois como Romário. Peço paciência e que não o vaiem”, declarou o búlgaro, ao Mundo Deportivo. E o brasileiro faria jus às palavras do companheiro de ataque.

Além de Romário, Cruyff era um personagem inescapável daquele jogo. Quando ainda calçava chuteiras, justo em seu primeiro clássico contra o Real Madrid, comandou a goleada por 5 a 0 dentro do Bernabéu. O passeio em fevereiro de 1974 repetia a maior diferença aplicada pelos blaugranas sobre os merengues, que não se vivia desde 1957. E, depois disso, foram mais 20 anos de espera para que os catalães implodissem seus rivais de maneira tão categórica. O craque holandês agora estava no banco de reservas. Teve em Romário o seu arauto. Se duas décadas antes o camisa 14 havia anotado um gol e dado duas assistências, o Baixinho trataria de eternizar a sua tripleta.

As provocações do Real Madrid após a conquista da Supercopa foram uma pimenta a mais no clássico. Assim, o gosto de vingança foi compartilhado pelo Barcelona, conforme escreve o Mundo Deportivo: “Poucas vezes vimos a torcida blaugrana tão dedicada à equipe, tão entusiasta, tão extraordinariamente decisiva em empurrar o Barça a uma vitória escandalosa. E poucas vezes vimos o 11 blaugrana tão motivado e tão implacável ante um rival que, como pretendia Cruyff, foi esmagado sem piedade, ainda que sem espírito bélico. Se algo sugeriu uma guerra foi a imagem de um Madrid rendido, como um exército que se bate em franca inferioridade e retirada”.

Romário começaria a decidir o jogo aos 24 minutos. E de que maneira… Acompanhado por Rafael Alkorta, o camisa 10 recebeu o passe de Pep Guardiola dando as costas para o gol adversário. Não parecia um lance tão perigoso quando o Baixinho dominou. Pois aí está a genialidade do craque: transformar uma jogada ordinária em extraordinária. Percebendo a chegada do marcador, o centroavante começou a se virar sorrateiramente. Então, a serpente venenosa deu seu bote: conduzindo a bola com o pé direito, Romário se virou num rompante, partindo em velocidade. O estalo de quem anteviu o gol. O raciocínio rápido que permitia ao artilheiro sempre estar um passo à frente. Enquanto o blaugrana passava ao seu lado, Alkorta tinha dificuldades até para se equilibrar, sem mal entender como o rival fez aquilo. Então, apenas com o goleiro Paco Buyo à frente, o matador definiu meticulosamente. Um chute com a parte de fora do pé, para também surpreender o arqueiro, que só viu a bola rasante passar ao seu lado.

Com o Barcelona aproveitando-se da explosão de Romário, o atacante poderia ter ampliado a diferença no primeiro tempo, mas perdoou. Desta maneira, o massacre se consumou na volta do intervalo. Ronald Koeman assinalou o segundo, em uma de suas fatais cobranças de falta. Depois, o Baixinho voltaria a aparecer, marcando o terceiro aos 11. O tento nasceu a partir de um lançamento magistral de Guardiola, que deixou Miguel Ángel Nadal de frente para o gol. O espanhol dominou e ficou no mano a mano com Paco Buyo, mas não foi egoísta, rolando para o artilheiro bater às redes vazias. Aos 36, a tripleta de Romário se completou, em um presente de Michael Laudrup. Diante do cochilo do adversário, o dinamarquês roubou a bola na lateral da área e rolou para o brasileiro finalizar. Por fim, Romário deu uma assistência cinco minutos depois. Uma tacada de sinuca entre os defensores, deixando Iván Iglesias de frente para o crime. A revanche era doce.

“A chave do resultado esteve, sem dúvidas, no despertar goleador de um Romário imparável e na inspiração coletiva de um Barça que foi colocando estacas em seus rivais durante os momentos oportunos do encontro. Não sei se Romário sonha com futebol durante as noites, mas seguramente que seus marcadores oníricos ideais são Sanchís e Alkorta”, poetizou o Mundo Deportivo. “Romário se converteu no pilar do jogo ofensivo do Barça. Sua velocidade e sua grande astúcia foram essenciais para estourar a defesa do Real Madrid. Seus três gols são uma prova disso. O melhor é que recuperou seu faro de gol, perdido há muitos jogos. Foi um contínuo pesadelo à zaga madridista. Não cabe dúvida que o Barça bailou ao ritmo de samba”.

A ‘manita’ não significou a liderança ao Barcelona, todavia. Naquele momento, os blaugranas já perseguiam o Deportivo de La Coruña no topo do Campeonato Espanhol. A ultrapassagem aconteceu apenas na última rodada, tão amarga aos galegos. Romário, particularmente, foi fundamental à conquista. Contribuiu com mais 14 gols no segundo turno e terminou como artilheiro de La Liga, acumulando 30 tentos. Aquele clássico, no fim das contas, foi apenas o primeiro ato no 1994 brilhante que o Baixinho protagonizou. A seleção brasileira que o diga.