O Morumbi estava cheio. Sempre esteve cheio naquela campanha. São Paulo e Libertadores combinam muito bem. Nos anos noventa, foram três finais consecutivas, com dois títulos. Houve um temporário rompimento enquanto o clube tentava reencontrar o seu caminho. Apropriadamente, foi a Libertadores que impulsionou o São Paulo a uma sequência inédita de conquistas, e foi no Morumbi, cheio, que o Tricolor se tornou o primeiro brasileiro tricampeão da América.

Faz 15 anos que quase 72 mil pessoas testemunharam a goleada sobre o Athletico Paranaense, na época ainda sem agá. O jogo de ida no Beira-Rio, porque a Arena da Baixada não comportava o mínimo exigido pela Conmebol para uma final, havia terminado empatado. O São Paulo não teve piedade na volta. Havia se preparado e estava ansioso para ser campeão novamente. Na metade do segundo tempo, quando Luizão fez o terceiro gol da vitória por 4 a 0, a lista de títulos estava definitivamente editada. Diego Tardelli apenas fechou o caixão.

Montagem do elenco

O São Paulo é tido como o primeiro clube brasileiro a aproveitar a Lei Pelé, que concedeu aos jogadores autonomia sobre seu próprio futuro ao fim de seus contratos. No senso comum, o fim do passe. E realmente aquele time foi formado praticamente sem grandes gastos, acompanhando de perto algumas rescisões e términos, dentro e fora do país.

O primeiro a chegar foi Diego Lugano, em abril de 2003, um dos poucos que exigiu investimento. O São Paulo desembolsou US$ 200 mil para tirá-lo do Nacional, com o então presidente Marcelo Portugal Gouvêa admitindo que nunca o havia visto jogar, o que não o impediu de se vangloriar de estar entregando um jogador de nível de seleção, como havia prometido. Lugano havia feito um jogo pela seleção uruguaia, dois meses antes, em amistoso contra o Irã.

Ao fim do Campeonato Paulista daquele ano, o São Paulo acertou um pacotão – os pacotões estavam na moda naquela época – da Portuguesa Santista, semifinalista estadual sob o comando de Pepe, ídolo do Santos. Souza chegou ao lado de Rico e Adriano e de longe foi o que melhor serviu ao clube.

No fim de 2003, com vaga para disputar a Libertadores pela primeira vez desde 1995, chegou o famoso pacotão do Goiás, com Fabão, Danilo e Grafite, que havia retornado da Coreia do Sul e se destacado no segundo semestre. Cicinho completou o elenco, depois de se desvincular do Atlético Mineiro na Justiça.

Em meados de 2004, em crise após a eliminação para o Once Caldas, outro pacotão, com Ramalho, Nildo e, principalmente, Júnior, experiente lateral esquerdo que estava livre no mercado depois de rescindir seu contrato com o Parma.

O São Paulo recuperou-se, conseguiu se classificar novamente para a Libertadores e fez outro mercado muito interessante no fim do ano, com Mineiro, do São Caetano, Josué, outro ex-Goiás com contrato chegando ao fim, e Alex Bruno, que havia sido campeão da Copa do Brasil com o Santo André.

Luizão havia rescindido contrato com o Botafogo alguns meses antes, depois de uma séria lesão no joelho e, ao se recuperar, acertou com o São Paulo, mas ficaria apenas alguns meses antes de se dirigir ao Japão. Meses muito proveitosos.

No meio da campanha, após a grave lesão de Grafite, o São Paulo acertou com Amoroso, que havia rescindido com o Málaga, ao fim do Campeonato Espanhol, e o inscreveu 48 horas antes da semifinal contra o River Plate.

A base forneceu o resto do elenco: Edcarlos, Diego Tardelli e Fábio Santos. Ah, teve mais um também: Rogério Ceni.

Dívida de gratidão

Autuori assumiu o São Paulo no meio da campanha (Foto: Divulgação/São Paulo)

O São Paulo percorria a fase de grupos da Libertadores sem grandes problemas. Havia conseguido dois empates fora de casa, contra The Strongest e Quilmes, e vencera a Universidad de Chile e o clube argentino no Morumbi. Mas, de repente, ficou sem treinador. Em 18 de abril, no meio da campanha, Emerson Leão anunciou que precisava pagar uma dívida de gratidão.

E que dívida que devia ser porque ela o levou até o Japão. Foi socorrer o amigo Yasutoshi Miura, então dirigente do Vissel Kobe que, segundo o ex-goleiro, o ajudou durante sua outra passagem pelo país, nos anos noventa.

Dez anos depois, disse à Rádio Jovem Pan que não se arrependeu da decisão ter ido embora, apesar de ter durado apenas quatro jogos no Vissel Kobe, demitido junto com o amigo após uma vitória, um empate e duas derrotas, na lanterna do Campeonato Japonês. Voltaria ao Brasil para treinar o Palmeiras ainda em 2005.

O auxiliar Milton Cruz comandou a quinta rodada da fase de grupos, empate contra a Universidad de Chile, enquanto a diretoria trabalhava para trazer o sucessor de Leão. Paulo Autuori, então na seleção peruana, foi anunciado em 1º de Maio. Segundo Marco Aurélio Cunha, superintendente de futebol tricolor naquela época, Autuori foi escolhido por ser “rigorosíssimo” e por ter profundo conhecimento do futebol sul-americano.

Campeão da Libertadores com o Cruzeiro em 1997, Autori estreou no São Paulo goleando o Corinthians por 5 a 1. Também venceu o The Strongest e garantiu a vaga nas oitavas de final no primeiro lugar do grupo.

Artilheiros improváveis

O São Paulo tinha grandes atacantes, mas, curiosamente, seus principais artilheiros nas duas primeiras fase do mata-mata foram o lateral direito e o goleiro. Nas oitavas de final, nem surpreendeu muito porque o adversário seria o Palmeiras, com um histórico sólido de se dar mal diante de Cicinho e Rogério Ceni.

Cicinho fez o único gol do jogo de ida no Palestra Itália, com uma bomba de perna esquerda de fora da área, e voltou a marcar no Morumbi – outro chute de longe agora em cobrança de falta -, depois de Rogério Ceni abrir o placar de pênalti.

Naquela época, o Palmeiras era a maior vítima do goleiro artilheiro, e Cicinho havia feito quatro gols em cinco jogos contra o rival paulista.

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Um goleiro fazendo gols era novidade. Fazendo gol em mata-mata, um pouco mais. E dois gols em uma partida de quartas de final? E quase foram três. Ceni abriu o placar contra o Tigres, do México, com uma cobrança de falta de bem longe. Luizão ampliou para 2 a 0. No segundo tempo, Ceni bateu meio cruzado e acertou a parte interna da rede para marcar o terceiro.

Souza saiu na cara do goleiro e fechou a goleada. O São Paulo ainda teve um pênalti a seu favor, aos 24 minutos, mas perdeu a chance de completar o hat-trick que seria um dos mais famosos da história do futebol sul-americano ao isolar a cobrança or cima do travessão.

A derrota por 2 a 1 na volta tirou a invencibilidade do clube, mas não impediu sua passagem às semifinais. O River Plate seria o grande desafio até então. Seria a estreia de Amoroso, e o São Paulo teve uma série de chances para abrir o placar, mas conseguiu apenas aos 32 minutos, com um chute cruzado de Danilo de fora da área.

Perto dos acréscimos, um toque de mão dentro da grande área deu a Ceni a oportunidade de fazer seu quinto gol na Libertadores. Não errou novamente e terminaria a competição como artilheiro do campeão, ao lado de Luizão.

A cabeçada de Danilo em cobrança de escanteio, logo aos 12 minutos do primeiro tempo, deu mais tranquilidade para o São Paulo no Monumental de Núñez. O River Plate empatou antes do intervalo, com um belo gol de Ernesto Farías, e Rogério Ceni fez boa defesa em chute de longe de Marcelo Gallardo.

Júnior disparou em contra-ataque, três contra dois, e rolou para Amoroso voltar a colocar o São Paulo à frente e praticamente matar a eliminatória. Fabão ainda faria o terceiro de fora da área, antes de Salas descontar com um dos gols mais sem propósito da sua carreira.

A final

São Paulo comemora o título da Libertadores (Foto: Divulgação/São Paulo)

O Athletico Paranaense se esforçou para mandar a final da Libertadores na Arena da Baixada. Chegou a construir arquibancadas tubulares para elevar a capacidade de 24 mil pessoas para as 40 mil que a Conmebol exigia. Mas não teve jeito. Dois dias antes da partida, a entidade sul-americana confirmou que o duelo seria realizado no Beira-Rio, a 746 quilômetros de distância.

Jancarlos cruzou da direita, aos 15 minutos do primeiro tempo, e Aloísio se adiantou para fazer 1 a 0, de cabeça. O São Paulo teve mais chegadas perigosas na sequência, e Júnior deu um baita de um susto no goleiro Diego com uma cobrança de escanteio bizarra que explodiu no travessão.

No começo da segunda etapa, Júnior mandou uma cobrança de falta lateral para a área, a bola foi desviada por um jogador do Furacão na primeira trave, mas Diego conseguiu fazer a defesa. Só que espalmou na direção de Durval: gol contra, 1 a 1.

Diego fez uma bela defesa em chute à queima-roupa de Josué para impedir a virada.

O empate manteve o Athletico vivo na final da Libertadores, mas exigiria algo excepcional no Morumbi. Até ali, o São Paulo havia vencido todos os seus jogos como mandante, levando apenas três gols, todos na fase de grupos.

E algo excepcional de fato aconteceu, mas não a favor dos paranaenses. O São Paulo liberou toda a energia acumulada durante dez anos em que teve que se contentar com conquistas regionais, como o Rio São-Paulo e o Paulista, pouco para um clube orgulhoso de ter desbravado a América e o Mundo com a máquina de Telê Santana.

Contratação cirúrgica, Amoroso fez 1 a 0, aos 17 minutos do primeiro tempo, com um toque de cabeça em jogada que começou com um passe de calcanhar de Luizão, seu antigo parceiro de Guarani. Fabão completou escanteio de Cicinho com um tijolo, no início da etapa final, e Amoroso deixou Luizão completamente livre, na pequena área, debaixo da trave, para colocar o título além do alcance do Athetico. Diego Tardeli fechou a goleada nos acréscimos.

Mas antes, em alguma cobrança de escanteio, Rogério Ceni encostou em Aloísio, como contou o atacante em entrevista conduzida em 2012, e disse: “Olha, você já vai vir para cá, vai devagar”. O atacante achou que o capitão são-paulino estava apenas tentando desconcentrá-lo. “Você está é com medo de eu fazer outro de cabeça”, respondeu. “Quando você vier, serei o primeiro a o abraçar”, rebateu Ceni.

Aloísio seria realmente contratado pelo São Paulo e, no fim daquele ano, seria essencial na busca por mais um tricampeonato.

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