O Estádio Santiago Bernabéu estava pronto para a festa. A mítica cancha na capital espanhola recebia a final da Copa do Rei, especialmente marcada para aquele 6 de março. O jogo servia de pretexto a outra celebração: no mesmo dia, o Real Madrid completava 100 anos de sua fundação. Dono da casa e favorito à taça, com o elenco galáctico comandado por Vicente del Bosque. Entretanto, o Deportivo de La Coruña foi o legítimo estraga prazeres. O Depor já tinha acostumado a atrapalhar a vida dos merengues naqueles anos. Mas nunca de maneira tão contundente, em ocasião tão significativa. Ainda no primeiro tempo, os intrusos já abriram dois gols de vantagem. Venceram por 2 a 1, em uma das decisões mais lembradas do futebol espanhol.

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O Deportivo estava distante de ser considerado um mero coadjuvante. Os galegos haviam conquistado La Liga dois anos antes e vinham de um vice-campeonato espanhol. O elenco de Javier Irureta era repleto de talento: Molina, Naybet, Valerón, Fran, Tristán, Mauro Silva. No banco, ainda havia Djalminha e Makaay. De qualquer maneira, o Real Madrid estava um passo à frente. Zidane, Figo e Raúl eram as estrelas de uma companhia que também contava com Roberto Carlos, Hierro, Makélélé, Morientes. Nas arquibancadas, 75 mil convidados para as comemorações – a maioria madridista, apesar do bom número de blanquiazules.

Na véspera do duelo, Irureta reclamou do clima forçado antes daquela final: “Em Madri, prepararam um ambiente contra nós, porque já nos têm em conta. Tentaram manipular minhas palavras, quando me perguntaram se seria bonito repetir o Maracanazo e eu respondi ‘tomara’. Sou o mais anti-fanfarrão do mundo e tento manter os pés no chão. Vamos jogar no Bernabéu e estaremos em poucos, mas temos competência para suportar a pressão”. De certa maneira, a comoção madrilena seria um incentivo a mais para o Depor.

Quando a bola rolou, o Deportivo partiu como uma locomotiva para cima do Real Madrid. Pressionando, abriu o placar com apenas seis minutos, em grande jogada individual de Sergio. A partida seguiu quente na primeira etapa. Mauro Silva e Raúl se estranharam em campo. Zidane chegou a carimbar o travessão. E os galegos ratificaram sua supermacia estufando as redes do goleiro César Sánchez. Após passe preciso de Valerón, Tristán apareceu dentro da área para fuzilar – justo ele, que dois anos antes tinha sua transferência para Chamartín acertada, mas acabou barrado após a eleição de Florentino Pérez. Festa dos 25 mil blanquiazules presentes.

Del Bosque mandou o Real Madrid para o ataque na volta do intervalo, com Santiago Solari na vaga de Pavón. Raúl chegou a alimentar as esperanças dos merengues, descontando aos 11 minutos. Porém, querer não era poder, diante das fortíssimas linhas de marcação do Deportivo. Mauro Silva era um leão à frente da zaga, enquanto Naybet e César mantinham a soberania dentro da área. Ao apito final, Hierro saiu a esbravejar com o árbitro, desejando mais minutos de acréscimos. Casillas, reserva na copa, chorava no banco. Já nas arquibancadas que se esvaziavam em branco, os milhares de visitantes seguiam firmes e faziam ecoar um ‘parabéns a você’.

A vitória do Deportivo terminou eternizada como o ‘Centenariazo’. Um título um tanto quanto inacreditável pelas circunstâncias, mas que ressaltou o caráter fortíssimo dos galegos naqueles anos gloriosos. Já ao Real Madrid, como bem definiu Jorge Valdano, restou ‘guardar luto por 24 horas’. O centenário também não terminou com o título de La Liga, vencido pelo Valencia. Mas ao menos veio a Liga dos Campeões. Uma conquista inegavelmente maior, mas que não apagou a história de exatos 15 anos atrás.

Vale ver também o texto do amigo Fernando Figueiredo Mello no ‘efemérides do éfemello’