Cristiano Ronaldo instituiu uma era no Real Madrid e transformou a história do clube durante sua passagem com a camisa merengue. No entanto, isso não pode ofuscar os excelentes anos que o craque também viveu no Manchester United. O trabalho com os Red Devils foi fundamental para que o prodígio formado pelo Sporting se tornasse um dos melhores do mundo, acumulando taças e vencendo sua primeira Bola de Ouro em 2008. O estilo de jogo era bastante distinto ao goleador que se transformou na Espanha, exibindo um repertório maior de dribles e jogadas individuais em Old Trafford. De qualquer maneira, o amadurecimento sob as ordens de Sir Alex Ferguson valeu demais ao camisa 7. Foram seis temporadas notáveis, com 118 gols anotados em 292 partidas. A primeira delas, ocorrida há exatos 15 anos, com sucesso imediato.

Objeto de desejo do Manchester United, especialmente após uma grande atuação contra o clube em amistoso pelo Sporting, Cristiano Ronaldo inicialmente chegou para compor o elenco. Era uma aposta alta para a época, custando £12,2 milhões, mas seus 18 anos pediam cautela. De qualquer maneira, sua estreia ocorreu logo na primeira rodada da Premier League. O jogo contra o Bolton em Old Trafford ainda não estava resolvido, com a vitória parcial dos Red Devils por 1 a 0. Ryan Giggs havia aberto o placar cobrando falta, mas não se via um desempenho tão impressionante assim dos anfitriões. Então, aos 16 minutos do segundo tempo, Fergie chamou o prodígio e o colocou no lugar de Nicky Butt, tentando incendiar a peleja. Deu certo.

Caindo pela ponta esquerda, Ronaldo precisou de pouco tempo para demonstrar o seu talento. Colecionou jogadas de efeito, entre dribles e pedaladas. Não à toa, acabaria sofrendo um pênalti, que Ruud van Nistelrooy desperdiçou diante de Jussi Jääskeläinen. Depois, seria dele o lance que permitiu o segundo tento. O cruzamento foi ajeitado por Paul Scholes, Roy Keane carimbou o goleiro e Giggs fez mais um no rebote. Na sequência da partida, o garoto seria deslocado ao lado direito. Criaria outros lances de perigo, mas sem terminarem nas redes. Além disso, viu Scholes e Van Nistelrooy fecharem a goleada por 4 a 0. A energia demonstrada pelo novato já serviu para que os mancunianos se empolgassem. “Há apenas um Ronaldo”, cantavam as arquibancadas, apenas meses depois de aplaudirem o Fenômeno por sua atuação destruidora no estádio pelas quartas de final da Liga dos Campeões, quando o Real Madrid eliminou o United.

“O estreante Cristiano Ronaldo anunciou sua chegada à Premier League com uma atuação cintilante no segundo tempo, atuando como catalisador para os três gols do Manchester United. A tarde pertenceu ao prodígio português, que exibia as habilidades deslumbrantes responsáveis por convencer Ferguson a levá-lo ao Teatro dos Sonhos. Foi ovacionado em pé pelos torcedores”, reportou a BBC, em seu texto sobre a partida.

O Guardian, por sua vez, comparava o novato a David Beckham, vendido naquela mesma janela de transferências ao Real Madrid: “A intenção de Giggs ser o novo Beckham durou precisamente uma hora. A cobrança de falta do galês foi o único ponto de discussão do jogo até a entrada de Cristiano Ronaldo para animar o processo. A promessa portuguesa certamente fez isso. Ninguém estava falando de Beckham ao final do jogo e nem mesmo do segundo gol de Giggs. O único tópico era a estreia sensacional de um jogador que pode fazer precisamente o que Beckham não conseguia – driblar insolentemente os defensores e produzir o inesperado – e por um preço que é metade do que pagou o Real Madrid pelo capitão da seleção inglesa”.

Sir Alex Ferguson, quase sempre cauteloso ao lançar novos jogadores, não escondeu as expectativas ao redor de Cristiano Ronaldo logo após a goleada: “A nossa torcida tem um novo herói. Foi uma estreia maravilhosa, quase inacreditável. Eu pensava que o jogo tinha sido muito lento no primeiro tempo e sabia que Cristiano Ronaldo poderia nos dar mais penetração. Temos que ser cuidadosos com o garoto. Você precisa lembrar que ele tem apenas 18 anos. Vamos ter que avaliar como o usaremos”. O adolescente também conquistou o respeito de Sam Allardyce, então comandante do Bolton: “Esperávamos que ele nem começasse no banco. Ele me lembra Giggs no início da carreira. Pode jogar por dentro, por fora, usa os dois pés e parte para cima dos marcadores. Todo mundo prende a respiração quando ele pega a bola”.

Já os maiores elogios vieram de outra lenda da camisa 7 do Manchester United: ninguém menos que George Best. “Foi, sem dúvidas, a estreia mais empolgante que eu já vi na vida. Há jogadores que têm algumas similaridades comigo, mas este rapaz se parece mais do que qualquer outro, especialmente porque ele é genuinamente ambidestro. Ele pode jogar nas duas pontas, passar pelos adversários com facilidade e fazer cruzamentos perigosos com os dois pés. Quando foi a última vez que você viu isso?”, declarou o veterano. “Também gostei da maneira como Ronaldo lidou com o embate físico. Assim que entrou, foi atingido por trás, mas se levantou e seguiu no jogo. Essa é a atitude certa. Eu costumava curtir quando os defensores tentavam me chutar. Isso apenas me deixava mais determinado em humilhá-los. Quando o vi na pré-temporada contra o United, jogando pelo Sporting, pensei: ‘Alguém tem que buscar este garoto’. O preço parece alto para quem tem 18 anos, mas acho que foi uma pechincha. Ele é especial, eu pude ver isso imediatamente. Após descobrirmos uma joia como Ronaldo, o próximo título da Champions não deve estar tão distante”.

A primeira partida de Cristiano Ronaldo como titular na Premier League aconteceu na quinta rodada, durante a vitória sobre o Charlton. Já o primeiro gol ocorreu junto com a primeira assistência, incendiando o duelo contra o Portsmouth ao sair do banco nos 15 minutos finais. O reforço terminaria a primeira temporada na liga com quatro gols e quatro assistências em 29 partidas, 15 delas como titular. Impulso para buscar mais a partir do ano seguinte, logo se tornando uma referência dentro da equipe de Sir Alex Ferguson. E, um tempo depois, rumou ao estrelato com o tricampeonato inglês e a conquista de sua primeira Champions, em 2008. As palavras de Best, olhando para trás, soam um tanto quanto proféticas.


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