Há exatos 120 anos, o futebol na América do Sul vivia um grande marco. Afinal, em 25 de maio de 1900 foi inaugurado aquele que é considerado o primeiro estádio de futebol do continente: o Grand Parque Central, casa do Nacional e de alguns outros episódios fundamentais à história – não apenas do esporte. A atual estrutura é a quarta versão do estádio, que continua recebendo as partidas dos tricolores e até mesmo passou por ampliações recentes. O que não se perde é a alma de sempre, traduzida nos duelos de Libertadores que passam pelo gramado.

Antes que o Parque Central fosse erguido naquele terreno em Montevidéu, o cenário fez parte da independência do Uruguai. Foi naquele mesmíssimo local, em 1811, que José Gervasio Artigas seria nomeado o “Jefe de los Orientales”. Seria ele o líder do movimento de libertação do país, com a independência declarada em 1825. Ainda hoje, o Nacional mantém uma placa de homenagem a Artigas, em que menciona a importância histórica do lugar a qualquer transeunte que passe por ali.

Em seus primórdios, o Parque Central não tinha o Nacional como dono exclusivo. A inauguração, em 25 de maio de 1900, serviu para celebrar o espaço cedido pela companhia de bondes como local público para a prática de esportes. Sob grande festa, com apresentações musicais e outras atrações, a abertura contou com 7 mil presentes. A primeira partida aconteceu entre Deutscher Fussball Club e CURCC – este, o clube que deu origem ao Peñarol, com vitória dos aurinegros por 2 a 0 na ocasião. O Nacional só entrou em campo dois dias depois, em 27 de maio, empatando com o Deutscher por 1 a 1. O primeiro gol dos tricolores foi de Ernesto Caprario, que um ano antes havia fundado a agremiação.

Nacional e Deutscher logo se tornaram os mandantes costumeiros no Parque Central, que possuía dois campos, além de quadras de tênis. No entanto, os tricolores conseguiriam a concessão definitiva, investindo no espaço e construindo arquibancadas de madeira. A seleção uruguaia também mandava os jogos durante seus primórdios no estádio. Com a popularização da modalidade em Montevidéu, o Parque Central cresceu junto, ganhando capacidade para 15 mil espectadores a partir da década de 1910.

Nem só de futebol vivia aquele gramado, palco também de suas tragédias. Em 1918, o capitão do Nacional, Abdón Porte, tirou sua própria vida com um tiro no círculo central, desiludido com o declínio de sua carreira na equipe. Meses depois, em 1920, ocorreu um duelo de pistolas (!) entre o ex-presidente José Battle y Ordóñez e Washington Beltrán, jornalista do El País local. Embora 29 anos mais velho, Battle y Ordóñez foi mais rápido no gatilho e matou seu oponente dentro do Gran Parque Central.

Em 1923, o Gran Parque Central sofreria um incêndio. Seria reconstruído para iniciar sua era de grandes competições naquele mesmo ano, com a realização do Campeonato Sul-Americano. O título do Uruguai, campeão com um elenco baseado principalmente em jogadores tricolores, levaria a Celeste à consagração nos Jogos Olímpicos de 1924. O torneio continental de 1924 também seria sediado no estádio, até que a cereja do bolo ficasse guardada para a Copa do Mundo de 1930. O pontapé inicial do Mundial ocorreu no Parque Central, que recebeu o Estados Unidos x Bélgica no mesmo horário que França x México, no Estádio de Pocitos. O primeiro gol, todavia, se deu na antiga casa do Peñarol, anotado pelo francês Lucien Laurent.

O Uruguai mandou todos os seus jogos na Copa de 1930 dentro do recém-inaugurado Estádio Centenario, sua casa a partir de então. Ao menos, o Gran Parque Central abrigou as estreias de Brasil e Argentina em Copas. Os brasileiros perderam para a Iugoslávia por 2 a 1, com o famoso tento de Preguinho para fechar o placar. Já os argentinos bateram a França por 1 a 0, cortesia de Luis Monti, futuramente um “oriundi” campeão do mundo com a Itália. Por lá também ocorreu o primeiro hat-trick dos Mundiais, assinalado pelo americano Bert Patenaude, na goleada dos Estados Unidos por 3 a 0 sobre o Paraguai.

Já em 1941, de novo o Gran Parque Central sofreu um incêndio. Enfim, o estádio seria reconstruído em concreto, reinaugurado em 1944. Só que a utilização frequente do Centenario tornou o velho estádio uma casa apenas ocasional ao Nacional, aproveitado mais por sua estrutura como sede do que como campo de futebol propriamente dito. Essa subutilização mudaria há 15 anos, quando uma ampla reforma modernizou as estruturas. Desde então, a cancha passa por melhorias paulatinas. Entre as novidades recentes estão os camarotes e também a ampliação dos setores de arquibancadas. O passo final poderia vir na Copa de 2030.

O Nacional reforçou o caráter do Gran Parque Central como seu alçapão. A inauguração do novo estádio do Peñarol também possui sua influência, motivando os tricolores a mandarem suas partidas com mais frequência no próprio estádio, e não no Centenario. As tribunas voltaram a trepidar nas grandes partidas de Libertadores, embora o Bolso esteja distante de se equiparar aos esquadrões do passado. A Celeste Olímpica, afinal, começou a se formar naquele gramado de tantas glórias.