O presente não anda muito afável com o Cienciano. O clube mais tradicional de Cusco acabou rebaixado no Campeonato Peruano em 2015 e, desde então, não voltou à elite. A dor se prolongou nesta terça-feira, com a derrota para o Carlos Mannucci no jogo do acesso, que amplia o drama na segundona por mais um ano. No entanto, se é possível encontrar alguma alegria em meio às penúrias, a quarta-feira trouxe lembranças dignas de festa aos Imperiales. Há exatos 15 anos, o Cienciano transformava-se no primeiro clube peruano a conquistar uma competição continental. Derrubando gigantes em sua caminhada, faturou a segunda edição da Copa Sul-Americana. Glória inesquecível, em uma das campanhas mais surpreendentes que o futebol sul-americano já presenciou.

Fundado em 1901, o Cienciano acumulou títulos nos campeonatos citadinos de Cusco desde o início do século, mas nunca teve grande expressividade no cenário nacional. Figurinha carimbada na elite a partir de 1973, sete anos após a criação da liga profissional no Peru, os Imperiales estavam acostumados a permanecer como figurantes no meio da tabela. Algo que mudou a partir de 2001, quando o clube celebrou o centenário e investiu alto no elenco. Pela primeira vez, a equipe terminou o Campeonato Peruano na segunda colocação, conquistando a classificação inédita à Copa Libertadores. Pois os cusqueños fariam um papel digno no torneio da Conmebol, avançando aos mata-matas. Eliminaram 12 de Octubre e Oriente Petrolero na fase de grupos, terminando na segunda colocação da chave liderada pelo Grêmio – a quem derrotaram nos Andes. Já nas oitavas, foram eliminados pelo América do México.

Terceiro colocado na tabela agregada do Campeonato Peruano de 2002, o Cienciano se classificou “apenas” à Copa Sul-Americana do ano seguinte. Uma ocasião que seria muito bem-vinda aos cusqueños. A competição continental dava os seus primeiros passos, após a edição inaugural vencida pelo San Lorenzo – que ainda não contara com a participação dos clubes brasileiros. Já em 2003, todos os países filiados à Conmebol entraram no certame, disputando fases regionais até a expansão da disputa. Os Imperiales, de qualquer maneira, não conseguiram escapar dos times tradicionais desde o início da caminhada.

O grande mentor para buscar voos altos na Sul-Americana era o técnico Freddy Ternero. Defensor com passagens por vários clubes do país, sobretudo o Universitario, encerrou sua carreira como atleta no próprio Cienciano em 1992. Logo após pendurar as chuteiras, virou treinador e ascendeu rapidamente. Virou assistente da seleção peruana entre 1996 e 1998, embora seus trabalhos mais notáveis tenham ocorrido mesmo em suas três passagens pelos Imperiales. Aquele time de 2003 era reconhecido por seu empenho defensivo, compacto no 4-4-1-1. Além disso, os cusqueños atacavam em velocidade e primavam sobretudo no jogo aéreo, origem da maioria de seus gols.

Em campo, o protagonismo começava logo pelo goleiro Óscar Ibáñez. Argentino naturalizado peruano, o veterano já tinha uma carreira estabelecida na seleção local. Provou sua qualidade repetidamente na epopeia do Cienciano. À sua frente, na linha defensiva, Miguel Llanos e Giuliano Portilla fechavam as laterais, enquanto o miolo da zaga contava com os serviços de Santiago Acasiete e do paraguaio Carlos Lugo. Acasiete foi o coração dos cusqueños ao longo da Sul-Americana, com enorme consistência para conter a pressão de adversários. Não à toa, sua carreira deslanchou depois disso, defendendo por anos a seleção e também se transferindo ao Almería.

No meio, o Cienciano se valia da experiência de Juan Carlos Bazalar, multicampeão com Universitario e Alianza Lima, dono de lançamentos precisos. Ao seu lado na cabeça de área, atuava o potente Juan Carlos La Rosa. O trabalho nas meias ficava a encargo de Alessandro Morán e Julio César García. Já na frente, o colombiano Rodrigo Saraz auxiliava a ligação rumo ao artilheiro Germán Carty. Aos 35 anos, o medalhão possuía uma série de competições com a seleção no currículo, além de passagens por México e Bolívia. Seria essencial no sucesso, com vários gols decisivos, e mostrava que tinha ainda muita lenha a queimar. Por fim, entre as demais alternativas no plantel, além do selecionável Roberto Holsen e do efetivo Paolo Maldonado, ascendia o meia Carlos Lobatón, que depois se tornaria lenda do Sporting Cristal.

A estreia na Copa Sul-Americana aconteceu contra o Alianza Lima, na fase nacional. Um primeiro desafio que já representou o potencial do Cienciano. Os Potrillos atravessavam uma era vitoriosa, em equipe estrelada por Jefferson Farfán, José Soto, Juan Jayo e outros ídolos históricos. Pois os cusqueños não tomaram conhecimento dos oponentes. Ganharam a ida em casa por 1 a 0 e repetiram o placar na visita a Lima, quando os aliancistas terminaram com dois expulsos. Já nas oitavas de final, a rivalidade atravessava as fronteiras rumo ao sul, no embate com a Universidad Católica de Mark González e Jorge Luis Campos. Uma nova oportunidade para os peruanos lavarem a alma. Em Cusco, os anfitriões foram impecáveis com a goleada por 4 a 0. Vantagem importante para segurar a pressão na visita a Santiago, quando perderam por 3 a 1 e ainda assim ficaram com a vaga – na única derrota de toda a caminhada.

Nada se comparava, porém, ao desafio que surgiu nas quartas de final. O Santos não apenas era o atual campeão brasileiro, como também vinha do vice-campeonato na Libertadores. Possuía um timaço cheio de energia e que continuava almejando todos os títulos que disputava, conciliando a Sul-Americana com a maratona no Brasileirão. E o Cienciano parecia um mero azarão contra a equipe treinada por Emerson Leão, desfrutando do talento de Robinho, Diego, Renato, Elano e outros mais. O primeiro obstáculo seria segurar o potente ataque na Vila Belmiro, onde aconteceu o jogo de ida.

O time titular do Santos, todavia, teve uma atuação decepcionante contra o Cienciano. Apesar da pressão, os alvinegros pecaram demais nas finalizações e pararam na inspiração do goleiro Oscar Ibãnez. Nem mesmo a vantagem numérica, com a expulsão de César Ccahuantico no fim do primeiro tempo, ajudou o Peixe. Aos 26 da segunda etapa, os cusqueños abriram o placar com um gol achado, em bizarro desvio de Alex contra as próprias redes. Sete minutos depois, Robinho acertou um lindo chute de fora da área, mas o 1 a 1 era pouco aos santistas. Permitia que os Imperiales acreditassem no milagre, contando com o apoio de sua torcida e o auxílio dos 3,4 mil metros de altitude na antiga capital do Império Inca.

Os maiores devaneios do Cienciano se cumpriram nos Andes. Os anfitriões surpreenderam o Santos e conquistaram a classificação às semifinais. Partindo ao ataque, o time da casa abriu o placar aos 11 minutos, com Germán Carty arrematando no canto de Fabio Costa. Elano recolocou o Peixe na parada, empatando dois minutos depois com um chute forte. Contudo, os Imperiales estavam bem mais confortáveis no Estádio Inca Garcilaso de la Vega e retomaram a vantagem aos 34, de novo com Carty, agora de cabeça. No segundo tempo, os alvinegros partiram para o desespero. Robinho acertou a trave e Fabiano teve um gol corretamente anulado. O esforço seria em vão. Os peruanos manteriam o triunfo por 2 a 1 e desbancariam um dos melhores clubes do continente. A prova cabal de que poderiam ficar com a taça.

Nas semifinais, que o oponente não fosse tão forte, era outra camisa pesada. O Atlético Nacional tinha uma boa equipe e chegava com moral, após despachar o Boca Juniors com goleada na fase anterior. Aquivaldo Mosquera, Juan Carlos Ramírez e Edixon Perea estavam entre os nomes mais relevantes daquele elenco verdolaga. E o Cienciano começou a aprontar já no Atanásio Girardot. O empate prevalecia até os 39 do segundo tempo, quando o substituto Paolo Maldonado saiu do banco para determinar a vitória por 2 a 1, com um gol por cobertura espetacular. Caminho aberto para o reencontro no Peru, para que a torcida novamente aplaudisse o poder de decisão de Carty, autor do gol decisivo no triunfo por 1 a 0. Repetindo o feito do Universitario (1972) e do Sporting Cristal (1997), ambos na Libertadores, os Imperiales se tornavam o terceiro representante peruano em uma final continental.

O River Plate seria o adversário do Cienciano na decisão. Os millonarios faziam uma campanha marcante, chegando a enfiar 8 a 1 no agregado contra o Independiente nas oitavas, além de superarem o São Paulo nas semifinais. O duelo contra os tricolores, aliás, ficou gravados pela vitória dos argentinos nos pênaltis e pela pancadaria generalizada no Morumbi, que terminou com seis expulsos. Assim, a equipe de Manuel Pellegrini tinha três desfalques para o primeiro confronto da finalíssima, Horacio Ameli o mais importante deles. Apesar disso, o beque não parecia fazer falta ao time que conquistara o Torneio Clausura no primeiro semestre e vinha com força para buscar uma taça continental, algo que não erguia desde 1996. Marcelo Gallardo, Lucho González, Eduardo Coudet, Maxi López, Javier Mascherano e Marcelo Salas formavam a constelação em Núñez.

A partida de ida, no Monumental, foi completamente insana. O recebimento pulsante da torcida alvirrubra não intimidou os cusqueños. Tanto é que o Cienciano abriu o placar, aos 26 minutos, com Giuliano Portilla aproveitando rebote de bola na trave. A resposta do River viria com Maxi López. O jovem atacante arrancaria o empate um minuto depois e, com os millonarios martelando, virou no início da segunda etapa, graças a um cruzamento de Coudet. Os Imperiales não se entregariam. Aos 22, Carty apareceu e silenciou a torcida argentina com um gol de cabeça. E diante das chances perdidas dos anfitriões, Portilla seria o herói inesperado, virando novamente o marcado, em testada firme aos 34. As Gallinas, ao menos, evitariam a derrota. A cinco minutos do fim, Salas resolveu, mostrando sua fome de gols. Fechou a conta em 3 a 3. O chileno poderia até ter assinalado o quarto, mas parou em milagre de Ibañez no mano a mano. Seria necessário ao River tentar reverter no Peru.

Por conta dos limites de capacidade no Estádio Inca Garcilaso de la Vega, com espaço para 28 mil espectadores na época (seria ampliado logo depois para 42 mil, visando a Copa América de 2004), a finalíssima precisou ser realizada em Arequipa. Havia, é claro, um sentimento nacionalista em diferentes cidades do país, desejando a primeira conquista internacional de um clube peruano. Ainda assim, a torcida do Cienciano acompanhou seu time e criou uma atmosfera bastante calorosa no Estádio Monumental de la UNSA, com 47 mil presentes. O recebimento teve um espetáculo pirotécnico aos cusqueños. Seria uma noite dramática, contra a sedenta equipe de Manuel Pellegrini.

O River Plate pressionou durante todo o primeiro tempo, diante de um desencontrado anfitrião. Ibañez acumulou defesaças, chegando a desviar um tiro venenoso de Gallardo rumo à trave. De problema aos portenhos, apenas a lesão precoce de Marcelo Salas, substituído por Daniel Montenegro. Já no início do segundo tempo, a situação ficou pior ao Cienciano. O árbitro foi um bocado rigoroso e expulsou Juan Carlos La Rosa com o segundo amarelo, ao levantar demais o pé em uma disputa dividida. Restavam 38 minutos e mais os acréscimos para os peruanos atuarem com 10. E, quando menos se esperava, os mandantes ratificaram sua atitude vencedora.

A arbitragem até parecia pender ao River. Na sequência do segundo tempo, um carrinho fortíssimo na intermediária poderia ter rendido a expulsão do paraguaio Ricardo Rojas. O juiz só mostrou amarelo. Ainda assim, o lance gerou uma falta perigosa ao Cienciano. O lance histórico, que selou a conquista continental aos cusqueños. Carlos Lugo se preparou à cobrança. Não bateu bem na bola, mandando à meia altura, em direção à barreira. Todavia, a pelota passou justamente entre dois argentinos. Seguiu em direção ao canto da meta e quicou bem na frente de Franco Costanzo, antes de morrer nas redes. Um lance improvável consagrou um campeão improvável, aos 32 minutos. No restante do tempo, caberia aos Imperiales segurarem os oponentes. Julio García também foi expulso aos 42 e, mesmo com nove, os anfitriões confirmaram o placar mínimo. A façanha se concretizava.

Nem todos os torcedores puderam viajar a Arequipa. E, por isso mesmo, Cusco viveu uma erupção de fanáticos enlouquecidos naquela noite. A Plaza de Armas, antigo centro administrativo do Império Inca, experimentava uma overdose de euforia. Milhares e milhares de pessoas abarrotavam o amplo espaço, assistindo à final em um telão. Comemoraram efusivamente o feito, como se fosse uma final de Copa do Mundo. Ao menos por uma noite, Cusco se tornava outra vez a cidade mais importante do continente. Ninguém tirava este orgulho, proporcionado pelo Cienciano. Que os clubes peruanos não possuam nas competições continentais um histórico condizente à sua tradição no futebol, bem menos vitoriosos que a seleção, os Imperiales honravam todos eles.

Sétimo colocado na tabela geral do Campeonato Peruano, o Cienciano voltaria à Libertadores de 2004 graças a uma seletiva. Cairia na fase de grupos, em chave que também tinha Nacional de Montevidéu e Independiente. De longe, veria o Once Caldas emular o seu sucesso em patamar maior, também se pautando em uma equipe forte defensivamente e capaz nas bolas paradas. Os cusqueños, ainda assim, teriam sua ponta de glória em setembro de 2004. A Recopa Sul-Americana daquele ano aconteceu em jogo único, no Estádio Lockhart de Fort Lauderdale. A grande atração ao público americano era o Boca Juniors, campeão da Libertadores de 2003. Treinados por Miguel Brindisi, os xeneizes tinham em campo Martín Palermo, Carlos Tevez, Diego Cagna e Pato Abbondanzieri, entre outros. Medalhões que também sucumbiram aos nanicos.

Tevez ia dando o título para o Boca com um gol aos 33 do primeiro tempo. No entanto, aos 44 da etapa final, Rodrigo Saraz apareceu para desviar uma falta cobrada de muito longe, surpreendendo Abbondanzieri. O empate por 1 a 1 forçou a disputa por pênaltis. E nela Ibañez se consagraria um pouco mais. O goleiro defendeu as cobranças de Tevez e Fabián Vargas. Garantiu a vitória por 4 a 2, com seus companheiros convertendo todos os chutes. Outra vez, o Cienciano erguia uma taça continental. Mais do que isso, eternizava-se desbancando Boca Juniors e River Plate em duas decisões consecutivas.

Na sequência da década, além de se transformar em figurinha carimbada na Libertadores (com participações consecutivas até 2008, sempre caindo na fase de grupos), o Cienciano bateria na trave em suas tentativas de conquistar o Campeonato Peruano. Seria duas vezes vice-campeão, sem conseguir quebrar o tabu na liga. O único clube do país com um título continental permanece virgem na liga nacional. O sucesso, entretanto, não se sustentou. Encarando crises administrativas na virada da década, perdeu relevância no cenário local, até enfrentar o inédito rebaixamento em 2015.

O ano de 2015, aliás, seria ainda mais doloroso à torcida cusqueña. Freddy Ternero deixou o Cienciano em 2004, após a conquista da Recopa Sul-Americana, para se tornar o comandante da seleção peruana. Assumiu a bomba após a demissão de Paulo Autuori e ficou poucos meses à frente da Blanquirroja, com um aproveitamento ruim. Ainda assim, o moral era tamanho que Ternero deixou a casamata para tentar a sorte na política. Por dois mandatos, foi prefeito de San Martín de Porres. Porém, em 18 de setembro de 2015, nove meses após deixar a municipalidade, o ídolo imperial faleceu, vítima de um câncer hepático. As homenagens aos campeões de 2003, cada vez mais, se tornaram tributos ao homem que tornou o sonho possível. Àquele que liderou um dos maiores contos de fadas do futebol sul-americano.