Era um 7 de fevereiro como vários outros no futebol brasileiro, aquele de 1999. A temporada ainda começava, os torcedores ainda se reacostumavam a ver seus times. Tanto no Campeonato Paulista quanto no Carioca, os clubes grandes ainda entrariam na disputa. Estavam usando como “pré-temporada de luxo” o Torneio Rio-São Paulo, que teria naquele domingo a penúltima rodada antes das semifinais. O Flamengo ainda disputava vaga nelas, no grupo 2, ao entrar em campo contra o Corinthians, no Pacaembu. Tinha um trunfo: Romário. E ele tratou de tornar inesquecível aquele jogo relativamente desimportante: fez uma das grandes atuações de sua carreira no 3 a 0 flamenguista, simbolizada num dos gols mais repetidos desde então em qualquer coisa que se fale sobre sua trajetória. Pois é: aquele gol completa 20 anos.

A bem da verdade, ainda que nenhum dos dois clubes estivesse a pleno vapor – afinal de contas, era começo de temporada -, era previsível um favoritismo flamenguista no Pacaembu. Bem ou mal, num amistoso de reinauguração da geral do Maracanã (a “Taça São Sebastião”), em janeiro, o time rubro-negro já fizera 5 a 3 num Fluminense recém-rebaixado à Série C. E mesmo contratando e contratando, havia uma base de jogadores relativamente sólida no time que Evaristo de Macedo treinava: Clemer, Pimentel, Iranildo “Chuchu”, Beto, Leandro Machado (recém-chegado do Tenerife-ESP, para disputar com Caio quem seria o parceiro de Romário no ataque), Athirson (recém-retornado de empréstimo ao Santos, pelo qual jogara bem em 1998)… vá lá, até o contestado Maurinho era comumente escalado.

Já o Corinthians mantivera todos os seus destaques do título brasileiro do ano anterior – Gamarra, Vampeta, Marcelinho, Edílson. Podia até ser melhor tecnicamente. Mas o fim de ano atribulado e campeão em 1998 resultava num time cansado, no começo de 1999. A falta de qualquer coisa semelhante a uma pré-temporada cobrava seu preço naquele Rio-São Paulo: quatro derrotas naquela primeira fase – na estreia corintiana, inclusive, houvera uma derrota tão “perdoável” quanto vexatória: 6 a 1 para o Botafogo, no Maracanã, em 24 de janeiro. Cenário complicado para o começo de trabalho de Oswaldo de Oliveira, auxiliar de Vanderlei Luxemburgo promovido no começo daquele ano, já que este ia ficar definitivamente com a Seleção Brasileira. Restava misturar alguns titulares a jovens corintianos, campeões da Copa São Paulo de Juniores, que seriam paulatinamente promovidos: naquele jogo, seria o caso dos meio-campistas Andrezinho e Edu (Gaspar) e dos atacantes Ewerthon e Fernando Baiano.

E embora o Corinthians até começasse com esforço aquele jogo no Pacaembu, o Flamengo logo impôs a melhor preparação que tivera naquele ano. Aos quatro minutos, já fez 1 a 0: Pimentel cruzou da direita, a linha de impedimento da equipe paulista falhou (Gamarra dava condições), Leandro completou de primeira no travessão, e Beto continuou livre na área para abrir o placar, sem que o goleiro Nei pudesse fazer nada. Já era um bom começo.

Mas ficaria totalmente eclipsado pelo que se veria dali a dois minutos. Nem bem a comemoração do 1 a 0 terminara, Romário já pegou a bola na esquerda, pronto para partir ao ataque. Amaral estava em sua frente, na área. A jogada tinha mais opções. Mas o carioca da Vila da Penha podia escolher a mais difícil: ir para cima de Amaral. Capacidade técnica nunca lhe faltara. E ela renderia aquela beleza de gol: elástico quase imperceptível de tão rápido, finalização quase sem ângulo, 2 a 0. Após tanta coisa que já fizera na carreira, aos 33 anos completados em 29 de janeiro daquele ano, Romário fazia uma das mais belas. E nenhuma descrição seria melhor do que o “que golaço!” de Cléber Machado, na narração daquele jogo para a TV Globo, transmitido para o Rio de Janeiro – quem quiser, pode ver como Deva Pascovicci narrou aquele gol, para o SporTV.

Romário faria muito mais: bola por debaixo das pernas de Edílson, aos 13 minutos do primeiro tempo. Esforço até para ajudar um pouco a defesa – sim, você não leu errado. Dominava tanto as atenções que nem mesmo os dois gols anulados do estreante Leandro Machado, também nos 45 minutos iniciais, deixavam dúvidas sobre o homem do jogo no Pacaembu. Bem, se ainda existisse quem pensasse em outro nome entre as 12.780 pessoas presentes no estádio “próprio da municipalidade” paulistana, não existiu mais no segundo tempo: aos oito minutos, Romário fez 3 a 0, recebendo passe de Wagner e driblando Nei para finalizar, novamente sem ângulo. Estava coroada uma das melhores atuações de sua carreira, transformando aquele jogo antes destinado a ser esquecível – o “Jornal do Brasil” lhe deu nota 10, no dia seguinte. E também bastou para a torcida corintiana esquecer qualquer crédito de confiança que aquele time merecesse, pela conquista do Brasileiro de 1998 no mês anterior: houve invasão de campo, houve gritos de “mercenário” para Edílson e Marcelinho Carioca etc.

Muita coisa aconteceria naquele ano. O Corinthians viveria um primeiro semestre irregular – Evaristo de Macedo, logo demitido do Flamengo, até passaria brevemente pelo Parque São Jorge -, cairia na Libertadores para o arquirrival Palmeiras, mas afinal se recomporia, com Oswaldo de Oliveira e companhia limitada. Não só conquistaria o título paulista, mas também para viver um dos momentos – e ver um dos times – mais brilhantes de sua história, conquistando o bicampeonato brasileiro com boa parte dos destaques cornetados no Pacaembu em janeiro (menos Gamarra, vendido ao Atlético de Madrid em junho, perda suplantada pela vinda de Dida para o gol). O Flamengo viveria de altos e baixos: ficaria sem a vaga nas semifinais do Rio-São Paulo que o Vasco venceria, logo Evaristo seria demitido, mas alguns nomes, como Athirson e Beto, seriam fundamentais na conquista da Taça Guanabara e do Campeonato Carioca, e a conquista da Copa Mercosul até hoje é querida pela torcida.

Romário seguiria imparável. Como sói acontecer em sua trepidante carreira, teve bons momentos – brilharia outra vez contra o Corinthians, já no Brasileiro, marcando os dois gols do Flamengo na virada por 2 a 1 também no Pacaembu, primeira derrota corintiana naquele campeonato. E momentos traumáticos – como no fim daquele ano, quando uma festa em Caxias do Sul após jogo contra o Juventude, pelo Campeonato Brasileiro (perdido por 3 a 1) irritou a diretoria flamenguista e pôs fim à sua passagem pela Gávea. Ainda no fim daquele ano, Romário já estaria acertado para voltar ao Vasco em que começara. E também viveria em São Januário momentos marcantes em 2000: a briga com Edmundo, os títulos da Copa Mercosul e da Copa João Havelange, a artilharia deste último torneio, os pedidos insistentes para que voltasse à Seleção Brasileira, do torneio olímpico de futebol masculino à Copa de 2002.

Foi o último momento incontestável de sua carreira. Momento que começou, talvez, naquele golaço em 7 de fevereiro de 1999. Golaço descrito muito bem, há algumas semanas, por sua principal vítima: Amaral. Falando ao SporTV, ele elogiou a rapidez do elástico: “Nem se percebe nas imagens, foi muito rápido”. E foi bem humorado ao comentar aquele gol-do-Romário-com-elástico-no-Amaral: “Pelo menos eu fui visto. E quem não é visto, não é lembrado…”. Se Amaral o é até hoje, Romário é ainda mais.