Soccer City, Joanesburgo. As atenções de todo o planeta se voltavam ao estádio, epicentro da alegria africana ao receber pela primeira vez um jogo de Copa do Mundo. E as expectativas aumentavam, diante do zero que persistia no placar. O primeiro tempo guardou algumas emoções, mas foi só na volta do intervalo que a genuína explosão das vuvuzelas pelo primeiro gol do Mundial aconteceu. A bola enfiada concedia uma estrada para que o camisa 8 dos Bafana Bafana acelerasse ao máximo. Chegou muito antes do marcador mexicano, com tempo de dominar e engatilhar a perna esquerda. Então, o chute imparável saiu da canhota. A Jabulani fulminante seguiu o caminho perfeito para cruzar a área e morrer no canto oposto da meta, na exata junção entre trave e travessão. Era uma pintura para abrir, de maneira inesquecível, a Copa de 2010.

Talvez você não se lembre do placar final do jogo. Talvez não se lembre que Rafa Márquez anotou o tento que garantiu o empate por 1 a 1 ao México. Talvez não se lembre dos milagres do goleiro Itumeleng Khune, um dos heróis sul-africanos da noite. Talvez não se lembre da bola na trave já no finalzinho, que por muito pouco não assegurou o triunfo aos Bafana Bafana. O que não dá para esquecer é aquele golaço, aos 10 minutos do segundo tempo. O petardo, as tranças esvoaçantes, a dancinha em êxtase na comemoração. E não tem como apagar da memória o nome de Siphiwe Tshabalala, um dos heróis da Copa do Mundo. O camisa 8 não venceu a partida, não alcançou a classificação, não disputou outros Mundiais. Mas ganhou um pedacinho das lembranças de tanta gente por aquele golaço, e isso já vale por uma vida.

“Dois dias antes do jogo, fizemos um desfile em carro aberto. Parreira não sabia e não gostou, mas o convencemos a deixar que alguns jogadores participassem. Quando eu estava no ônibus, foi muito emocionante ver nosso povo usando as cores da seleção, demonstrando seu apoio a nós. Isso realmente me tocou e sempre será um ponto alto. Eu vi unidade. Não vi negros, não vi brancos, vi uma só raça. Vi a nação arco-íris. Não me arrependi de estar naquele ônibus, acenando para as pessoas e agradecendo”, recontou Tshabalala nesta semana, à associação sul-africana de cronistas esportivos.

“Eu ainda me lembro do momento em que cantei o hino. Cantei com orgulho e com os olhos marejados. Fiquei muito motivado e sabia que jogaria bem. Obviamente, é uma grande partida, o mundo todo está assistindo e você precisa fazer seu melhor. Então, o gol não veio por acaso. Foi uma transição perfeita, uma corrida perfeita, o peso da bola e a velocidade foram perfeitos. Meu domínio foi bom e eu senti, quando a bola saiu dos meus pés, que ela definitivamente entraria. A comemoração também saiu da confiança de que marcaríamos. Estava preparada. Tudo ótimo, por isso foi um gol perfeito”, complementou.

Tshabalala não é um personagem qualquer. Ele é um cara que mereceu demais aquele sucesso, ainda que não tenha voltado à maior vitrine do futebol mundial. A começar por sua própria história de vida. O garoto nascido em 1984, em tempos de Apartheid, vinha de Soweto – a cidade à parte da cidade marcada pela luta antirracista e pela resistência. Ele cresceu em uma grande casa onde moravam os avós, os pais, os tios, a irmã, os primos. O Soccer City, nos limites de Soweto, era como um quintal ao atacante, então com 25 anos.

Pela seleção, Tshabalala também escreveu uma história que vai além da Copa. Seu talento era tão notável que se tornou o primeiro jogador da segunda divisão local a ser convocado aos Bafana Bafana. Logo viu sua carreira deslanchar e assinou com o Kaizer Chiefs, emblemático clube de Soweto. Sua trajetória com a África do Sul estava relativamente no início em 2010, completando seu quinto ano com o elenco principal. Mesmo sem outra Copa do Mundo, disputou três Copas Africanas de Nações e também acumulou 90 aparições pela equipe nacional – o segundo com mais partidas na história dos sul-africanos, abaixo apenas de Aaron Mokoena.

E o gol não seria mero golpe de sorte. Tshabalala é considerado um dos pontas mais talentosos do futebol sul-africano. A velocidade era uma de suas características, como evidente a todo o mundo naquele 11 de junho. Mas também os chutes indefensáveis de canhota aconteciam com certa frequência. Além daquele que Conejo Pérez só viu morrer nas redes, vieram tantos outros de fora da área, com potência ou com categoria. Era uma maneira de ampliar ainda mais a idolatria de Tshabalala no Kaizer Chiefs, o qual defendeu por mais de uma década (2007-18) e acumulou taças. O autor daquele tento memorável também figura entre as lendas de um dos clubes mais populares da África.

Aos 35 anos, Tshabalala pendurou as chuteiras na temporada passada, em sua única aventura pelo futebol europeu. Atuou no modesto Erzurumspor, que acabou rebaixado no Campeonato Turco. Não jogar em grandes centros, contudo, não impediu que o atacante fosse aclamado por seu povo, diante de tudo o que construiu com os Bafana Bafana e com o Kaizer Chiefs. Aposentado, resolveu retribuir: escreveu um livro para crianças contando sua história. Tentando inspirar outros garotos e garotas de origem humilde a ter esperanças, a sonhar alto.

Graças àquela Copa do Mundo dentro da África do Sul, Tshabalala sempre será reconhecido por muito mais gente além dos seus. Mencionar seu nome é se lembrar, de imediato, de várias sensações – da disparada, do chutaço, da bola na gaveta, das tranças, da dança, mas também de como cada um ao redor do planeta viveu aquele lance, como se empolgou com o início do Mundial, como vivenciou a abertura ao lado de pessoas queridas. É isso que a Copa provoca. Tshabalala, com aquele chute, ganhou um passe livre à memória.

“Foi uma bela história sobre um garoto das ruas poeirentas de Soweto, que sempre sonhou em jogar nos grandes palcos, e cujos sonhos se tornaram realidade. O gol foi o maior momento da minha vida e da minha carreira. Percebi que o gol era maior do que eu, era maior que nós todos, pelo impacto que teve na vida de tantos sul-africanos. O gol uniu as pessoas, éramos um país inteiro comemorando e acredito que deu o tom para a Copa do Mundo”, declarou Tshabalala, ao Sunday World. “São dez anos e o tempo voa, mas as pessoas ajudam você a não se esquecer e te lembram todos os dias. Por onde ando, ainda querem falar e reviver o gol. Não é apenas sobre o gol, mas sobre a sensação de quão grande era a ocasião. Foi um grande momento não só para mim, mas para os Bafana Bafana, para a África do Sul, para a África e para o mundo inteiro”.