Há uma infinidade de atacantes brasileiros que se transformaram em ídolos na Europa. Ainda assim, poucos atingiram o status de Jardel em seus tempos de Campeonato Português. O centroavante provocou uma verdadeira destruição nas defesas lusitanas durante o seu auge, na virada do século. Embora tenha sido também campeão e ídolo do Sporting, levando os leoninos ao seu último título na liga, o período mais consistente do artilheiro aconteceu com a camisa do Porto. Contratado junto ao Grêmio em 1996, após conquistar a Libertadores, o cearense nem precisou se adaptar ao novo ambiente. Anotou gols aos montes no Estádio das Antas e viveu sua verdadeira coroação há exatos 20 anos: em 22 de maio de 1999, os portistas alcançaram o pentacampeonato português, maior sequência de sua história. Tricampeão, Jardel também era pela terceira vez consecutiva o artilheiro do campeonato.

A grande ascensão do Porto aconteceu na década de 1980, quando Jorge Nuno Pinto da Costa assumiu a direção do clube e implementou uma política de contratações inteligente, com uma ampla rede de olheiros e boas apostas no mercado. A partir de 1985, os portistas emendaram taças. Conquistaram sua primeira Champions e levaram 11 dos 15 títulos disputados no Campeonato Português até o fim do século. A melhor série veio justamente na metade final dos anos 1990, no inédito pentacampeonato. Uma dinastia que teve Jardel como um impulso, providenciando gols aos montes.

Após terminar atrás do Benfica na temporada anterior, o Porto iniciou sua hegemonia em 1994/95. Era um momento importante ao clube, que buscou Sir Bobby Robson no Sporting e viu o inglês criar um ambiente vencedor. A equipe nadou de braçada naquela campanha: assumiu a liderança ainda no primeiro turno e manteve a ponta com certa folga, coroando-se com sete pontos de vantagem sobre o Sporting – na última edição em que as vitórias valiam dois tentos. Já era um conjunto fortíssimo, onde brilhavam nomes como Vitor Baía, Aloísio, Domingos Paciência, Carlos Secretário, Ljubinko Drulovic e Rui Barros. Um ano depois, Robson garantiu o bicampeonato ao Porto, antes de seguir ao Barcelona. Novamente os Dragões passaram distantes de serem incomodados, liderando em 32 das 34 rodadas.

A chegada de Jardel ao Porto aconteceu em 1996. No ano anterior, o Grêmio havia transformado a carreira do jovem centroavante. Vaiado no Vasco, ele tinha encaminhado seu empréstimo ao XV de Piracicaba, quando Luiz Felipe Scolari solicitou que a diretoria tricolor o levasse ao Olímpico. Pois o treinador aproveitou ao máximo as características do cearense, encaixe perfeito ao título da Libertadores. Os muitos gols, sobretudo de cabeça, atraíram o interesse dos clubes europeus. O Rangers quase o contratou, mas o visto de trabalho emperrou a transação. E os portistas deram um passo à frente. Primeiro, tentaram negociar com o Vasco, embora Eurico Miranda já tivesse se apalavrado sobre a venda com Fábio Koff. Então, os gremistas pagaram US$1 milhão aos vascaínos e receberam US$1,9 milhão dos lusitanos. Em suas últimas partidas no Rio Grande do Sul, o matador fez cinco tentos em dois jogos contra o Juventude e garantiu o título gaúcho. Saiu em alta.

No Estádio das Antas, Jardel seria treinado por António Oliveira, antigo ídolo do clube e comandante de Portugal na Euro 1996. De início, o centroavante compunha uma dupla com presença de área ao lado de Domingos Paciência. Todavia, a lesão do antigo artilheiro portista deixou o novato como grande referência na linha de frente. E ele aproveitou. Municiado por companheiros como Zlatko Zahovic e Sérgio Conceição, o cearense anotou 35 gols na primeira temporada, 30 apenas pelo Campeonato Português. Artilheiro da competição, marcou 10 tentos a mais que o segundo na lista de goleadores, o holandês Jimmy Floyd Hasselbaink. Os Dragões faturavam um inédito tricampeonato, novamente longe dos rivais.

Jardel “caiu de nível” em sua segunda temporada no Porto. Mesmo assim, para marcar 26 gols pelo Campeonato Português e novamente arrebatar a artilharia, oito tentos à frente de Nuno Gomes na segunda colocação. O tetra também teria um aproveitamento inferior ao dos três anos anteriores, mas a crise do Benfica impediu que os encarnados causassem qualquer sobressalto aos portistas. Foi nesta temporada que o centroavante fez sua partida mais letal com o clube: pela Taça de Portugal, anotou sete gols em 45 minutos contra o Juventude de Évora, em goleada acachapante por 9 a 1.

Por fim, o ápice aconteceu em 1998/99. António Oliveira deixou o Porto para dirigir o Betis e um jovem Fernando Santos assumiu a direção no Estádio das Antas. Aquela campanha ainda marcou o retorno de Vítor Baía, após sua frustrada passagem pelo Barcelona. O time fortíssimo tinha grandes jogadores em todos os setores: Aloísio, Jorge Costa, Secretário, Doriva, Rui Barros, Capucho, Zahovic, Drulovic. Ninguém que se aproximasse da imponência de Jardel. Foram 36 gols em meras 32 partidas – e apenas dois cobrando pênaltis. Nuno Gomes, por mais que tenha melhorado, parou nos 24 tentos.

Em 12 partidas pela liga, Jardel anotou dois ou mais gols. A maior vítima foi o Beira-Mar, com quatro tentos nos 7 a 0 aplicados no início do segundo turno. E o matador seria decisivo também nos clássicos. Definiu as vitórias contra Benfica e Sporting no Estádio das Antas, balançando as redes duas vezes para cima dos benfiquistas e uma diante dos sportinguistas. Curiosamente, o Porto teve um pouco mais de trabalho naquela campanha. Só assumiu a liderança no final do primeiro turno, para não largá-la mais. O principal concorrente foi o vizinho Boavista, que ficou oito pontos atrás, mas ao menos descolou uma vaga na Liga dos Campeões. O título dos Dragões se consumou em 22 de maio, no penúltimo compromisso, mesmo com o empate contra o Sporting em Lisboa. A consagração total.

A artilharia de Jardel em 1998/99, além do mais, rendeu um reconhecimento maior. Pela primeira vez na carreira, o centroavante faturou a Chuteira de Ouro como maior goleador entre as ligas nacionais da Europa. Foi o segundo brasileiro a receber o prêmio, repetindo o que Ronaldo havia conseguido em 1997. Que se considerasse o nível do Campeonato Português e a distância do Porto aos concorrentes, o cearense protagonizava algo fantástico. E vale lembrar que ele também causou seu estrago na Champions. Logo na estreia, em setembro de 1996, anotou dois gols na vitória por 3 a 2 sobre o Milan. Foram 19 tentos em 30 aparições pelo Porto no torneio. Balançou as redes de outros gigantes, como Real Madrid, Barcelona e Bayern. Seu melhor desempenho aconteceu em 1999/00, quando foi um dos artilheiros, com dez gols. Ajudou os Dragões a atingirem as quartas de final, superados pelo Real de Vicente del Bosque.

O hexa nacional, porém, não aconteceu em 1999/00. Foi a temporada que marcou o declínio daquele Porto, superado pelo Sporting na reta final do Campeonato Português. Os leoninos viveriam um período consistente e terminaram quatro pontos à frente dos portistas, que não repetiram o nível de desempenho dos outros anos. Não que a insaciedade de Jardel tenha diminuído – pelo contrário. Ele assinalou 38 dos 66 gols do time na competição. Foi artilheiro do Portuguesão pelo quarto ano consecutivo e só não levou a Chuteira de Ouro pela segunda vez porque o coeficiente da liga local lhe deu uma pontuação menor que a registrada por Kevin Philips, goleador da Premier League.

Aquela também foi a despedida de Jardel do Porto. O centroavante aceitou a proposta do Galatasaray e se transferiu ao time fortíssimo de Fatih Terim, então campeão da Copa da Uefa. Apesar da passagem destacada por Istambul, preferiu retornar a Portugal em 2001, agora com a camisa do Sporting. Ficou um ano e meio com os alviverdes, suficiente para erguer mais uma taça do Campeonato Português e levar sua segunda Chuteira de Ouro, feito único entre os brasileiros. Somou assombrosos 42 gols em 30 partidas. Vendido ao Bolton em 2002/03, veria seu ocaso começar. Acumulou problemas, entre eles a depressão e o alcoolismo. Também se tornou viciado em cocaína, droga com a qual entrou em contato pela primeira vez justamente quando estava no Porto. Atualmente, se diz afastado da dependência química.

O Jardel artilheiro, infelizmente, se transformou em um político que sequer encerrou seu mandato como deputado estadual no Rio Grande do Sul – cassado em 2016 por organização criminosa, uso de documento falso, peculato, lavagem de dinheiro, ocultação de bens e envolvimento com o tráfico de drogas. Ao Porto, de qualquer forma, não se apagam as memórias deixadas pelo goleador implacável durante o pentacampeonato. Em quatro anos, foram 130 gols durante 125 partidas pelo Campeonato Português. Lembranças vivíssimas entre as centenas de milhares de torcedores que celebraram seus tentos.