Não há labuta mais exigente que a do volante. O jagunço responsável por guardar grandes latifúndios de campo, sempre atento a qualquer tentativa de invasão de seu campo. Mas que não pode ser apenas um brucutu. Precisa também incorporar o relojoeiro que trabalha com precisão, dando o passe certeiro para atacantes, meias e pontas brilharem. O operário que une o mais braçal e o mais delicado, cujo erro de qualquer lado pode ser fatal. O tal carregador de piano. Que, dependendo de genialidade, também pode ser maestro. Como bem mostrou Fernando Redondo ao longo de sua carreira. O volante que botava o piano nas costas e, ainda assim, conseguia dedilhar as mais belas sinfonias.

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Redondo foi um dos meio-campistas mais técnicos que o futebol já teve. A segurança na saída de jogo era garantida pelo craque que tratava muito bem a bola. Lançamentos geniais, passes cirúrgicos, dribles fantásticos. Mas que não abria mão das jogadas mais ríspidas para proteger a sua defesa. Unia ao mesmo tempo dois tipos clássicos do futebol argentino: o meia cerebral e o volante pegador. Uma mescla única, que o fez marcar época principalmente na seleção e no Real Madrid.

Redondo era o exemplo de jogador que atuava de cabeça erguida. E que também não abaixava a cabeça para contrariar os seus princípios. Negou a Albiceleste na Copa de 1990 por achar mais importante completar os seus estudos, quando já brilhava no Argentinos Juniors – embora também discordasse das visões do técnico Carlos Bilardo. Para, oito anos depois, não se curvar às regras abusivas de Daniel Passarella, que exigia cabelos curtos de seus comandados. O craque se aposentou com apenas Copa do Mundo no currículo. Ao menos os dois títulos da Champions com o Real Madrid, a segunda com a braçadeira de capitão, também ajudaram a engrandecer um pouco mais o seu brilhantismo em campo.

Vencido pelas lesões, Redondo não abaixou a cabeça nem mesmo quando precisou pendurar as chuteiras. A partir de sua transferência ao Milan, em 2000/01, os joelhos não suportavam mais o peso do piano. Decidiu se aposentar aos 34 anos, em 25 de novembro de 2004. Uma grande perda para o futebol.

Nos dez anos da despedida formal de Redondo, vale relembrar o seu talento. E ver os grandes lances daquele que deveria continuar sendo o exemplo para qualquer volante do mundo. Abaixo, um vídeo com suas jogadas, e os seus lances naquela que é considerada por muitos a sua melhor atuação, contra o Manchester United na Champions 1999/00. Atenção para a jogada no gol de Raúl, a partir de quatro minutos.