Há exatos 10 anos, a torcida da Internazionale gritou bastante. Gritou como não fez por 18 anos. Gritou para marcar uma dinastia que duraria até o final daquela década, completando o penta. Gritou para celebrar uma geração brilhante que, enfim, chegava ao topo da Serie A. Em 22 de abril de 2007, os nerazzurri confirmaram a primeira conquista em campo do scudetto desde 1988/89. Tudo bem, o tribunal havia premiado a Beneamata meses antes com o título de 2005/06, em decorrência do julgamento do Calciopoli, após a punição que tirou Juventus e Milan das duas primeiras colocações. No entanto, uma coisa é receber uma decisão jurídica favorável, e outra bem diferente é esperar o apito final e ter certeza que nenhum clube conseguirá te alcançar no topo da tabela. Assim aconteceu após a vitória por 2 a 1 sobre o Siena, fora de casa, com cinco rodadas de antecedência.

O inverno da Inter tinha sido longo entre toda a década de 1990 e a primeira metade dos anos 2000. Desde que o time de Giovanni Trapattoni triunfou em 1989, com Matthäus liderando a conquista, os nerazzurri precisaram se contentar com as copas. Por lá passaram tantos craques, e nem mesmo a fase fenomenal de Ronaldo foi capaz de levar os interistas além da segunda colocação. Foram dois vices, em 1997/98 e 2002/03 (aqui, já sem o camisa 9), além de três títulos na Copa da Uefa até 2005. Já naquele ano, um prenúncio do que viria: o time de Roberto Mancini encerrou uma seca de 23 anos na Copa da Itália, batendo a Roma na decisão. Seria bicampeão em 2006, superando de novo os giallorossi. Potencial para fazer estrago também na Serie A não faltava.

Sem a rebaixada Juventus pelo caminho e com a punição de oito pontos ao Milan, a Internazionale largava com amplo favoritismo naquela temporada. Apenas a Roma demonstrava ter cancha para desafiá-la, com Francesco Totti em excelente fase. Porém, os giallorossi pouco incomodaram. Os nerazzurri assumiram a ponta de vez na sexta rodada, sem largar mais.

Nem mesmo o baque com a morte de Giacinto Facchetti, lenda do clube que ocupava o cargo de presidente, mexeu com o brio dos jogadores. Massimo Moratti assumiu o posto em setembro. Já a partir de outubro, não houve quem alcançasse a Inter. Foram 17 vitórias consecutivas, melhor sequência da história da Serie A. Nas primeiras 29 rodadas, o time de Roberto Mancini acumulou 25 triunfos e quatro empates. Bateu o Milan em ambos os clássicos: após abrir três gols de vantagem, triunfou no primeiro turno por 4 a 3; já no segundo, ganhou de virada por 2 a 1.

No início de abril, quando o título parecia apenas questão de tempo, a Inter oscilou um pouco. Empatou com Reggina e Palermo, encerrando sua série de vitórias, antes de sofrer a única derrota em jogo atrasado da 22ª rodada. Na visita ao Giuseppe Meazza, a Roma superou os líderes por 3 a 1 e colocou água no chope, já que o triunfo nerazzurro seria suficiente para confirmar a conquista. De qualquer forma, a torcida precisou esperar só mais quatro dias. Marco Materazzi foi o herói da ocasião, anotando os dois gols diante do Siena fora de casa. O zagueiro, inclusive, foi o terceiro na artilharia do time na campanha, com 10 tentos. Ninguém tiraria a taça das mãos dos interistas, em festa que se tornaria praxe até 2010.

No final do campeonato, o time de Roberto Mancini chegou aos 97 pontos, 22 a mais que os romanistas – a maior diferença proporcional desde o Torino de 1947/48, em tempos nos quais a vitória ainda valia dois pontos. Naquele momento, os campeões sustentavam o melhor aproveitamento da história da Serie A, superado apenas pela Juventus de 2013/14. Números massivos para o domínio apresentado em campo, com o melhor ataque, a terceira melhor defesa e 30 vitórias ao longo das 38 rodadas. Na cerimônia da entrega da taça, o elenco já usaria a camisa do centenário, completado em 2008.

O capitão Javier Zanetti, enfim se consagrando com o scudetto, não esteve em campo em apenas um jogo. Outros nomes célebres compunham a base: Júlio César, Iván Córdoba, Luis Figo, Dejan Stankovic, Marco Materazzi, Esteban Cambiasso, Walter Samuel, Adriano, Santiago Solari, Julio Cruz. Assim como Patrick Vieira, Zlatan Ibrahimovic chegou dos espólios da Juventus e logo se tornou o principal artilheiro, com 15 gols. Emprestado pelo Chelsea, Hernán Crespo foi outro reforço que causou impacto, balançando as redes 14 vezes. Maicon, Fabio Grosso e Maxwell ofereciam boas opções às laterais, em outras negociações importantes do mercado. Já o ídolo Álvaro Recoba, na última de suas oito temporadas no San Siro, contribuiu com 13 jogos e um gol.

Aquela Inter arrasadora só não teve muita sorte nas demais competições. Caiu nas oitavas de final da Liga dos Campeões, após dois empates contra o Valencia, mas desvantagem nos gols marcados fora de casa. Já na Copa da Itália, chegou à final, mas tomou a revanche da Roma em grande estilo: os giallorossi golearam por 6 a 2 no primeiro jogo, disputado no Estádio Olímpico, apesar da derrota por 2 a 1 no reencontro. De qualquer maneira, aquela goleada seria apenas um ponto fora da curva em anos gloriosos aos interistas, encerrados em grande estilo com a Tríplice Coroa em 2009/10.