Fernando Redondo era um craque. Ponto. A excelência técnica do argentino se misturava com sua capacidade de dominar o campo e chegar junto nos adversários – em resumo, um meio-campista completo. Poucos volantes foram tão impressionantes quanto o camisa 6, daqueles caras que te faziam parar somente para assisti-lo. Possivelmente, o momento mais reluzente da carreira de Redondo aconteceu em 1999/00. Usando a braçadeira de capitão, o veterano liderou o título do Real Madrid na Champions e foi eleito o melhor jogador do torneio pela própria Uefa. E o lance mais deslumbrante ocorreu há exatos 20 anos, servindo de ótimo exemplo à maestria do argentino – numa partidaça que vai além de seu estalo genial.

Nas quartas de final da Champions, o Real Madrid enfrentava o Manchester United. Os Red Devils, vale lembrar, vinham do épico título sobre o Bayern de Munique na temporada anterior. Também estavam no meio de sua jornada tricampeã na Premier League. Sir Alex Ferguson tinha uma equipe forte em suas mãos, com Yorke, Cole, Beckham, Giggs, Scholes, Stam e companhia. O Real Madrid, por sua vez, havia conquistado a Champions dois anos antes. A era galáctica ainda não estava aberta no Santiago Bernabéu, mas o elenco contava com Raúl, Morientes, Roberto Carlos, Casillas… e Redondo, empossado capitão por conta de uma lesão de Hierro.

O empate por 0 a 0 na ida, dentro do Bernabéu, deixava a situação aberta para a volta em Old Trafford. Era natural tratar o Manchester United com uma pitada de favoritismo, não só por jogar em casa, mas também pelo elenco mais qualificado e pelo momento que atravessava. Enquanto os merengues tentavam encurtar as distâncias ao líder Deportivo de La Coruña no Espanhol, após um primeiro turno oscilante (que rendeu a demissão de John Toshack e a contratação de Vicente del Bosque ao comando), os Red Devils nadavam de braçada no Inglês e o título era questão de tempo. Dava para se concentrar na Champions.

Porém, não foi isso que aconteceu em Old Trafford, naquele 19 de abril de 2000. O Real Madrid teve 60 minutos de sonho em Manchester. Numa partida em ritmo veloz, o United também incomodava e parava em boas defesas do iniciante Casillas. Porém, o Real estava bem mais inspirado, com Roberto Carlos e Raul protagonizando as ações ofensivas, além da organização de Redondo no meio-campo e de sua onipresença na proteção. O goleiro Raymond van der Gouw, um dos postulantes a substituto de Peter Schmeichel, até segurava as pontas. Todavia, um gol contra de Roy Keane (em jogada que começou com tabela entre Sávio e Redondo) abriu o caminho aos merengues aos 21 minutos.

Já no início do segundo tempo, a implosão dos ingleses ocorreu logo nos primeiros minutos, com uma postura voraz do Real Madrid. Aos cinco, McManaman puxou o contra-ataque e lançou Raúl, que ampliou com um lindo tapa no canto do goleiro. Roy Keane, em uma noite pra lá de infeliz, perderia a chance de descontar logo na sequência, chutando para fora com o gol aberto à sua frente. Pagou caro: aos sete minutos, aconteceu a arte de Redondo, que praticamente definiu o placar.

Num lance tão singular, as imagens dão muito mais noção que as descrições. Ainda assim, nada melhor que o próprio Redondo para tentar traduzir seu ato, em entrevista recente ao AS: “Eu me recordo bem daquela jogada, que começa em nosso próprio campo, pressionados pelo United. Recebo de Roberto Carlos, toco para Sávio e ele me devolve com classe por cima da cabeça de Gary Neville. Arranco ao ataque, encostado na lateral esquerda. No um contra um, o calcanhar foi um recurso técnico, um momento de inspiração. Não havia feito isso profissionalmente, mas sim com alguma frequência quando jogava na base do Argentinos Juniors. Para mim, foi importante levantar a cabeça e fazer uma pausa, para ver Raúl chegando no segundo pau”. Um golaço em que o complemento do artilheiro, invadindo a área como elemento surpresa, serviu verdadeiramente para confirmar o surreal elaborado pelo volante.

O Manchester United ainda reagiria na partida. E o golaço de Beckham, aos 19, acaba até subestimado por causa de Redondo. O inglês fintou Roberto Carlos e também enganou Sávio, antes de passar por Karanka e soltar uma bomba no ângulo de Casillas. Já aos 43, um pênalti permitiu a Scholes anotar o segundo. Naquele momento, os Red Devils ainda precisariam de dois gols, mas o milagre do Camp Nou não ocorreu duas vezes. Aquela ficaria gravada mesmo como a noite fabulosa de Redondo, com o triunfo madridista por 3 a 2.

O mais curioso é que Sir Alex Ferguson desdenhou da formação do Real Madrid, que colocava Redondo como centro de equilíbrio da equipe. Del Bosque escalava uma defesa com três zagueiros. Redondo era o único volante no meio-campo, com McManaman e Sávio auxiliando mais abertos, além de Raúl recuando à armação. O argentino preenchia uma faixa imensa de campo e ainda assim se impunha. Era implacável para ocupar a cabeça de área e carregava o piano na saída de bola. A assistência foi a cereja do bolo, que serviu para eternizar uma atuação perfeita – e que poderia cair no esquecimento sem a genialidade.

“Eles estavam jogando com um sistema tático que não merecia ter sucesso. Tinham um meio-campista central, apenas. ‘Dá um tempo, isso não vai funcionar!’, pensei comigo mesmo”, confessou Ferguson, à revista The Blizzard. A história, ao longo dos 90 minutos, seria completamente diferente para o treinador: “Redondo deve ter um ímã no calção. Ele foi fantástico, inacreditável. Toda vez que atacávamos e a bola saía da área do Real Madrid, caía nos pés dele. Toda hora!”. Ou como bem definiu o jornalista Rob Smyth, na mesma reportagem, “o trabalho principal de Redondo era carregar água, embora com mais graciosidade que a maioria, mas naquele momento ele andou sobre a água”.

Nas semanas seguintes, o Real Madrid eliminou também o Bayern de Munique nas semifinais da Champions. Já na decisão, uma vitória imponente sobre o Valencia por 3 a 0. Redondo recebeu a taça no Stade de France. O ápice seria também o último momento da passagem do argentino pelo clube, com sua inacreditável saída do Bernabéu. Após o título continental, o presidente Lorenzo Sanz fez uma manobra política e antecipou as eleições para tentar se manter no cargo. Perdeu a Florentino Pérez. O argentino, que fez campanha pela reeleição, teria se tornado alvo do novo mandatário. Dez dias após a chegada de Florentino ao poder, o veterano seria repentinamente vendido ao Milan.

O Real Madrid recebeu US$17 milhões por Redondo, um valor considerável na época, sobretudo a um jogador com 31 anos de idade. O problema é que ninguém mais teria sido consultado sobre a transferência, nem mesmo o próprio atleta. Um dia depois do anúncio oficial dos merengues, o argentino convocou uma coletiva de imprensa e relatou que só descobriu sua venda nos jornais. Segundo ele, a ação aconteceu por baixo dos panos e ninguém o avisou, nem seu empresário. A justificativa do clube era de que a ótima proposta não poderia ser recusada.

“Entendo a situação, mas não foi minha decisão sair. O clube queria que eu fosse embora e eu estava em uma situação impossível. Machuca de verdade ver que o Real tentou confundir a torcida dizendo que era ‘meu desejo expresso’. Não é verdade e recuso que coloquem minha honra em dúvida. Isso foi feito para manchar meu nome e minha imagem”, declarou, ressaltando que sequer desejava mudar de país, por causa de sua vida pessoal. Dezenas de torcedores realizaram protestos nos portões do clube, enquanto Del Bosque defendeu o atleta. O treinador admitiu que contava com a permanência do volante e não esperava sua venda.

O dinheiro conseguido com a saída de Redondo, de certa forma, facilitou a contratação de Luis Figo naquela mesma temporada e abriu a era de negócios midiáticos do Real Madrid. E a infelicidade do argentino se ampliou logo nos primeiros treinos com o Milan. O meio-campista sofreu uma grave lesão no joelho e permaneceria mais de dois anos parado, pedindo até mesmo para suspenderem seu salário. O retorno só ocorreu em dezembro de 2002. Disputou 33 jogos em duas temporadas, até se aposentar em 2004. Ao menos, como reserva, pôde erguer a taça da Champions mais uma vez em 2003 com os rossoneri.

A relação com o Real Madrid, de qualquer maneira, é eterna para Redondo: “Parece mentira que já se passaram 20 anos. As boas lembranças dão impressão de serem mais próximas, talvez porque também terminamos com o título naquela temporada. Foram grandes partidas, ida e volta. O United tinha uma equipe muito boa, eram os campeões vigentes e fazia mais de um ano que não perdiam em casa na Champions. Old Trafford é um cenário fantástico. Lembro-me perfeitamente que, assim que o jogo terminou, quando estávamos saindo para os vestiários, todo o público se despediu de nós aplaudindo de pé, mesmo com sua equipe eliminada. Desfrutei desse espírito de compreender este jogo”.