Há exatos 125 anos, era escrito um capítulo fundamental da história do futebol. O dia 8 de setembro de 1888 é importante por marcar o pontapé inicial do Campeonato Inglês, mas representa muito mais do que isso. Naquela data, era fundada a primeira liga nacional do mundo. Um modelo que começava a ser adotado ali, pelas dezenas de operários que haviam acabado de se profissionalizar como jogadores, e que perdura até hoje, disputado pelas estrelas multimilionárias e seguido por milhões de torcedores.

A formação do torneio começou a ser arquitetada em abril de 1888, quando a English Football League foi fundada. A Inglaterra já contava com a FA Cup desde 1872, assim como a Escócia passou a organizar a Scottish FA Cup a partir de 1874. O objetivo da entidade, no entanto, era criar um torneio que mantivesse os clubes em atividade durante a maior parte do ano, o que impulsionou a criação da liga cinco meses depois, contando com 12 equipes.

A liga só existiu graças ao profissionalismo

 

Para entender as motivações para criação da primeira liga do mundo, é preciso levar em conta os dilemas que cercaram o futebol a partir de 1863. Quando as regras do jogo foram estabelecidas, as atividades esportivas tinham grande importância no Reino Unido. Elas eram vistas como ferramentas para promover a diversão, a saúde física e a confraternização de cavalheiros, como uma valorização enorme do espírito esportivo. Para que tais virtudes se mantivessem intactas, todavia, os organizadores pregavam o amadorismo no esporte.

Os interesses financeiros eram vistos como uma ameaça. A condenação à remuneração serviu como instrumento para garantir a elitização do futebol, evitando que pessoas de classes mais pobres se dedicassem somente ao esporte e se misturassem com os mais ricos. As primeiras edições da FA Cup são um exemplo claro dessa “aristocracia da bola”, quando a competição era dominada por equipes de Londres, formadas por ex-estudantes de escolas públicas e membros das classes mais altas da capital inglesa.

Contudo, a competitividade que se desencadeara à medida que a FA Cup ganhava importância passou por cima de todos esses valores. Em busca da vitória, surgiram suspeitas de que vários clubes pagaram atletas para incentivá-los. Os casos mais escandalosos envolviam jogadores escoceses, considerados tecnicamente melhores, que se mudavam à Inglaterra apenas para defender equipes locais.

O time do Darwen, a primeira zebra da história do futebol inglês

O time do Darwen, a primeira zebra da história do futebol inglês

Diante desse processo, o cerco contra o profissionalismo começou a aumentar. O primeiro sinal desse conflito aconteceu em 1879, quando o Darwen chegou às fases finais da FA Cup. Não se esperava que o clube do norte, formado por jogadores de classes operárias, pudesse incomodar o Old Etonians, uma das potências de Londres. Os desconhecidos, entretanto, buscaram o empate quando perdiam por 5 a 1 e forçaram o jogo extra. Mesmo eliminados, deixaram a dúvida: como um time insignificante poderia incomodar uma das maiores forças da Inglaterra? Entre as estrelas do Darwen, estavam dois escoceses.

Para barrar essa artimanha, a Football Association proibiu a importação de jogadores em 1882, assim como o pagamento – só havia brecha para a compensação de dinheiro gasto pelos atletas. O Preston North End foi eliminado da FA Cup naquele ano ao ser acusado de pagar seus atletas. Um dos grandes defensores da aceitação do profissionalismo, o clube admitiu a quebra das regras. Já Bolton Wanderers entrou na mira dos dirigentes e foi absolvido, mas depois confessou que enganou a comissão de investigação.

Outro momento importante aconteceu em 1883, mais uma vez protagonizado pelo Old Etonians. Pela primeira vez, um time de Londres perdia a decisão da FA Cup para um rival do norte da Inglaterra. Mais significativo, eram aristocratas derrotados por operários – cinco funcionários de uma fábrica de tecidos, um metalúrgico, um escriturário, um encanador, um assistente de dentista, um emoldurador e um dono de pub. Sob os olhares de oito mil pessoas, o Blackburn Olympic bateu os então donos da taça, que disputavam sua sétima final do torneio. Em consequência do revés, os times londrinos abandonaram a competição na temporada seguinte, criando a Amateur Cup.

O Blackburn Olympic é um ícone da transformação que vivia o futebol. O esporte se tornava muito relevante no norte da Inglaterra, região marcada pelas cidades fabris, berços da Revolução Industrial. Os times eram vistos como uma maneira de simbolizar a prosperidade da cidade, desafiando a superioridade dos londrinos. Os empregos dos jogadores do Olympic foram arranjados pelos próprios dirigentes do clube, que ainda incrementava seus salários com bonificações não registradas em seus balanços. O maior exemplo de uma situação clandestina que se tornava cada vez mais comum.

A pressão aumentou em 1884, quando mais de 30 clubes do norte anunciaram que formariam a British Football Association, caso a FA não permitisse o profissionalismo. Dezoito meses depois, a entidade acabou cedendo e legalizando a remuneração. A partir de julho de 1885, os jogadores começaram a ser pagos por seu trabalho, em um passo fundamental para a organização do futebol.

Um campeonato totalmente inovador
Estátua de Sir William McGregor na frente do Villa Park

Estátua de Sir William McGregor na frente do Villa Park

O profissionalismo foi admitido, mas outro problema surgiu. A FA Cup era uma competição eliminatória, que poderia deixar clubes ociosos durante boa parte do ano – até porque as partidas de desempate muitas vezes obrigavam que amistosos fossem desmarcados. A necessidade de pagar salários exigia que os empregadores tivessem uma renda estável durante toda a temporada. E, embora os clubes mais famosos fossem bastante visados para amistosos, outros tantos ficavam à mercê de adversários que surgissem. Presidente do Aston Villa, William McGregor decidiu então se reunir com outros dirigentes para criar um novo campeonato que atendesse às demandas.

A solução encontrada pode parecer óbvia, mas surge como uma revolução gigantesca. Para que todos os clubes se mantivessem em atividade pelo mesmo período e disputassem quantidade de jogos, os pontos corridos foram instituídos. Uma alternativa eficaz para os objetivos da Football League, contrapondo aos mata-matas da FA Cup, e inovadora em sua essência, já que não existiam outros torneios que pudessem servir como exemplo.

Em março de 1888, representantes de Aston Villa, Blackburn Rovers, Burnley, Notts County, Stoke, West Bromwich Albion e Wolverhampton Wanderers se reuniram para organizar o primeiro Campeonato Inglês. No mês seguinte, Accrington, Bolton Wanderers, Derby County, Everton e Preston North End se juntaram ao grupo e, com 12 clubes, a Football League foi oficialmente criada. Todos integrantes vinham de Midlands ou de regiões mais ao norte do país, prova de como a adesão ao profissionalismo foi marcante para essa nova etapa – o primeiro clube profissional de Londres só surgiu em 1891, o Royal Arsenal, enquanto a primeira aparição na liga aconteceu apenas em 1904, também com os Gunners.

Por ser um campeonato totalmente novo, muitas situações não previstas foram enfrentadas na época e ajudaram a formatar o esporte nas décadas seguintes. Um exemplo claro vem com o formato de pontuação da Football League. No início, os dirigentes decidiram conceder o título ao clube com maior número de vitórias, mas mudaram de ideia na 12ª rodada e passaram a dar dois pontos por triunfo, além de um por cada empate. Outra determinação importante veio com a proibição de que um atleta atuasse por mais de um clube na mesma temporada, evitando uma quantidade excessiva de transferências.

Na primeira edição do Campeonato Inglês, também nasceu a arbitragem. Foi acertado que as partidas seriam dirigidas por dois “umpires”, indicados por cada um dos clubes. Caso os dois discordassem de alguma marcação, um “referee” neutro que acompanharia o jogo da lateral teria a última palavra – apenas em 1891 haveria uma inversão hierárquica, com os “umpires” passando às laterais e o “referee” entrando em campo.

O domínio dos Invincibles de Preston
Os Invincibles do Preston North End

Os Invincibles do Preston North End

No dia 8 de setembro, a primeira rodada da Football League contou com 10 dos 12 clubes em campo. Uma tarde ensolarada de sábado, em que boa parte das partidas foi atrasada a fim de que os milhares de torcedores interessados se acomodassem nas arquibancadas. O primeiro gol veio dos pés de Kenny Davenport, atacante do Bolton, que abriu o placar na derrota dos Whites por 6 a 3 para o Derby County. Já o primeiro líder, por sua vez, foi o West Brom, que venceu o Stoke por 2 a 0 e ficaria à frente dos rivais graças ao “gol average” – divisão entre os tentos marcados pelos sofridos, o critério de desempate adotado na época.

E não demorou muito para que outras competições imitassem a Football League. Dez dias depois da primeira rodada, o torneio ganhou concorrência com o surgimento do “Combinantion”, uma liga que envolvia outros clubes ingleses. A repercussão do novo Campeonato Inglês, porém, foi incomparável diante de qualquer outra competição. Em uma era totalmente diferente para o futebol, William McGregor até defendeu o sucesso pelo fato de que “nenhum jogador havia falecido em campo”.

O primeiro esquadrão do Campeonato Inglês foi o Preston North End. Os lilywhites sobraram na competição, conquistando 40 de 44 pontos possíveis. Foram 18 vitórias e quatro empates, se mantendo por 115 anos como os únicos “Invincibles” do torneio, até que o Arsenal repetisse a façanha em 2003/04. Além disso, a equipe teve o melhor ataque, passando em branco em apenas um jogo, e também a melhor defesa. Uma supremacia explicada pela montagem do elenco, que contava com vários talentos “importados” da Escócia e de Gales. O principal destaque, porém, era o centroavante inglês John Goodall, primeiro artilheiro da liga.

Nos anos seguintes, a Football League evoluiu gradativamente, incorporando novidades que perduram até hoje no esporte. Em 1890 foram introduzidos os uniformes reservas, enquanto no ano seguinte as grandes invenções foram as redes e os pênaltis. Além disso, a incorporação de novos participantes à competição foi inevitável. Em 1891/12, a liga sofreu uma expansão para 14 equipes e, no ano seguinte, foi criada uma segunda divisão com acesso e descenso.

Cento e vinte e cinco anos depois, a proporção que aquela ideia primordial tomou é imensurável. Em 1890, escoceses, irlandeses e holandeses seguiram os ingleses e criaram suas próprias ligas. Hoje, não há país no mundo que não conte com seu campeonato nacional. Enquanto isso, a Premier League permanece como um exemplo, pela proporção de seus clubes e pelas cifras milionárias. Uma realidade que pouco lembra as origens operárias do torneio, mas que é consequência clara da utilização do futebol em prol dos interesses econômicos.


Os comentários estão desativados.