Por Emmanuel do Valle, jornalista e dono do blog Flamengo Alternativo

Quem assistiu aos jogos do Foggia na Serie A italiana daquela temporada 1991-92, há 25 anos, certamente se divertiu e viu muitos gols, a favor e contra os rossoneri. Ao contrário da grande maioria das equipes menores, que se trancavam ao enfrentarem as potências do Calcio, os comandados do tcheco Zdenek Zeman (hoje no Pescara) praticavam um futebol ofensivo ao extremo, sem concessões. Muitas vezes pagavam por isso concedendo gols em demasia, mas conseguiram sacudir o futebol da Bota em meio à sua era de ouro.

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Com os satanelli, outro apelido do clube em alusão ao diabinho mascote, raramente havia placar em branco. Para se ter uma ideia, ao longo da campanha registraram dois empates em 3 a 3 e um em 4 a 4. Venceram marcando cinco gols e perderam sofrendo cinco gols. Arrancaram excelentes resultados com as grandes forças jogando de igual para igual mesmo como visitantes, mas também tomaram uma goleada de oito em casa num jogo em que foram para o intervalo vencendo. Uma equipe para lá de inusitada que vale ter sua curiosa história contada.

foggia - figurinha time 1992

O clube da Apúlia tinha retrospecto modesto na elite italiana até a virada para os anos 90. Somava sete temporadas na Serie A entre a estreia em 1963-64 (sob o nome de Foggia Incedit) até a última participação em 1977-78. Havia conquistado um bom nono lugar em sua primeira temporada, mas muito mais graças ao jogo defensivo “de sobrevivência” do que propriamente à qualidade técnica do elenco.

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Em 1989, o clube havia acabado de subir da Serie C, depois de penar naquela divisão por seis anos, quando decidiu dar uma segunda chance a Zdenek Zeman. O treinador tcheco havia dirigido o time na temporada 1986-87 sem muito sucesso, sendo demitido antes do fim da campanha, mas reabilitaria sua reputação com um bom trabalho na Serie B com o Messina, impulsionando a carreira do goleador Salvatore Schilacci.

Uma razoável oitava colocação na primeira temporada do retorno de Zeman foi seguida pelo título da Serie B em 1990-91 com larga vantagem sobre os principais perseguidores. O Foggia teve ainda, disparado, o melhor ataque da competição com 67 gols em 38 jogos – ainda que também terminasse com a defesa mais vazada entre os quatro promovidos. De quebra, o centroavante Francesco Baiano foi o artilheiro do campeonato com os mesmos 22 gols de dois experientes centroavantes estrangeiros: o brasileiro Casagrande (Ascoli) e o argentino Balbo (Udinese).

Os números refletiam o estilo de futebol ofensivo do treinador tcheco, que adotou logo de cara um 4-3-3 clássico, bastante atípico no Calcio, ainda que o futebol da Bota na época já se encaminhasse para absorver outras configurações táticas diferentes do tradicional “gioco alla italiana”, dominante desde os anos 60. Com a volta do Foggia à elite 13 anos depois da última participação, a dúvida que restava era saber se Zeman teria a ousadia de manter o esquema ofensivo contra os esquadrões da Serie A, habitualmente firmes na defesa e cheios de astros italianos e estrangeiros nas posições ofensivas.

Outro motivo de desconfiança acerca das possibilidades do Foggia na elite era a falta de experiência do elenco. De todos os jogadores, apenas dois já haviam disputado partidas pela Serie A italiana: Francesco Baiano havia sido titular da campanha de estreia do Empoli na elite em 1986-87, além de fazer cinco partidas distribuídas em duas temporadas pelo Napoli. E o goleiro reserva Mauro Rosin acumulava três atuações na elite pela Sampdoria em meados dos anos 80. Os demais eram perfeitos desconhecidos dos torcedores que não acompanhassem as divisões inferiores com mais atenção.

stranieri

Mesmo os três estrangeiros da equipe, todos oriundos da antiga Cortina de Ferro e recém-adquiridos para a temporada de retorno à Série A, não esbanjavam experiência internacional. Apenas o meia Igor Shalimov, trazido do Spartak Moscou, disputara uma Copa do Mundo – aliás, estreara na seleção da União Soviética em pleno Mundial da Itália, em 1990. O lateral romeno Dan Petrescu, vindo do Steaua Bucareste, chegou a disputar uma partida das Eliminatórias, mas não fora convocado para a Copa do Mundo, ganhando a posição de titular depois do torneio. E o centroavante Igor Kolyvanov, ex-Dínamo de Moscou, também ainda tentava se firmar na seleção soviética.

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O time-base começava com o goleiro Francesco Mancini, no clube desde outubro de 1987, mas que só alcançara a titularidade com a chegada de Zeman. A linha de quatro defensores tinha Petrescu na lateral-direita e Maurizio Codispoti, titular desde a outra passagem do técnico pelo clube, na esquerda. No miolo de zaga, Salvatore Matrecano fazia a função de stopper, tendo Angelo Consagra como líbero.

No trio de meio-campo, o jogador de características um pouco mais defensivas era Mauro Picasso, revelado nas categorias de base do Genoa antes de rodar por vários outros das divisões inferiores. O toque de criatividade e qualidade na armação era dado por Shalimov e por Onofrio Barone, 27 anos, revelado pelo Palermo e um dos “veteranos” daquele Foggia.

Na frente, os satanelli apresentavam seu tridente letal: Roberto Rambaudi, o ponta-direita, era cria da base do Torino, mas sem muitas chances no profissional. Depois de rodar pela terceira e quarta divisões, aportou em Foggia e descobriu seu potencial goleador na temporada do acesso da equipe, marcando 15 gols em 37 partidas. Pelo meio, o nome era Francesco Baiano, centroavante baixinho, leve, contrariando o padrão de jogadores altos ou fortes para a posição, sem deixar por isso de balançar as redes com frequência espantosa, relegando Kolyvanov ao banco de reservas.

Mas a maior promessa de craque daquela equipe era o ponta-esquerda Giuseppe Signori, jogador com passagem pela base da Inter (que o descartou pelo seu tamanho) e que havia rodado por Leffe, Piacenza e Taranto antes de chegar ao Foggia na mesma época de Zdenek Zeman. Rápido, habilidoso, com chute forte e preciso de pé esquerdo, bom cobrador de faltas e pênaltis, era um talento à feição do estilo de jogo da equipe, mas também já praticamente preparado para estourar em clubes maiores.

Francesco_Baiano_Foggia_1991-92

A partida de estreia na Serie A já foi um belo cartão de visitas do time de Zeman. O adversário era a temível Internazionale, campeã da Copa da Uefa na temporada anterior e que ainda ostentava sua trinca de ases alemães formada por Lothar Matthäus, Jürgen Klinsmann e Andreas Brehme. Para completar, o jogo era no lendário palco do San Siro.

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Mas nada disso intimidou o valente Foggia, que abriu o placar no início da etapa final com Baiano aproveitando cruzamento da direita. Dez minutos depois, no entanto, Ciocci apareceu sozinho no meio da defesa rossonera para empatar o jogo. Mas o pontinho valioso para os visitantes acabou conquistado às custas de várias defesas espetaculares de Mancini, arqueiro de bons reflexos e elasticidade.

Homem de poucas palavras, fumante inveterado e amante do jogo de ataque, Zdenek Zeman mostrava muitas das armas as quais nos últimos anos fizeram o nome de técnicos de grandes equipes europeias: o pressing com linha de defesa alta, a marcação por zona, o jogo veloz, intenso e abertamente ofensivo. Mas sua filosofia também podia ser resumida numa frase: marcar sempre um gol a mais que o adversário. Era ‘il Foggia dei miracoli’ (“o Foggia dos milagres”), também lembrado por um apelido em alusão ao treinador: a Zemanlandia.

O primeiro bom momento do time no campeonato veio nas dez rodadas iniciais, quando venceu cinco partidas e acumulou 13 pontos, soma importante para ajudar a se manter na elite. Nesse período, além do empate com a Inter na estreia, a equipe bateu a Fiorentina de Dunga e Batistuta de virada por 2 a 1 em Florença e goleou um bom time do Bari (dos croatas Boban e Jarni e do inglês David Platt) por 4 a 1 no derby regional jogando no Pino Zaccheria.

A gordura começou a ser queimada na fase intermediária do campeonato. Numa sequência de 15 partidas, o Foggia venceu apenas uma (1 a 0 sobre o Genoa, gol de Petrescu), e chegou a levar de 5 a 2 da Lazio na capital italiana, mas registrou alguns empates espetaculares, como os 3 a 3 contra o Napoli no San Paolo, quando reagiram com dois gols no fim – e mereceram o comentário do técnico partenopeo Claudio Ranieri de que “quanto mais fazem gols, mais continuam atacando” –, e outros 3 a 3 diante da Fiorentina, quando estiveram na situação inversa e cederam o empate com direito a hat trick de Batistuta para a Viola.

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A segunda boa sequência de resultados aconteceu na reta final, mais especificamente no último quarto do campeonato, quando o Foggia se manteve invicto por oito partidas, sendo seis vitórias e dois empates. Nesta etapa, iniciada com mais uma vitória sobre o rival Bari, agora fora de casa, por 3 a 1, os destaques ficaram com o incrível empate em 4 a 4 com a Atalanta em Bérgamo (quando os rossoneri desperdiçaram uma vantagem de 4 a 1) e a goleada de 5 a 0 sobre o Verona, além de boas vitórias em casa sobre Napoli e Lazio.

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Tudo isso culminou num jogo que entraria para a história da Serie A, diante do Milan, no Pino Zaccheria. Invictos até ali na temporada, os visitantes saíram na frente em cabeçada de Maldini, mas foram surpreendidos quando Signori e Baiano viraram o placar nos minutos finais do primeiro tempo. No intervalo, o Foggia vencia por 2 a 1 e parecia colocar um fim na série imbatível dos milanistas.

Só que na etapa final o time de Fabio Capello marcou SETE vezes, com Gullit, Van Basten, Matrecano contra, duas vezes Marco Simone, outra vez Van Basten e, por fim, Fuser encerrando a contagem em absurdos 8 a 2 para o Milan. A partida tornou-se simbólica do poder de fogo e da hegemonia representados por aquele Milan, mas os tifosi do Foggia costumam contar outra história.

Antes da partida, segundo eles, o presidente do clube, Pasquale Casillo, prometera um bicho gordo pela prestigiosa vitória que representaria a quebra da invencibilidade do Milan. No intervalo do jogo, nos vestiários, diante da vitória parcial do time da casa por 2 a 1, Casillo acabou recuando, dizendo que “não era bem assim”. Revoltados, alguns jogadores teriam feito corpo mole no segundo tempo para castigar o cartola. De qualquer modo, cada metade do jogo mostrou um lado daquela equipe.

A atitude dos jogadores no segundo tempo, de acordo com histórias de bastidores, teria também motivado o desmanche da equipe, embora essa alegação seja um tanto difícil de acreditar, dado o poderio econômico da maioria dos clubes compradores. Convocada para a Azzurra, a cobiçada dupla Signori e Baiano transferiu-se para Lazio e Fiorentina, respectivamente. Shalimov foi negociado com a Inter de Milão. O zagueiro Matrecano seguiu para o Parma. Mauro Picasso foi jogar na Reggiana. Rambaudi e Codispoti foram para a Atalanta, enquanto Consagra e Barone viraram casaca, indo defender o rival Bari na Série B.

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Mas o impacto já havia sido causado. O Foggia terminou numa boa nona colocação, insuficiente para uma classificação europeia, mas bem longe da ameaça de rebaixamento. Com impressionantes 58 gols marcados, a equipe teve o segundo melhor ataque do campeonato, atrás apenas do campeoníssimo Milan. Baiano terminou em terceiro lugar na artilharia com 16 gols, atrás apenas de Marco Van Basten e Roberto Baggio e à frente de Careca e Batistuta. Só o quarteto formado por ele juntamente com Shalimov, Rambaudi e Signori balançou as redes 45 vezes – o mesmo que todo o elenco da Juventus.

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Curiosamente, o Foggia também terminou com 58 gols sofridos, zerando seu saldo. Apenas a lanterna Ascoli deixou passar mais (68 ao todo). No cômputo geral, outro dado impressiona: nas 34 partidas envolvendo o time de Zeman, a média de gols marcados foi de generosos 3,41 por jogo, enquanto nas demais não passou de 2,13. Os rossoneri contribuíram um bocado – no ataque e na defesa – para aumentar a média final, que ficou nos 2,27.

Zdenek Zeman permaneceria por mais duas temporadas no clube, terminando em 11º em 1992-93 e outra vez em nono (além de outra vez com alto número de gols marcados e sofridos) em 1993-94, brigando até a última rodada por uma vaga na Copa da Uefa. Nesse período, traria jogadores que se destacariam no clube, como o zagueiro argentino José Antonio Chamot, o atacante holandês Bryan Roy, além de talentos locais como o defensor Pasquale Padalino e o volante Luigi Di Biagio.

Em meados de 1994, substituiria Dino Zoff no comando da Lazio, onde também entraria para a história do Calcio com um esquadrão marcadamente ofensivo, sagrando-se vice-campeão italiano, a melhor posição dos biancocelesti desde o scudetto de 1974. Na mesma temporada, o Foggia agora comandado por Enrico Catuzzi terminaria rebaixado com péssima campanha no returno após um bom começo de campeonato.

No fim da década, o clube ainda amargaria descensos consecutivos para as Séries C1 e C2, terceira e quarta divisões, em 1998 e 1999. Após falir e ser refundado em 2012, disputa hoje a Lega Pro, equivalente à terceirona do Calcio. Líder de seu grupo, tem boas chances de retornar à Serie B, a qual não disputa há quase 20 anos.