Em 1996, a Conmebol anunciou a criação de um torneio, a ser iniciado dali a dois anos: a Copa Mercosul. Desde o começo, todavia, ela foi enfraquecida pela falta de critérios na escolha dos times participantes: apenas equipes populares, dentro das nações que fizessem parte do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, além do associado Chile, excluindo a Bolívia), para que as televisões se interessassem, rendendo dinheiro aos cofres da entidade sul-americana. Não renderam: no Brasil, por exemplo, o SBT chegava a anunciar a exibição das partidas, para só mostrar depois o segundo tempo. Além do mais, a Copa Mercosul ainda dividiu espaço em 1998 com a Copa Conmebol – esta rendeu ao Santos neste ano um título até lembrado, contra o Rosario Central. Nessa primeira edição problemática, apenas dois brasileiros viram utilidade nela: Palmeiras e Cruzeiro. E o clube paulista teve a certeza de que estava preparado para voos continentais mais ousados, ao vencer a Mercosul, há exatos 20 anos, contra a Raposa.

Em disputa bem mais equilibrada no Campeonato Brasileiro, a maioria dos times daqui realmente tratou a Copa Mercosul como uma preocupação menor. Sofrendo com uma campanha ruim na Série A, o São Paulo mal se importou com a eliminação na fase de grupos. O Corinthians foi outro brasileiro eliminado precocemente, mas a torcida se importava mais com a ótima campanha que rumaria posteriormente para o segundo título brasileiro do clube. Flamengo e Vasco até tiveram mais chances nos respectivos grupos: enquanto o time da Gávea foi eliminado pelo pior saldo de gols em relação ao Boca Juniors no Grupo D, o então recém-coroado campeão da Libertadores perdeu a primeira posição do grupo E e a vaga nas quartas de final para o River Plate no segundo critério de desempate: os gols pró (marcou menos do que os Millonarios, 4 contra 8).

Enfim, Palmeiras e Cruzeiro foram os únicos dignos de nota do país naquele torneio que começava. Mas se a Raposa ainda teve a forte concorrência do San Lorenzo em seu grupo (ambos terminaram com 10 pontos, mas o futuro vice-campeão brasileiro ficou na liderança pelo maior saldo), o time palmeirense foi soberano: seis jogos e seis vitórias no grupo B, contra Nacional-URU, Independiente e Universidad de Chile. Mais do que isso: soube aproveitar muito bem o grupo capacitado que tinha, para “ensaiá-lo”, rumo à participação na Copa Libertadores da América de 1999, que já estava garantida, pelo título da Copa do Brasil.

Por isso, mesmo competindo seriamente pelo Campeonato Brasileiro, nas primeiras posições da fase de classificação, o Palmeiras tinha boa parte do time completo jogando na Mercosul: Velloso, Arce, Cléber, Roque Júnior, Júnior, Paulo Nunes, Alex, Oséas. Mas também dava chances a reservas – alguns deles, experientes, foram úteis na fase de grupos do torneio sul-americano. O meio-campo Darci volta e meia jogava; outro meio-campo, Arílson, fez dois gols nos 3 a 1 sobre o Nacional-URU; Almir, atacante conhecido das passagens por Grêmio e Santos, marcou o gol da vitória contra a Universidad de Chile, no jogo derradeiro do grupo. Outros nomes eram daquelas opções que sempre estão a postos, mesmo que a torcida não preste muita atenção neles: o lateral direito Neném; o zagueiro Agnaldo (depois Agnaldo Liz); o volante Tiago Silva; o meio-campista Juliano; e o atacante Magrão.

As atuações seguras do Palmeiras seguiram nas quartas de final da Mercosul. Contra o Boca Juniors, os titulares jogavam, mas os reservas se destacaram: Almir, Arílson e Magrão fizeram os gols na ida (3 a 1, no Palestra Itália), enquanto Alex – dos titulares habituais, quem melhor jogou naquela campanha – marcou no 1 a 1 da volta, na Bombonera, garantindo a passagem às semifinais.

Paralelamente ao Palmeiras, porém, valia citar o Cruzeiro. Dando sequência a um ótimo ano, a Raposa também ia para o torneio continental com força total: o técnico Levir Culpi escalava Dida, Marcelo Djian, Wilson Gottardo, Gilberto, Djair, Valdo, Marcelo Ramos, Fábio Júnior… todos jogando no Brasileiro. E todos importantes para passar pelo River Plate nas quartas, com duas vitórias: 2 a 1 no Monumental de Núñez, 2 a 0 no Mineirão.

Nas pausas possíveis no calendário, a Mercosul era encaixada. Por isso, em novembro, o Palmeiras já disputou as semifinais, contra o Olimpia-PAR. Aí, foi hora dos destaques palestrinos habituais tomarem a frente. Alex se consolidou como destaque: nos 2 a 0 da ida, em São Paulo, o meio-campista fez os gols e alcançou a artilharia daquela copa. Na volta, em Assunção, Oséas fez 1 a 0 ainda no primeiro tempo, e o time verde garantiu o retorno à final de um campeonato continental, 30 anos após a Libertadores de 1968. Podia não ser o maior dos torneios, mas era um aprendizado útil para a Libertadores.

Porém, paralelamente, os palmeirenses também se envolviam nas quartas de final do Brasileiro. Contra o… Cruzeiro, também semifinalista na Mercosul. E após dois jogos empolgantes – 2 a 1 para cada um, no Mineirão e no Palestra Itália -, a Raposa impôs aos palestrinos (que tinham a vantagem do empate) uma grande surpresa: com ofensividade, o Cruzeiro fez 2 a 0, viu o Palmeiras empatar, até que Fábio Júnior, aos 44 minutos do segundo tempo, colocou a equipe mineira nas semifinais do Brasileiro. Já era um resultado de lavar a alma, após a decepção do título perdido para o Palmeiras na Copa do Brasil, nos minutos finais. Reserva de Dida, machucado, o goleiro Paulo César (que falhara na decisão do torneio nacional) comemorou: “A festa é minha! Chupa, porcada!”. E a alma poderia ser mais lavada ainda, porque o Cruzeiro também foi à outra final: 1 a 0 contra o San Lorenzo – Alex Alves marcou -, 1 a 1 no Nuevo Gasómetro, e a decisão da Copa do Brasil se repetiria na Copa Mercosul.

Com o Cruzeiro também finalista do Brasileiro e a Mercosul definida também no formato “melhor de três”, o fim de ano foi atarefadíssimo para a parte azul de Belo Horizonte. Em 16 de dezembro, no Mineirão, entre a primeira e a segunda partidas da decisão da Série A com o Corinthians, os cruzeirenses fizeram 2 a 1 no Palmeiras – com Fábio Júnior definindo, de novo, aos 44 do 2º tempo. O Brasileiro foi perdido para os corintianos, mas o Cruzeiro ainda tinha uma decisão. Porém, os dois jogos seriam no Palestra Itália. Contra um Palmeiras plenamente capacitado.

Em 26 de dezembro, um sábado, na segunda partida, com estádio lotado, Fábio Júnior começou dando a impressão de que o Cruzeiro novamente calaria o Parque Antártica: fez 1 a 0, resultado que daria o título ao time visitante, e se juntou a Alex na artilharia da Copa Mercosul. O temor palmeirense logo diminuiu: aos oito, Cléber empatou. E no segundo tempo, a dupla de atacantes resolveu de novo: aos sete, Oséas virou, e Paulo Nunes definiu o 3 a 1 aos 40 minutos. Tudo se resolveria dali a três dias, já perto de 1999 começar.

E naquele 29 de dezembro de 1998, uma terça-feira, à noite, Parque Antártica lotado, o jogo foi tenso. Até que um titular absoluto do Palmeiras, que ainda não aparecera com destaque naquela Mercosul, rendeu o primeiro título da história daquele campeonato. Na última partida de futebol transmitida pelo SBT durante aqueles anos de investimento no esporte (houve breve volta em 2003 – na tevê fechada, o SporTV mostrou aquela Mercosul em parceria com o FOX Sports latinoamericano), o narrador Osmar de Oliveira deu a locução para a falta forte, que Dida rebateu e que Arce, na sobra, mandou diretamente para as redes. Era o 1 a 0 do título palmeirense. O “cursinho pré-Libertadores” havia sido muito bem aproveitado. Era como o sinal de um feliz ano novo para o Palmeiras. E realmente seria, com o apogeu do sonhado título do principal torneio sul-americano em 1999.