O sonho europeu ruiu dentro do Mestalla nesta quinta-feira. O Valencia sabia que sua missão contra o Arsenal seria duríssima, após a derrota sofrida dentro do Estádio Emirates. No entanto, os Ches precisaram aceitar a eliminação na Liga Europa com outro revés diante dos Gunners. E se o presente não é dos mais saborosos aos valencianos, apesar da esperança na final da Copa do Rei, a própria data guardava lembranças eternas da última grande temporada do clube. Durante a virada do século, o Valencia era uma potência continental. Algo expresso de maneira irrefutável em 2003/04. Além de conquistar o Campeonato Espanhol em 9 de maio de 2004, o time de Rafa Benítez também faturou a Copa da Uefa dez dias depois. O maior símbolo de um esquadrão que povoou os sonhos no Mestalla.

Naquele momento, o Valencia já atravessava a segunda parte de um ciclo vitorioso. A primeira aconteceu a partir de 1999, com a chegada de Héctor Cúper. Mesclando talentos da casa com ótimos reforços estrangeiros, os Ches alcançaram duas finais da Liga dos Campeões. O treinador aceitou a proposta da Internazionale, mas as bases foram mantidas por Rafael Benítez. O novato havia construído sua fama treinando as categorias de base do Real Madrid, antes de acumular bons trabalhos em times médios da Espanha. Era uma clara aposta da diretoria valenciana. Que não demorou a se pagar, com a conquista de La Liga em 2001/02 – a primeira do clube em 31 anos.

Em tempos nos quais o mercado de transferências se inflacionou, o Valencia mantinha uma política austera em seus gastos. Tinha investido demais em anos anteriores e sentia os efeitos disso em seus balanços financeiros. Por isso mesmo, chegou a perder alguns dos destaques no período posterior ao título de 2002 e trazia apenas reforços pontuais. Os méritos estavam em segurar a espinha dorsal do esquadrão. Ainda assim, desempenho em 2002/03 não seria tão bom. Os Ches estiveram distantes de competir com o galáctico Real Madrid e a surpreendente Real Sociedad. Terminaram o Campeonato Espanhol na quinta colocação, o que afastava a equipe da Liga dos Campeões. Todavia, se não eram os mais visados, os valencianos logo se impulsionaram, em momento no qual os gigantes do país acertavam os seus ponteiros.

Cañizares, ídolo eterno do Valencia (Tony Marshall/EMPICS via Getty Images)

O elenco do Valencia sofreu poucas modificações para a temporada 2003/04. A diretoria garantiu algumas apostas no mercado de transferências, investindo apenas em atletas jovens. O pacote incluía o volante Mohamed Sissoko, o meia Fábio Canobbio, o ponta Jorge López e o atacante Ricardo Oliveira – este, comprado após passagem expressiva pelo Santos vice-campeão da Copa Libertadores. Enquanto isso, alguns velhos ídolos davam seu adeus. Kily González acertou com a Internazionale e John Carew seguiu por empréstimo à Roma. Outro símbolo do clube, Miroslav Djukic rumava ao Tenerife para encerrar a carreira. De qualquer maneira, as forças do grupo de Rafa Benítez estavam majoritariamente preservadas.

Afinal, era um Valencia que ainda tinha lenha para queimar, cheio de velhos ídolos no Mestalla e figurões com experiência internacional. A começar pelo gol, onde a camisa 1 permanecia reservada ao imponente Santiago Cañizares. Um dos melhores goleiros da história da Espanha, o veterano seguia em seu alto nível aos 33 anos. Era uma referência daqueles anos históricos aos Ches, especialmente por suas defesas decisivas e por seu senso de liderança.

Na defesa, outro medalhão era Roberto Ayala. O argentino por vezes é subestimado, mas sua grandeza é muito bem conhecida pelos valencianos. Decisivo no jogo aéreo e com um ótimo tempo de bola, se tornou nome inescapável ao sucesso no Mestalla. Tinha ao seu lado a companhia de Carlos Marchena, jovem em ascensão desde sua contratação junto ao Sevilla, ainda reserva na conquista de 2001/02. O rodado Mauricio Pellegrino e o promissor David Navarro eram outras duas opções ao setor. Já nas laterais, havia a presença constante de Curro Torres pela direita e do italiano Amedeo Carboni pela esquerda. Fábio Aurélio era outro brasileiro no elenco, mas as lesões (que tanto prejudicaram sua ascensão) acabaram minando o seu espaço naquela temporada.

Vicente converte o pênalti contra o Marseille (Adam Davy/EMPICS via Getty Images)

O meio-campo se via repleto de bastiões da história do Valencia. A dupla de volantes era composta pelos ídolos David Albelda e Rubén Baraja. Dois cabeças de área que pareciam se entender por telepatia, entre a boa proteção e a qualidade para sair jogando. Enquanto o capitão Albelda ficava mais contido na marcação, Baraja tinha uma liberdade maior para criar e muitas vezes contribuía com gols. Na meia esquerda, outra lenda do Mestalla: Vicente. O armador arisco e excelente trato com a bola desabrochou cedo com o clube. Contudo, aos 21 anos, já merecia o rótulo de protagonista faz tempo. A rotação maior acontecia pela direita, onde Jorge López logo passou a ser utilizado, mas também existia a confiança nos serviços prestados pelo já consagrado Francisco Rufete.

Algo essencial a Rafa Benítez era a maneira como poderia montar o setor ofensivo. E a profundidade do elenco permitia diferentes combinações. O nome mais genial na armação, sem dúvidas, era o de Pablo Aimar. El Payaso já estava em seu quarto ano de Mestalla e desfrutava da adoração da torcida. Costumava jogar como meia centralizado, oferecendo seus passes magistrais e sua habilidade refinada – de certa forma, ajudando a difundir o 4-2-3-1 como um sistema funcional pela Europa. Porém, as lesões custaram a titularidade do argentino durante o segundo turno da campanha. Sem um jogador que o substituísse totalmente, o treinador também utilizava com constância dois atacantes no 4-4-2.

A referência ofensiva se oferecia com Mista. O atacante tinha chegado ao Valencia pelas mãos do próprio Benítez, após trabalhar com ele nas canteras do Real Madrid e também no Tenerife. Era um jogador de bom porte físico e oportunismo. Miguel Ángel Angulo, outro atleta importante naquele ciclo vitorioso do Valencia, acumulava minutos. E o próprio Ricardo Oliveira recebia suas primeiras chances, muitas vezes já utilizado como titular. Do banco, por vezes entravam também o uruguaio Canobbio e o prata da casa Xisco. Seriam importantes, considerando a maratona que a Copa da Uefa representava naqueles tempos, apenas com jogos eliminatórios.

Albelda, antes da final da Copa da Uefa (Tony Marshall/EMPICS via Getty Images)

Aquela temporada do Campeonato Espanhol marcou um período de transição. E isso não diminui os méritos do Valencia, embora seus principais concorrentes não atravessassem a melhor fase. O Real Madrid vivia o auge da empolgação com os Galácticos, o que não se converteu em títulos. Carlos Queiroz estava no comando e não conseguiu o melhor encaixe de suas estrelas, especialmente após a chegada de David Beckham. Mesmo assim, era um esquadrão encabeçado por Iker Casillas, Roberto Carlos, Zinedine Zidane, Raúl, Luis Figo e Ronaldo. O Barcelona, por sua vez, acelerava a sua reconstrução. Vinha de anos decepcionantes e trouxe Frank Rijkaard para colocar ordem na casa. A baciada de novidades incluía Ricardo Quaresma, Rafa Márquez, Rüstü Recber, Gio van Bronckhorst e um tal de Ronaldinho, em suas primeiras diabruras no Camp Nou. Apesar disso, o time não deu liga no começo, entre a mescla de reforços, promessas da base e apostas frustradas. Somente no segundo turno, com a chegada de Edgar Davids, é que engrenou.

Era preciso incluir uma quarta força na lista dos candidatos ao título espanhol: o Deportivo de La Coruña, nos últimos atos de seu maior esquadrão. Javier Irureta permanecia como o mentor dos galegos, em time recheado de medalhões em todas as posições. Djalminha já não era mais o rei do pedaço, voltando de empréstimo do Austria Viena. Mas o elenco seguia contando com José Francisco Molina, Mauro Silva, Fran e Juan Carlos Valerón. A maior concentração de talento estava no ataque, onde se revezavam Walter Pandiani, Diego Tristán e Albert Luque.

O Atlético de Madrid tentava se reconstruir e ainda não representava grande perigo, de volta da segundona na temporada anterior. Diego Simeone retornava da Lazio, embora a sensação fosse o prodígio Fernando Torres no ataque. A Real Sociedad até manteve o seu forte elenco, mas não colheu os mesmos resultados. Nem mesmo a dupla formada por Nihat Kahveci e Darko Kovacevic deu jeito, em um ano fadado a brigar na metade inferior da tabela. O Athletic Bilbao merecia menção honrosa, especialmente pelas opções ofensivas com Yeste, Urzaiz e Exteberria. E já dava para notar a evolução de Sevilla e Villarreal, investindo em seus elencos para colher frutos mais à frente – em campanhas afirmativas de Júlio Baptista no Ramón Sánchez-Pizjuán e de Juan Román Riquelme no Madrigal.

Aimar disputa com Riquelme, pelo Espanhol (FiroFoto/Getty Images)

A tabela não ajudava muito o Valencia no começo da campanha. Entretanto, a sequência difícil de jogos serviu para os Ches mostrarem que voltavam às cabeças. O empate contra o Valladolid no Mestalla não animou muito a torcida na estreia, mas a equipe se recuperou ao derrotar Osasuna e Málaga. Já na virada de setembro para outubro, três vitórias imponentes. Primeiro, os valencianos enfiaram 3 a 0 sobre o Atlético de Madrid no Vicente Calderón. Mista e Aimar foram os terrores dos colchoneros, com duas assistências do armador para dois gols do artilheiro. Uma semana depois, o Mestalla aplaudiria a vitória sobre o Real Madrid. Mista e Ricardo Oliveira anotaram os gols no triunfo por 2 a 0. E o brasileiro ainda assegurou o 1 a 0 sobre o Barcelona dentro do Camp Nou, com um chutaço do bico da grande área.

A sequência de seis vitórias, complementada pelos 4 a 0 sobre o Espanyol, deixou o Valencia na liderança. Mas a equipe perderia um pouco de seu fôlego na sequência do primeiro turno. A primeira derrota na competição, que custou a ponta, aconteceu na oitava rodada. Valerón e Tristán determinaram os 2 a 1 do Deportivo no Riazor. Os Ches também tropeçariam contra outros adversários menores e chegaram a perder do Racing de Santander no Mestalla. Variando entre as três primeiras colocações, já estabeleciam uma disputa contra Real Madrid e Depor pelo título nacional.

O bom momento seria retomado pelo Valencia no final do primeiro turno. A equipe voltou a emendar vitórias e, com cinco triunfos consecutivos, fechou a primeira metade do Espanhol na liderança. Apesar dos percalços, já era seu melhor início de campanha na história do certame. Somou 43 pontos nas primeiras 19 rodadas, contra 42 do Real Madrid e 37 do Deportivo. Independentemente disso, nem tudo eram flores na Comunidade Valenciana. Em dezembro, a relação de Rafa Benítez com Jesús García Pitarch, diretor de futebol, azedou. O treinador travava uma longa batalha nos bastidores com o dirigente, em busca de novos reforços. As acusações eram públicas e Benítez afirmava que Pitarch impedia a contratação de jogadores em janeiro, assim como não atendia as necessidades do elenco. A torcida pedia a renúncia do diretor e ele chegou a apresentar por duas vezes sua carta de demissão. No entanto, a presidência o manteve no cargo. Os valencianos precisaram se virar com o que tinham.

Rafa Benítez, em seus tempos de Valencia (Adam Davy/EMPICS via Getty Images)

O início do segundo turno também guardou suas turbulências ao Valencia. Foram só nove pontos nos primeiros sete jogos. A equipe deixou a liderança ao perder do Osasuna, no final de janeiro. Poderia se recuperar três semanas depois, durante a visita ao Santiago Bernabéu. Naquele momento, o Real Madrid aparecia dois pontos à frente, na primeira colocação. Só que a noite na capital terminou com gosto amargo aos Ches. Nem tanto pelo placar, um empate por 1 a 1, com gols de Ayala e Figo. Problema maior se deu pelas decisões da arbitragem, que beneficiaram os merengues. Os valencianos já classificavam aquele como o “roubo do século”, acusando o protecionismo aos madrilenos. Teriam que reverter a desvantagem em campo.

Perder para o Barcelona (dentro do Mestalla) e para o Espanyol nos dois compromissos seguintes também não ajudou. Restando 12 jogos para o final do campeonato, o Valencia permitia ao Real Madrid abrir oito pontos de folga na liderança. Além disso, o time sentia a ameaça de Deportivo e do embalado Barcelona logo atrás. O susto foi o ponto de virada aos Ches. A vitória que impulsionou de vez a campanha aconteceu em 7 de março, no próprio Mestalla. Se o Deportivo vencesse, assumiria a segunda colocação. Mas Vicente protagonizaria uma de suas partidas mais fantásticas pelo clube, com dois gols no triunfo por 3 a 0. As esperanças dos valencianos se revigoraram.

Outro porém surgiu na mesma noite. Foi quando Pablo Aimar sofreu sua lesão mais séria no período. Não que o Real Madrid estivesse imune às preocupações. O empate com o Racing Santander guardou também uma contusão a Ronaldo. E a ausência do centroavante seria bem mais sentida pelos merengues. O Valencia não diminuiu o ritmo. Bateu o Celta em Vigo, goleou o Mallorca no Mestalla, emendaria ainda triunfos sobre Racing e Murcia. A arrancada dos Ches se combinava com a derrocada do Real. Conquistaram só duas vitórias no mesmo período. E enquanto os valencianos batiam o Zaragoza por 1 a 0, com uma cabeçada fulminante de Angulo, os madrilenos perdiam do Osasuna por 3 a 0 em pleno Bernabéu. O vexame diante da torcida madridista foi justamente o jogo que marcou a nova troca na tabela. Os comandados de Rafa Benítez retomavam a ponta, para não sair mais, a seis rodadas do fim.

Mista empilhou gols naquela temporada histórica

O Valencia nem foi tão bem assim nos compromissos seguintes. Empatou com Real Sociedad e Athletic Bilbao, antes de derrotar o Betis no Mestalla. O problema é que o Real Madrid ia pior. Após superar o dérbi contra o Atlético, os Galácticos sucumbiram diante de Barcelona e Deportivo. Assim, a antepenúltima rodada se tornou decisiva. Os merengues entrariam em campo primeiro, no sábado, recebendo o Mallorca no Bernabéu. No dia seguinte, os Ches teriam uma missão mais cascuda ao visitar o Sevilla na Andaluzia. Teoricamente, a disputa se alongaria mais um pouco. Só teoricamente.

Samuel Eto’o guardou toda a sua raiva para o reencontro com o Real Madrid, no qual não recebeu oportunidades após sair da base. Marcou dois gols, destroçou a defesa adversária, peitou a torcida merengue. O camaronês mandou no triunfo do Mallorca por 3 a 2 na capital, mais um sinal concreto da decepção ao redor dos Galácticos, e que dava uma imensa ajuda aos líderes. Desta maneira, o Valencia só dependia de si no domingo. Não decepcionariam, consagrando-se no Ramón Sánchez-Pizjuán. Vicente arrancou pela esquerda e abriu o placar logo aos 12 minutos. Por fim, o título foi ratificado aos 44 do segundo tempo, numa bela jogada individual de Baraja. Os 2 a 0 colocavam a faixa no peito dos valencianos. Pela sexta vez na história, a segunda em três temporadas, a taça era da agremiação.

Os sete pontos de vantagem permitiram ao Valencia relaxar nas duas rodadas finais. Interromperam a sequência de dez jogos de invencibilidade, perdendo para Villarreal e Albacete – com times recheados de reservas, vale frisar. Ao término da campanha, o Valencia acumularia 77 pontos. Teve a melhor defesa e o segundo melhor ataque, com Mista ainda aparecendo na terceira colocação entre os artilheiros, autor de 19 gols. O vice-campeão seria o ascendente Barcelona, que escalou dez posições em seu segundo turno fantástico. O Deportivo terminou em terceiro. Já o Real Madrid, com cinco derrotas em seus últimos cinco jogos, estacionou nos 70 pontos. Quarto colocado, teve que disputar as preliminares da Champions na temporada seguinte, viajando à Polônia para encarar o Wisla Cracóvia.

A falta de interesse do Valencia no fim do Campeonato Espanhol, na verdade, era concentração em outro objetivo da temporada. Em janeiro, o time havia caído fora na Copa do Rei, eliminado pelo Real Madrid. Mas a caminhada na Copa da Uefa prosperava. Apesar da falta de reforços, o elenco equilibrado auxiliou na frente continental. AIK e Maccabi Haifa foram as primeiras vítimas, antes de uma classificação maiúscula contra o Besiktas de Mircea Lucescu nos 16-avos de final. Nas oitavas, o mistão derrubou o Gençlerbirligi na prorrogação. E a classificação nas quartas se deu com duas vitórias sobre o Bordeaux, que tinha Deivid entre suas referências no ataque.

Valencia comemora a conquista da Copa da Uefa (Foto: Uefa)

O confronto mais lembrado daquela campanha aconteceu nas semifinais. O Valencia faria um clássico contra o Villarreal, em período no qual já havia tomado a liderança do Campeonato Espanhol. No Madrigal, com uma equipe basicamente titular, os Ches arrancaram o empate sem gols. A histórica classificação aconteceu no Mestalla, em 6 de maio. O triunfo foi garantido aos 17 do primeiro tempo, em um pênalti convertido por Mista. O placar simples, já suficiente, marcou a semana histórica antes da confirmação do título espanhol na Andaluzia.

Por fim, a eternização do time de Rafa Benítez aconteceu em Gotemburgo, na Suécia. O Estádio Ullevi recebeu a decisão da Copa da Uefa em 19 de maio. O Olympique de Marseille era o adversário e tinha nomes respeitáveis, como Didier Drogba e Fabien Barthez. No entanto, não vinha em uma sequência tão boa e o Valencia sublinharia o seu momento com uma vitória segura. Apesar das ameaças dos franceses durante o primeiro tempo, a partida acabou definida aos 45 minutos, quando Barthez cometeu um pênalti e foi expulso. Vicente cobrou e deixou os espanhóis em vantagem. Já na segunda etapa, os Ches partiram para cima e mataram o jogo aos 13, com Mista. Ainda que os marselheses tenham insistido, Cañizares manteve sua meta invicta e segurou o triunfo por 2 a 0. Era o quarto título continental dos valencianos, o primeiro desde a Recopa de 1980. Uma avalanche de torcedores tomou as ruas de Valencia, pela segunda vez em dez dias.

O ápice daquele Valencia, de certa maneira, também foi seu ponto final. Rafa Benítez deixou o clube, assinando com o Liverpool. Embora a base do elenco se mantivesse, Claudio Ranieri não sustentou a competitividade e os Ches viveram uma temporada morna. A crise financeira prenunciada mesmo durante a bonança causou o seu impacto, com o gasto exagerado no mercado de transferências e o início da construção de um novo estádio que nunca foi concluído. No fim da década, embora se mantivessem na Champions com a ascensão de algumas apostas, os valencianos nunca mais iriam além da terceira colocação na Liga.

O último título aconteceu em 2008, na Copa do Rei, quando Cañizares, Baraja, Albelda, Vicente e Marchena ainda compunham a equipe na qual ascendiam Juan Mata, David Silva e David Villa. O encolhimento econômico do Valencia se tornou mais pesado nesta década, até que Marcelino García Toral garantisse maiores aspirações nas temporadas mais recentes. A semifinal da Liga Europa contra o Arsenal frustrou os Ches. Mas ainda há tempo para erguer a cabeça e encarar o Barcelona na final da Copa do Rei, justamente a primeira desde a conquista de 2008.